terça-feira, 5 de agosto de 2014

Diário de Caminhada - Etapas XX a XXIV - Tui - Compostela


“Da nossa casa a Santiago de Compostela”, etapas XX a XXIV.

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Conceição Branco, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, Zé Manel Machado.

Nota importante: a escrita que segue prescinde da referência a todo o vasto e rico património que ao peregrino é oferecido ao longo do caminho (é consultar os guias, se faz favor), privilegiando as impressões pessoais e pequenos pormenores sem interesse.

De Tui (com i e não com y, em galego) a Santiago vão 115 kms de distância. O plano, gizado por quem já é experiente, previa início e final de etapas em Redondela, Pontevedra, Caldas de Reis, Padrón e Santiago.


Etapa XX: Tui - Redondela
06 de Junho de 2014, sexta

Tui (05:40) – Redondela (15:20)
Percorrido: 34,6 Km
Tempo total: 09:40
Tempo parado: 01:58
Velocidade média: 4,6 Km/h


Às 05:40 caía uma moinha em Tui, a saída do albergue “o camiño” foi logo saudada por uma orquestra de chilreadores madrugadores, audível em quadrifonia. Antes do início oficial da caminhada foram os peregrinos investidos como tal pelo “pastor” Xoaquim Branco junto à mui antiga catedral de Tui. Até O Porriño o percurso é agradável quase sempre por entre frescos bosques de frondosos carvalhos, castanheiros, faias e amieiros, apesar da chuva intermitente. Passagem por um dos pontos de referência do Camiño neste trajecto: a ponte das Febres ou de S. Telmo, sobre o rio Louro, que ali teria sucumbido na sua peregrinação no medieval ano de 1251. À entrada d’O Porriño, desvio na rota tradicional com claras vantagens: em vez da caminhada sobressaltada em alcatrão ao longo da congestionada e extensa zona industrial, o percurso alternativo (devidamente homologado) cruza um verde e fresco parque que bordeja o rio Louro.


A primeira tirada, relativamente longa, concluiu-se no bar o Alpendre em Mos, onde o simpático Efren se mostrou bastante amistoso e eficaz a abrir garrafas de alvarinho e a tirar caricas às Estrela Galicia 1906.

Subidas e descidas, às vezes pronunciadas, até Redondela. O albergue funciona na Casa da Torre, um edifício do sec. XVI com uma arquitectura singular, e situa-se no centro da localidade, à beira de um dos riachos que descem das cercanias para um braço da ria de Vigo.


Em Redondela era fim de semana do Festival Milho Verde, um evento de música alternativa que incluía no programa as bandas lusas Blasted Mechanism e Triciclo Vivo. Não fosse o nosso compromisso de caminhar firmes e hirtos até Compostela, e estes peregrinos ter-se-iam juntado aos inúmeros adeptos das tranças rastafari e vestimentas nostalgicamente hippies. Cumpridores da disciplina dos albergues, escolheram, em alternativa, assistir e participar (alguns) no concerto de polifonia roncal que espontânea e improvisadamente se armou no albergue do edifício da Torre do sec. XVI.

Etapa XXI: Redondela - Pontevedra
07 de Junho de 2014, sábado

Redondela (06:43) – Pontevedra (12:20)
Percorrido: 19,3 Km
Tempo total: 05:37
Tempo parado: 01:20
Velocidade média: 4,3 Km/h

Reinício às 06:40 com destino à capital provincial Pontevedra. Após ligeira subida, o caminho oferece bonitas vistas sobre a ria de Vigo. Lá em baixo, algures, camuflados na luminosidade bassa das águas, estarão afundados os galeões espanhóis carregadinhos de ouro sulamericano que em 1702 foram afundados na batalha de Rande. A ponta da ria é atravessada na ponte Sampaio, romana na origem, subsiste traça medieval de 10 arcos. Assinale-se a coincidência: foi ali, naquele exacto local, faz hoje precisamente 205 anos, dia 07 de junho de 1809, que se travou a batalha da Muinheira, cuja vitória terá contribuído para a independência espanhola face às investidas do Bonaparte. Por fugazes instantes, alguns peregrinos quiseram render-se à ilusão de ainda ouvir os ecos longínquos do som suplicante de uma gaita de foles galega e a batida aflita de uma pandeireta.


