quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Diário de Caminhada - ETAPA XIII: Amarante - Felgueiras

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XIII: Amarante - Felgueiras
17 de Novembro de 2013, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.

Sinopse:

Inicio em Amarante: 08:35 horas
Distância percorrida: 21 km
Tempo total de caminhada: 07:12 horas
Tempo a andar: 05:34 horas
Tempo parado: 01:38 minutos
Velocidade média: 4,3 km/h
Da cota de 68 metros para 306 metros
Altitude máxima: 412 metros
Subida acumulada: 528 metros
Descida acumulada: 285 metros

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: S. Gonçalo, Stª Luzia, Vinha, Pinheiro, Estradinha, Freitas, Telões, Castanheira, Redondo, Lixa, Caramos, Moure, Felgueiras.


Acumulado:
Caminho: 325,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras. 

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui



O Tâmega assistiu sereno ao nosso acordar. Impávido, testemunhou a surpresa que nos fizeram a Alexandra, o Luís e o Daniel, da Associação Viver Canadelo e Serra do Marão (AVCSM). Alguém que nos viu passar e soube do nosso desiderato, terá tido a boa ideia de informar a Senhora Presidente da Junta de Amarante que teve a amabilidade de comunicar à AVCSM e, eis 3 ilustres embaixadores que se nos apresentam a dar as boas vindas. A AVCSM dedica-se à organização de eventos, à promoção da região e, claro, ao apoio e divulgação do caminho de Santiago. Gozámos da sua boa companhia durante cerca de 2 horas até ao limite do concelho de Amarante, guiando-nos por entre vinhedos dispersos, num percurso ligeiramente desviado em pequenos troços do caminho de Torres, justificado, segundo eles, por acertos já consolidados.







Em Telões, tiveram os peregrinos direito a cerimónia de bênção pelo pároco Nelson Soares na bela Igreja românica do sec. XIII. Segundo informação do Daniel, arqueólogo de formação, o monumento terá sido originalmente erigido no sec. XI a mando de Murio Viegas, nobre cavaleiro do conde D. Henrique, progenitor do nosso primeiro monarca.

O pequeno almoço foi servido logo ali no café junto à obra de Murio, lauto, acompanhado, também, por vinho verde tinto e branco, ambos os dois de superior qualidade. O branco, em especial, mereceu mesmo rasgados elogios, ainda antes de se saber que fora produzido na quinta do senhor Padre Nelson.



Depois dos nossos novos amigos da AVCSM se despedirem e nos orientarem o caminho, limitámo-nos a seguir preguiçosamente as setas amarelas profusamente distribuídas. Salvo raras excepções em que o caminho nos levou por veredas estreitas sombreadas por compridas latadas, a aproximação à Lixa, o seu atravessamento e o último troço até Felgueiras é feito em espaço urbano e peri-urbano. Convenhamos: o troço não é dos mais agradáveis para quem prefere o espaço amplo e rural.




Ponto de interesse na Igreja de Caramos a que se acede por um pequeno troço de estrada romana em muito mau estado. Por entre várias localidades, trilho estreito até à Igreja matriz de Moure. As setas amarelas conduzem-nos numa espécie de slalom na malha urbana dos arrabaldes de Felgueiras até a um edifício que já albergou gente famosa: a domus municipalis. Fim de etapa. Próxima, a XIV: Felgueiras-Guimarães. 




Diário de Caminhada - ETAPA XII: Loivos do Monte - Amarante

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XII: Loivos do Monte - Amarante
16 de Novembro de 2013, sábado

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.

Sinopse:

Inicio em (perto de) Loivos do Monte: 08:30 horas
Distância percorrida: 17 km
Tempo total de caminhada: 05:20 horas
Tempo a andar: 04:22 horas
Tempo parado: 58 minutos
Velocidade média: 4,2 km/h
Da cota de 740 metros para 68 metros
Altitude máxima: 755 metros
Subida acumulada: 154 metros
Descida acumulada: 808 metros

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Noveleiras, Rechãozinho, Reboreda, Bailadoiro, Gualta, Vinhateiro, Matias, Corujeira, Amarante.


Acumulado:
Caminho: 304,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante. 

