quarta-feira, 17 de julho de 2024

CAMINHO FRANCÊS (2) - QUATRO NOTAS DE REPORTAGEM

 


Projecto (em curso): Caminho Francês, Fase 2.
Início: Burgos
Término: León
Etapas: 8
Partida: 26 de maio de 2024
Chegada: 02 de junho de 2024
Distância total: 180 km
Acumulado Caminho Francês: 480 km
 
Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.


1.    Quatro notas de reportagem
2.      Duas ou três notas sobre cultura e história
3.      Do Caminho Francês (fase2)

 


1.      Nota negativa


Em Burgos, todos os anos, num dos sábados da primeira quinzena de maio, o Ayuntamiento promove a “Noche Blanca”. Uma vez, um dia por ano.


Pois calhou logo no dia em que estes peregrinos chegaram a esta histórica cidade castelhana, para iniciarem a 2.ª fase do Caminho Francês. Por todas as praças e ruas à volta da imponente catedral os burguenses ajuntavam-se para celebrar a vida com os exageros conhecidos da movida espanhola. Em todas as praças havia palcos montados com potente equipamento de som, os bares estavam autorizados até horas tardias a servir pinchos para acompanhar os pintos, cañas, chupitos...


Pressupõe-se que a iniciativa terá nascido para gerar animação e projectar a cidade e a cultura local. Todavia, é impossível não reparar no total desfasamento entre as manifestações dirigidas à “cultura identitária” de Burgos e, as outras. E as outras eram claramente as mais concorridas e barulhentas mas, sem qualquer ponto de contacto com qualquer elemento da cultura local, ou regional / castelhana, mesmo espanhola. O que se observa é uma espécie de “macdonaldização” da cultura.


Num dos palcos próximos da catedral, um grupo de jovens espanhóis paramentados ao estilo dos jovens dos subúrbios de Nova Iorque que mostram os filmes americanos, gastou mais de uma hora a debitar rap monótono, imperceptível, desconfia-se, mesmo para os castelhano parlantes. A escassos 50 metros, na praça seguinte, mesmo em frente à porta principal da imponente catedral de Burgos, um outro grupo despejava o som estridente e distorcido do rock da pesada. Até quase de madrugada, a batida techno fazia-se sentir no beliche, competindo com o ronco dos peregrinos insensíveis a estas minudências, donde, para alguns peregrinos, aquela foi mesmo uma “noche blanca”.


À partida, manhã a despontar, ainda pudemos apreciar o (triste) espólio da dita “noche blanca” nas ruas cercanas à catedral, cujo estado e aspecto contrastava com o brilho da majestosa catedral a receber os primeiros raios de sol.



 
2.      En este pueblo no sobran niños


À entrada de Rabé de Las Calzadas um grande cartaz avisava: “aqui no sóbran niños”. Ainda que a chamada de atenção se destinasse a apelar aos cuidados a ter pelos senhores condutores, a frase reflete, também, uma outra dimensão significante. Em Espanha, observa-se o mesmo fenómeno que no nosso retângulo a oeste plantado, no que toca à ocupação do território. Também aí se verificam profundas assimetrias regionais, também aí existem dois países: uma Espanha concentrada, grosso modo, na orla litoral e à volta de Madrid, e a outra, imensa, em continuado processo de abandono e despovoamento. Os sociólogos do território já lhe atribuíram uma designação: “España vaciada”. As similitudes entre esta “España vaciada” e o nosso interior (cerca de um terço do território português), são evidentes, nas causas e nos efeitos.


Em 2021, por lá, surgiu mesmo um partido com esse nome – España vaciada[1] -, assumindo como ideais centrais a defesa da ruralidade, o desenvolvimento sustentável das áreas rurais e o combate ao despovoamento do interior de Espanha. Concorrente às eleições municipais de 2021, não obteve um resultado significativo. Regista-se com simpatia, porém, a iniciativa e a coragem.
Se surgir algo semelhante em Portugal…



 
3.      Três vezes abençoados

Independentemente dos motivos que impelem cada um a partir para o Caminho, qualquer peregrino se sentirá um pouco reconfortado se for abençoado por isso. Nesta nossa segunda jornada do Caminho Francês, foram estes peregrinos abençoados por três vezes.