A chegada prematura a Pontevedra obrigou a compasso de espera até à abertura do albergue. Instalações razoáveis, dispõe de serviço de lavandaria e secagem de roupa, valência muito oportuna para a reposição do stock. Após instalação, passeio pelo centro histórico de Pontevedra, com entrada pela famosa Porta do Caminho marcada no chão. A cidade apresenta-se limpa, exibe vasto património, espaços organizados de fruição pedonal, praças bonitas rodeadas de arcadas graníticas. Destaque para a capela da Peregrina, em forma de vieira. Antes de recolher, numa das praças, tempo para degustar a panóplia de pinchos sempre prontos a sair para acompanhar a Estrela Galicia 1906 Reserva Especial (nota máxima) e o Alvarinho branco (nada de especial). O albergue está cheio, ouvem-se linguajares de todo o mundo.







Etapa XXII: Pontevedra - Caldas de Reis
08 de Junho de 2014, domingo

Pontevedra (07:40) - Caldas de Reis (15:26)
Percorrido: 26,2 Km
Tempo total: 07:46
Tempo parado: 01:58
Velocidade média: 4,5 Km/h

O grupo ficou mais rico na madrugada de Pontevedra com (re)união - por razões que foram justificadas e aceites –  da Benvinda, Piedade e Fernando Gaspar. 



Início com chuva miudinha, tréguas durante cerca de uma hora, abriram-se os céus durante a seguinte, até San Amaro, onde nos esperava um abrigo com pequeno almoço e cassete acesa. A simpatia e o conforto foram retribuídos com cantorias e boa disposição em geral.


Continuámos em modo molhado durante um longo e cansativo percurso. 

A pouco mais de uma légua para Caldas, desvio ligeiro de cerca de 2 quilómetros para apreciar a cascata do rio Barosa. A água pula e escorre cristalina por entre enorme barrocos num sítio aprazível, propício ao relaxamento do corpo e da mente. Valeu a pena o desvio.


Em Caldas, os peregrinos conferiram a elevada temperatura das águas termais que brotam das bicas. Com as mãos. Um cartaz proibia expressamente mergulhar os pés. Devidamente instalados, lavados e perfumados, pequena volta turística pela vila com paragem demorada na ponte de Bermaña, a fazer companhia aos nossos urban sketchers.

Etapa XXIII: Caldas de Reis - Padrón
09 de Junho de 2014, segunda

Caldas de Reis (06:25) – Padrón (11:40)
Percorrido: 19 Km
Tempo total: 05:05
Tempo parado: 00:54
Velocidade média: 4,6 Km/h

Finalmente, uma etapa sem chuva e temperatura agradável para caminhar. Caminhada tranquila, pois, o espírito das tropas recomenda-se, o moral mantém-se em níveis elevados.

Passagem por Pontecessures e entrada em Padrón pela sombreada alameda del Espolón, colocada mesmo à beirinha do rio Sar, no sitio onde, afiançam os crentes nas antigas lendas, terá navegado e atracado a barca de pedra com os restos mortais do apóstolo Santiago trazida pelos seus discípulos Teodoro e Atanásio. Do outro lado do rio um monumento alusivo.

Não se pode passar em Padrón sem assinalar e tomar nota de duas referências associadas ao local. A primeira é gastronómica e, claro, são os pimentos del padrón, unos pican otros non. A sorte de calhar um picante bafeja apenas alguns, muito poucos, provavelmente só os que merecem. Houve quem se pusesse a trincar pimentos à bruta na mira de apanhar um picozinho na língua, mas nada, nem um.

