terça-feira, 8 de abril de 2014

Diário de Caminhada - ETAPA XVI: Braga - Goães

Diário de Caminhada - ETAPA XVI:  Braga - Goães

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XVI: Braga - Goães
25 de Janeiro de 2014, sábado
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Braga (Sé): 07:28 horas
Chegada a Goães (albergue): 13:38 horas
Distância percorrida: 19,5 km
Tempo total de caminhada: 06:10 horas
Tempo parado: 01:31 horas
Velocidade média: 4,5 Km/h

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Braga, Praceta de Santiago, Vila de Prado; Moure, Torre de Penegate, Portela das Cabras, Goães.

Acumulado:
Caminho: 384,7 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)

A nova estratégia de se alugar mini autocarro para o transporte, testada nas etapas anteriores, foi avaliada muito favoravelmente, pelo que se manteve: viagem desde Castelo Branco até Braga em 4 horas (incluindo paragens técnicas), sem percalços. Foto da praxe junto à Sé de Braga e tentativa frustrada de obter carimbo. Faltavam 5 minutos para bater a meia das 7, surgiu de dentro do milenar monumento um funcionário carregado de 2 corgalhos de chaves com as quais ia abrindo portas e portões. Instado ao registo do correspondente carimbo na nossa preciosa caderneta, recusou liminarmente, a raiar os maus modos, nada consentâneos com as suas funções, com a desculpa de que tinha de preparar o altar para a missa das oito menos um quarto. Um dia, há-de prestar contas a Santiago do seu mau humor para com estes peregrinos madrugadores e o santo certamente lhe atribuirá uma avaliação menos boa, acompanhada de várias recomendações que incluem a de que os altares para as missas das oito menos um quarto devem ficar minimamente preparados de véspera. Foi necessário recorrer ao licor de maçã-canela do Micaelo para recuperar o ânimo.







Primeiros passos a partir da Sé de Braga, às 07:30, seguindo as setas amarelas que começaram a surgir acompanhadas pelas placas de madeira indicativas da Via XIX, velhíssima estrada romana que ligava Braga a Astorga, através da Galiza. Ainda dentro da cidade dos arcebispos, saudação a Santiago na sua praceta, prosseguindo-se em malha urbana em direcção ao rio Cávado, nesta altura a exibir-se caudaloso. A travessia faz-se através duma imponente ponte filipina que terá sido construída sobre uma outra medieval e esta sobre a primitiva romana. Do outro lado, num pequeno jardim de Vila do Prado, e porque já eram horas, pequeno almoço.







Cardápio (igual para todas as refeições): ovos verdes, ovos com farinheira, pastéis de carne, trança de carne, rissóis de peixe, pastéis de bacalhau, febras palitadas e picles, paté de fiambre de perú, frango frito, panceta (toucinho espanhol), vigaristas, salada de polvo, lombo de porco assado (simples, com molho doce e fingido), bucho de morcela, chouriço, farinheira frita, feijões vermelhos salteados com cebola, empadas de galinha, bolacha do deserto, pão de várias qualidades e consistências, vinhos de várias cores, travos e proveniências, queijos de vários sabores e texturas, azeitonas de vária tonalidades e acidezes, bolos de vários sabores e paladares, fruta da época e de fora da época.

O caminho prossegue subjugado ao característico povoamento disperso do Minho por entre ruas e casas. Em Moure, paragem para verde (branco e tinto) em malguinha branca. Nesta povoação, nota especial para o enorme eucalipto seco que se mantém de pé, e que precisou de 10 peregrinos para ser abraçado.





O caminho vai agora em modo predominante de subida através de Portela das Cabras até à cota máxima que separa as bacias do Cávado e do Neiva, com passagem pela torre de Penegate, construída em 1132 sob o magestoso auspício do nosso rei Lavrador e marido da Santa – são rosas, senhor – Isabel.

Daí, foi um saltinho até Goães onde a escola primária foi transformada em albergue. O sítio é agradável, simpática e prestável a senhora minhota que nos entregou as chaves, nos mostrou como utilizar a cozinha e nos facilitou o acesso à lenha para as salamandras. Mas, depois, começaram as peripécias. Contam-se, de um rasgo.