A primeira foi em Rabé de Las Calzadas. O sino tocava a chamar os crentes para a missa na Igreja da Parróquia de Santa Marina. Porque o Caminho também é isto, decidimos participar.


No espaço fundeiro da igreja, oposto ao altar, sobreelevava-se uma espécie de palco onde se alinhava o coro local, polifónico, composto por uma organista, 6 vozes femininas e quatro masculinas e, muito afinado, foi debitando os cânticos do repertório litúrgico.


A nossa presença foi assinalada pelo celebrante e reconhecida pela sua benção.


Na missa, mesmo atrás de nós, estava uma simpática freira das Irmãs da Caridade, pequena estatura, face enrugada e sorridente. Mal o coro terminou o cântico final, saiu apressada. Havíamos de saber um pouco depois que o fez para nos esperar na capela umas centenas de metros mais adiante, à saída del pueblo, para onde nos convidou a entrar. À vez, ela colocou a sua mão na nossa cabeça e proferiu uma pequena oração de bênção de protecção e incentivo no Caminho de Santiago mas também no Caminho da Vida, colocando depois no nosso pescoço uma pequena medalha de lata pendurada num singelo fio de algodão e, em jeito de despedida, ofereceu-nos um abraço. Peregrinos houve que, emocionados, não conseguiram evitar o humedecimento das retinas.


A terceira bênção aconteceu em Carrión de Los Condes, na missa do peregrino celebrada a meio da tarde na Igreja de Santa Maria. Quando o Senhor Prior perguntou, acusou-se gente proveniente de treze nacionalidades, sendo as mais longínquas a Austrália, Coreia do Sul, Japão e Peru. Ficou registado que a delegação mais volumosa era, nesse dia, a portuguesa.




 
4.      As catacumbas de Castrojeriz


O Hospitaleiro José, proprietário do Albergue Ultreya é uma figura peculiar, na personalidade afável, na disponibilidade, mas sobretudo na forma de se exprimir, provavelmente, por influência da sua profissão de professor que foi durante toda a sua vida ativa, agora aposentado. Ensinava matemática mas, também tinha uma notória veia de historiador e de etnólogo, comprovada pela paixão com que discorria sobre a história local.


Acompanhando todo o comprimento da comprida mesa onde nos forneceu o jantar, havia uma vara de lagar que saía da parede e terminava no fuso colocado ao lado da cabeceira. Não, não era uma vara de lagar de azeite – que por aquelas bandas não há oliveiras – mas uma vara de lagar de vinho. O interessante – ou não – é que também não há vinhas. Mas já houve, diz-nos algo desconsolado José. De facto, parece que os extensos campos em torno de Castrojeriz semeados de cereais vários, em tempos idos, já estiveram ocupados com vinhedos.


Após o jantar, iniciou ele a sua aula, composta por duas partes. Na primeira, alardeou a sua postura e tiques professorais, fazendo acompanhar o discurso com gestos e sons como se estivesse ainda na sala de aula a falar para os seus meninos. Explicou detalhadamente como funcionava a vara no processo de produção do vinho, terminando como uma componente prática para a qual mobilizou vários peregrinos que colocou a fazer rodar o fuso. Depois, fez-nos descer por umas escadas estreitas até às “catacumbas” do edifício. Por baixo do albergue existiam algumas galerias que terão feito parte do sistema de defesa da localidade, presumivelmente com ligação ao castelo, tese sustentada por vários elementos das épocas romanas e medieval. Em tempos mais recentes, estas galerias subterrâneas foram utilizadas como adegas de conservação de vinho, tirando partido das baixas temperaturas.



domingo, 10 de dezembro de 2023

INSTANTÂNEOS XXIV

 

                                    Desenho: Paula Marques

A estação ferroviária de Bayonne estava repleta de gente, muitos eram peregrinos a caminho de St Jean Pied de Port para aí iniciarem o Caminho Francês. No meio da Gare, vestindo a farda do SNCF (caminhos de ferro franceses), Monsieur Dupont e Madame Rousseau desdobravam-se a dar informações, orientações, esclarecimentos aos utentes, desempenhando um papel que devia ser tomado como exemplo em qualquer estação movimentada.

