terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Diário de Caminhada - ETAPA X: Lamego - Oliveira (Mesão Frio)


“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa X:  Lamego - Oliveira (Mesão Frio)
19 de Outubro de 2013, sábado


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Já decorreu quase 1 mês desde que realizamos mais um par de etapas na senda rumo a Santiago. Foi um mês intenso de trabalho académico, entrando numa fase que já cheira a fim! Como o povo diz, estamos mesmo a "esfolar o rabo"!


Dai todo este mais que justificado atraso. Mas cá vai um pequeno relato, daquilo que é uma bonita aventura, desta vez em plenas terras durienses, onde a vinha, a montanha e o rio dominam a paisagem. Numa palavra simples: "Lindo"!
O dia começou cedo. Madrugar é preciso se queremos chegar ao ponto de partida com o raiar do sol. Porque é com os primeiros raios, que toda a paisagem costuma revelar-se, encher-nos o olho de bonitas paisagens e a alma de liberdade. E não nos defraudou!

Saímos de Castelo Branco ás 04:10 e às 06:15 estávamos em Lamego. A chuva, fonte da vida, almejada por quem tem na terra o seu sustento, fez-nos companhia ao longo da mesma. Mal sabíamos que nos ia acompanhar de forma intermitente ao longo de todo o fim de semana!
Organizados os transportes e colocadas as viaturas no local de destino - Oliveira, já para lá do Peso da Régua, iniciámo-nos no Caminho pelas 07:30, pelas estreitas ruas de Lamego, que caracterizam a sua parte alta, em direção ao castelo da cidade, conhecida por Almacave. Uma parte do tecido urbano provavelmente menos conhecido, mas plena da mesma beleza que caracteriza toda a cidade. A vista daqui é magnifica!

A saída da cidade faz-se por terrenos agrícolas, em que um bonito cruzeiro serviu de ponto de foto de grupo. Daqui em pendente descendente e já pelo meio de imensas vinhas, seguíamos em direção a Souto Covo e Sande, já com o dia a despontar em toda a sua força e esplendor.
Aqui, a confusão quase se instalou ao depararmos com setas em direções opostas, sendo uma a do verdadeiro caminho milenar e a outra indicativa de um caminho mais curto, provavelmente por força das peregrinações a Fátima. Mas, decididamente, estamos nisto para calcorrear os caminhos milenares, porque é neles que se encontram os recônditos monumentos e paisagens que o caracterizam. E ainda bem que a nossa tónica é esta!

Reorganizado o grupo, à saída de Sande encontramos um duriense de gema, António de seu nome , já com algumas 60 primaveras, que da porta da sua "modesta" adega, ali paredes meias com o Caminho, nos convidou a entrar.

O intenso cheiro a mosto e a vinho não nos defraudou. Entre inúmeras garrafas, os 6000 l de vinho "normal" e cerca de 80 l de aguardente, repousavam algumas pipas com 600 l do fabuloso néctar, conhecido comercialmente por Vinho do Porto , mas ali, vincadamente, vinho generoso!
Como vinho generoso, o amigo António quis provar-nos de onde vem  tão puro adjetivo. Generosamente, com recurso a um jarro daqueles que as nossas avós utilizavam para a água de lavar a cara, encheu-o de uma das bicas e com um garboso sorriso encheu-nos os copos com um néctar daqueles que não conhecemos em lado nenhum... aveludado, com o toque certo de álcool, com o sabor imenso das uvas de xisto, que a região demarcada apregoa. Sublime!

Mas o tempo corria e ainda tínhamos muto pela frente. Com uma alegria liberta pelo efeito generoso, descemos até ao vale do Varosa, num local chamado Sala de Audiências do Diabo, dominada a jusante com o paredão da barragem e lá bem em baixo pela lindíssima ponte romana que atravessa o rio.
Eram 10:10 h mas a sensação é que o tempo aqui parou com todas aquelas marcas de romanização, lado a lado com uma pequena capela dedicada ao N. Sr. da Boa Morte. Percebe-se bem porque o Caminho passa aqui! Icónico!