Primeiro, o cilindro para águas quentes só permitia um duche a cada quarto de hora e apenas durante 2 minutos; depois, o esquentador negava-se a aquecer a água para a loiça: chamado o picheleiro, rapaz novo que não largou o sorriso enquanto tentava o concerto do dispositivo, muito à conta dos temas e abordagens que se desenvolviam nas suas costas, ficámos, constatámos já depois da sua abalada, na mesma. O problema maior, todavia, residia numa das salamandras que insistia em devolver o fumo à sala em vez de o expelir para o exterior. Após vários testes concluiu-se que o tubo de evacuação – com cerca de 4 metros de altura, dois dos quais acima do telhado, estava obstruído. O sentido de desenrascanço e improvisação de que se arvoram os portugueses foi então posto à prova. A primeira solução passou por um pau introduzido pelo tubo acima na tentativa de extrair o material bloqueador; evoluiu-se para o pau de uma vassoura; conseguiu-se apenas perceber que se tratava de palhiço seco, supostamente usado pelos passarinhos na construção dos ninhos; um peregrino engenheiro sugeriu que se utilizasse uma mangueira de rega, primeiro, simples, mas depois sucessivamente sofisticada com acrescentos do primitivo pau enfiado numa das pontas, substituído pela vassoura e ainda por um arame que se pediu ao vizinho da frente. As engenhocas resultaram em meio saco de plástico de restos de ninhos. Malogradamente, o tubo continuava a não facilitar a evacuação do fumo. Reunido o conselho científico dos peregrinos engenheiros, foi conseguido consenso quanto à solução final: proceder à extração do lixo a partir de cima. Foi o vizinho novamente chamado a cooperar com uma escada de alumínio. Munido de 5 metros de arame das vinhas e de uma turquesa, Xquim Branco avançou, qual soldado mais corajoso do pelotão. Vários ensaios após, de que resultou um saco de plástico cheio, o nosso operacional acabou por decidir retirar a campânula que encimava o tubo e, assim sim, o comprido cilindro expeliu mais um saco de palhiço. Foram duas horas de engenharias, mas o facto é que a salamandra ficou a deitar um calor que muito regalou e confortou os peregrinos durante a noite.


Como tudo na vida, esta bem sucedida operação teve um custo: dois feridos, um ligeiro e um grave: o nosso Xquim Branco que se feriu num dedo, e o nosso Carlos Matos que, no exercício das suas funções de repórter e sketcher, foi protagonista de uma aparatosa escorregadela que o fez embater estrondosamente com o tronco no soalho da sala, da qual, viria a radiografia a revelar 2 dias depois, resultou em 3 costelas machucadas. Não pode deixar de se enaltecer o seu espírito de peregrino que se impôs a tal minudência, tendo prosseguido bravamente para a etapa do dia seguinte entre Goães e Ponte de Lima. Naturalmente, também ajudaram os conselhos e pílulas prontamente disponibilizados pelos nossos companheiros peregrinos enfermeiros.
Amanhã, receber-nos-á a mais antiga vila portuguesa.

sábado, 1 de março de 2014

Diário de Caminhada - ETAPA XV: Guimarães - Braga

Diário de Caminhada - ETAPA XV:  Guimarães - Braga

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XIV: Guimarães - Braga
12 de Janeiro de 2014, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade.

Sinopse:

Inicio em Guimarães: 08:50 horas
Chegada a Braga (Sé): 15:12 horas
Distância percorrida: 22,5 km
Tempo total de caminhada: 06:22 horas
Tempo parado: 01:02 minutos
Velocidade média: 4,2 km/h

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Guimarães, Ponte de Roldes (Fermentões), Caldas das Taipas, estrada romana Falperra, Igreja de Santiago (Fraião), Braga.

Acumulado:
Caminho: 369,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)

A partilha de espaços de descanso nocturno tem riscos para os que são mais atreitos à insónia. Se calha haver um (ou mais) que, não sofrendo desse mal, fazem do ronco a banda sonora dos seus sonhos, as noites tornam-se longas e penosas para os outros. Foi o caso, e ocorreu desta vez no Hostel que abrigou estes humildes peregrinos situado em plena praça de Santiago, ali arcadas meias com o largo da Oliveira.



