Anne Carson - Peregrina Nobel da Literatura
A canadiana Anne Carson, que percorreu o Caminho de Santiago de Saint-Jean-Pied-de-Port a Compostela e depois continuou até Fisterra, foi agraciada com o Prémio Nobel de Literatura de 2026.
A canadiana Anne Carson, que percorreu o Caminho de Santiago de Saint-Jean-Pied-de-Port a Compostela e depois continuou até Fisterra, foi agraciada com o Prémio Nobel de Literatura de 2026.
Já tinham
batido as doze nas igrejas todas da Galiza há mais de dois quilómetros quando
chegámos ao pequeno Pueblo com pouco mais de uma dúzia de edifícios, dois deles
a exibir a placa de “restaurante” e a publicitar o industrializado “menu de
peregrino”. O primeiro borbulhava de gente com ar de peregrinos, aparentemente
deliciados na degustação do filete de ternera e das batatas fritas, com a mesma
vontade de todos os dias que levavam de Caminho. O segundo, estava vazio,
completamente vazio, passe o pleonasmo vicioso.
Este seria
um sinal imediatamente descodificado por qualquer camionista.
O segundo
sinal foi dado pela galega moça que, perante a oportunidade de rentabilizar o
seu negócio de restauração com 14 refeições, manifestou alguma hesitação e
atrapalhação.
Eis que
fomos encaminhados escadas abaixo para uma sala na cave, onde havia uma mesa
comprida e várias mais pequenas, mas nenhuma preparada para a restauração, como
seria expectável num … restaurante. E vão três sinais.
A sala
empestava ao azedo característico da bosta de vaca, o mesmo cheiro acre que se
vinha sentindo desde que entráramos em terras galegas em o Cebreiro, indicador
de uma região cuja economia muito assenta na bovinicultura.
Imbuídos
do melhor espírito, os lusos peregrinos ainda se puseram a ajudar a atrapalhada
galega empresária da restauração, espalhando toalhas de papel, pratos com
vestígios de pouco uso, talheres desiguais e copos manchados, por onde, à
cautela, passavam um guardanapo.
Tantos
sinais! Faltava um. Aquele que serve de melhor indicador sobre a qualidade de
um restaurante: o estado de limpeza das instalações sanitárias.
Quando a
água começou a transbordar das sanitas entupidas, tanto das damas como dos
valetes, e se encaminhou para a sala, e a atrapalhada galega empresária da
restauração correu a buscar uma esfregona, os peregrinos tugas decidiram que
seria sensato ir degustar o menu de peregrino ao outro restaurante.
As ruas do pequeno Pueblo estavam
pejadas de bosta de vaca obrigando os peregrinos a cuidar onde pisavam e a
inspirar um ar carregado de notas ácidas e amoniacais, características do
esterco fresco.
A velhinha galega, pequena estatura,
seca de carnes, face rugosa, pele ressecada, tudo indícios de uma vida de
trabalho duro, postou-se à porta do barracão onde uma dúzia de vacas ruminavam
a silagem, exibindo dois pequenos chouriços pendurados nos dedos médios.
- Sois españoles?
A nosso lado, estava Nathan, um
bonacheirão americano, denunciado pelo típico boné que escarrapachava
FLORIDA (confessaria ser anti MAGA), polícia reformado que ao longo da última
meia hora nos vinha a contar a história dramática do furacão que destruiu
noventa por cento da pequena ilha do golfo do México onde vivia, incluindo a
sua casa.
Se calhar por isso, a resposta saiu
em “americano”:
- No!
Logo a seguir, a pergunta foi
formulada em galaico-português:
- Quanto custam los chórizos?
Provavelmente, a velhinha galega só
deve ter fixado os elementos que lhe inspiraram a ideia de que estava perante
americanos. É a única explicação para ela ter pedido:
- cinco euros cada uno.
Armado em engraçadinho, o lusitano
atira:
- Hóstia! Muito caros. São de vaca autóctone?
A galega sénior não entendeu. Ainda
que apreciador de produtos tradicionais locais, o preço inflacionado e o aroma
ambiental acabaram a influenciar a decisão do peregrino lusitano que declinou
simpaticamente.
Desenho: F Micaelo
Triacastela, albergue, perto da hora em
que o dia muda de data, na camarata ouviam-se respirações compassadas, alguns
suaves assobios, um ou outro ronco mais decibélico.
A entrada tardia da peregrina fez-se
notar. No bater descuidado da porta, nos tropeções nas mochilas, nos encontrões
nos beliches e, claro, nas imprecações e nos impropérios – presume-se – que ia
soltando na sua difícil língua.
A peregrina alemã – viríamos a saber posteriormente – parece que quis antecipar a Oktoberfest logo ali em Triacastela.
Nada a opor. Mas, Fraulein Helga ter-se-á entusiasmado e não terá avaliado adequadamente a capacidade
do seu organismo para a quantidade de água misturada com malte de cevada,
lúpulo e levedura que ele suporta. Quando a mais, não tem ele outro remédio
senão expulsar.