Xaime chegou-se a eles para sacar informações sobre a próxima ligação e pergunta, quase sem sotaque:
- Parlez-vous français?
Monsieur Dupont mira o perguntante com semblante sério e  responde com voz grave:
- Non! Russe.

O episódio serviu como prólogo para amena cavaqueira com os simpáticos e prestáveis ferroviários, e teve ponto marcante quando Inserme, que aprecia jogos com a beleza das palavras e dos seus significados, se dirige a Madame Rousseau e com ar de curioso fingido, a provoca:
- Je me demande Madame: peut-on appeler les dames de Bayonne des “bayonnetes”?
Ela riu-se divertida e acompanhou:
- Ah! oui, mais elles ne sont dangereux que lorsqu'elles se mettent en colère…

Ainda em Bayonne, demos com uma montra que ostentava umas frases banais, todas elas a acabar com um impropério muito utilizado pelos franceses.
A mais bonita é capaz de ser aquela que se pode traduzir por:
"Gosto de ti, porra!"





sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

CAMINHO FRANCÊS: ALGUMAS NOTAS GERAIS (fase1)




Projecto (em curso): Caminho Francês

Início: St Jean Pied de Port

Término: Burgos

Etapas: 12

Partida: 03 de setembro de 2023

Chegada: 14 de setembro de 2023

Distância total: 282 km

 

Peregrinos / Caminheiros:

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.


1. Emoções de primero

2. Duas ou três irrelevantes notas de reportagem

3. Duas ou três relevantes notas sobre cultura e história

4. Notas gerais sobre o Caminho Francês (fase1)


O Caminho Francês é, sabe quase todo o mundo, o mais icónico de todos os Caminhos de Santiago, e a maior parte dos peregrinos começa-o em St Jean Pied de Port.

Grosseiramente, até Burgos o Caminho pode ser dividido em 3 zonas distintas. A primeira, se calhar a mais interessante e bonita em termos paisagísticos alcança Zubiri, na zona pirenaica; a segunda é marcada pelos vinhedos de La Rioja até Najera; finalmente, o planalto (por vezes) monótono de Castilla y León, até Burgos, com excepção das sierras de La Oca e de Atapuerca.

O dia da chegada a St Jean foi molhado. Precisávamos de um primeiro dia seco e fresco para galgar os cerca de 24 mil metros até Roncesvalles. Pois foi o que nos calhou. Um dia fantástico para atacar aquela que, dizem, é a mais dura de todas as etapas do Camino. E é capaz de ser. Se calhar porque se parte da cota 172, trepa-se até aos 1430 metros de altitude durante quase 20 km e, nos últimos 4, baixa-se para a cota 900. Os joelhos e as unhas dos pés não apreciam estas descidas à bruta. Digamos que para cumprir esta etapa é preciso ter “pêtos” e, quem a faz, consegue fazer qualquer uma do Caminho. Precisámos de quase 10 horas para a concluir, mas chegámos a tempo de assistir à missa (alguns) na belíssima igreja do velho mosteiro de Roncesvalles.

No que toca a dureza e alguma dificuldade a requerer cuidados aos caminhantes, são dignos de referência dois pequenos troços. O primeiro surge à chegada a Zubiri. São cerca de cinco quilómetros em piso “especial”, um piso onde apenas as cabras se sentem no seu meio. Este troço apresenta elementos que deverão ser muito interessantes para qualquer geólogo, desafiante para o peregrino, em geral, que tem de caminhar de olhar fixo e atento no pedregoso e perigoso piso (chamemos-lhe assim, para facilitar). É nestas ocasiões que são exigidos três requisitos ao caminhante: bom calçado, sentido de equilíbrio e paciência. Dá ideia que a natureza caprichou ali na geologia, de propósito, para que os peregrinos não se esqueçam que a vida, tal como o Caminho, tem de ser percorrida com cuidado, com preceito, sem pressa.

