domingo, 17 de maio de 2015

INSTANTÂNEOS - XIII

Interior é Interior e a desertificação é cada vez mais uma das suas características. Recentemente, os académicos estudiosos da problemática têm concordado em referir-se a esse "Interior" como "territórios de baixa densidade" o que também é bonito. Os políticos, habitualmente mais criativos, acrescentaram um elemento que alcandora o conceito ao topo e passaram a falar em "territórios de baixa densidade mas" ... (atenção ao pormenor) "com elevado potencial". Seja como for, estamos em territórios onde não há gente e os serviços escasseiam, entendendo-se estes (neste particular) como estabelecimentos comerciais de comeres e beberes, de pasto, se se preferir, tabernas, para os menos esquisitos. Para caminhantes com o espírito que estes invocam e praticam, essa rarefação representa um percalço, tão grave como uma borrega junto ao pododáctilo maior do pé direito.

Caminhava-se já há bem mais do que um par de horas na companhia quase exclusiva de passarinhos a cantar, pinheiros e eucaliptos, os caminhantes clamavam por descanso, alguns dispunham-se mesmo a trocar o seu reino por uma cerveja quando arrivámos a Serra de Baixo, pequeno lugarejo onde a D. Natália possui um pequeno café e minimercado. Eis que lhe entram porta adentro uma dúzia de clientes, sedentos, algo barulhentos. Foi visível o seu incómodo e hesitação perante a catadupa de pedidos:

- uma sagres média fresquinha para mim;
- outra para mim, urgente;
- eu antes quero mine;
- não tem super bock?
- são dois cafés para aqui;
- arranje-me um Martini, por favor, com 2 pedras de gelo;
- ó minha senhora, para mim pode ser um traçadinho branco bem fresco.

As caricas foram saltando e as garrafas vazias iam-se alinhando em cima do balcão. Para cima da mesa saltaram croquetes, empadas, pão, queijo, borrachões... O destaque, porém, foi para o chouriço apresentado por João Dias, que ele se encarregou de apregoar como caseiro e de excelente qualidade, saído das mãos e da arte em extinção da sua senhora sogra. Perante tal publicidade, atiraram-se os apreciadores ao dito. Unanimemente, confirmaram a qualidade extra do produto, recomendando ao João Dias que estimasse a senhora sua sogra, de maneira a que ela continuasse a presenteá-lo com tais iguarias. Sai-se então este genro ingrato:

- Não é preciso, que eles aparecem lá em casa na mesma. Eu até já lhe disse: olhe, sogra, nem que você me oferecesse um chouriço todos os dias, não me pagava o mal que me fez.

O estado de espírito dos caminhantes ia em crescendo, por via do ambiente descontraído, as forças iam-se retemperando à conta do reforço alimentar mas também do descanso. D. Natália, essa, continuava atarefada a retirar caricas e a alinhar garrafas vazias em cima do balcão. Notou-se algum desapontamento no seio do grupo quando ela veio anunciar, timidamente, algo envergonhada mesmo:

- Vocês desculpem, mas já não tenho mais cerveja fresca.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

FÁTIMA POR OUTROS CAMINHOS - 2015 - CARLOS FILIPE

A nossa mais recente aquisição - CARLOS FILIPE - brindou-nos com este belíssimo texto:

"Corria o ano da graça de 2015, mais concretamente o dia 24 de janeiro quando, no interlúdio de um belíssimo repasto que teve lugar na cidade da Figueira da Foz, o meu amigo Carlos Matos me informou que iria encetar em breve uma viagem de Castelo Branco até ao Santuário de N. Sra. de Fátima.
Convém neste momento referir que de há uns anos a esta parte, este menino de quem se fala foi uma boa meia dúzia de vezes (pelo menos) àquele local. Noutras duas ocasiões rumou a Santiago de Compostela, uma das quais fazendo o percurso desde a porta da sua residência até à Catedral de Santiago (cerca de 5 centenas de km!) sempre recorrendo a uma de duas formas: a pé ou andando!! Um mero amador, portanto!!!
Ora, voltando ao repasto, estava eu a “embalar” uma tosta cuidadosa e minuciosamente revestida com paté de atum, quando ele me disse que iria voltar a fazer o dito percurso. Pensei imediatamente: “peaners”.
E continuou, enquanto eu roía mais uma azeitona, dizendo que a empreitada seria levada a cabo pelos suspeitos do costume, quase todos digníssimos membros da Confraria dos Caminhos, grupo constituído por vários especialistas destas andanças. Acrescentou ainda que este ano seria algo diferente, na medida em que o percurso seria feito em mais dias (6 contra os 3 normais), com um grupo mais reduzido (cerca de dez pessoas contra os vinte e tais dos anos anteriores), obedecendo a uma filosofia de autogestão, em que cada um levaria à sua conta (tradução: às costas) o material necessário e o percurso seria pelo meio do mato. Ok, pensei eu, “traçando” um pastelinho de bacalhau.
E termina, disparando: queres ir? A resposta saiu pronta: Nesses moldes, porque não?
Ainda hoje desconheço a razão, mas o certo é que nesse momento os restantes comensais presentes na mesa suspenderam, momentaneamente é certo, a actividade degustativa e rodaram a cabeça na nossa direcção...
Não vou maçar ninguém com os pormenores da viagem, até porque os mesmos estão superiormente descritos pelo Anselmo no Blog da Confraria, mas antes tecer algumas considerações pessoais sobre a mesma.
Haverá decerto quem leia estas linhas e pense que dado o nº de dias decorridos e respectiva quilometragem, este percurso nada tem de especial. Comparando com o que normalmente é feito (3 dias: 60km, 50Km, 40Km) admito que terão a sua razão.
No entanto, considerando que esta foi a minha 1ª experiência nestas coisas e principalmente que, por minha exclusiva culpa e armado em artista, não fiz qualquer tipo de preparação, o 1º fim-de-semana (em especial o 1º dia) foi duro. Muito duro!
Quando ao fim de 15Km vi o amigo Branco olhar para o seu GPS e dizer que estávamos quase a atingir a metade do percurso até engoli em seco. Apercebi-me nesse momento de algo que desconhecia: à distância anunciada pelo Branco no início da secção havia que aplicar uma taxa de IVA. 
E dadas as diferenças obtidas, isto de andar a pé deve ser considerado bem de luxo pois a taxa era alta!
Do almoço para a frente, cada passo era um martírio: a subir doía-me do joelho para cima e a descer era do joelho para baixo. Pelo menos nenhuma das partes tinha algo a apontar à outra…
Não falei (a não ser para amaldiçoar tudo e todos, sem grande critério diga-se), não apreciei a paisagem, não fiz fotografias, nada. A coisa chegou ao ponto de só não ter “dado ao slide” nesse 1º dia por vergonha, orgulho e, agora que penso nisso, por respeito pelo Carlos e restantes companheiros de luta que não mereciam tal atitude. 
E em boa hora não o fiz!
Após um fantástico jantar acompanhado de saudável convívio e uma restauradora noite de descanso (em que nem ouvi o concerto de sopro do Matos, fiel companheiro de quarto), o 2º dia já correu francamente melhor, a que não será de todo alheio o facto de ter começado com um pequeno-almoço digno de campeões: pão, ovos mexidos, chouriço, presunto e outras iguarias, com uma média fresquinha a acompanhar.
Baixa da etapa: uns ténis Berg (comprados 2 semanas antes) que entregaram a alma ao criador no final dos 60Km. Outdoor? Certo...
Já nas restantes etapas tudo correu sobre carris, o que me fez reflectir e admirar a extraordinária capacidade de adaptação da máquina que é o corpo humano. Há uns meses atrás quem é que me havia de convencer que na última etapa seria capaz de levar de vencida os cerca de 46Km que nos separavam do final? E o certo é que foi isso que aconteceu, sem nada mais a apontar do que o cansaço normal do esforço.
Chegados ao Santuário, a sensação de objectivo cumprido era evidente. Mas mais evidente ainda é a sensação de pequenez que sempre tive das poucas vezes que ali estive, não tendo nesta ocasião sido diferente. A fé das pessoas, quer se concorde ou não com a sua origem, é algo de extraordinariamente imenso. E ainda que da minha parte não houvesse qualquer intuito religioso associado à viagem, foi também por respeito a quem tem essa fé que acendi duas velas: uma por quem achei que gostaria de o fazer; outra por quem já não o pode fazer.
Muito obrigado Anselmo, Benvinda, Carlos, Fernando, João Dias,Salvado, Branco, José Luis, José Manuel, Mário e Piedade.
Dois agradecimentos especiais:
Ao Matos, por me ter convidado para fazer parte deste grupo e proporcionado esta experiência feita de convívio e amizade, em que tive o privilégio de partilhar algum tempo com estas pessoas, umas conhecidas de longa data e outras que eram até então totalmente desconhecidas. Pessoas diferentes com profissões diferentes, vivências diferentes e opiniões diferentes.
Ao Branco, por toda a dedicação na organização e logística da coisa, mesmo estando constantemente debaixo de fogo, com ameaças verbais recorrentes e bocas de diversa ordem, nomeadamente da minha parte. Reagiu sempre com boa disposição, embora tenha ficado meio atrapalhado quando a meio do 1º dia lhe disse que não me voltava a apanhar lá… 
Deixo o registo das datas, distâncias e algumas fotos que fui fazendo.
28/02/2015, Castelo Branco a Foz do Cobrão: 33km
01/03/2015, Foz do Cobrão a Proença-a-Nova: 27km
11/04/2015, Proença-a-Nova a Vila de Rei: 28Km
12/04/2015, Vila de Rei a Alviobeira: 29Km
26/04/2015, Alviobeira ao Santuário: 46Km
Castelo Branco, 27/04/2015