Depois de um workshop sobre geocaching, iniciámos a subida do vale até Valdigem, onde às 10:45, o nosso carro de apoio nos esperava para mais um pequeno almoço daqueles que nem nos hotéis de 5 * apanhamos! Ótimo!
Saídos de Valdigem, o Caminho embrenha-se nas inúmeras quintas, plenas de vinhedos, montes e vales, até onde a vista chega! Os rios Corgo e Varosa embrenham-se nesses vales, sempre bem lá embaixo. A sensação é de estarmos no topo do mundo, com todo a vinha aos nosso pés. Lá ao fundo o Douro brilhava com as 3 pontes de Peso da Régua a dominarem a paisagem. Estamos definitivamente no fabuloso património da humanidade conhecido pelo Alto Douro Vinhateiro!

Eram 12:40 e a travessia do Douro faz-se pela ponte pedonal, que deveria ter servido para linha de Caminho de Ferro mas que nunca iniciou funções. Outros tempos, em que a crise soberana de Portugal ditou o abandono de inúmeras obras públicas. Um filme antigo, que agora estamos novamente a viver. Portugal é mesmo um destino de gente sem escrúpulos que se intitulam dirigentes de uma nação. Adiante!
Peso da Régua fervia de atividade turística, apesar do dia húmido e chuvoso que começava a dar sinais de querer piorar. Depois de um café junto ao rio, fizemos toda a zona ribeirinha, em direção ao ponto que marcava a subida mais dura do dia, que nos levaria a Sergude.

Em Sergude, depois de recuperarmos um pouco as forças, reiniciam-se as "hostilidades" com mais um imponente subida até Fontelas. Contudo, quem muito sobe, sabe que as vistas tornam-se cada vez mais bonitas. E apesar da chuvinha miudinha que ia caindo, era possível ver bonitos vinhedos.
De Fontelas a Oliveira, o Caminho faz-se por alcatrão, mas nem por isso é menos interessante, pois encontramos outro duriense, o sr. Diamantino que sem ser viticultor, tem no produto da safra da vinha, o seu ganha-pão. Entramos numa secular oficina de tanoeiro, onde as madeiras ganham forma e estanquicidade para acolher o generoso e dar-lhe corpo e alma!

Às 15:30 estávamos no sopé da Igreja de Oliveira onde demos por findo o 1º dia, com 22 km, 650 m D+, a uma simpática média de 4,1 km/h. Seguiu-se o opíparo almoço e o regresso a Peso da Régua onde o Hotel Império nos iria dar guarida. Durante o resto da tarde e noite, foi tempo de conversa da boa, umas jolas para eliminar os "ácidos lácticos", e um divertido jantar no restaurante Gato Preto.
  

Texto e fotos de Fernando Micaelo
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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

INSTANTÂNEOS - VIII

O percurso atravessava o subúrbio de uma pequena aldeia por entre quintinhas e vivendas profusamente ornamentadas com bonitas e variadas flores. O sol brilhava num céu limpo, de azul profundo, a temperatura era amena, o ambiente entre os caminhantes peregrinos era descontraído e bem disposto. O tema de conversa desembocou nas mini-férias que o casal Pintassilgo tinha gozado na semana anterior. Os dois, só os dois, sem empecilhos. Foram arrulhar, propôs alguém, foram nidificar, avançou outro alguém, foram dar umas depenicadas, atreveu-se um terceiro alguém. A resposta mantinha-se muda, feita de sorrisos escondidos e olhares cúmplices.

O macho Pintassilgo, todavia, não resistiu ao impulso e, entre o provocador e o exibicionista, surripiou 4 pés de hortênsia, compôs um rápido mas formoso ramo e foi oferecê-lo à fêmea Pintassilgo acompanhado de um breve encontro de bicos.

O gesto mereceu o aplauso geral. Que devia servir de exemplo e ser seguido por outros machos cujas fêmeas também estavam presentes. O macho Branco foi determinado na recusa:

- Nem pensar, eu não ofereço flores nenhumas à minha querida.