E o caso fica soberbamente ilustrado com a ajuda do mestre Aquilino, n’A Casa Grande de Romarigães quando descreve, como só ele é capaz, o problema do personagem Luís Azevedo quando em viagem por estas mesmas bandas, quiçá percurso igual, encontrou guarida no convento de S. Gonçalo em Amarante numa cela ao lado do seu companheiro Padre Tirteu, depois de já ter aguentado uma noite em claro em Guimarães. Ora, aprecie-se como Aquilino nos sensibiliza para a sua agonia nocturna:

“O diabo é que ele ressonava mais alto, variado e plangente que o órgão na vigília da Paixão. Fosse obra de esturrinho, com semiobstrução das fossas nasais, o certo é que dentro daquelas ventas monásticas ora mugiam dez gaitas de foles galegas, ora assobiava a gaitinha de palha mofareira que os rapazes fazem do trigo a apendoar. A partitura entrecortava-se de solos que estrugiam pelo claustro e deviam, transbordando para o exterior, extasiar céu e terra. Quando no decorrer dum piano pianíssimo, que também tinha dessas variações a trompa prodigiosa, Luís Azevedo conseguia pregar olho, de repente soltava ela um larghetto, com notas de oboé e rabecão, e lá se ia o regalado soninho. Às seis horas da manhã, quando começou a luzir a claraboia e um cochicho veio para os loureiros soltar a sua solfa, ainda andava ele aos tombos com o travesseiro.”

A boa disposição matinal do grupo e o pequeno almoço farto (ver cardápio da etapa anterior) no hostel, ajudaram a espevitar os mais infelizes. Acondicionados os bornais no autocarro, despedimo-nos da praça do nosso orago caminhante às 08:50. A chuva miudinha, tipo moinha, aconselhou o poncho impermeável que não mais largaríamos durante toda a etapa. Desde a Gardunha, no ido mês de Novembro de 2012, que não se apanhava um dia como este, molhado e ventoso. Bravamente, os peregrinos não se detiveram perante tal minudência e atacaram o caminho, cuidando apenas em rodear os lapacheiros.



O Minho, aquele Minho cuja imagem se alojou no nosso álbum fotográfico mental tem vindo a sofrer actualizações ao longo do caminho, muito por via do caos urbanístico que se impõe na paisagem, sobretudo desde as imediações da Lixa. A variedade cromática em torno do característico verde do Minho é selvaticamente agredida pela salganhada de cores e azulejos nas milhentas casas semeadas ao desbarato na paisagem. O caminho alterna entre veredas rodeadas de verdes, vinhas altas e ruas mal alcatroadas. O primeiro ponto digno de interesse é a ponte de Roldes em Fermentões. Era domingo de manhã, o povo religioso apresentava-se aperaltado para a missa. Meia hora mais à frente o rio Ave surge algo agitado, nas Caldas das Taipas, onde a velha ponte mal tapa o leito.

A chuva faz-se sentir cada vez mais forte, obrigando os peregrinos a ajustarem capas e ponchos. Até ao alto da Falperra, o percurso faz-se em caminho empredrado, supostamente uma estrada romana, muito maltratada, rodeada por uma incaracterística floresta de eucaliptos.



Já se vê Braga lá em baixo. Descida por trilhos pejados de troncos de eucaliptos até Fraião, onde a Igreja de Santiago exibe um bonito painel de azulejos. Pediram os peregrinos licença e o Santo concedeu a graça de fotografia enquadrada pela sua figura.


Por Braga adentro, cruzando o campo de Santiago, fim de etapa na Catedral de Santa Maria de Braga, passava um quarto de hora das 3 da tarde.



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Banda Sonora para um Caminho - VI


INSTANTÂNEOS - IX

A etapa estava já a terminar sem que tivesse ocorrido episódio digno de instantâneo. Até que se chegou a Pedronelo, já com Amarante à vista. Numa curva, surge, imponente e vistosa, uma vivenda bem traçada arquitectonicamente. Vários pormenores chamaram a atenção dos peregrinos. O primeiro, logo notado por apreciador convicto, era o telheiro que abrigava a barbacoa, em telha de meia cava, armação em madeira tratada, forno, churrasco e bancadas em materiais de primeira; depois, as persianas, todas em dourado brilhante conferiam-lhe um aspecto, digamos, nobre; terceiro, o largo varandim que a circundava, assim à moda da mansão brasileira; por último, à volta da mansão, numa área de uma centena de metros quadrados, em plano inclinado, em vez de relva, pedras roliças e seixos.