A outra referência – que na verdade são duas - é literária e, obviamente, é Cela, Camilo José Cela, prémio Nobel da Literatura em 1989. Embora menos conhecida, Rosalia de Castro é igualmente figura maior na literatura galega, autora do “cantar da emigração” musicado pelo nosso Adriano (Este parte, aquele parte, e todos, todos se vão, Galiza ficas sem homens que possam cortar teu pão…).


Será digno de registo ainda, nesta nossa pernoita em Padrón, a empatia estabelecida com a galega, esquerdista e republicana Margarida no restaurante Ruta Xacobea e sua adolescente filha Dana, assim batizada em homenagem à mãe dos deuses celtas (supostamente cristianizada na figura de Santa Ana, mãe da Vigem Maria). Atendimento simpático, alegre, profissional e, dentro dos parâmetros orçamentais.

O albergue de Padrón situa-se logo ali pertinho da ponte, ao lado da Igreja do Carmo, é de uma só nave, beliches em madeira, 48 lugares, algo deficitário nos “asseos” (uma sanita e 2 duches conjuntos).

Etapa XXIV: Padrón - Compostela
10 de Junho de 2014, terça

Padrón (07:10) – Santiago de Compostela (16:40)
Percorrido: 24 Km
Tempo total: 05:05
Tempo parado: 00:54
Velocidade média: 4,6 Km/h

O dia amanhece com chuviscos miudinhos desmentindo a chica guapa que na TV Galícia anunciava dia de sol e calor. Mais tarde, havemos de constatar que a chica guapa estava bem informada porque sobretudo a partir de Teo, o sol despontou radioso, subsistindo apenas alguns farripos de nuvens baixas a tapar os cumes das serranias. A entrada em Santiago já se faria sob céu azul e temperatura de verão.

A partir de Padrón, parece que teremos de calcorrear o mesmo trajecto dos diligentes discípulos de Santiago Atanásio e Teodoro na sua missão de encontrar um local para depositarem a relíquia que eram os restos mortais do apóstolo mata-mouros. Passagem e vénia na casa de Camilo José Cela, pela romana Iria Flavia, caminhada tranquila e bem disposta inspirada pelo cheiro a Compostela. Em Esclavitud, paragem (já mais ou menos tradicional) para um chupito de hierbas.

Em Milladoiro, reforço alimentar na Casa da Cultura, servidos por duas señoritas, uma da Venezuela, outra de Colômbia. Ao longe, já se vislumbram as pontas superiores das torres da catedral. Caminhada decidida em direcção à Ponte Velha sobre o Sar, variante de Conxo por entre as matas arrabaldes de Compostela, entrada triunfal pela Porta Faxeira direitinhos sem vacilar à Praça do Obradoiro. Eis-nos, por Santiago, 540 quilómetros depois, vaidosos e orgulhosos.








terça-feira, 17 de junho de 2014

Diário de Caminhada - Etapa XIX: Rubiães - Tui

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XIX: Rubiães - Tui
13 de Abril de 2014, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Rubiães: 07:50 horas
Chegada a Tui: 15:40 horas
Distância percorrida: 20 km
Tempo total de caminhada: 06:50 horas
Tempo parado: 01:43 horas
Velocidade média: 4,3 Km/h


Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Ponte romana sobre o Coura (Rubiães), Igreja de S. Bento, Gontomil, Fontoura, Paços, ponte romana da Pedreira, Arão, Praça-Forte de Valença, Ponte Internacional de Valença-Tui, embarcadouro de Tui, Catedral de Tui.