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)


Mal que batiam as 04:30 reuniu a fadistagem na rotunda da Mina. Viagem bem disposta, atendendo à hora, A23 acima até à Guarda, inflexão para oeste na A25 até Viseu, novamente para norte na A24 até ao Peso da Régua, N108 até Mesão Frio, N101 até ao cruzamento para Loivos do Monte/Baião. A estratégia de transporte e apoio implicou, comme d’habitude, um compasso de espera, pelos companheiros que foram parquear as viaturas a Amarante. Estava frio, bastante frio. Foi preciso aquecer a alma com uma jeropiga.


Início junto ao cruzamento para Baião às 08:30 com entrada imediata numa artéria peculiar, a começar pelo nome: Marquês de Pombal. Não, não era rectilínea e larga, acompanhava rudemente a N101, rodeando os acidentes orográficos que eram bastantes e pronunciados, característica, aliás, de toda a região (estamos a norte do Douro, numa região meio minhota meio transmontana, certo?); depois, a dita “rua” estende-se por cerca de mil vezes 3,5 metros, ao longo dos quais, tocam-na não mais do que uma dúzia de casas. Mas o que a torna única, mesmo única a sério, são as inúmeras pequenas cascatas de água que brotam por entre os penhascos de castanheiros, compondo a banda sonora da caminhada ao longo deste troço.

Quase sem nos darmos conta, fomos atravessando as “localidades” de Outeiro, Noveleiras, Rechãozinho, Almas, Reboreda, Vinhateiro, Bailadoiro, Cabana, Corujeiras, Gualta, Matias (não necessariamente por esta ordem). Pelas 6 horas perseguia-nos a serra da Abobereira, pelas 3 vigiava-nos o Marão. Passava das 10 quando, numa comprida mesa da esplanada do café simpático da localidade de Cavalinho, foi estendido o farnel e cada um alambazou-se com o que quis, desde que quisesse: pão, borrachões e bolacha do deserto (de Aldeia do Bispo), enchidos vários, paté de atum e delícias do mar, queijo fresco, queijo de mistura, azeitonas carrasquenhas retalhadas, azeitonas cordovil marteladas e aromatizadas com orégãos e alho, frango frito, febras aux vin, pezinhos de coentrada, moelas, bacalhau aux punheta, rissóis, feijão frade, papas de carolo, empadas de galinha, tinto do Micaelo, verde branco do Zé Manel, verde tinto da tasquinha servido em malga branca. Mesa farta e variada, pois.

Petiscou-se devagar, com vagar. Já mais compostinhos, prosseguiu-se. O vagar está associado à “slow food” (que nos seja perdoado o anglicismo), mas também ao acto em si de conhecer o país enquanto se caminha… com vagar. Forçando a analogia, sabe-nos melhor, faz-nos melhor, o “slow knowledge” (em português equivalerá a apropriação lenta de saber, suave, preciosista), facilitado pelo caminhar com tempo para permitir que o olhar se detenha nos pormenores, imperceptíveis de outra forma. Ao longo do caminho, temos confirmado a tese: a diversidade deste país é uma das suas maiores riquezas, nos usos e nos costumes, no sotaque, na gastronomia, na cultura em geral, na orografia, na flora, na paisagem; na marcação e apropriação do território também, como foi confirmado nas imediações de Amarante, e que nos tornou a mostrar o peculiar conceito de rua destas paragens. Já havíamos conhecido a rua Marquês de Pombal, as suas cascatas e as suas 10 casas em 5 quilómetros; agora caminhamos pela rua Souto Chão que ao longo de mais de 1000 metros às vezes em terra, outras vezes calcetada, serve 2 edifícios decrépitos consideravelmente distanciados, até à rua do Bandoleiro, agora já em alcatrão, subitamente continuada pela rua do Pedregal em calçada, com delimitação bem marcada no chão. Perguntámos a uma autóctone e eis a explicação: cada rua pertence a sua localidade. As autoridades administrativas de Jazente entenderam diferente das autoridades administrativas de Pedronelo, pelo que, do portão da vivenda Belinha para cima, Jazente mandou colocar alcatrão, daí para baixo mandou Pedronelo colocar calçada. E assim se evidenciou quem manda aonde.

Pedronelo orgulha-se da fama que tem o pão que aí é fabricado. Na padaria, após alguma insistência no chamamento, a padeira assoma a uma janela:
- querem pão? cheguem ali e desandem aquela porta que eu já lá vou”.