Provocou espanto e desaprovação geral tamanha desfaçatez, tendo-se mesmo ouvido alguns assobios. Serenados os ânimos, ele explicou:

- Eu não ofereço flores à minha amada esposa porque não quero que ela pense que eu a vejo como uma jarra.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Diário de Caminhada - ETAPA IX: Moimenta da Beira - Lamego

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa IX: Moimenta da Beira - Lamego
22 de setembro de 2013, domingo


Caminhantes: Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Anselmo, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, Sãozita Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.

Sinopse:

Inicio em Moimenta da Beira: 06:43 horas
Distância percorrida: 28,8 km
Tempo total de caminhada: 08:36 horas
Tempo a andar: 06:33 horas
Tempo parado: 02:03 minutos
Velocidade média: 4,4 km/h
Altitude máxima: 842 metros (perto de Sarzedo)
Subida acumulada: 694 metros
Descida acumulada: 874 metros

Povoados e locais de referência ao longo do percurso:, Moimenta da Beira, Solar dos Guedes/Biblioteca Municipal Aquilino Ribeiro, Beira Valente, Sarzedo, Granja Nova, Ucanha, Ponte e Torre fortificadas sobre o rio Varosa, Mosteiro de Salzedas, Eiras Queimadas, Várzea dos Abrunhais, Lamego, Casa das Brolhas, Sé Catedral de Lamego, Santuário da Senhora dos Remédios.

Acumulado:
Caminho: 240,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Balsemão, Douro.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego. 

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)

Pernoita em Vila da Ponte, com a companhia do som caracteristicamente  sincopado de uma discoteca vizinha. Retoma do caminho, junto à Câmara Municipal de Moimenta da Beira rumo a Lamego. Com Aquilino, sempre ele, continuamos gastando as sandálias por terras do demo, pisando algumas das “aldeias montesinhas que moram nos picotos da Beira, olham a Estrela, o Caramulo, a cernelha do Douro”. Havemos de constatar que estas terras já não são «“terras bárbaras”, situadas longe do tumulto civilizacional». Aquilino, se o intentasse agora, teria de inventar um malhadinhas bem diferente.







Nas cotas médias das encostas persistem os pomares de macieiras, que os caminhantes, despudoradamente, aproveitam para desjejuar. Percurso tranquilo até Beira Valente, iniciando-se aí a subida mais pronunciada que nos levaria até aos 842 metros de altitude no final do caminho agrícola Nicho-Sarzedo. Daqui até Granja Nova o caminho prossegue por trilhos estreitos ladeados de denso mato e pouco limpos. O jardim desta localidade ofereceu excelentes condições para o reforço gastronómico matinal. Já saturados de maçãs, os caminhantes peregrinos atiraram-se alegremente ao branquinho, ao tinto, ao lúpulo – alguns até á água – para empurrar empadas e pastéis, fritos da horta, queijo, enchidos e, estrela da mesa, as lascas surripiadas à guitarra nalguda porcina com que a Luísa nos surpreendera já no dia anterior. Foram afiadas e experimentadas várias navalhas e sucederam-se os cortadores: mais grosso, mais fino, a conclusão foi que estava muito bom.





Os músculos de travagem iriam aquecer para vencer o desnível abrupto de 200 metros em cerca de 3 quilómetros até Ucanha onde nos esperava a magnífica e imponente torre pertencente ao mosteiro de Salzedas, na margem direita da ponte sobre o rio Varosa. É histórico um documento régio do séc. XIV que determinava a obrigatoriedade da passagem na ponte e o pagamento de portagem, a qual viria a ser abolida apenas nos primeiros anos do sec. XVI. Ucanha orgulha-se também de ser a terra natal de Leite de Vasconcelos, pioneiro e figura incontornável da linguística, antropologia (e das associadas etnografia e etnologia) e arqueologia em Portugal.

Do outro lado do rio Varosa, a freguesia de Gouviães marca o início de uma série de subidas e descidas que muito arreliaram os gémeos dos caminhantes peregrinos. A paisagem começa a transfigurar-se na cultura dominante do Douro. Depois dos soutos de Sernancelhe, dos pomares de macieira de Moimenta, eis os primeiros sinais do Douro: vinhedos alinhados,  em geral bem cuidados e carregados de uvas.