Acumulado:
Caminho: 439,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva, Lima/Labruja, Coura, Minho.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga; Viana do Castelo.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde, Ponte de Lima, Paredes de Coura, Valença. Galiza.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track AQUI)

Despedida do albergue de Rubiães às 07:50, em direcção à ponte romana sobre o rio Coura. Daqui, em bom ritmo até S. Bento. Continua-se por entre verdes prados, bosques frondosos e riachos cantantes. Cruzamos Gontomil, Fontoura, Paços, a romana ponte pedreira, Arão, rumo a Valença do Minho. 
É visível e notório o aumento da densidade de peregrinos. Para além das nossas já conhecidas alemã, mexicana e sempre sorridentes jovens de Resende, foi estabelecido contacto com muitos outros. Destaque para o casal de americanos da Virgínia, que iniciaram no Porto, o italiano, figura esguia e já bem entradote que há pouco mais de um mês partira de Santarém, e, uma especial referência às duas gaulesas que na nossa rectaguarda, acharam o que tinha sido perdido pelo Inserme. Num pedaço do troço em bosque, saltaram da bolsinha presa ao cinto, sem ele lhes ter dado autorização, o telemóvel, uma carteirinha com o cartão de cidadão, cartão multibanco e 2 notas de 20.  Dando-se conta da falta, logo emergiu o espírito solidário e alguns peregrinos acompanharam-no a refazer o caminho em sentido contrário, olhos postos no chão, atentos. Foi breve, muito breve, a demanda, pois já as duas simpáticas senhoras gaulesas vinham a descer agitando os braços na ponta dos quais estavam seguros um telemóvel e a carteirinha. Inserme ainda se ofereceu, en français, bien sur,  para lhes pagar um verdinho tinto em malga branca. Elas aceitaram apenas os agradecimentos.


Valença do Minho ocupa uma posição estratégica. Basta analisar o mapa do Minho e da Galiza para se perceber que teria de se ali a passagem entre uma e outra região. A ponte internacional foi inaugurada em 1886, dando cabo do negócio dos barqueiros que asseguravam a travessia do rio Minho, mas abrindo um oceano de oportunidades aos comerciantes de atoalhados. Naturalmente, o caminho tem passagem obrigatória pelo local do antig0 embarcadouro, utilizado durante séculos pelos peregrinos vindos de sul.
Antes porém, fizeram estes peregrinos questão de subir à cidadela abaluartada de Valença, o maior atractivo turístico da cidade, com entrada mais ou menos triunfal pela Porta da Coroada. Na sua configuração actual, muito bem conservada, abone-se, esta praça-forte terá sido iniciada sobre a estrutura primitiva medieval, na época da Restauração de 1640, contribuindo, também ela, para travar a construção da Ibéria. Não terá sido suficiente, todavia, reza a história, para travar o general Soult comandante da segunda invasão napoleónica.

A zona histórica da cidade, sobretudo no interior da segunda fortaleza fervilha de actividade comercial, seguramente sustentada pela procura galega, com as estreitas ruas pejadas de pequenas lojas atafulhadas sobretudo de roupas e os tão apreciados atoalhados pelos nossos irmãos ibéricos. Saudação discreta a S. Teotónio, junto à capela do Bom Jesus, o primeiro português a ser canonizado pela Igreja Católica Apostólica Romana. Numa leitura mais ou menos política, foi avançada a tese, obviamente espontânea e não fundamentada, de que terá dado jeito ao nosso primeiro Afonso que o seu amigo e aliado Teotónio tenha sido canonizado logo em 1163, um ano após a sua morte. Conseguimos imaginá-lo, inchado de orgulho, a exibir tal troféu à progenitora Teresa e seus amigos galegos, prova maior da sua imparável influência no Vaticano, rumo à consolidação da independência lusa.



Lá em baixo, o rio Minho, e, à distância de um tiro de canhão, a mui nobre e antiga vila de Tui. A ponte é atravessada por passadiço lateral, facilitando a admiração do vale do rio minho que divide as terras galegas e portuguesas.

A etapa termina após ligeira subida por algumas ruas estreitas na bem conservada zona histórica de Tui, à porta da catedral de Tui. Breve visita à mesma para apreciação do trabalhado pórtico principal, e interior onde, entre muitos motivos de deleite, sobressai o vistoso órgão de tubos. Que som celestial dele se extrairá!