Inteirando-se da nossa condição, e antes de saber a encomenda, a simpática pedronalense logo fez questão de oferecer 3 pãezinhos de quartos, atitude que os caminheiros acharam muito correcta, comprando-lhe 3 casqueiros dos grandes, em compensação.



A entrada em Amarante é feita, obviamente, pela ponte de S. Gonçalo. Reza a história que foi o próprio que tratou de reconstruir a velha ponte romana que constituía (e constitui) uma importante via de ligação entre o sul e o norte, em direcção a Guimarães, Braga e, naturalmente, Compostela. Embalado, terá mandado também erigir, junto à ponte, a ermida que haveria de ser transformada em Igreja com o seu nome. Pese embora Frei Gonçalo nunca tenha sido reconhecido como santo pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana, mas “apenas” como Beato, a verdade é que o povo, seguramente em consideração ao seu fervor (e dinâmica edificadora), tratou de o canonizar como tal, envolvendo-o em lendas e histórias que lhe atribuem feitos ímpares com as raparigas e não só. A cultura popular mais brejeira e brincalhona valia-se da capa protectora de S. Gonçalo para atacar preconceitos e tabus em tempos de repressão, única forma de contextualizar quadras como esta:

S. Gonçalo de Amarante
Casai-me que bem podeis
Já tenho teias de aranha
Naquilo que vós sabeis.

Havia feira de antiguidades no adro. Ainda antes do lauto almoço nas imediações do rio (o cardápio era o mesmo do pequeno almoço), os peregrinos fizeram questão de ir tocar o túmulo do santo padroeiro e, saudar o colega Santiago na capelinha lateral da Igreja.





Amarante é terra natal de ilustres figuras da literatura e das artes portuguesas. Amarantinos são Amadeu de Souza-Cardozo, Agustina Bessa Luís e Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos que preferiu ficar conhecido como Teixeira de Pascoaes. Das pesquisas efectuadas – pois, o Caminho, essa via de conhecer mais e mais devagar o país, inclui passear pelas referências locais, consolidámos a nossa simpatia pelo Pascoaes arauto do bucolismo da ruralidade, pré-ecologista, mas já não tanto pelo Pascoaes perdido nas teias do saudosismo, com as conotações imobilistas e excessivamente nostálgicas que ele parece ter querido dar ao conceito de saudade. Gostariamos, mas não o conseguimos, de ter ficado definitivamente esclarecidos sobre a disputa intelectual que ele travou com António Sérgio relativamente à exclusividade da saudade portuguesa, ideia que corre e vingou no imaginário apologético nacionalista. Dever-se-á, muito provavelmente ao contributo de Pascoaes, essa ideia que nos levaram a interiorizar de que o sentimento associado à saudade é excepcional nos portugueses e que mais nenhuma língua no mundo traduz com a mesma força tal sentimento. Sérgio terá chegado a ser indelicado com o amarantino desmontando essa genuidade e exclusividade, argumentando que a palavra existe com o mesmo significado em várias línguas, até em islandês, onde assume a forma de saknaor. Não sabia António Sérgio, não podia saber, que os islandeses quase um século depois haviam de cortar radical e definitivamente com um certo saknaorismo que os governava. Adiante.

O final de tarde e noite foi gasto pelos peregrinos entre tabernas, socializando com os autóctones disponíveis. Esta opção implicou um custo de oportunidade: escasseou o tempo para visitar o excelente museu Amadeu de Souza-Cardoso. Primeiro, foi a taberna do Rodrigo, pequeno e acolhedor entreposto de venda de variadíssimos enchidos e presuntos regionais, cujas paredes e mesas estavam forradas com papéis avulsos nos quais os clientes deixam mensagens, poemas e outros dizeres. Depois, foram os peregrinos buscar o reforço alimentar da noite na Taberna das Comadres, ali a dois passos do Tâmega, rebuscado com sopinha de feijão, couve esfarripada e batata ralada com garfo, ameijoa à moda das comadres, tripas à moda das comadres, “verde” (bifinhos de porco longamente alagados em vinha d’alho e pimenta e depois fritos em azeite), pastéis de bacalhau enrolados pelas comadres, pastelão (espécie de omolete), verde (vinho) branco e tinto a gosto (alguém contou meia dúzia de garrafas despejadas).