Assim que conseguiu espojar-se na liteira,
Fraulein Helga começou a desconfiar que o seu organismo iniciara manobras e
procedimentos de ativação de alguns mecanismos de defesa. Começou por sentir a
respiração irregular, um aumento da salivação e da frequência cardíaca, e, por
uma espécie de magia, ela até conseguia sentir o movimento de rotação da Terra.
Apoderou-se dela uma desagradável indisposição, uma desconfortável náusea.
Foi mesmo à justa, mas conseguiu virar-se
de lado em tempo oportuno e, sem controlo, cedeu à ordem de expulsão que vinha
das suas entranhas.
Foi bem audível o som do jacto emético do conteúdo
gástrico a espalhar-se no soalho encerado.
Aliviada da carga excedentária, Fraulein
Helga voltou a colocar-se na horizontal e assim se manteve durante breves
minutos, suscitando alguma estupefação nos peregrinos de sono mais solto que
foram testemunhando a incomum cena. Não fora uma chamada de
atenção de um deles e, provavelmente, entregar-se-ia a pai Hypnos e a filho Morpheus o resto da noite. A custo, porventura contrariada, cambaleante e desajeitadamente, tratou de remover o material
gregoriado.
A mistura de cheiros habituais numa
camarata num albergue ficou enriquecida por um novo elemento, entre o ácido e o
sulfuroso.
A vida de peregrino também é feita destes
pequenos nadas.
Início: St Jean Pied de Port, 03 de setembro de 2023
Término: Santiago de Compostela, 03 de outubro de 2025
Etapas: 33
Distância total: ~780 km
Aníbal Azevedo, Anselmo
Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos,
Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Rita
Crisóstomo, Teresa Silva.
De St Jean Pied de Port a Compostela
são muitas centenas de horas de distância
a vaguear
devagar
com vagar.
Um bilião de passos
de ofegações
de suores
de arrepios
de risos
de charadas
de partilhas
de acumulação de sensações.
Até ao falso epílogo de entrar no Obradoiro
abraçar a vieira no centro com as botas sujas
emudecer tudo à volta
para ouvir apenas a melodia de uma gaita de foles arrastada
acompanhada por um violino tímido
em cima de uma harpa cadenciada
olhar de frente a catedral
sentir uma dolorosa nostalgia
e
uma misteriosa vontade de recomeçar.
Foi
no caminho Lebaniego que tudo se passou. Não foi connosco, mas podia ter sido.
O Mário Videira é que nos contou esta história.
Ia ele todo contente,
cantando e rindo, quando, à chegada a um pequeno pueblo, tropeça num casal de seniores que cumpriam a sua caminhada
diária. A comarca de la Liébana fará parte da
lista de regiões de baixa densidade da imensa España vaciada, pontuada por pequenas aldeias habitadas por gente
sénior onde qualquer quebra da rotina é valorizada.
Entabulada a conversa de circunstância e, antes que se perdesse a
oportunidade, Doña Pilar apressou-se a convidar Mário a sentar-se num banquinho que por ali estava, vira-se
para Don Paco seu marido e do alto da sua autoridade matriarcal, ordena:
- Tu, vai andando para casa que eu já lá vou ter, porque eu preciso de
falar com este senhor (tradução livre do castelhano com sotaque cantábrico).
Ela precisava, deduz-se, de
falar um pouco com alguém diferente do seu Paco. E, coincidência, o Mário
precisava de descansar um pouco, porque, parece que aquele caminho Lebaniego
não é para meninos.
Para além do Lignum Crucis (para
os crentes, o maior fragmento da cruz em que Jesus foi crucificado), o caminho
atrai igualmente pelas paisagens dos montes cantábricos, cercanas dos Picos de
Europa. Provavelmente por esse motivo, as autoridades espanholas responsáveis
pelo Turismo terão providenciado algum investimento na colocação de sinalética.
O Mário, à cautela, ia confirmando com recurso às novas tecnologias de
localização. Nunca se sentiu perdido.
Falava ele disso, na presunção
de que a simpática interlocutora autóctone reconheceria e valorizaria o facto de pela sua aldeia passar um
caminho milenar e que a melhoria na sinalética poderia significar mais
peregrinos, um pouco mais de animação, mais quebras na rotina.
Ficou algo desconcertado com a opinião diferente, contrária mesmo, de Doña Pilar.
Entendeu tudo quando ela o interrompeu para dizer:
- Não! Isso não é bom, porque agora já quase
ninguém nos pergunta nada.
A navegação
pesquisatória na rede global digital sobre o Caminho Lebaniego forneceu basta
informação, resumindo-se:
- a Cantabria
é a única região do mundo cristão que conta com dois caminhos de peregrinação
Património Mundial da UNESCO: o Caminho Lebaniego e o Caminho do Norte;
- o lugar central e destino do Caminho Lebaniego é o mosteiro de Santo
Toribio que faz parte do seleto grupo de cinco lugares santos do cristianismo
que concedem o privilégio do jubileu, junto com Roma, Santiago de Compostela,
Caravaca de la Cruz e Jerusalém;
- é lá que está depositada e preservado o Lignum Crucis,
o motivo principal que justifica a peregrinação, que já se faz desde o século
VIII.