sábado, 20 de setembro de 2014
domingo, 14 de setembro de 2014
Da nossa porta a Santiago - Impressões I - Peregrinos
Já terá sido produzida basta literatura sobre as motivações de quem se mete ao caminho. Das várias obras folheadas sobre o assunto, destaque para a tese de mestrado em Antropologia Social e Cultural de Ana Catarina Mendes "Peregrinos a Santiago de Compostela: Uma Etnografia do Caminho Português", 2009. Se houver vagar, havemos de ensaiar uma revisão mais aprofundada, quanto mais não seja para ajudar a compreender melhor as nossas próprias motivações. Sim, porque continua por encontrar a resposta definitiva: porque fizemos o caminho?
Entretanto, uma breve passagem por algumas das personagens que fomos encontrando nesta nossa "turigrinação".
De Castelo Branco a Ponte de
Lima, caminhámos “sós”: nenhum peregrino nos ultrapassou, nenhum se deixou
ultrapassar. O cenário alterou-se substancialmente a partir da vila mais antiga
de Portugal, ponto de partida para muitos, mas sobretudo local de confluência do
caminho principal e da variante do caminho interior que coincide com o camiño
Torres.
Ainda na ponte sobre o Lima, já
um casal de jovens italianos se fazia notar, “apanhados” mais à frente debruçados
sobre a Bíblia. No início do troço da Labruja, partilhámos o farnel com uma
mexicana e uma alemã que viajavam juntas. No albergue de Rubiães, demos com um
jovem venezuelano que se divertia a acompanhar cantigas anti-chavistas no telemóvel; o
francês carrancudo que decidiu passar para albergue privado, incomodado com o
barulho dos nossos duches das 16 horas; as duas jovens simpáticas de Resende,
manifestamente em dificuldades quando as reencontrámos em Valença mas
determinadas a atingir Compostela na sexta feira santa. Mais tarde, ainda em
território nacional, haveríamos de estabelecer contacto com o casal de
americanos da Virgínia que partira do Porto, com as duas simpáticas madames francesas
que nos devolveram o telemóvel perdido na floresta, com o esguio sexagenário italiano
que caminhava sozinho desde Santarém.
A partir de Tui, e se calhar
porque era Junho, o pequeno exército de peregrinos transformou-se em legião.
Dois destaques: a nossa amiga Renata, trinta e poucos, crudívora assumida. Quando a conhecemos à
entrada do albergue de Pontevedra, já exibia no curriculum o caminho francês e
o troço Compostela a Finisterra. Insatisfeita, fez-se transportar até ao Porto
para aí iniciar o caminho português. Tudo de seguida, sempre sozinha. Foi a
húngara mais valente que alguma vez encontrámos.
O segundo destaque vai para os nossos compadres latinos, extrovertidos, barulhentos, simpáticos puertoriquenhos (mas a residir na grande maçã). Um saludo especial para o volumoso peregrino, veterinário de profissão, que caminhava compassada mas destemidamente com a sua septuagenária progenitora.
O segundo destaque vai para os nossos compadres latinos, extrovertidos, barulhentos, simpáticos puertoriquenhos (mas a residir na grande maçã). Um saludo especial para o volumoso peregrino, veterinário de profissão, que caminhava compassada mas destemidamente com a sua septuagenária progenitora.
Os súbditos especiais da Casa Branca, parece que se organizaram em
vários grupos com partidas do Porriño em tempos diferentes. Ter-se-ão reunido
em Compostela e, a expensas suas, financiaram uma sessão especial de bota
fumeiro na catedral, numa terça feira. E nós assistimos, bem hajam eles pela
oportunidade, e também pelas várias Estrela Galícia com que fizeram questão de
nos brindar por diversas vezes, seguramente para compensar a nossa natural boa
disposição e simpatia.
A riqueza que se esconde nos
contactos que o caminho proporciona aumentou consideravelmente quando deparámos com as duas “torres” alemãs
que já haviam cumprido o caminho francês a puxar um funcional atrelado cada um, e que já
rumavam a sul com ideia de atingir Fátima.