Faltam 115 km. 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Diário de Caminhada - ETAPA XVIII: Ponte de Lima - Rubiães


“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XVIII: Ponte de Lima- Rubiães
12 de Abril de 2014, sábado

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Ponte de Lima: 07:30 horas
Chegada a Rubiães: 13:35 horas
Distância percorrida: 18 km
Tempo total de caminhada: 06:00 horas
Tempo parado: 01:16 horas
Velocidade média: 4,2 Km/h


Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Ponte de Lima, Ponte de Giães (sobre o rio Labruja), Ermida da Senhora das Neves, Fonte das 3 bicas, serra da Labruja, Cruz dos Franceses, Portela da Labruja, Igreja de S. Pedro de Rubiães .


Acumulado:
Caminho: 419,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva, Lima/Labruja, Coura.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga; Viana do Castelo.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde, Ponte de Lima, Paredes de Coura.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track AQUI)

O dia amanheceu fresquinho mas solarengo. O Lima corria um pouco menos impetuoso do que no final de Janeiro, quando concluímos a etapa nº 17, permitindo a dois pescadores a navegação tranquila, supostamente, foi aventado, à cata de lampreia. 

Confirmado de um lado e de outro, conferiram-se os arcos da velhinha ponte romano-gótica em número de 22. Passagem obrigatória pelo albergue, viragem à direita em direcção ao trabalhado portão da quinta do Sabadão. Logo se começou a pressentir que deixámos de estar sós a fazer o Caminho. Ponte de Lima fica na confluência do caminho central e do caminho interior na variante Camino Torres (o “nosso” caminho desde Trancoso), bem como é ponto de partida para inúmeros peregrinos. Haveríamos de estabelecer contacto com um casal de jovens italianos, uma mexicana e outra alemã ambas na casa dos 50, um casal de americanos, duas francesas, mais um italiano, mais um alemão, um venezuelano, fora os portugueses com destaque para as companheiras de albergue, as simpáticas e sorridentes jovens Sofia e Anabela de Resende.


O rio Labruja, afluente do Lima, acompanha-nos durante alguns quilómetros, com destino oposto ao nosso, oferecendo a sua partitura musical e alguns recantos e cascatas agradáveis à vista e às máquinas fotográficas.



Em Codeçal, junto à ermida da Senhora das Neves, um café, o último até Rubiães. Solicitada a devida autorização, foram 3 mesas encostadas à parede ensombrada da ermida sobre as quais se estenderam os farnéis. Para registo histórico, eis o cardápio das etapas XVIII e XIX:

Febras palitadas com picles, salada de polvo, omolete de farinheira, chouriça, morcela, bolinhas de carne com farinheira, ovos verdes, pastéis de bacalhau, pastéis de legumes, rissóis de camarão, vigaristas, bolacha do deserto, borrachões, bolinhos de côco, uvas, laranjas maçãs, ananaz
  
Na pequena esplanada do café posavam ao sol duas senhoras que caminhavam juntas, uma mexicana a outra alemã. À vista do variado farnel, quiseram saber se tínhamos cozinhado tudo aquilo antes de partir. Os peregrinos fizeram juz à hospitalidade e simpatia portuguesas e chamaram-nas a partilhar a degustação, e elas, não menos simpaticamente, aceitaram os ovos verdes, pastéis, borrachões e demais iguarias. Haveriam de pernoitar, como nós no albergue de Rubiães, e haveríamos de as encontrar por diversas vezes ao longo das duas etapas até Tui, ao ponto de numa das tasquinhas para reforço de verde tinto em malga branca, uma delas, se despedir: “adeus, até ao próximo café”.

O troço prossegue por entre verdes minhotos, prados viçosos, vinhas já a despontar, floresta frondosa de árvores muito empinadas, com vistas para a Matriz de Labruja e para o Mosteiro do Senhor do Socorro. 