segunda-feira, 6 de abril de 2015

FÁTIMA POR OUTROS CAMINHOS - 2015 - ETAPAS I e II

28/02/2015, sábado
Etapa I: Castelo Branco – Foz do Cobrão, 37 kms
01/03/2015, domingo
Etapa II: Foz do Cobrão – SOTIMA (Proença-a-Nova), 22 kms

Caminhantes: Anselmo Cunha, Benvinda Monteiro, Carlos Filipe, Carlos Matos, Fernando Gaspar, João Dias, João Salvado, Joaquim Branco, José Luís Rodrigues, José Manuel Ferreira, Mário, Piedade Gabriel.

Primeiros passos de novo projecto: chegar a Fátima por “outros” caminhos. Em alternativa ao trajecto habitualmente utilizado – e já razoavelmente conhecido da maioria dos caminhantes – o nosso estratega Joaquim Branco propôs um novo, naquele espírito de conhecer melhor o país, a nossa região, em particular. Desta vez, as sandálias hão-de pisar território dos concelhos de Vila Velha de Ródão, de Vila de Rei e de Ferreira do Zêzere.

À partida, ninguém levou a sério o aviso do Baratinha de que iriamos caminhar 8 horas no primeiro dia mais 5 no segundo. Mas foi. Etapas durinhas para os menos calejados, bonitas para todos. Ao longo dos cerca de 57 quilómetros, atravessámos meia dúzia de lugarejos, praticamente vazios, sem tabernas para molhar a palavra com os autóctones dispostos à interacção.

Em compensação, a floresta impôs-se-nos imperial impregnando-nos de cheiros, de sons e de cores, não propriamente novos mas, vá lá, menos sentidos, ouvidos e vistos. Deve ter-nos feito bem aos pulmões, aos ouvidos e aos olhos. Seguramente.

Este é um território que não facilita. A intervenção humana é por ele pouco apreciada, por isso, apresenta um declive a seguir a uma linha de água a seguir a um declive mais pronunciado. Pela terra, semeou - de certezinha com requintes de malvadez - exactamente o mesmo número de pedrinhas de xisto soltas como estrelas o seu criador espalhou no céu. Enxada que ali caia com força é faísca que salta. Em tempos, afiançaram alguns, aquele território estava nu, vestido temporariamente com cereal, semeado numa terra rasgada custosamente por muitas juntas de vacas; outros, ouviram dizer que naqueles montes e vales faziam sombra poderosos carvalhos, castanheiros e sobreiros, sacrificados ao progresso das cidades que despontavam lá para os lados do por do sol; e que, parece que na adolescência do século passado um governante iluminado mandou um aeroplano espalhar semente de pinheiro. Imagina-se a cena, milhões de paraquedistas a rodopiar céu abaixo estatelando-se naquelas pedrinhas soltas de xisto. Se calhar, para se proteger do perigoso homem, aquele território autorizou a floresta. Não contou ele, claro, que o homem continuaria perigoso e maldoso e haveria de incendiar aquela floresta, muitas vezes, mas ele, teimoso, havia de autorizar que a floresta renovasse. As vezes que for preciso.


A vista deleitou-se no miradouro do vale Almourão, com as portas homónimas lá no fundo, com as escarpas pintalgadas de fungos cor de ouro, com a extensão e magnitude do que seria – será – a albufeira do Alvito. Logo a juzante, a pequena aldeia de Foz do Cobrão, um ribeiro que desce por um vale interior da serra das talhadas e ali se entrega ao Ocreza. Não confirmámos, mas houve quem aventasse que o nome original da linha de água era mesmo Foz do Cabrão, na nossa reles opinião, um nome mais bonito e interessante na perspectiva mediática.