Cruzámos os passos ainda com 3
polícias aposentados admiradores de Frau Merkel que, descomprometidos e folgados à
conta da reforma choruda, já tinham conquistado a categoria de veteranos na
vida e nos caminhos de Santiago.
Finalmente, já de mochila à costas para sair da praça do Obradoiro em direcção ao autocarro que nos traria para casa, eis que metemos conversa com um compatriota (exibia a bandeira nacional pendurada na mochila). Caminhara desde Orense com a esposa, a filha e o genro e... era natural da Benquerença, concelho de Penamacor, um quase patrício.
O caminho também é esta miríade de encontros, da Hungria a Penamacor, dando a volta por Porto Rico e demais longitudes.
Finalmente, já de mochila à costas para sair da praça do Obradoiro em direcção ao autocarro que nos traria para casa, eis que metemos conversa com um compatriota (exibia a bandeira nacional pendurada na mochila). Caminhara desde Orense com a esposa, a filha e o genro e... era natural da Benquerença, concelho de Penamacor, um quase patrício.
O caminho também é esta miríade de encontros, da Hungria a Penamacor, dando a volta por Porto Rico e demais longitudes.
sábado, 16 de agosto de 2014
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
INSTANTÂNEOS - XI

Se existe coisa banal na actividade peregrina é o aparecimento de bolhas nos pés, que é como quem diz, de borregas, na gíria popular. À partida, era espectável que elas surgissem, considerando as longas caminhadas e os muitos pisos irregulares. Todavia, mercê dos conselhos profilácticos dos companheiros enfermeiros, foram raros os episódios ao longo dos mais de 500 quilómetros desta longa jornada. Mas aconteceu.
Foi por alturas da ponte Sampaio,
mais ou menos a meio da etapa que terminaria em Pontevedra que Inserme reportou
que sentia uma areia permanente na planta do pé. Como “no hay glória sin
dolor”, aguentou-se até ao fim da etapa sem mais queixinhas. Já instalados no albergue,
convocou o conselho científico dos profissionais de saúde que se debruçaram
atentamente sobre a situação e rapidamente se consensualizaram no diagnóstico: estávamos
perante uma infecção vesiculosa e pruriente da pele, também classificado como
eczema ou dermatite disidrótica, juntinho ao terceiro pododáctilo. Traduzido
para leigos: uma borrega. A terapia também não oferecia qualquer celeuma, a
mesma já aplicada e testada noutras situações similares com resultados satisfatórios.
Micaelo saca do kit, calça as
luvas lilases, expõe a agulha, a linha preta, o algodão, as compressas, o
frasquinho do líquido roxo, etc. Nesta altura, já o cenário contava com vários
mirones que apreciavam a cena entre o divertido e o curioso, tecendo
considerações e comentários em várias línguas, quiçá elaborando orçamentos. Impávido
e sereno, Micaelo enfiou a linha preta no buraco da agulha e, delicada e cuidadosamente,
fê-la passar de um lado ao outro da bolha. De seguida, com os dedos pressionou
levemente para expelir os fluidos e induzir a drenagem através da linha.
Embebeu uma noz de algodão no líquido roxo e pintou toda a área.
Preparava-se para finalizar com a
aplicação de uma compressa quando um peregrino a dar ares de alemão – viríamos
a saber que era Checo – fez questão de dar o seu contributo. Exibia um pedaço
de esponja dos sofás e, num inglês meio arrevezado foi manifestando a sua
desconfiança quanto à eficácia do método de tratamento utilizado pelo Micaelo, contrapondo
com a aplicação, simples, do pedaço de esponja sobre a bolha. A breve discussão
científica suscitada foi pacífica. Ficou registado o método alternativo, cuja
simplicidade poderia eventualmente vantajoso noutras circunstâncias. Com alguma
malícia, um dos peregrinos enfermeiro propôs logo que se lhe atribuísse um
nome: o método do estofador.