Na fonte das 3 bicas, breve paragem para reposição cautelar de stock de líquidos, informados do que aí vinha: a subida da Labruja. Troço agradável, duro qb, quase a exasperar a Guida, justificando palavras de incentivo e até um empurrãozinho. Pausa na Cruz dos Franceses, uma espécie de ex-libris do Caminho, local que pretende assinalar uma escaramuça ocorrida no final da segunda invasão francesa, que o marechal Soult conduziu pelo norte. A coisa não lhe correu bem, como se sabe, tendo sido obrigado a fugir também pela Galiza e, terá sido ali quase no cimo da Labruja que alguns soldados napoleónicos em fuga foram tragicamente impedidos de regressar à Gália.






O local está pejado de pequenas pedras que milhares de peregrinos vão deixando, uns para expiar os seus pecados, outros apenas para assinalarem a sua passagem. O nosso Carlos Matos, veterano sabido e experiente, ia preparado com uma caneta apropriada, de tinta resistente à água, com a qual alguns peregrinos escreveram o seu nome nas pedrinhas.

A Portela da Labruja marca a passagem da bacia hidrográfica do Lima para a do Coura. A descida faz-se descontraída na expectativa da chegada breve a Rubiães. O mapa indicava a proximidade de Romarigães e da Casa Grande que o mestre Aquilino elegeu como cenário central da sua obra prima literária. A vontade de a visitar ficou desde logo gorada com a informação de que o edifício estaria em adiantado estado de degradação, não justificando o desvio. Que pena. Senhores autarcas de Paredes de Coura, shame on you! (perdoe-se-nos o british desabafo). No final da descida, na área de Agualonga, um empreendedor percebeu o filão oferecido pelo Caminho e montou uma tienda numa roulotte, onde reencontrámos o casal de jovens italianos.

Já se avista a Igreja de S. Pedro de Rubiães onde os nossos urban sketchers Paula, Matos e Micaelo haveriam de passar duas horas na contemplação e a passar ao caderno gráfico.

Nas imediações do albergue de Rubiães, vão surgindo placas anunciadoras e publicitárias de unidades de alojamento alternativas, sinal de que o Caminho mexe e justifica certos investimentos.

Finalmente, o albergue, adaptado de uma antiga escola primária. O senhor Presidente da Junta esperava-nos para nos registar no livro, nome, número da caderneta de peregrino, origem. Mais tarde, haveríamos de o espreitar, para constatar: a) a média diária do mês de Abril era de cerca de 30 peregrinos; b) a esmagadora maioria eram estrangeiros; c) destes, a maioria era oriunda da Europa, sobretudo do norte, mas também havia registos de gente de latitudes tão distantes como o Japão, a Venezuela ou o Brasil; d) somos os pioneiros oriundos de Castelo Branco.


Após o revigorante duche, a tarde foi gasta na troca de ideias sobre o país e o mundo. O jantar teve a leveza à vontade de cada um. A noite teve como único putativo motivo de reportagem o facto de Zé Manel ter tombado do leito quando se esticava para ver o video do Vitinho que estava a ser projectado no tecto.
Amanhã, conquistaremos Tui.


terça-feira, 8 de abril de 2014

INSTANTÂNEOS - X

Como é habitual, o peregrino Carlos Matos acumula essa condição com repórter fotográfico e urban sketcher sempre que a circunstância o inspira, o que sucede amiúde. Enquanto uns tratavam do local de reforço alimentar correspondente ao período de almoço, e outros contavam os arcos da ponte sobre o Lima, ele sacou do seu caderno gráfico, do seu lápis de carvão e da sua caneta especial que pinta com qualquer coisa até com vinho tinto verde, e sentou-se a esboçar o quadro patrimonial junto à velha ponte, mesmo por baixo de uma bonita e florida camélia que por estas bandas é designada por japoneira.

Como é igualmente habitual, os seus companheiros peregrinos, brincalhões, insistem sempre em ajudar a compor o cenário depositando algumas moedas (às vezes até notas) no chão, para dar aquele ar moderno de artista de rua.

