segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

INSTANTÂNEOS - II

Ao longe, a personagem já aparentava algo incomum: magra, muito magra, vestida de preto da cabeça (coberta com um lenço), até aos pés (enfiados numas pantufas com visíveis sinais de muito uso). Puxado por um baraço, arrastava atrás de si o chassis daquilo que em tempos terá sido um carrinho de bébé, sobre o qual foi colocado um cartão para servir de base. Qualquer criança tenderia a ver naquela figura a personagem maléfica de uma história qualquer. E, se atentasse nos pormenores, fugiria a esconder-se debaixo da cama: a mesma figura apresentava mãos esquálidas a deixar salientar todos os carpos e metacarpos, unhas ligeiramente compridas e sujas; cabelo grisalho e desgrenhado, dentes em falta e nariz adunco numa face que os anos e as agruras enrugaram em excesso; e os olhos… melhor, o olho que não tinha, tapado por uma espécie de cicatriz por baixo da pestana. Definitivamente, uma bruxa. Má, seguramente. A todo o momento sairiam faíscas das suas mãos que transformariam qualquer criança num salta roscas, enquanto soltava risadas histéricas por entre os dentes cariados. De que era preciso fugir e ir rogar à avó que deitasse a pinga do azeite no prato com água e rezasse a mézinha para contrariar o mau olhado.


Nós parámos. Saudámos:
- Bom dia.
Respondeu uma voz com sotaque cigano:
- Atão bons dias.
Da conversa de circunstância sobre o carrinho e o tempo e o frio que fazia, veio a confissão:
- Vou ali a róbér uns gravatitos para me aqueceri.
- Faz vomecê muito bem, qu’isto está é para ficarmos quedinhos junto ao lume. Não faça como alguns parvos que andam por aí a caminhar pelos caminhos velhos, de manhãzinha cedo e longe de casa.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Diário de caminhada: etapa III, Peroviseu - Belmonte


“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
etapa III, Peroviseu - Belmonte.
12 de Janeiro de 2013

Às 6 da manhã estava frio, bastante frio, um nevoeiro cerrado abatia-se sobre a cidade albicastrense. Os caminhantes apresentaram-se quase todos de gorro na cabeça e luvas para as mãos não arreganharem. Após os beijinhos e abraços da praxe, e dos bons dias esfumaçados, a comitiva partiu rumo ao Largo da Igreja de Peroviseu, concelho do Fundão, via A23. Excepcionalmente, desta vez utilizou-se a autoestrada. Mas ela que não se aveze porque a vida não está para luxos destes. O nevoeiro limpou por alturas da Soalheira (tinha de ser na Soalheira, claro), o que deixou agradados os caminhantes, porque caminhar com visibilidade de 20 metros já bastara o início da etapa II entre Louriçal e Peroviseu. É extremamente frustrante subir e descer a Gardunha sem poder apreciar as fabulosas vistas que lá de cima se oferecem aos olhos. 

Faltariam 14 minutos e meio para o nascer do sol do Borda d’Água, quando os 15 magníficos se fizeram ao caminho, com vontade firme de atacar a serra que separa as localidades de Peroviseu no concelho do Fundão e do Ferro no concelho da Covilhã, denominada ela do Meal Redondo. Antes porém, no meio do burburinho dos preparativos, destacava-se o ar concentrado do Xquim Branco a fazer os registos no caderno de bordo e a carregar no GPS o percurso que resultou dos seus aturados estudos sobre o troço local do caminho interior.

A meio da subida, já se notava a respiração ofegante dos mais pesados. E dos outros também. As breves paragens para descanso tinham um bónus: a leste, numa nesga do horizonte livre de nuvens, desenhava-se Xálima, o ponto mais alto da Sierra de Gata, enquadrado num fantástico cenário em tons de amarelo e laranja. Houve quem tivesse registado digitalmente o espetáculo.