Entre a Foz do Cabrão, perdão, Cobrão, e as Moitas, ninguém mudou o cenário, declive, linha de água, declive, linha de água, declive - um deles ia dando cabo dos mais pesados: alguns 500 metros quase empinados. À volta, pinheiros e eucaliptos. Aos milhões. Nota para a ponte sobre a ribeira da serzedinha: rudimentar, baias em cimento armado a abanar, sobre uma ribeira de águas cristalinas cantantes. Do outro lado...declive e mato. O caminho, fizeram-no do outro lado de uma pequena elevação.



3 horas depois, Espinho Grande, o único lugarejo encontrado, já com as Moitas à vista. Almoço, e ultima tirada rodeando a pista do aeródromo, até á antiga fábrica da Sotima.

Durinhas, muito durinhas estas primeiras 2 etapas, por um território tão agreste quanto belo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

INSTANTÂNEOS - XII



O povo latino, dita uma estereotipada classificação universalmente difundida, é mais extrovertido, mais barulhento, mais dado aos afectos, por comparação com outras variantes da raça humana. Foi em Pontevedra que estabelecemos os primeiros contactos com um grupo de puertoriqueños que faziam jus ao dito estereotipo: fácil relacionamento, risada espontânea, efusivos. Os reencontros ao longo do percurso seriam quase sempre comemorados com uma rodada de Estrela Galícia 1906 Reserva para nós e de uma coke para eles (convém realçar que, para todos os efeitos, estamos perante americanos, cidadãos dos USA). À conta deles, haveríamos também de poder assistir a um botafumeiro extra o calendário habitual.

A consideração e o respeito que foram alimentando pelo nosso grupo, mercê da nossa natural simpatia, subiu exponencialmente (ah! pois, também somos latinos), tendo mesmo o Carlos Matos sido alcandorado a um estatuto próximo da divindade. Pelo menos para Ramón.

Conta-se.

Na noite anterior, Ramón, um dos nossos mais entusiásticos novos amigos puertoriqueños, deixou-se enredar na movida de Padrón e, desconhece-se a razão, terá substituído a habitual coke pela Estrela Galícia. Consta que terá juntado ainda um considerável número de chupitos. A sua impreparação para tais desmandos resultou, naturalmente, num estado anímico excessivamente exuberante que incluiu o deambular desfraldado pela alameda del Espolón, num total desprezo pela chuva miúda mas persistente que se abatia sobre Padrón. Apesar disso, tire-se-lhe o casco, apresentou-se às 6 da manhã na sala comum pronto a prosseguir viagem com os seus companheiros. 

Pouco antes dessa hora, Carlos Matos tinha reparado que Concepción, parente de Ramón, se preparava para atacar um prato cheio de batatas cozidas cortadas ao meio. Apenas batatas cozidas, sem mais nada, nem acompanhamento nem tempero. Chamou imediatamente Inserme, com quem regularmente partilha pequenos almoços especiais e admitiram ambos: “somos uns amadores”.



Chegavam entretanto os sons de um Ramón que chorava baba e ranho, clamando por ajuda divina: acabara de reencontrar, na rua e à chuva, a sua credencial de peregrino, extraviada na noite anterior. O estado lastimoso em que estava comprometia seriamente a sua consideração na entrega do diploma de peregrino, um documento de importância maior para ele. Afinal, era também por esse comprovativo oficial que ele tinha vindo.

Apiedou-se dele Carlos Matos. Mobilizou todos os seus conhecimentos e experiência na nobre arte da encadernação e, paciente e cuidadosamente, restaurou a preciosa peça ao nível do aceitável no gabinete dos diplomas. As manifestações de apreço e de agradecimento de Ramón foram bem expressivas, como é apanágio do povo latino. 


Não tivemos oportunidade de lhes transmitir, mas consideramos o botafumeiro especial como paga bastante.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Da nossa porta a Santiago - Impressões IV - Sketchers


O grupo variou o seu número entre o 12 e o 18, cada um deles com qualidades bastantes para serem beatificados de tão bons que eles e elas são. No que toca a habilidades, porém, há 3 que merecem destaque especial, por via de terem sido bafejados com o dom de conseguirem esboçar numa folha de papel e com recurso a material básico, mais ou menos o que lhes aprouver. Tanto podia calhar a uma cara como a uma paisagem, a uma janela como a uma catedral. Não importava a hora nem o local, se o sol brilhava no azul do céu ou se o manto do nevoeiro tapava a terra: bastava que no seu refinado sistema cerebral tocasse um alarme qualquer, accionado por determinadas especificidades estéticas de um determinado alvo que só eles conseguiam vislumbrar.

Estamos a falar, claro, da nossa Paula Marques, do nosso Fernando Micaelo e do nosso Carlos Matos.

Ei-los, apanhados em acção.















E eis um cheirinho da sua arte.







Mais pormenores num episódio próximo.