Foi neste trajecto que demos com uma figura esguia, Francesco era o seu nome, italiano de Firenze, médico (aposentado), 72 anos. Há horas de sorte e este vero italiano teve uma tremenda sorte na hora em que o alcançámos. Caminhava visivelmente debilitado, com passo inseguro, a ameaçar cair a qualquer momento. Ainda por cima, nem sequer tinha qualquer garantia de conseguir leito e duche em Zubiri. Pois que fique registado nos anais que o grupo de solidários lusos lhe arranjaram cama no mesmo albergue e o libertaram do peso da mochila até lá.

O outro ponto “duro” é a descida (são sempre as descidas abruptas que marcam a diferença), desde o Alto del Perdón, muito em cascalho, tipo “piedras rolantes”.

Vencida a pequena subida que sai de Estella, há 2 pontos que merecem referência. O primeiro é La Forja de Ayegui, uma oficina-exposição com a expressão da criatividade de Jésus Angel. Este señor faz autênticas obras de arte na transformação de ferro velho. A segunda, algumas chancas à frente, surge a Fuente del Vino, junto ao Mosteiro de Irache, que nos “obriga” a parar. Parece que nos tempos antigos, os monges beneditinos acudiam com este remédio aos cansados peregrinos que ali aportavam. As Bodegas Irache, actuais proprietárias das santas e abençoadas vinhas assumiram essa tradição acalmando gratuitamente a sede dos modernos peregrinos, com o seu vinho rosado, suave e fresco no paladar. Em média, nos meses mais concorridos, são consumidos cem litros por dia.

La Rioja é terra vitivinícola, região de excelência de produção de vinho em Espanha. Muitos milhares de hectares cobrem aqueles vales abertos e suaves colinas. Uma vez que estávamos em plena época das vindimas, tiveram estes peregrinos a oportunidade de depenicar múltiplas e variadas castas de uvas, tintas e brancas, todas docinhas.

Segue-se o planalto monótono de Castilla. As vinhas dão lugar aos extensos campos de cereal e girassol, árvores raras, sombra apenas a que vinha do céu emprestada por nuvem caridosa, menos na sierra de la Oca, e depois Atapuerca que anuncia a antiga e leal cidade de Burgos.



















segunda-feira, 23 de outubro de 2023

CAMINHO FRANCÊS (1) - DUAS OU TRÊS RELEVANTES NOTAS SOBRE CULTURA E HISTÓRIA

         Desenho: F. Micaelo


Projecto (em curso): Caminho Francês

Início: St Jean Pied de Port

Término: Burgos

Etapas: 12

Partida: 03 de setembro de 2023

Chegada: 14 de setembro de 2023

Distância total: 282 km

 

Peregrinos / Caminheiros:

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.


1. Emoções de primero

2. Duas ou três irrelevantes notas de reportagem

3. Duas ou três relevantes notas sobre cultura e história

4. Notas gerais sobre o Caminho Francês (fase1)

                                                

                                                        Desenho: Paula Marques

Primeira e mais relevante nota: é impossível fazer o Caminho sem tropeçar no magnífico património histórico, sobretudo religioso, resultado, entre outros fatores, do vigor, da estratégia e, principalmente, dos recursos à disposição da Igreja Católica Apostólica Romana em Espanha. Não pode o peregrino deixar de ficar impressionado com a quantidade e grandiosidade das igrejas e catedrais que pontificam em todas as cidades e pueblos por onde o Caminho segue. Quase que incomoda ver tamanha monumentalidade e imponência exterior, assim como a opulência, a riqueza artística e a diversidade estilísticas no interior, em aldeias que nem sequer são de grande dimensão.

E se há património, há história, há cultura.