Espalhadas pelo peculiar quintal, erguiam-se várias estátuas, completamente pintadas de branco, algumas delas a jorrar água em prateados pequenos repuxos. Seguindo o nosso instinto, tratámos de meter conversa com o proprietário que nos avaliava desde o varandim e, apontando uma figura masculina trajada à moda do Renascimento - gola rendilhada à volta do pescoço, jaqueta sem mangas, calças (agora parece que lhe chamam leggins) muito justas com ostentação despurada do contorno dos genitais, sapatos largos encimados por grandes fivelas:

- Santas tardes, então quem é que está ali naquela estátua?
- É o D. Afonso Henriques – informou solícito.

Armados em sabichões, ensaiámos a correcção:

- Não pode. A vestimenta não é bem a da época do nosso Fundador.

O pedronalense senhor nem vacilou:

- Ai isso é que é! Atão eu não sei? Olhe que eu tenho a 4ª classe antiga, meu amigo, e conheço bem os nossos reis.

Já bastas vezes tinhamos ouvido os nossos pais argumentar que a 4ª classe antiga é que era, que quem a fez sabe mais do que muitos doutores. O entusiasmo com que foi feita a defesa da tese, desarmou-nos sem apelo nem agravo.
Metemos o rabinho entre as pernas e prosseguimos rua abaixo a ver do S. Gonçalo.


Diário de Caminhada - ETAPA XIV: Felgueiras - Guimarães

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XIV: Felgueiras - Guimarães
11 de Janeiro de 2014, sábado

  
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade.

Sinopse:

Inicio em Felgueiras: 08:20 horas
Chegada a Guimarães (Praça de Santiago): 15:00
Distância percorrida: 21,5 km
Tempo Total 6:41;
Tempo parado 1:37;
Velocidade média 4,2 Km/h.
Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Felgueiras, Mosteiro do Pombeiro, Ponte do Arco, Ciclovia (Fareja-Guimarães), Guimarães.


Acumulado:
Caminho: 346,7 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães. 

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)

A etapa nº 14 fica marcada por uma mudança de estratégia no que toca a deslocações e apoio: em vez dos 3 automóveis habituais, os peregrinos foram todos em excursão num mini autocarro alugado. O apoio durante as etapas esteve igualmente assegurado com uma paragem para pequeno almoço. Feitas as contas, fica mais barato e, claro, muito mais confortável. As despesas da viagem até Felgueiras foram pois transferidas para o senhor condutor, facilitando a vida aos peregrinos que se dedicaram à confraternização e, nos intervalos, a dormitar.


A Câmara Municipal de Felgueiras prestou-se a enquadrar o grupo. Antes do tiro de partida às 08:20, Xquim Branco fez entrega das cadernetas que um dia havemos de exibir aos nossos netos, como comprovativo desta nossa aventura.

O percurso leva-nos a uma passagem pela Matriz da cidade e em seguida encaminha-nos em direcção ao majestoso mosteiro de Santa Maria do Pombeiro, um edifício imponente que remonta ao sec. XI, estilo românico na base, nave ampla, vários altares em talha trabalhada e rendilhada. Consta, obviamente, da lista de monumentos nacionais. Após a recolha do carimbo, prosseguimos para a ponte romana do Arco que nos havia de deixar passar para a margem direita do rio Vizela. Três centenas de metros antes, já com o som das águas do rio, nota para a casa das Carrancas na Boavista, assim chamada por via das carantonhas que exibe na frontaria de granito.



Duas notas, à volta de cada margem do Vizela. Na esquerda, mesmo junto à ponte puderam os peregrinos visitar um moinho em plena laboração, a convite do moleiro, um rapazinho ainda novo. Nos seus tempos áureos, condicionada pela levada ainda bem visível, a força bruta das águas do Vizela faziam rodar o rodízio que fazia girar as mós, que moíam o grão; agora e naquele momento, era o interruptor eléctrico na posição de ligado que fornecia a energia para o mesmo efeito. Já na margem direita, na localidade de Serzedo, infirmou-se finalmente a tese de que os minhotos não são gente hospitaleira. Picada pelo nosso Zé Manel, a minhota Sra Conceição insistiu veementemente com os peregrinos para que bebessem um portinho dos seus. Fizeram-lhe os peregrinos a vontade. Ela havia de cantar os Reis à moda do Minho, tendo nós retribuído com as janeiras à moda da Beira Baixa (acompanhadas com realejo e tudo). A hospitalidade, simpatia e boa disposição valeu-lhe para lhe perdoarmos que ela não soubesse e não se lembrasse de ter ouvido nunca o que era isso da Beira Baixa, ou de uma cidade chamada Castelo Branco. A explicação do nível de ignorância, tê-la-á dado a própria quando invocou por 3 vezes o Manuel Goucha como referência para 3 temas.