Inserme, o paciente, esse ficou
como novo, prontinho para chegar a Compostela sem areia alguma na planta do pé.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Diário de Caminhada - Etapas XX a XXIV - Tui - Compostela
“Da nossa casa a Santiago de Compostela”, etapas XX a XXIV.
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Conceição
Branco, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Jaime Matos, Joaquim
Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, Zé Manel Machado.
Nota importante: a escrita que
segue prescinde da referência a todo o vasto e rico património que ao peregrino
é oferecido ao longo do caminho (é consultar os guias, se faz favor),
privilegiando as impressões pessoais e pequenos pormenores sem interesse.
De Tui (com i e não com y, em galego) a Santiago vão 115 kms de distância. O plano, gizado por quem já é experiente, previa início e final de etapas em Redondela, Pontevedra, Caldas de Reis, Padrón e Santiago.
Etapa XX: Tui - Redondela
06 de Junho de 2014, sexta
Tui (05:40) – Redondela (15:20)
Percorrido: 34,6 Km
Tempo total: 09:40
Tempo parado: 01:58
Velocidade média: 4,6 Km/h
Às 05:40 caía uma moinha em Tui, a
saída do albergue “o camiño” foi logo saudada por uma orquestra de chilreadores
madrugadores, audível em quadrifonia. Antes do início oficial da caminhada
foram os peregrinos investidos como tal pelo “pastor” Xoaquim Branco junto à
mui antiga catedral de Tui. Até O Porriño o percurso é agradável quase sempre
por entre frescos bosques de frondosos carvalhos, castanheiros, faias e amieiros,
apesar da chuva intermitente. Passagem por um dos pontos de referência do
Camiño neste trajecto: a ponte das Febres ou de S. Telmo, sobre o rio Louro,
que ali teria sucumbido na sua peregrinação no medieval ano de 1251. À entrada
d’O Porriño, desvio na rota tradicional com claras vantagens: em vez da
caminhada sobressaltada em alcatrão ao longo da congestionada e extensa zona
industrial, o percurso alternativo (devidamente homologado) cruza um verde e fresco
parque que bordeja o rio Louro.
A primeira tirada, relativamente
longa, concluiu-se no bar o Alpendre em Mos, onde o simpático Efren se mostrou
bastante amistoso e eficaz a abrir garrafas de alvarinho e a tirar caricas às
Estrela Galicia 1906.
Subidas e descidas, às vezes
pronunciadas, até Redondela. O albergue funciona na Casa da Torre, um edifício
do sec. XVI com uma arquitectura singular, e situa-se no centro da localidade,
à beira de um dos riachos que descem das cercanias para um braço da ria de Vigo.
Em Redondela era fim de semana do
Festival Milho Verde, um evento de música alternativa que incluía no programa
as bandas lusas Blasted Mechanism e Triciclo Vivo. Não fosse o nosso
compromisso de caminhar firmes e hirtos até Compostela, e estes peregrinos ter-se-iam
juntado aos inúmeros adeptos das tranças rastafari e vestimentas
nostalgicamente hippies. Cumpridores da disciplina dos albergues, escolheram,
em alternativa, assistir e participar (alguns) no concerto de polifonia roncal
que espontânea e improvisadamente se armou no albergue do edifício da Torre do
sec. XVI.
Etapa XXI: Redondela - Pontevedra
07 de Junho de 2014, sábado
Redondela (06:43) – Pontevedra
(12:20)
Percorrido: 19,3 Km
Tempo total: 05:37
Tempo parado: 01:20
Velocidade média: 4,3 Km/h
Reinício às 06:40 com destino à
capital provincial Pontevedra. Após ligeira subida, o caminho oferece
bonitas vistas sobre a ria de Vigo. Lá em baixo, algures, camuflados na
luminosidade bassa das águas, estarão afundados os galeões espanhóis carregadinhos
de ouro sulamericano que em 1702 foram afundados na batalha de Rande. A ponta
da ria é atravessada na ponte Sampaio, romana na origem, subsiste traça
medieval de 10 arcos. Assinale-se a coincidência: foi ali, naquele exacto
local, faz hoje precisamente 205 anos, dia 07 de junho de 1809, que se travou a
batalha da Muinheira, cuja vitória terá contribuído para a independência
espanhola face às investidas do Bonaparte. Por fugazes instantes, alguns peregrinos
quiseram render-se à ilusão de ainda ouvir os ecos longínquos do som suplicante
de uma gaita de foles galega e a batida aflita de uma pandeireta.