O anfitrião, homem afável, conversador, visual de baterista de banda de rock pesado com rabinho de cavalo e tudo, tratou-nos bem e terá gostado da nossa companhia. Se calhar por isso é que quando se lhe pediu um chá para “compor” o organismo, ele perguntou:
- É para compor? Então vão beber um chá especial, ofereço eu.
A cor era parecida com o chá de tília e carqueja misturados; os ingredientes é que derivavam para aguardente caseira envelhecida e embebendo uma cereja de Resende. 

Compostos, os peregrinos recolheram à Casa de Cultura e Juventude de Amarante, situada na margem esquerda do Tâmega, local que se recomenda a grupos não muito exigentes, com condições extraordinárias, mesmo em regime de quarto quádruplo com beliche, preço justo. Amanhã, Amarante – Felgueiras.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Diário de Caminhada - ETAPA XI: Oliveira (Mesão Frio) - Loivos do Monte (Amarante)

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XI: Oliveira - Loivos do Monte
20 de Outubro de 2013, domingo

Ver track AQUI


Depois de uma repousante noite, entrecortada por uma trovoada cerca das 05.40 h, a manhã começou às 06:30, com um apetitoso pequeno almoço no hotel. Reunidas "armas e bagagens" nas viaturas de transporte, regressamos a Oliveiras para deixar o pessoal e largar as viaturas no ponto de destino.


Reiniciámos o Caminho às 08:20 na igreja de Oliveira, logo em modo subida, em direção a Portela e depois Nostim, sempre com o vale onde corre a ribeira de Seromenha, lado a lado com a estrada. A manhâ estava húmida, com uma chuva certinha que teimava em acompanhar-nos. Ao longe, os bancos de nevoeiro entre os vinhedos permitia-nos fotos fantásticas!


A chuvinha, ia dando lugar aos primeiros raios de sol, e logo ali o arco iris começou a dominar a paisagem, ao ponto de se duplicarem! A seguir a Nostim encontramos uma igreja pequenina e um singelo cruzamento, com uma placa que indicava Ponte Cavalar.... querem lá ver que temos um ponte feita de cavalos??? :-)


Em boa descendente, entramos num caminho lajado de xisto, escorregadio quanto baste , mas bonito de percorrer. Lá embaixo encontramos a ponte, antiquíssima no seu traço, com um arco perfeito, coberto de heras que permitia uma moldura fantástica. Muito bonito.


Escondida pelo meio de um figueira, um antigo marco dita a separação de 3 concelhos: Sedielos para a direita, atrás de nós a Régua e para a esquerda, nosso destino Mesão Frio. A verdade é que não saberia nada disto, se não tivesse chegado o José, outro viticultor duriense, que se chegou á conversa, da sua modesta casa ali paredes meias com a ponte. Em discurso de quem gosta de falar, lá foi contando a sua vida enquanto nos mostrava a modesta adega.



A pendente agora era de subida, sempre por alcatrão, com destino a Mártir, uma aldeia à meia encosta entre os vinhedos da margem direita do Douro. A chuva ia dando um ar da sua graça, sempre com os bancos de nevoeiro a esconderem paisagens fantásticas, aqui e ali entrecobertas pelos raios de sol da manhã.


Sempre pela mesma cota de nível, a meia altura fazia-se a aproximação a Mesão Frio. Fazendo jus ao nome, o frio e a humidade da manhã ia-nos "entrando nos ossos", pelo que uma garrafinha de jeropiga miraculosamente surgida, deu-nos algum alento. Depois da localidade de Estrada e Quinta da Boa Vista, entramos em Mesão Frio pelas 11:00,mesmo a tempo de um reforço do pequeno almoço.



Instalados na praça central, fomos criando alguma curiosidade nos presentes, pois nao será muito habitual ver um grupo de caminheiros, fazer grandes petiscadas por ali. Recuperadas energias, devidamente acompanhadas por uma boa dose de cafeína, regressamos ao Caminho já perto das 11:45 h.



O reinicio do Caminho, marca neste ponto o abandono do Douro e das suas castas generosas, virando-nos já  para a rota do Vinho Verde e para a bacia do Tâmega. A partir daqui, à cota de 260 m incia-se a maior subida de todo o Caminho de Torres, que culmina com a chegada ao ponto mais alto desta rota, a 970 m de altitude, com o Marão ali mesmo ao lado.