Cinco minutos à frente, pequeno almoço. Para registo histórico - e apenas para esse efeito - aqui fica o cardápio (desta e de todas as refeições de ar livre nas etapas XIV e XV): pastéis de bacalhau (dos verdadeiros); frango à brás; febras palitadas com picles; azeitonas de várias qualidades e tempêros; queijos: fresco, picante, mistura, beira baixa de ovelha à cabreira, Seia; javali no forno; moelas; presunto: em guitarra e fatiado; chouriço; chouriça; farinheira fumada e frita; morcela; salada de polvo; peixe frito; frango frito panado; pastéis de carne; empadas; pão de mistura; pão centeio; bolacha do deserto; arroz doce; bolo de cenoura com chocolate; filhós; ananaz; tangerinas; maçãs; bica doce; pão de deus; marmelada dura e mole; bolos secos, vinhos de vários cores e sabores, verdes e maduros mas todos autênticos néctares dionisíocos, suminhos.


Repostos os níveis, atacou-se a subida por Serzedo às endireituras da ciclovia que foi instalada por cima do antigo ramal ferroviário que ligava Guimarães a Fafe. Passeio agradável em piso alcatroado, em bom estado, nivelado, que se estende por quase uma dezena de quilómetros, com passagem pelas antigas estações de Paço Vieira e Mesão Frio, até à cidade berço.


O castelo havia de ser conquistado pelo norte, sem grande resistência. Depois do inevitável registo daguerreotípico com o nosso primeiro Afonso como testemunha, visita ligeira, em dia de entrada livre, ao Palácio dos duques de Bragança, onde os peregrinos beneficiaram ainda como bónus de uma breve sessão teórica sobre essa nobre e antiga arte de treinar e cuidar falcões e outras aves de rapina na actividade cinegética, que é como quem diz em falcoaria, ou, mais erudito, em cetraria. Um simpático cavalheiro, braço esquerdo alçado, luva de cabedal a proteger a mão das garras de um garboso falcão fêmea, foi respondendo a todas as perguntas compenetrado de quem sabia do que estava a falar. Esboçou um difícil sorriso apenas quando, questionado sobre o comportamento das aves, informou que na sociedade dos falcões, a fêmea é que vai à caça enquanto o macho fica de guarda.



Do castelo, descida ao largo da Mumadona até à Praça de Santiago. Etapa concluída.

Depois de degustado o almoço tardio nas instalações do Hostel Santiago (repetição de cardápio), a tarde foi dedicada a apreciar a zona histórica de Guimarães e a confirmar a sua harmonia arquitectónica. Uma jóia, inquestionavelmente. Naquela noite, sorte nossa, era noite de cantar os reis. Logo ali ao lado, no Largo da Oliveira, o povo saiu à rua e acorreu a ver e ouvir a dezena de grupos musicais oriundos de várias freguesias do concelho de Guimarães que cumpriram a tradição de cantar os reis. Mesmo antes de recolher, ainda houve tempo para assistir, agora na Praça de Santiago, à performance inusitada de uma bruxa a tocar violino numa varanda. Para o quadro ficar completo, só faltava o elemento moderno na noite vimaranense, e esse estava mesmo por baixo da nossa janela: rompendo corajosamente a penumbra do bar, fazia-se ouvir, forte, o rufar ritmado acompanhando o trinar destorcido das guitarras roqueiras.




Amanhã, havemos de ver Braga.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Diário de Caminhada - ETAPA XIII: Amarante - Felgueiras

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XIII: Amarante - Felgueiras
17 de Novembro de 2013, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.

Sinopse:

Inicio em Amarante: 08:35 horas
Distância percorrida: 21 km
Tempo total de caminhada: 07:12 horas
Tempo a andar: 05:34 horas
Tempo parado: 01:38 minutos
Velocidade média: 4,3 km/h
Da cota de 68 metros para 306 metros
Altitude máxima: 412 metros
Subida acumulada: 528 metros
Descida acumulada: 285 metros

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: S. Gonçalo, Stª Luzia, Vinha, Pinheiro, Estradinha, Freitas, Telões, Castanheira, Redondo, Lixa, Caramos, Moure, Felgueiras.