A chegada prematura a Pontevedra obrigou
a compasso de espera até à abertura do albergue. Instalações razoáveis, dispõe
de serviço de lavandaria e secagem de roupa, valência muito oportuna para a
reposição do stock. Após instalação, passeio pelo centro histórico de
Pontevedra, com entrada pela famosa Porta do Caminho marcada no chão. A cidade apresenta-se
limpa, exibe vasto património, espaços organizados de fruição pedonal, praças
bonitas rodeadas de arcadas graníticas. Destaque para a capela da Peregrina, em
forma de vieira. Antes de recolher, numa das praças, tempo para degustar a
panóplia de pinchos sempre prontos a sair para acompanhar a Estrela Galicia 1906
Reserva Especial (nota máxima) e o Alvarinho branco (nada de especial). O albergue
está cheio, ouvem-se linguajares de todo o mundo.
Etapa XXII: Pontevedra - Caldas de Reis
08 de Junho de 2014, domingo
Pontevedra (07:40) - Caldas de
Reis (15:26)
Percorrido: 26,2 Km
Tempo total: 07:46
Tempo parado: 01:58
Velocidade média: 4,5 Km/h
O grupo ficou mais rico na
madrugada de Pontevedra com (re)união - por razões que foram justificadas e
aceites – da Benvinda, Piedade e
Fernando Gaspar.
Início com chuva miudinha, tréguas durante cerca de uma hora, abriram-se os céus durante a seguinte, até San Amaro, onde nos esperava um abrigo com pequeno almoço e cassete acesa. A simpatia e o conforto foram retribuídos com cantorias e boa disposição em geral.
Continuámos em modo molhado durante um longo e cansativo percurso.
A pouco mais de uma légua para Caldas, desvio ligeiro de cerca de 2 quilómetros para apreciar a cascata do rio Barosa. A água pula e escorre cristalina por entre enorme barrocos num sítio aprazível, propício ao relaxamento do corpo e da mente. Valeu a pena o desvio.
A pouco mais de uma légua para Caldas, desvio ligeiro de cerca de 2 quilómetros para apreciar a cascata do rio Barosa. A água pula e escorre cristalina por entre enorme barrocos num sítio aprazível, propício ao relaxamento do corpo e da mente. Valeu a pena o desvio.
Em Caldas, os peregrinos
conferiram a elevada temperatura das águas termais que brotam das bicas. Com as
mãos. Um cartaz proibia expressamente mergulhar os pés. Devidamente instalados,
lavados e perfumados, pequena volta turística pela vila com paragem demorada na
ponte de Bermaña, a fazer companhia aos nossos urban sketchers.
Etapa XXIII: Caldas de Reis - Padrón
09 de Junho de 2014, segunda
Caldas de Reis (06:25) – Padrón
(11:40)
Percorrido: 19 Km
Tempo total: 05:05
Tempo parado: 00:54
Velocidade média: 4,6 Km/h
Finalmente, uma etapa sem chuva e
temperatura agradável para caminhar. Caminhada tranquila, pois, o espírito das
tropas recomenda-se, o moral mantém-se em níveis elevados.
Passagem por Pontecessures e
entrada em Padrón pela sombreada alameda del Espolón, colocada mesmo à beirinha
do rio Sar, no sitio onde, afiançam os crentes nas antigas lendas, terá
navegado e atracado a barca de pedra com os restos mortais do apóstolo Santiago
trazida pelos seus discípulos Teodoro e Atanásio. Do outro lado do rio um
monumento alusivo.