   Desenho: Nulita Lourenço (Puente La Reina)

Para a nossa história, selecionemos então duas ou três relevantes notas sobre cultura e história locais desta nossa jornada, a primeira, no Caminho Francês.

Desde logo, St Jean Pied de Port. Esta ville, actualmente francesa, mas que já foi de Navarra e, conserva a cultura e língua basca, ocupa uma posição estratégica para quem, ao longo de muitos séculos, quis atravessar o Pirinéus.

Faltará sempre serenidade ao peregrino para apreciar convenientemente a riqueza patrimonial do local, boicotado pelo ambiente festivo, e pela adrenalina associada à expectativa de começar o caminho bem cedinho na manhã seguinte. Quem resiste e se mantém sereno – como estes lusos albicastrenses – sempre arranja tempo para, pelo menos, visitar a Igreja de Notre-Dame (sec. XIII) e fazer um tour pela cidadela (sec. XVII).

St Jean marca o início icónico do Caminho Francês e é lá que está instalada uma oficina de peregrinos onde todos vão obter o primeiro carimbo e dali partem, através da mítica porta de Santiago (St Jacques, para os franceses) à conquista dos Pirinéus, por caminhos calcorreados  desde há milénios. É plausível que Iberos, Celtas, Romanos, Suevos, Vandalos, Alanos, Visigodos por ali tenham transposto os Pirinéus.

Foi seguramente por estes trilhos que nos conduzem a Roncesvalles (Valcarlos) que o exército de Carlos Magno terá retirado, derrotado, corrido da fracassada incursão a territórios bascos e mouros. Pese embora a importância que a história reconhece a Carlos Magno para a formação da Europa, as crónicas relevam como marcante a batalha de Roncesvalles, no longínquo ano de 778, na qual terá perecido o lendário Rolando, um dos guerreiros medievais mais icónicos, inspirador de lendas, canções e óperas (https://worldvaticano.wordpress.com/carlos-magno/).

Por esta mesma rota marcharam os poderosos exércitos de Napoleão, provavelmente a toque de caixa e sem botas de caminhada Merrell, com ordens para invadirem Espanha e prosseguirem para Portugal, e por ali regressaram a casa em muito menor número mas carregados com o muito espólio roubado.

São estas pedras carregadas de história, enfim, no piso do caminho, suporte centenário de ponte, ou artisticamente alinhadas num capitel, que agora testemunham a passagem de muitos milhares de pacíficos peregrinos rumo a Compostela.

A região, Navarra, é rica em história, pois. A sua identidade enquanto comunidade foi sendo construída e moldada na confluência de uma matriz de elementos, com expressão, também, no vigor que mantêm algumas tradições (exemplo: a Festa de San Firmin e similares), e, sem pertencer ao “país”, o basco como segunda e oficial língua.

Em Pamplona, capital, são justas duas referências especiais (e nenhuma deles é a Festa de San Firmin). A primeira é que, sobretudo para quem gosta de literatura, não deixa de ser algo emotivo tomar um viño tinto num local conhecido como o rincón de Ernest Hemingway. Terá sido naquele ambiente que ele se inspirou para alguns dos seus escritos para o Nobel da Literatura de 1954.

Deu-se ainda o caso, feliz, de nos ter sido concedido o privilégio de acompanhar a degustação de um tinto de La Rioja, com uma demonstração de cultura local/regional digna de realce. O dia era solarengo, a Plaza del Castillo fervilhava de gente. No coreto, o quarteto de sopros desenvolvia algumas músicas tradicionais, enquanto uma multidão de navarros, séniores, jovens, crianças, acompanhava com danças bascas/navarras numa coreografia razoavelmente sincronizada, algo muito próximo de um flashmob (mil perdões pelo anglicismo). Lindo de se ouvir e ver.