Acumulado:
Caminho: 325,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras. 

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui



O Tâmega assistiu sereno ao nosso acordar. Impávido, testemunhou a surpresa que nos fizeram a Alexandra, o Luís e o Daniel, da Associação Viver Canadelo e Serra do Marão (AVCSM). Alguém que nos viu passar e soube do nosso desiderato, terá tido a boa ideia de informar a Senhora Presidente da Junta de Amarante que teve a amabilidade de comunicar à AVCSM e, eis 3 ilustres embaixadores que se nos apresentam a dar as boas vindas. A AVCSM dedica-se à organização de eventos, à promoção da região e, claro, ao apoio e divulgação do caminho de Santiago. Gozámos da sua boa companhia durante cerca de 2 horas até ao limite do concelho de Amarante, guiando-nos por entre vinhedos dispersos, num percurso ligeiramente desviado em pequenos troços do caminho de Torres, justificado, segundo eles, por acertos já consolidados.







Em Telões, tiveram os peregrinos direito a cerimónia de bênção pelo pároco Nelson Soares na bela Igreja românica do sec. XIII. Segundo informação do Daniel, arqueólogo de formação, o monumento terá sido originalmente erigido no sec. XI a mando de Murio Viegas, nobre cavaleiro do conde D. Henrique, progenitor do nosso primeiro monarca.

O pequeno almoço foi servido logo ali no café junto à obra de Murio, lauto, acompanhado, também, por vinho verde tinto e branco, ambos os dois de superior qualidade. O branco, em especial, mereceu mesmo rasgados elogios, ainda antes de se saber que fora produzido na quinta do senhor Padre Nelson.



Depois dos nossos novos amigos da AVCSM se despedirem e nos orientarem o caminho, limitámo-nos a seguir preguiçosamente as setas amarelas profusamente distribuídas. Salvo raras excepções em que o caminho nos levou por veredas estreitas sombreadas por compridas latadas, a aproximação à Lixa, o seu atravessamento e o último troço até Felgueiras é feito em espaço urbano e peri-urbano. Convenhamos: o troço não é dos mais agradáveis para quem prefere o espaço amplo e rural.




Ponto de interesse na Igreja de Caramos a que se acede por um pequeno troço de estrada romana em muito mau estado. Por entre várias localidades, trilho estreito até à Igreja matriz de Moure. As setas amarelas conduzem-nos numa espécie de slalom na malha urbana dos arrabaldes de Felgueiras até a um edifício que já albergou gente famosa: a domus municipalis. Fim de etapa. Próxima, a XIV: Felgueiras-Guimarães. 




Diário de Caminhada - ETAPA XII: Loivos do Monte - Amarante

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XII: Loivos do Monte - Amarante
16 de Novembro de 2013, sábado

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.

Sinopse:

Inicio em (perto de) Loivos do Monte: 08:30 horas
Distância percorrida: 17 km
Tempo total de caminhada: 05:20 horas
Tempo a andar: 04:22 horas
Tempo parado: 58 minutos
Velocidade média: 4,2 km/h
Da cota de 740 metros para 68 metros
Altitude máxima: 755 metros
Subida acumulada: 154 metros
Descida acumulada: 808 metros

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Noveleiras, Rechãozinho, Reboreda, Bailadoiro, Gualta, Vinhateiro, Matias, Corujeira, Amarante.


Acumulado:
Caminho: 304,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante. 

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)


Mal que batiam as 04:30 reuniu a fadistagem na rotunda da Mina. Viagem bem disposta, atendendo à hora, A23 acima até à Guarda, inflexão para oeste na A25 até Viseu, novamente para norte na A24 até ao Peso da Régua, N108 até Mesão Frio, N101 até ao cruzamento para Loivos do Monte/Baião. A estratégia de transporte e apoio implicou, comme d’habitude, um compasso de espera, pelos companheiros que foram parquear as viaturas a Amarante. Estava frio, bastante frio. Foi preciso aquecer a alma com uma jeropiga.