Começamos com uma subida recentemente alcatroda, mas com zonas de inclinação de perto de 20%, passando pelas localidades de Anquião, Portela e Graça. Enquanto subiamos, iamos vendo lá em baixo o Douro a ficar para trás e o imenso Marão a dominar a paisagem bem na nossa frente.



Sempre em pendente marcada, aproximamo-nos de Gestaçô, onde um oportuno café permitiu-nos "matar" a sede com um par de minis, porque subir, subir, subir... faz sede! Eram 13:30, estavamos a 600m de altitude e ainda faltavam alguns kms. Mas a paisagem começava a mudar, com o surgimento das primeiras vinhas em latada e alguns espigueiros.



Depois do Fojo e Águas Mortas, os últimos algomerados de casas a cerca de 800 m, entramos nos caminhos de terra batida, rumo ao cume, onde a 970 m os aerogeradores dominam a paisagem. Apesar do vento, do frio e da humidade, a paisagem era fantástica.



Em modo descendente fomos-nos aproximando de Loivos do Monte o local onde estava previsto terminarmos mais esta etapa. Chegamos lá cerca das 15:30, registando aquilo que sabiamos ser o dia mais dificil em termos de caminhada: 22 km e perto de 900 D+, mesmo assim realizados a 4,1 km/h. Nada mau.



Seguiu-se mais um lauto almoço de grãozada com bacalhau e ovo, que fez as delicias dos presentes, pois àquela hora, o corpinho já pedia sustento. Na hora do café tivemos ainda oportunidade de conhecer melhor as gentes locais, com uma cachopa de pouco mais de 30 anos a destacar-se, por estar em plena conversa com os demais e a... cozer sapatos à mão de uma forma frenética. Um parco ganha pão de 50 centimos,cada 5 pares cozidos... à mão!



Próxima etapa: conquista da ponte de S. Gonçalo de Amarante

Texto e fotos de Fernando Micaelo
Também AQUI

Diário de Caminhada - ETAPA X: Lamego - Oliveira (Mesão Frio)


“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa X:  Lamego - Oliveira (Mesão Frio)
19 de Outubro de 2013, sábado


Ver track AQUI


Já decorreu quase 1 mês desde que realizamos mais um par de etapas na senda rumo a Santiago. Foi um mês intenso de trabalho académico, entrando numa fase que já cheira a fim! Como o povo diz, estamos mesmo a "esfolar o rabo"!


Dai todo este mais que justificado atraso. Mas cá vai um pequeno relato, daquilo que é uma bonita aventura, desta vez em plenas terras durienses, onde a vinha, a montanha e o rio dominam a paisagem. Numa palavra simples: "Lindo"!
O dia começou cedo. Madrugar é preciso se queremos chegar ao ponto de partida com o raiar do sol. Porque é com os primeiros raios, que toda a paisagem costuma revelar-se, encher-nos o olho de bonitas paisagens e a alma de liberdade. E não nos defraudou!

Saímos de Castelo Branco ás 04:10 e às 06:15 estávamos em Lamego. A chuva, fonte da vida, almejada por quem tem na terra o seu sustento, fez-nos companhia ao longo da mesma. Mal sabíamos que nos ia acompanhar de forma intermitente ao longo de todo o fim de semana!
Organizados os transportes e colocadas as viaturas no local de destino - Oliveira, já para lá do Peso da Régua, iniciámo-nos no Caminho pelas 07:30, pelas estreitas ruas de Lamego, que caracterizam a sua parte alta, em direção ao castelo da cidade, conhecida por Almacave. Uma parte do tecido urbano provavelmente menos conhecido, mas plena da mesma beleza que caracteriza toda a cidade. A vista daqui é magnifica!

A saída da cidade faz-se por terrenos agrícolas, em que um bonito cruzeiro serviu de ponto de foto de grupo. Daqui em pendente descendente e já pelo meio de imensas vinhas, seguíamos em direção a Souto Covo e Sande, já com o dia a despontar em toda a sua força e esplendor.
Aqui, a confusão quase se instalou ao depararmos com setas em direções opostas, sendo uma a do verdadeiro caminho milenar e a outra indicativa de um caminho mais curto, provavelmente por força das peregrinações a Fátima. Mas, decididamente, estamos nisto para calcorrear os caminhos milenares, porque é neles que se encontram os recônditos monumentos e paisagens que o caracterizam. E ainda bem que a nossa tónica é esta!