Na mesa ao lado, sentavam-se quatro senhoritas doñas para cima de sexagenárias, tomando um thé. Metemos conversa. Entre outras curiosidades, quisemos saber, com um laivo de provocação, se Pamplona pertencia ao país basco. A resposta foi peremptória e taxativa: No! Claro que no!”. Ainda argumentámos que estávamos a assistir a uma demonstração da cultura basca, e que as placas nas ruas e estradas tinham todas os dizeres em castelhano e basco… “Qué no!” ripostaram convictamente as pamplonenses senhoras. “Ellos lo quieren, y hay muchos bascoparlantes, pero Navarra es Navarra”.

Não menos relevante, foi a sorte que calhou a estes lusos peregrinos em Viana, segunda feliz coincidência, segunda demonstração da vitalidade identitária e  cultural deste povo e desta região de Navarra. Era o primeiro dia das festas de nossa Senhora das Neves que se prolongariam por uma semana, e cujo programa incluíam as famosas largadas de toiros pelas ruas, à semelhança de Pamplona, as mesmas que tanto cativaram Hemingway. 

O cenário tinha algo de surpreendente e, mesmo de espectacular. Todos os habitantes de Viana se apresentavam trajados com a mesma indumentária: calça e camisa brancas e lenço vermelho. Os únicos seres que destoavam eram estes humildes mas curiosos lusos peregrinos. Curiosos e atrevidos, misturaram-se sorrateiramente na multidão que se aglomerava na praça do Ayuntamiento, escutaram atentamente os discursos em basco da Senhora Alcaldeza, registaram em video o foguete que ela apichou para dar início oficial às grandiosas festividades em honra de Nossa Senhora das Neves, acompanharam os "Viva Viana" que a turba gritava em uníssono, e, até se puseram ao despique com os Vianenses de todas as idades, a ver quem apanhava mais caramelos, dos milhares que foram atirados à rebatina para o meio do povo, desde a varanda do autárquico edifício.







Viana justifica uma outra nota com uma bem relevante carga histórica. É na localidade que está sepultado César Bórgia. Tinha esta figura uma particularidade única: era filho de Papa. Sim, o Papa Alexandre VI, 214.º chefe maior da igreja Católica entre 1492 e 1503 era o senhor seu pai. Para além de ser filho de quem era, chegou o rapazinho, ainda jovem, a Cardeal. Aborrecido, decidiu abandonar a carreira eclesiástica para se dedicar à carreira militar, trocando, pois, o encarnado barrete cardinalício pelo cinzento metálico elmo, algo que, presume-se, lhe dava mais satisfação, tendo-se envolvido em múltiplas pelejas até ser morto numa delas em 1507. Rezam as crónicas que ele conviveu com Leonardo da Vinci, e, Maquiavel ter-se-á inspirado nele para escrever a sua obra maior “O Príncipe”. Este César terá sido uma personagem e tanto. E ali estavam os seus restos mortais, na Igreja de Santa Maria em Viana.

 

    Monasterio de Irache

                                       Puente La Reina


    Monastério de Santa Maria La Real de Najera

    Catedral de Burgos

terça-feira, 3 de outubro de 2023

CAMINHO FRANCÊS (1) - DUAS OU TRÊS IRRELEVANTES NOTAS DE REPORTAGEM

 



Projecto (em curso): Caminho Francês

Início: St Jean Pied de Port

Término: Burgos

Etapas: 12

Partida: 03 de setembro de 2023

Chegada: 14 de setembro de 2023

Distância total: 282 km

 

Peregrinos / Caminheiros:

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.


1. Emoções de primero

2. Duas ou três irrelevantes notas de reportagem

3. Duas ou três relevantes notas sobre cultura e história

4. Notas gerais sobre o Caminho Francês (fase1)




No primeiro de setembro, madrugada, partida, largada, fugida até Burgos onde ficaram as viaturas à nossa espera; comboio até Donostia / San Sebastián; autocarro até Bayonne; comboio até St Jean.

A primeira nota de reportagem ocorre logo na gare de Burgos: o comboio das 10:37 deu entrada na linha 1 duas horas depois da hora a que devia. O atraso provocou 2 contratempos: obrigou à compra de novo título de transporte na ligação entre Donóstia e Bayonne, e, mais grave, obrigou também à troca de almocinho tranquilo por uma frugalidade de peregrino pelintra à base de porcarias ensacadas.