Início junto ao cruzamento para Baião às 08:30 com entrada imediata numa artéria peculiar, a começar pelo nome: Marquês de Pombal. Não, não era rectilínea e larga, acompanhava rudemente a N101, rodeando os acidentes orográficos que eram bastantes e pronunciados, característica, aliás, de toda a região (estamos a norte do Douro, numa região meio minhota meio transmontana, certo?); depois, a dita “rua” estende-se por cerca de mil vezes 3,5 metros, ao longo dos quais, tocam-na não mais do que uma dúzia de casas. Mas o que a torna única, mesmo única a sério, são as inúmeras pequenas cascatas de água que brotam por entre os penhascos de castanheiros, compondo a banda sonora da caminhada ao longo deste troço.

Quase sem nos darmos conta, fomos atravessando as “localidades” de Outeiro, Noveleiras, Rechãozinho, Almas, Reboreda, Vinhateiro, Bailadoiro, Cabana, Corujeiras, Gualta, Matias (não necessariamente por esta ordem). Pelas 6 horas perseguia-nos a serra da Abobereira, pelas 3 vigiava-nos o Marão. Passava das 10 quando, numa comprida mesa da esplanada do café simpático da localidade de Cavalinho, foi estendido o farnel e cada um alambazou-se com o que quis, desde que quisesse: pão, borrachões e bolacha do deserto (de Aldeia do Bispo), enchidos vários, paté de atum e delícias do mar, queijo fresco, queijo de mistura, azeitonas carrasquenhas retalhadas, azeitonas cordovil marteladas e aromatizadas com orégãos e alho, frango frito, febras aux vin, pezinhos de coentrada, moelas, bacalhau aux punheta, rissóis, feijão frade, papas de carolo, empadas de galinha, tinto do Micaelo, verde branco do Zé Manel, verde tinto da tasquinha servido em malga branca. Mesa farta e variada, pois.

Petiscou-se devagar, com vagar. Já mais compostinhos, prosseguiu-se. O vagar está associado à “slow food” (que nos seja perdoado o anglicismo), mas também ao acto em si de conhecer o país enquanto se caminha… com vagar. Forçando a analogia, sabe-nos melhor, faz-nos melhor, o “slow knowledge” (em português equivalerá a apropriação lenta de saber, suave, preciosista), facilitado pelo caminhar com tempo para permitir que o olhar se detenha nos pormenores, imperceptíveis de outra forma. Ao longo do caminho, temos confirmado a tese: a diversidade deste país é uma das suas maiores riquezas, nos usos e nos costumes, no sotaque, na gastronomia, na cultura em geral, na orografia, na flora, na paisagem; na marcação e apropriação do território também, como foi confirmado nas imediações de Amarante, e que nos tornou a mostrar o peculiar conceito de rua destas paragens. Já havíamos conhecido a rua Marquês de Pombal, as suas cascatas e as suas 10 casas em 5 quilómetros; agora caminhamos pela rua Souto Chão que ao longo de mais de 1000 metros às vezes em terra, outras vezes calcetada, serve 2 edifícios decrépitos consideravelmente distanciados, até à rua do Bandoleiro, agora já em alcatrão, subitamente continuada pela rua do Pedregal em calçada, com delimitação bem marcada no chão. Perguntámos a uma autóctone e eis a explicação: cada rua pertence a sua localidade. As autoridades administrativas de Jazente entenderam diferente das autoridades administrativas de Pedronelo, pelo que, do portão da vivenda Belinha para cima, Jazente mandou colocar alcatrão, daí para baixo mandou Pedronelo colocar calçada. E assim se evidenciou quem manda aonde.

Pedronelo orgulha-se da fama que tem o pão que aí é fabricado. Na padaria, após alguma insistência no chamamento, a padeira assoma a uma janela:
- querem pão? cheguem ali e desandem aquela porta que eu já lá vou”.




Inteirando-se da nossa condição, e antes de saber a encomenda, a simpática pedronalense logo fez questão de oferecer 3 pãezinhos de quartos, atitude que os caminheiros acharam muito correcta, comprando-lhe 3 casqueiros dos grandes, em compensação.