Vencidas as localidades de Eira Queimada e Várzea dos Abrunhais, a extensão do sistema montanhoso de Montemuro sobranceira a Lamego começa a distinguir-se e, no horizonte norte, bem visível e imponente, a “gamela emborcada” do monte Marão. O rio Balsemão recebe-nos junto à capela da Srª dos Meninos em dia de procissão. Duas formosas septuagenárias haviam de nos ameaçar:
- Não vêm para a procissão da Senhora dos Meninos? Fazem mal, porque é uma coisa muita linda, das mai lindas que cá temos.



A hora tardia de chegada – já batidas as 3 da tarde – e o cansaço de uma longa e acidentada tirada, não facilitaram a ronda pelo rico e vasto património de Lamego. Todavia, ainda foi possível apreciar a Casa das Brolhas, um edifício cuja frontaria se reveste de elementos decorativos peculiares, e, naturalmente, a Sé Catedral (sec. XII), estabelecida como final da etapa. Tão pouco já havia forças, vontade e tempo para atacar o escadório do Santuário da Senhora dos Remédios. Ficámo-nos pelo almoço alancharado à sua sombra.

Diário de Caminhada - ETAPA VIII: Ponte do Abade - Moimenta da Beira

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa VIII: Ponte do Abade - Moimenta da Beira
21 de setembro de 2013, sábado


Caminhantes: Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Anselmo, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, Sãozita Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.

Sinopse:

Inicio em Ponte do Abade: 06:25 horas
Distância percorrida: 27,2 km
Tempo total de caminhada: 07:58 horas
Tempo a andar: 06:28 horas
Tempo parado: 01:30 horas
Velocidade média: 4,3 km/h
Altitude máxima: 763 metros aos 6,5 Km (Srª das Necessidades)
Subida acumulada: 594 metros
Descida acumulada: 528 metros

Acumulado:
Caminho: 212,2 Km

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Ponte do Abade, Sernancelhe, Pelourinho e Igreja Matriz, Solar dos Carvalhos, Casa da Comenda de Malta, Vila da Ponte, Santuário de Nossa Senhora das Necessidades, Capela de Santa Águeda, Penso, A de Barros, Solar dos Noronhas, Capela de Barros, Prados de Baixo, Prados de Cima, Rua, Pelourinho e Vivenda Coelho, Arcozelo da Torre, Arcozelo do Cabo, Moimenta da Beira.
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Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)


Golpe a golpe, passo a passo, etapa a etapa, o caminho vai-se fazendo. À medida que se avança é preciso atrasar a hora da partida na origem, por forma a chegar ao local de início da etapa a horas adequadas. A etapa VIII, como todas as outras, começa à porta de casa. E o relógio da torre da nossa casa marcava as 04:30 quando 3 suspeitas viaturas albergando catorze suspeitos caminhantes rasgaram as trevas albicastrenses e rumaram a norte.

A temperatura amena a sul da Gardunha – 22º lidos pelo termómetro da viatura do Mikey – foi baixando à medida que descíamos a latitude. Às 06:25, em Ponte do Abade, o mesmo termómetro exibia … 7º. E foi com esse fresquinho que nos fizemos ao caminho, guiados pelas setas amarelas que os nossos amigos salamantinos foram pintando guiados pelo pioneiro Torres, confirmado, sempre, à cautela, com o percurso calculado pelo Xquim Branco.

O rio Távora continuava na nossa companhia, lá em baixo, bem definido pelo arvoredo mais frondoso das suas margens e pelas baixas de aluvião, onde já se notava alguma mobilização de terras para as sementeiras de Inverno. As primeiras sessenta centenas de metros, até Sernancelhe foram quase sempre a contrariar a gravidade. A paisagem é marcada por inúmeros soutos de castanheiros (passe a redundância) ou não fosse a castanha uma das duas principais imagens de marca de Sernancelhe. A outra, partilhada pelo vizinho concelho de Moimenta da Beira, tem Aquilino como referência maior, à pala de uma das suas obras mais conhecidas: Terras do Demo.

