“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
etapa III, Peroviseu - Belmonte.
12 de Janeiro de 2013
Às 6 da manhã estava frio, bastante frio, um nevoeiro
cerrado abatia-se sobre a cidade albicastrense. Os caminhantes apresentaram-se
quase todos de gorro na cabeça e luvas para as mãos não arreganharem. Após os
beijinhos e abraços da praxe, e dos bons dias esfumaçados, a comitiva partiu
rumo ao Largo da Igreja de Peroviseu, concelho do Fundão, via A23.
Excepcionalmente, desta vez utilizou-se a autoestrada. Mas ela que não se aveze
porque a vida não está para luxos destes. O nevoeiro limpou por alturas da
Soalheira (tinha de ser na Soalheira, claro), o que deixou agradados os caminhantes,
porque caminhar com visibilidade de 20 metros já bastara o início da etapa II
entre Louriçal e Peroviseu. É extremamente frustrante subir e descer a Gardunha
sem poder apreciar as
fabulosas vistas que lá de cima se oferecem aos olhos.
Faltariam 14 minutos e meio para o nascer do sol do Borda
d’Água, quando os 15 magníficos se fizeram ao caminho, com vontade firme de
atacar a serra que separa as localidades de Peroviseu no concelho do Fundão e
do Ferro no concelho da Covilhã, denominada ela do Meal Redondo. Antes porém,
no meio do burburinho dos preparativos, destacava-se o ar concentrado do Xquim
Branco a fazer os registos no caderno de bordo e a carregar no GPS o percurso
que resultou dos seus aturados estudos sobre o troço local do caminho interior.
A meio da subida, já se notava a respiração ofegante dos
mais pesados. E dos outros também. As breves paragens para descanso tinham um
bónus: a leste, numa nesga do horizonte livre de nuvens, desenhava-se Xálima, o
ponto mais alto da Sierra de Gata, enquadrado num fantástico cenário em tons de
amarelo e laranja. Houve quem tivesse registado digitalmente o espetáculo.
A freguesia do Ferro recebeu-nos por volta das 8 e meia,
hora ideal para a bucha e para o cafezinho matinal. A proprietária do Café
Central, bem como o casal que repunha os níveis de cafeína e nicotina, terão certamente
apreciado o espírito bem disposto do grupo, a julgar pelos sorrisos com que
pagavam cada uma das baboseiras que lhes era dado a ouvir. Quando a Clementina
pediu um cheirinho no café, o sorriso, notou-se bem, continha alguma
estupefacção.
O percurso até Peraboa decorreu sereno por entre grandes
vinhedos bem tratados, pomares de cerejeiras e pastos. De quando em vez,
abatia-se sobre nós uma breve rajada de chuva miudinha, nada que nos tolhesse o
passo.
Às 10 da manhã já estávamos a entrar na aldeia e, claro, a segunda
edição da bucha. Houve quem, do chamado sexo fraco, por sinal, se pusesse
bravamente a beber vinho do Porto.
O almoço estava programado para o meio dia e meio em Caria, no
Cangas, e assim foi. Cumpridos que estavam cerca de 18 quilómetros, comidos e
bebidos, o grupo declarou-se pronto para a parte mais dura: a subida à serra da
Esperança para aceder a Belmonte.

Foi nesta altura que trocámos o casaco de peregrino pelo de turigrino.
Se até aqui se tinha respeitado escrupulosamente o caminho interior – de acordo
com os estudos do Xquim Branco – optou-se por uma alteração no percurso que, em
vez de nos conduzir diretamente a Belmonte pelo caminho mais fácil, tal como
seguramente faria o peregrino clássico, levou-nos a subir pela vertente mais
íngreme do monte. Logo no início, somos recebidos com um aviso em tamanho
grande: “Propriedade privada. Reservado o direito de admissão. Os invasores
serão processados”. Ninguém foi conferir, mas toda a gente acreditou no
companheiro que disse que tinha a impressão de ter lido, no canto inferior
esquerdo, em letras miudinhas, muito miudinhas mesmo, a ressalva: “excepto
peregrinos a fazer o caminho interior de Santiago”.

Quinze minutos de subida depois, deparámos com uma bela
mansão, com um dos lados completamente coberta de hera e a placa a indicar que
se tratava da Casa Rural da Chandeirinha. Um simpático cavalheiro confortou-nos
informando que efectivamente o aviso restritivo tinha outros destinatários e
que podíamos circular à vontade. E se fossemos peregrinos à antiga, a precisar
de descanso, ali poderíamos encontrar alojamento.
Virada a sul, a mansão goza de vistas fabulosas: são
visíveis os recortes da Gardunha e do Açor como que ajoelhados à imponência do
maciço da Estrela ali logo ao lado; para leste vislumbram-se o penhasco de
Sortelha e as serranias da Opa e da Malcata; lá em baixo, o irregular puzzle
dos campos cultivados da Cova da Beira.
O caminho da Chandeirinha havia de nos
levar até Belmonte, tendo ficado por dar uma saltada ao castro com o mesmo nome,
desmotivada pela completa falta de informação, e ainda com passagem ao lado do
Convento de Belmonte que também é Pousada.
No final, já em Belmonte, ali mesmo junto à Igreja-museu de
Santiago (onde mais poderia ser?), o Xquim Branco informou que a etapa fora
cumprida de acordo com o plano e comprida em 30 quilómetros e 600 metros. E
disse mais, com ar orgulhoso: “e o percurso que fizemos foi exactamente o que
tinha sido programado aqui no meu GPS”. Toda a gente lhe bateu palmas, dois
aplicaram-lhe um calduço cada um. Ele merecia os mimos!
Texto e Fotos: Anselmo Cunha; Fotos e Desenhos: Carlos Matos