A entrada em Amarante é feita, obviamente, pela ponte de S. Gonçalo. Reza a história que foi o próprio que tratou de reconstruir a velha ponte romana que constituía (e constitui) uma importante via de ligação entre o sul e o norte, em direcção a Guimarães, Braga e, naturalmente, Compostela. Embalado, terá mandado também erigir, junto à ponte, a ermida que haveria de ser transformada em Igreja com o seu nome. Pese embora Frei Gonçalo nunca tenha sido reconhecido como santo pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana, mas “apenas” como Beato, a verdade é que o povo, seguramente em consideração ao seu fervor (e dinâmica edificadora), tratou de o canonizar como tal, envolvendo-o em lendas e histórias que lhe atribuem feitos ímpares com as raparigas e não só. A cultura popular mais brejeira e brincalhona valia-se da capa protectora de S. Gonçalo para atacar preconceitos e tabus em tempos de repressão, única forma de contextualizar quadras como esta:

S. Gonçalo de Amarante
Casai-me que bem podeis
Já tenho teias de aranha
Naquilo que vós sabeis.

Havia feira de antiguidades no adro. Ainda antes do lauto almoço nas imediações do rio (o cardápio era o mesmo do pequeno almoço), os peregrinos fizeram questão de ir tocar o túmulo do santo padroeiro e, saudar o colega Santiago na capelinha lateral da Igreja.





Amarante é terra natal de ilustres figuras da literatura e das artes portuguesas. Amarantinos são Amadeu de Souza-Cardozo, Agustina Bessa Luís e Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos que preferiu ficar conhecido como Teixeira de Pascoaes. Das pesquisas efectuadas – pois, o Caminho, essa via de conhecer mais e mais devagar o país, inclui passear pelas referências locais, consolidámos a nossa simpatia pelo Pascoaes arauto do bucolismo da ruralidade, pré-ecologista, mas já não tanto pelo Pascoaes perdido nas teias do saudosismo, com as conotações imobilistas e excessivamente nostálgicas que ele parece ter querido dar ao conceito de saudade. Gostariamos, mas não o conseguimos, de ter ficado definitivamente esclarecidos sobre a disputa intelectual que ele travou com António Sérgio relativamente à exclusividade da saudade portuguesa, ideia que corre e vingou no imaginário apologético nacionalista. Dever-se-á, muito provavelmente ao contributo de Pascoaes, essa ideia que nos levaram a interiorizar de que o sentimento associado à saudade é excepcional nos portugueses e que mais nenhuma língua no mundo traduz com a mesma força tal sentimento. Sérgio terá chegado a ser indelicado com o amarantino desmontando essa genuidade e exclusividade, argumentando que a palavra existe com o mesmo significado em várias línguas, até em islandês, onde assume a forma de saknaor. Não sabia António Sérgio, não podia saber, que os islandeses quase um século depois haviam de cortar radical e definitivamente com um certo saknaorismo que os governava. Adiante.

O final de tarde e noite foi gasto pelos peregrinos entre tabernas, socializando com os autóctones disponíveis. Esta opção implicou um custo de oportunidade: escasseou o tempo para visitar o excelente museu Amadeu de Souza-Cardoso. Primeiro, foi a taberna do Rodrigo, pequeno e acolhedor entreposto de venda de variadíssimos enchidos e presuntos regionais, cujas paredes e mesas estavam forradas com papéis avulsos nos quais os clientes deixam mensagens, poemas e outros dizeres. Depois, foram os peregrinos buscar o reforço alimentar da noite na Taberna das Comadres, ali a dois passos do Tâmega, rebuscado com sopinha de feijão, couve esfarripada e batata ralada com garfo, ameijoa à moda das comadres, tripas à moda das comadres, “verde” (bifinhos de porco longamente alagados em vinha d’alho e pimenta e depois fritos em azeite), pastéis de bacalhau enrolados pelas comadres, pastelão (espécie de omolete), verde (vinho) branco e tinto a gosto (alguém contou meia dúzia de garrafas despejadas).

O anfitrião, homem afável, conversador, visual de baterista de banda de rock pesado com rabinho de cavalo e tudo, tratou-nos bem e terá gostado da nossa companhia. Se calhar por isso é que quando se lhe pediu um chá para “compor” o organismo, ele perguntou:
- É para compor? Então vão beber um chá especial, ofereço eu.
A cor era parecida com o chá de tília e carqueja misturados; os ingredientes é que derivavam para aguardente caseira envelhecida e embebendo uma cereja de Resende. 

Compostos, os peregrinos recolheram à Casa de Cultura e Juventude de Amarante, situada na margem esquerda do Tâmega, local que se recomenda a grupos não muito exigentes, com condições extraordinárias, mesmo em regime de quarto quádruplo com beliche, preço justo. Amanhã, Amarante – Felgueiras.