Não se pode passar em Padrón sem assinalar
e tomar nota de duas referências associadas ao local. A primeira é gastronómica
e, claro, são os pimentos del padrón,
unos pican otros non. A sorte de calhar um picante bafeja apenas alguns,
muito poucos, provavelmente só os que merecem. Houve quem se pusesse a trincar
pimentos à bruta na mira de apanhar um picozinho na língua, mas nada, nem um.
A outra referência – que na
verdade são duas - é literária e, obviamente, é Cela, Camilo José Cela, prémio
Nobel da Literatura em 1989. Embora menos conhecida, Rosalia de Castro é
igualmente figura maior na literatura galega, autora do “cantar da emigração”
musicado pelo nosso Adriano (Este parte, aquele parte, e todos, todos se vão,
Galiza ficas sem homens que possam cortar teu pão…).
Será digno de registo ainda,
nesta nossa pernoita em Padrón, a empatia estabelecida com a galega,
esquerdista e republicana Margarida no restaurante Ruta Xacobea e sua
adolescente filha Dana, assim batizada em homenagem à mãe dos deuses celtas
(supostamente cristianizada na figura de Santa Ana, mãe da Vigem Maria).
Atendimento simpático, alegre, profissional e, dentro dos parâmetros
orçamentais.
O albergue de Padrón situa-se
logo ali pertinho da ponte, ao lado da Igreja do Carmo, é de uma só nave,
beliches em madeira, 48 lugares, algo deficitário nos “asseos” (uma sanita e 2
duches conjuntos).
Etapa XXIV: Padrón - Compostela
10 de Junho de 2014, terça
Padrón (07:10) – Santiago de
Compostela (16:40)
Percorrido: 24 Km
Tempo total: 05:05
Tempo parado: 00:54
Velocidade média: 4,6 Km/h
O dia amanhece com chuviscos miudinhos
desmentindo a chica guapa que na TV Galícia anunciava dia de sol e calor. Mais
tarde, havemos de constatar que a chica guapa estava bem informada porque sobretudo
a partir de Teo, o sol despontou radioso, subsistindo apenas alguns farripos de nuvens baixas a tapar os
cumes das serranias. A entrada em Santiago já se faria sob céu azul e
temperatura de verão.
A partir de Padrón, parece que
teremos de calcorrear o mesmo trajecto dos diligentes discípulos de Santiago
Atanásio e Teodoro na sua missão de encontrar um local para depositarem a
relíquia que eram os restos mortais do apóstolo mata-mouros. Passagem e vénia
na casa de Camilo José Cela, pela romana Iria Flavia, caminhada tranquila e bem
disposta inspirada pelo cheiro a Compostela. Em Esclavitud, paragem (já mais ou
menos tradicional) para um chupito de hierbas.
Em Milladoiro, reforço alimentar
na Casa da Cultura, servidos por duas señoritas, uma da Venezuela, outra de
Colômbia. Ao longe, já se vislumbram as pontas superiores das torres da
catedral. Caminhada decidida em direcção à Ponte Velha sobre o Sar, variante de
Conxo por entre as matas arrabaldes de Compostela, entrada triunfal pela Porta
Faxeira direitinhos sem vacilar à Praça do Obradoiro. Eis-nos, por Santiago, 540 quilómetros depois, vaidosos e orgulhosos.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
terça-feira, 17 de junho de 2014
Diário de Caminhada - Etapa XIX: Rubiães - Tui
“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
Etapa XIX: Rubiães - Tui
13 de Abril de 2014, domingo
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.
Sinopse:
Inicio em Rubiães: 07:50 horas
Chegada a Tui: 15:40 horas
Distância percorrida: 20 km
Tempo total de caminhada: 06:50 horas
Tempo parado: 01:43 horas
Velocidade média: 4,3 Km/h
Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Ponte romana sobre o Coura (Rubiães), Igreja de S. Bento, Gontomil, Fontoura, Paços, ponte romana da Pedreira, Arão, Praça-Forte de Valença, Ponte Internacional de Valença-Tui, embarcadouro de Tui, Catedral de Tui.
Acumulado:
Caminho: 439,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva, Lima/Labruja, Coura, Minho.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga; Viana do Castelo.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde, Ponte de Lima, Paredes de Coura, Valença. Galiza.
Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track AQUI)
Despedida do albergue de
Rubiães às 07:50, em direcção à ponte romana sobre o rio Coura. Daqui, em bom
ritmo até S. Bento. Continua-se por entre verdes prados, bosques frondosos e
riachos cantantes. Cruzamos Gontomil, Fontoura, Paços, a romana ponte pedreira, Arão, rumo a Valença
do Minho.
É visível e notório o aumento da densidade de peregrinos. Para além
das nossas já conhecidas alemã, mexicana e sempre sorridentes jovens de
Resende, foi estabelecido contacto com muitos outros. Destaque para o casal de
americanos da Virgínia, que iniciaram no Porto, o italiano, figura esguia e já
bem entradote que há pouco mais de um mês partira de Santarém, e, uma especial
referência às duas gaulesas que na nossa rectaguarda, acharam o que tinha sido perdido
pelo Inserme. Num pedaço do troço em bosque, saltaram da bolsinha presa ao cinto,
sem ele lhes ter dado autorização, o telemóvel, uma carteirinha com o cartão de
cidadão, cartão multibanco e 2 notas de 20.
Dando-se conta da falta, logo emergiu o espírito solidário e alguns
peregrinos acompanharam-no a refazer o caminho em sentido contrário, olhos
postos no chão, atentos. Foi breve, muito breve, a demanda, pois já as duas
simpáticas senhoras gaulesas vinham a descer agitando os braços na ponta dos
quais estavam seguros um telemóvel e a carteirinha. Inserme ainda se ofereceu, en français, bien sur, para lhes pagar um verdinho tinto em malga
branca. Elas aceitaram apenas os agradecimentos.
Valença do Minho ocupa uma posição estratégica. Basta analisar o mapa do Minho e da Galiza para se perceber que teria de se ali a passagem entre uma e outra região. A ponte internacional foi inaugurada em 1886, dando cabo do negócio dos barqueiros que asseguravam a travessia do rio Minho, mas abrindo um oceano de oportunidades aos comerciantes de atoalhados. Naturalmente, o caminho tem passagem obrigatória pelo local do antig0 embarcadouro, utilizado durante séculos pelos peregrinos vindos de sul.
Antes porém, fizeram estes
peregrinos questão de subir à cidadela abaluartada de Valença, o maior atractivo
turístico da cidade, com entrada mais ou menos triunfal pela Porta da Coroada. Na
sua configuração actual, muito bem conservada, abone-se, esta praça-forte terá
sido iniciada sobre a estrutura primitiva medieval, na época da Restauração de
1640, contribuindo, também ela, para travar a construção da Ibéria. Não terá
sido suficiente, todavia, reza a história, para travar o general Soult
comandante da segunda invasão napoleónica.


A zona histórica da cidade,
sobretudo no interior da segunda fortaleza fervilha de actividade comercial,
seguramente sustentada pela procura galega, com as estreitas ruas pejadas de
pequenas lojas atafulhadas sobretudo de roupas e os tão apreciados atoalhados pelos nossos irmãos ibéricos. Saudação discreta a
S. Teotónio, junto à capela do Bom Jesus, o primeiro português a ser canonizado
pela Igreja Católica Apostólica Romana. Numa leitura mais ou menos política,
foi avançada a tese, obviamente espontânea e não fundamentada, de que terá dado
jeito ao nosso primeiro Afonso que o seu amigo e aliado Teotónio tenha sido
canonizado logo em 1163, um ano após a sua morte. Conseguimos imaginá-lo,
inchado de orgulho, a exibir tal troféu à progenitora Teresa e seus amigos galegos,
prova maior da sua imparável influência no Vaticano, rumo à consolidação da
independência lusa.
Lá em baixo, o rio Minho, e, à distância de um tiro de canhão, a mui nobre e antiga vila de Tui. A ponte é atravessada por passadiço lateral, facilitando a admiração do vale do rio minho que divide as terras galegas e portuguesas.
Faltam 115 km.
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