O contratempo do tempo havia de ser compensado com o tempo. Atmosférico. Isto porque, se à chegada a St Jean choveu todo o santo dia, depois, em todos os 12 dias seguintes, aqueles em que ela, a aguinha, quando é muita e forte, chateia qualquer peregrino que se preze, só nos havia de fazer umas leves coceguinhas durante uns minutitos algures no terceiro ou quarto dia.

Ainda na gare de Burgos, segunda nota, as regras e procedimentos de segurança a que os passageiros são sujeitos no acesso à plataforma são muito idênticas às de qualquer aeroporto.  As pessoas são encaminhadas para o pórtico detector de metais, as mochilas têm todas de passar na maquineta de raio X. Se não tivéssemos sido avisados a tempo, teríamos sido irremediavelmente espoliados das nossas navalhinhas de peregrino cujas folhas medissem mais de seis centímetros. Foi o que aconteceu à naifeta do Aníbal esquecida no fundo de um dos bolsos da sua mochila, remetida para reciclagem. De resto, nas mochilas não foi detectado nenhum objecto perigoso para a segurança de Espanha.

A terceira nota de reportagem vai para a viagem de comboio entre Bayonne e St Jean. Um golpe de sorte empurrou-nos para a primeira carruagem, a mesma onde do lado de lá da divisória em acrílico transparente se sentava o maquinista, tendo-nos sido oferecida a mesma vista de frente do percurso da linha. Nunca antes, ao longo da sua longa vida de passageiros de comboio, nenhum destes tugas tal tinha experienciado.

Nota quarta para a verdadeira indústria em que se está a tornar o Caminho de Santiago, constituindo o caminho Francês o seu expoente. Dizem as estatísticas que, principalmente nos meses de maio, junho, setembro e outubro, St Jean Pied de Port é uma autêntica Babel. E isso era bem visível nesse dia 2 de setembro de 2023, com as suas ruas  pejadas por uma verdadeira multidão, proveniente da mais variadas latitudes.

Ah! se tivéssemos tido vagar, teríamos promovido ali uma antecipação da Assembleia Geral da ONU, e resolvido facilmente a questão climática e a guerra na Ucrânia. E, nada custa, haveriamos de ter aprovado uma moção para a redistribuição da riqueza no mundo e acabávamos com a fome.

Quinta e última nota para a gastronomia. O padrão da refeição em Espanha é ligeiramente diferente do que vinga em Portugal. Nuestros hermanos primam pela variedade nas entradas que lá chamam de primero: enquanto nós nos ficamos por uma malguinha de azeitonas e pela sopinha, eles oferecem meia dúzia de opções. Claro que há sempre os esquisitos que afiançam que jamais trocariam uma boa sopinha de nabiça por uma tortilla de patata ou por meia dúzia de calamares.

Bem, o gaspacho não conta para estas contas. E, obviamente, o caldo gallego também não. E entende-se bem porquê: o gaspacho é irmão do nosso, e o caldo é primo da sopa da pedra.

Mas, por lá, às vezes, sentimos um certo complexo de superioridade no que toca à gastronomia em geral, ao menu Peregrino em particular, muito por causa de os pratos serem quase todos servidos com acompanhamento de batatas fritas. Foi o caso do jantar no Restaurante Posada, em Roncesvalles (na companhia das italianas Mara e Moina e da americana Hope de Las Vegas). De primero, foi-nos oferecido um creme de cor verde e de sabor indefinido, mais um barranhão de massa tipo macarrão cujo tempero faria chumbar um aluno do primeiro ano de culinária de qualquer escola profissional e imediatamente aconselhado a dedicar-se à costura. De segundo, truta assada, com… batatas fritas. Dedução lógica: devem passar por ali muitos ingleses, chatos e exigentes, avessos a um bom arroz e a uns saudáveis legumes. Mas nós, comemos tudinho, sem reclamar.