 A freguesia do Ferro recebeu-nos por volta das 8 e meia, hora ideal para a bucha e para o cafezinho matinal. A proprietária do Café Central, bem como o casal que repunha os níveis de cafeína e nicotina, terão certamente apreciado o espírito bem disposto do grupo, a julgar pelos sorrisos com que pagavam cada uma das baboseiras que lhes era dado a ouvir. Quando a Clementina pediu um cheirinho no café, o sorriso, notou-se bem, continha alguma estupefacção.


O percurso até Peraboa decorreu sereno por entre grandes vinhedos bem tratados, pomares de cerejeiras e pastos. De quando em vez, abatia-se sobre nós uma breve rajada de chuva miudinha, nada que nos tolhesse o passo. 


Às 10 da manhã já estávamos a entrar na aldeia e, claro, a segunda edição da bucha. Houve quem, do chamado sexo fraco, por sinal, se pusesse bravamente a beber vinho do Porto.


 O almoço estava programado para o meio dia e meio em Caria, no Cangas, e assim foi. Cumpridos que estavam cerca de 18 quilómetros, comidos e bebidos, o grupo declarou-se pronto para a parte mais dura: a subida à serra da Esperança para aceder a Belmonte.


Foi nesta altura que trocámos o casaco de peregrino pelo de turigrino. Se até aqui se tinha respeitado escrupulosamente o caminho interior – de acordo com os estudos do Xquim Branco – optou-se por uma alteração no percurso que, em vez de nos conduzir diretamente a Belmonte pelo caminho mais fácil, tal como seguramente faria o peregrino clássico, levou-nos a subir pela vertente mais íngreme do monte. Logo no início, somos recebidos com um aviso em tamanho grande: “Propriedade privada. Reservado o direito de admissão. Os invasores serão processados”. Ninguém foi conferir, mas toda a gente acreditou no companheiro que disse que tinha a impressão de ter lido, no canto inferior esquerdo, em letras miudinhas, muito miudinhas mesmo, a ressalva: “excepto peregrinos a fazer o caminho interior de Santiago”.


 Quinze minutos de subida depois, deparámos com uma bela mansão, com um dos lados completamente coberta de hera e a placa a indicar que se tratava da Casa Rural da Chandeirinha. Um simpático cavalheiro confortou-nos informando que efectivamente o aviso restritivo tinha outros destinatários e que podíamos circular à vontade. E se fossemos peregrinos à antiga, a precisar de descanso, ali poderíamos encontrar alojamento.


Virada a sul, a mansão goza de vistas fabulosas: são visíveis os recortes da Gardunha e do Açor como que ajoelhados à imponência do maciço da Estrela ali logo ao lado; para leste vislumbram-se o penhasco de Sortelha e as serranias da Opa e da Malcata; lá em baixo, o irregular puzzle dos campos cultivados da Cova da Beira. 



O caminho da Chandeirinha havia de nos levar até Belmonte, tendo ficado por dar uma saltada ao castro com o mesmo nome, desmotivada pela completa falta de informação, e ainda com passagem ao lado do Convento de Belmonte que também é Pousada.

No final, já em Belmonte, ali mesmo junto à Igreja-museu de Santiago (onde mais poderia ser?), o Xquim Branco informou que a etapa fora cumprida de acordo com o plano e comprida em 30 quilómetros e 600 metros. E disse mais, com ar orgulhoso: “e o percurso que fizemos foi exactamente o que tinha sido programado aqui no meu GPS”. Toda a gente lhe bateu palmas, dois aplicaram-lhe um calduço cada um. Ele merecia os mimos!


Texto e Fotos: Anselmo Cunha; Fotos e Desenhos: Carlos Matos

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Sketches 2012

No texto de abertura anunciava-se que este blogue iria ter e cito "uma novidade distintiva, com esboços (sketches, para quem não está à vontade no português)." Fim de citação. E, como o que é prometido é devido, aqui fica uma selecção de Sketches (desenhos, para quem não está à vontade no linguarejar de sua magestade :-)
A música é também de um andarilho:
Jorge Palma; (enquanto houver estrada para andar) A gente vai continuar. E vai mesmo