Dona Conceição, minhota convicta, cordão de ouro à volta do pescoço como pertence (parece que a Sharon Stone se andou recentemente a exibir em LA com uma réplica), 70 e alguns anos, viúva há mais de 20, paciente de artroses várias, prótese na perna direita, aproximou-se com a ajuda de uma muleta e veio postar-se ao lado do Matos, entre a necessidade de descanso e a curiosidade.

Ainda antes de deitar o olho aos rabiscos artísticos do Matos, reparou nas moedas aos seus pés e deixou escapar, espontânea (leia-se com entoação e sotaque minhoto carregado):
- oh! qui caralho, nasce dinheiro debaixo da japoneira!



Diário de Caminhada - ETAPA XVII: Goães - Ponte de Lima

Diário de Caminhada - ETAPA XVII: Goães – Ponte de Lima

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XVII: Goães – Ponte de Lima
26 de Janeiro de 2014, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Goães: 08:20 horas
Chegada a Ponte de Lima: 13:30 horas
Distância percorrida: 16,5 km
Tempo total de caminhada: 05:10 horas
Tempo parado: 01:00 horas
Velocidade média: 4,3 Km/h


Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Goães, Ponte Pedrinha (sobre o Neiva), Casas Novas, Queijada, Ponte de Lima.


Acumulado:
Caminho: 401,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva, Lima.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga; Viana do Castelo.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde, Ponte de Lima.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)


Toque de alvorada às sete. As tropas apresentam-se com o moral elevado. Está fresco mas não chove, a visibilidade é de mais de 10 quilómetros. Tudo arrumadinho, as chaves do albergue foram dissimuladas no sítio combinado, foto para memória futura, e ala vereda abaixo pela medieval ponte pedrinha sobre o rio Neiva. Logo ali se percebeu que o Minho, mascarado desde a Lixa, estava de volta. Finalmente, o Minho antigo, o Minho das fotografias: paisagem campestre, prados verdes, floresta frondosa, veredas estreitas, riachos de águas rápidas. A água brota por todo o lado, boicotando o caminho. Os peregrinos agradecem, é deste caminho de pedras desordenadas que eles gostam, é esta banda sonora composta pela água corrente e pelo vento sibilante que eles apreciam. Alegremente enlameiam as botas, dançam pelo caminho feito ribeira, saltitando sobre pedras e tufos de erva, cruzam “pomares” de choupos altos, muito empinados e alinhados.









Portugal está pejado de localidades com nomes curiosos, podendo incluir-se na lista “angulo 40”, assim mesmo em numeral, pertencente à freguesia de Goães. Passagem por Casas Novas, pequeno-almoço em Queijadas, com a mesa habitual (ver cardápio na etapa XVI). As setas amarelas guiaram-nos até Fornelos, onde houve lugar a reforço de malguinha de verde tinto e branco, logo após cruzarmos a A3 por baixo. A entrada em Ponte de Lima faz-se ao lado do campo de golfe. Saudação a D. Teresa, progenitora do nosso primeiro Afonso.
Fim de etapa junto à matriz, 13 horas.

Tempo para desfrutar, ainda que ao de leve, das belezas arquitectónicas de Ponte de Lima, a primeira vila portuguesa, com foral da nossa avó D. Teresa, nos idos de 1125. A vila abarrotava de gente concentrada na famosa ponte e imediações a mirar o rio, a apreciar as admiráveis esculturas em homenagem aos trabalhadores do campo e ao folclore, ou a tirar fotos agarrados aos cornos da vaca das cordas, enfim a admirar o rico património desta tão ilustre e antiga urbe. Neste fim de semana, acumulava a categoria de antiga com a de vila dos namorados: era dia de feira na Expolima, uma nova edição de qualquer coisa parecida com “Verde Noivos” dedicada ao negócio do santo sacramento do matrimónio, o que, parece, a nenhum peregrino interessou.




Almoço farto e bem regado com o inevitável verde, viagem tranquila rumo a sul até à cidade albicastrense, satisfeitos por mais uma agradável jornada. Na próxima, queremos conferir as águas do rio Minho em Valença.