Nesta etapa, e na de amanhã, vamos andar, pois, em terras onde, assegurou o mestre Aquilino, Cristo seguramente não gastou as sandálias, passou el-rei a caçar, ou os apóstolos da Igualdade em propaganda, e havemos de aproveitar a sombra de frondosos castanheiros. Um deles, seguramente velhinho de séculos, impôs-se-nos pelo diâmetro do seu tronco: foram precisos oito caminhantes peregrinos para o abraçar. A Vila de Sernancelhe estende-se no topo de uma colina rodeada dos ditos soutos, uns muito bem tratados em terrenos trabalhosamente lavrados, outros menos bem cuidados mas sempre vistosos, todos já com os ouriços com bom desenvolvimento vegetativo, disponíveis para a apanha que se iniciará dentro de cerca de 1 mês.




À entrada, fomos solenemente recebidos pela “carriça” - atrelada a uma carroça - uma burranca de pelo acastanhado, lustroso, mansinha, com sinais evidentes de ser bem tratada por um simpático casal de velhotes a caminho da horta. Sernancelhe exibiu-se-nos limpa, cuidada, e com um património arquitectónico invejável. Não houve tempo para subir ao castelo medieval, compensando com breves paragens para apreciar a imponência do solar dos Carvalhos, especular sobre a origem e papel da Casa da Comenda de Malta e, principalmente, deleitar-nos com a ambiência medieval do adro da Igreja de S. João Batista, edificada no sec.XII, onde se destaca igualmente um bonito pelourinho manuelino.

O trilho leva-nos agora a descer novamente até ao rio Távora, atravessado, apropriadamente, em Vila da Ponte, localidade bafejada com um amplo e tranquilizante espelho de água, mesmo no final da albufeira da barragem do Vilar alguns quilómetros a jusante. O santuário da Senhora das Necessidades impõe-se no monte sobranceiro, a que se chega por uma calçada pronunciada. Meio milhar de metros antes, porém, as setas amarelas mandam seguir para a direita, em direcção à capela de Santa Águeda e à aldeia de Penso. A partir daqui, o caminho perde algum interesse porque é feito sobretudo em estrada, cruzando as aldeias de Prados de Baixo e Cima, Rua, Arcozelos, compensado todavia, por algumas edificações dignas de admiração e registo. É o caso do solar dos Noronhas, onde o nosso D. Dinis terá passado algumas noites, quiçá na agradável companhia da sua e nossa Santa Isabel, a capela de Barros e o magnífico pelourinho em frente à Vivenda Coelho na aldeia de Rua. A parte final do percurso, a partir de Arcozelo do Cabo é feita novamente em caminho sinuoso e pronunciado até à Vila de Moimenta da Beira.






Se Sernancelhe é terra da castanha, Moimenta é terra da maçã. Beneficiando de condições edafo-climáticas favoráveis, o caminhante peregrino vê-se rodeado por inúmeros pomares, nesta altura do ano prenhes de maçãs de muitas variedades, cores e tamanhos. O caminhante peregrino, desculpado com tanta fartura, ousava ir mordiscando livremente a espaços, dando-se ao luxo de escolher a variedade, a cor e o tamanho. Moimenta organizava neste fim de semana a EXPODEMO, uma feira que junta, provavelmente, as suas duas maiores e incontornáveis referências: maçãs e Aquilino. É numa freguesia do concelho de Moimenta da Beira – Soutosa - que se situa a Fundação Aquilino Ribeiro, figura maior da literatura portuguesa que nasceu nestas terras – numa aldeia do concelho vizinho de Sernancelhe, a qual ele usa bastas vezes como cenários das suas obras, aprimorando um léxico único, carregado de deliciosos provincianismos. Pretexto bastante para regressarmos a ele, no intervalo entre etapas.




À noite, antes de tocar a recolher, a EXPODEMO ofereceu a musica de um simpático grupo de concertinas, nós retribuímos com boa disposição, palmas e até algumas cantorias. Amanhã, continuaremos em terras do demo, rumo a Lamego.