 
Confraria dos caminhos 2012 from carlosazvmatos on Vimeo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Da nossa casa a Santiago de Compostela. Etapa I e II

Chuva, chuva e muita chuva, mas já estamos70 Km mais perto: Castelo Branco-Louriçal do Campo e Louriçal do Campo-Alcongosta-Fundão-Peroviseu




INSTANTÂNEOS – I



Santuário de Fátima, outubro de 2012. Concluída a ultima de 4 etapas desde Castelo Branco, visita à Igreja da Santíssima Trindade, acabadinha de ser agraciada com o título de Basílica menor. O grupo tinha-se subdividido em pequenos grupos, discretamente espalhados na grandiosa nave de 125 metros de diâmetro do monumento. Lá mesmo à frente, nas primeiras filas, Carlos Matos, Inserme e Zé Manel teciam considerações sobre a qualidade e quantidade da iconografia do templo. Em geral, todas as ditas considerações eram pouco ou nada fundamentadas, diga-se, em abono da verdade: Inserme, na qualidade de antigo seminarista, tentava encontrar significado na miríade de imagens no mosaico que cobre todo o fundo do presbitério; Carlos Matos, do alto da sua cátedra de artista plástico opinava sobre as complexas técnicas utilizadas na sua execução; Zé Manel, veterano enfermeiro, olhava fixamente para o enorme crucifixo suspenso sobre o altar. Calou os outros dois quando soltou:
- Já reparásteis bem no joelho direito do Cristo? Aquilo está cheio de líquido.

Ao que vamos



O nosso propósito último é viajar. Caminhando.
Este suporte servirá para relatar essas viagens. Com palavras, com fotografias e, novidade distintiva, com esboços (sketches, para quem não está à vontade no português).
Viajar e relato de viagens leva a literatura de viagens. Existiram várias personagens que ficaram para a história como grande relatores de grandes viagens. O primeiro que me vem à memória foi o veneziano Marco Polo, que teve a inovadora ideia (algures no sec.xiii) de ir registando as suas impressões da viagem que fez com o pai e tio ao longo da rota da seda e, com isso, deixar-nos informações preciosas sobre a vida na Àsia medieval; (nota: nunca li, directamente, mas acredito nos estudiosos que garantem que o relato é extraordinário).
Outra referência na literatura viagem é o nosso Fernão Mendes Pinto, porque teve a sorte de ter sido feito prisioneiro e vendido a um grego que o passou a um judeu (com lucro, supõe-se), que teve de o libertar (sem lucro) para os amigos lusitanos que o resgataram em Ormuz, nos anos jovens de 1500, gastando os 21 anos seguintes a deambular pelas costas da Birmânia, Tailândia, China, Japão, resumindo depois essa fantástica aventura num relato com o apropriado nome de “Peregrinação”. (Nota: li, e gostei, apesar de, à semelhança de muitos outros e muito mais entendidos do que eu, também ter ficado com a sensação de que o amigo Fernão, nalgumas passagens, regar um bocadinho)
Todavia, o maior dos maiores no que a relatos de viagens diz respeito é, inquestionavelmente, o Luís. Vaz. De Camões. Ninguém no mundo inteiro, até agora, conseguiu relatar uma viagem como ele o fez. (Nota: não era preciso ostentá-lo mas, claro que li, não fomos todos obrigados a isso?)
Se calhar por influência desses grandes pioneiros, o padrão tradicional da maior parte da literatura de viagens contém sempre a combinação de alguns requisitos que agradam à maioria dos leitores: o destino, ou destinos, são exóticos, situam-se longe, e de difícil acesso. O padrão tem vindo a mudar, é certo: o mercado do turismo impinge qualquer destino desde que possamos pagar.
E continua a mudar também com o nosso contributo, sobretudo à pala de duas “novidades”. A primeira é que vamos privilegiar o pequeno em detrimento do grande e do monumental; a segunda é que, para além das fotos, vamos recorrer bastas vezes ao esboço (como já se tinha avançado).
Prossigamos então.

Texto:Anselmo Cunha; Riscos: Carlos Matos