Reorganizado o grupo, à saída de Sande encontramos um duriense de gema, António de seu nome , já com algumas 60 primaveras, que da porta da sua "modesta" adega, ali paredes meias com o Caminho, nos convidou a entrar.

O intenso cheiro a mosto e a vinho não nos defraudou. Entre inúmeras garrafas, os 6000 l de vinho "normal" e cerca de 80 l de aguardente, repousavam algumas pipas com 600 l do fabuloso néctar, conhecido comercialmente por Vinho do Porto , mas ali, vincadamente, vinho generoso!
Como vinho generoso, o amigo António quis provar-nos de onde vem  tão puro adjetivo. Generosamente, com recurso a um jarro daqueles que as nossas avós utilizavam para a água de lavar a cara, encheu-o de uma das bicas e com um garboso sorriso encheu-nos os copos com um néctar daqueles que não conhecemos em lado nenhum... aveludado, com o toque certo de álcool, com o sabor imenso das uvas de xisto, que a região demarcada apregoa. Sublime!

Mas o tempo corria e ainda tínhamos muto pela frente. Com uma alegria liberta pelo efeito generoso, descemos até ao vale do Varosa, num local chamado Sala de Audiências do Diabo, dominada a jusante com o paredão da barragem e lá bem em baixo pela lindíssima ponte romana que atravessa o rio.
Eram 10:10 h mas a sensação é que o tempo aqui parou com todas aquelas marcas de romanização, lado a lado com uma pequena capela dedicada ao N. Sr. da Boa Morte. Percebe-se bem porque o Caminho passa aqui! Icónico!

Depois de um workshop sobre geocaching, iniciámos a subida do vale até Valdigem, onde às 10:45, o nosso carro de apoio nos esperava para mais um pequeno almoço daqueles que nem nos hotéis de 5 * apanhamos! Ótimo!
Saídos de Valdigem, o Caminho embrenha-se nas inúmeras quintas, plenas de vinhedos, montes e vales, até onde a vista chega! Os rios Corgo e Varosa embrenham-se nesses vales, sempre bem lá embaixo. A sensação é de estarmos no topo do mundo, com todo a vinha aos nosso pés. Lá ao fundo o Douro brilhava com as 3 pontes de Peso da Régua a dominarem a paisagem. Estamos definitivamente no fabuloso património da humanidade conhecido pelo Alto Douro Vinhateiro!

Eram 12:40 e a travessia do Douro faz-se pela ponte pedonal, que deveria ter servido para linha de Caminho de Ferro mas que nunca iniciou funções. Outros tempos, em que a crise soberana de Portugal ditou o abandono de inúmeras obras públicas. Um filme antigo, que agora estamos novamente a viver. Portugal é mesmo um destino de gente sem escrúpulos que se intitulam dirigentes de uma nação. Adiante!
Peso da Régua fervia de atividade turística, apesar do dia húmido e chuvoso que começava a dar sinais de querer piorar. Depois de um café junto ao rio, fizemos toda a zona ribeirinha, em direção ao ponto que marcava a subida mais dura do dia, que nos levaria a Sergude.

Em Sergude, depois de recuperarmos um pouco as forças, reiniciam-se as "hostilidades" com mais um imponente subida até Fontelas. Contudo, quem muito sobe, sabe que as vistas tornam-se cada vez mais bonitas. E apesar da chuvinha miudinha que ia caindo, era possível ver bonitos vinhedos.
De Fontelas a Oliveira, o Caminho faz-se por alcatrão, mas nem por isso é menos interessante, pois encontramos outro duriense, o sr. Diamantino que sem ser viticultor, tem no produto da safra da vinha, o seu ganha-pão. Entramos numa secular oficina de tanoeiro, onde as madeiras ganham forma e estanquicidade para acolher o generoso e dar-lhe corpo e alma!

Às 15:30 estávamos no sopé da Igreja de Oliveira onde demos por findo o 1º dia, com 22 km, 650 m D+, a uma simpática média de 4,1 km/h. Seguiu-se o opíparo almoço e o regresso a Peso da Régua onde o Hotel Império nos iria dar guarida. Durante o resto da tarde e noite, foi tempo de conversa da boa, umas jolas para eliminar os "ácidos lácticos", e um divertido jantar no restaurante Gato Preto.
  

Texto e fotos de Fernando Micaelo
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