terça-feira, 3 de outubro de 2023

CAMINHO FRANCÊS (1) - DUAS OU TRÊS IRRELEVANTES NOTAS DE REPORTAGEM

 



Projecto (em curso): Caminho Francês

Início: St Jean Pied de Port

Término: Burgos

Etapas: 12

Partida: 03 de setembro de 2023

Chegada: 14 de setembro de 2023

Distância total: 282 km

 

Peregrinos / Caminheiros:

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.


1. Emoções de primero

2. Duas ou três irrelevantes notas de reportagem

3. Duas ou três relevantes notas sobre cultura e história

4. Notas gerais sobre o Caminho Francês (fase1)




No primeiro de setembro, madrugada, partida, largada, fugida até Burgos onde ficaram as viaturas à nossa espera; comboio até Donostia / San Sebastián; autocarro até Bayonne; comboio até St Jean.

A primeira nota de reportagem ocorre logo na gare de Burgos: o comboio das 10:37 deu entrada na linha 1 duas horas depois da hora a que devia. O atraso provocou 2 contratempos: obrigou à compra de novo título de transporte na ligação entre Donóstia e Bayonne, e, mais grave, obrigou também à troca de almocinho tranquilo por uma frugalidade de peregrino pelintra à base de porcarias ensacadas.

O contratempo do tempo havia de ser compensado com o tempo. Atmosférico. Isto porque, se à chegada a St Jean choveu todo o santo dia, depois, em todos os 12 dias seguintes, aqueles em que ela, a aguinha, quando é muita e forte, chateia qualquer peregrino que se preze, só nos havia de fazer umas leves coceguinhas durante uns minutitos algures no terceiro ou quarto dia.

Ainda na gare de Burgos, segunda nota, as regras e procedimentos de segurança a que os passageiros são sujeitos no acesso à plataforma são muito idênticas às de qualquer aeroporto.  As pessoas são encaminhadas para o pórtico detector de metais, as mochilas têm todas de passar na maquineta de raio X. Se não tivéssemos sido avisados a tempo, teríamos sido irremediavelmente espoliados das nossas navalhinhas de peregrino cujas folhas medissem mais de seis centímetros. Foi o que aconteceu à naifeta do Aníbal esquecida no fundo de um dos bolsos da sua mochila, remetida para reciclagem. De resto, nas mochilas não foi detectado nenhum objecto perigoso para a segurança de Espanha.

A terceira nota de reportagem vai para a viagem de comboio entre Bayonne e St Jean. Um golpe de sorte empurrou-nos para a primeira carruagem, a mesma onde do lado de lá da divisória em acrílico transparente se sentava o maquinista, tendo-nos sido oferecida a mesma vista de frente do percurso da linha. Nunca antes, ao longo da sua longa vida de passageiros de comboio, nenhum destes tugas tal tinha experienciado.

Nota quarta para a verdadeira indústria em que se está a tornar o Caminho de Santiago, constituindo o caminho Francês o seu expoente. Dizem as estatísticas que, principalmente nos meses de maio, junho, setembro e outubro, St Jean Pied de Port é uma autêntica Babel. E isso era bem visível nesse dia 2 de setembro de 2023, com as suas ruas  pejadas por uma verdadeira multidão, proveniente da mais variadas latitudes.

Ah! se tivéssemos tido vagar, teríamos promovido ali uma antecipação da Assembleia Geral da ONU, e resolvido facilmente a questão climática e a guerra na Ucrânia. E, nada custa, haveriamos de ter aprovado uma moção para a redistribuição da riqueza no mundo e acabávamos com a fome.

Quinta e última nota para a gastronomia. O padrão da refeição em Espanha é ligeiramente diferente do que vinga em Portugal. Nuestros hermanos primam pela variedade nas entradas que lá chamam de primero: enquanto nós nos ficamos por uma malguinha de azeitonas e pela sopinha, eles oferecem meia dúzia de opções. Claro que há sempre os esquisitos que afiançam que jamais trocariam uma boa sopinha de nabiça por uma tortilla de patata ou por meia dúzia de calamares.

Bem, o gaspacho não conta para estas contas. E, obviamente, o caldo gallego também não. E entende-se bem porquê: o gaspacho é irmão do nosso, e o caldo é primo da sopa da pedra.

Mas, por lá, às vezes, sentimos um certo complexo de superioridade no que toca à gastronomia em geral, ao menu Peregrino em particular, muito por causa de os pratos serem quase todos servidos com acompanhamento de batatas fritas. Foi o caso do jantar no Restaurante Posada, em Roncesvalles (na companhia das italianas Mara e Moina e da americana Hope de Las Vegas). De primero, foi-nos oferecido um creme de cor verde e de sabor indefinido, mais um barranhão de massa tipo macarrão cujo tempero faria chumbar um aluno do primeiro ano de culinária de qualquer escola profissional e imediatamente aconselhado a dedicar-se à costura. De segundo, truta assada, com… batatas fritas. Dedução lógica: devem passar por ali muitos ingleses, chatos e exigentes, avessos a um bom arroz e a uns saudáveis legumes. Mas nós, comemos tudinho, sem reclamar.


domingo, 24 de setembro de 2023

CAMINHO FRANCÊS (1) - EMOÇÕES DE PRIMERO

 



Projecto (em curso): Caminho Francês

Início: St Jean Pied de Port

Término: Burgos

Etapas: 12

Partida: 03 de setembro de 2023

Chegada: 14 de setembro de 2023

Distância total: 282 km

 

Peregrinos / Caminheiros:

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.


1. Emoções de primero

2. Duas ou três irrelevantes notas de reportagem

3. Duas ou três relevantes notas sobre cultura e história

4. Notas gerais sobre o Caminho Francês (fase1)



1. Emoções de primero


Guardei esta foto para o fim. 

Apesar de ser uma foto "pesada" ela representa muito do Caminho.

O arame farpado simboliza as dificuldades do Caminho, as gotas de orvalho, as lágrimas derramadas. O Caminho ensina-nos, que mesmo chorando, as agruras de o percorrermos só são dificuldades se nós deixarmos que nos vençam. 

A Cruz de Ferro simboliza a fé que nos move. Religiosa, espiritual, superação ou física, a "Fé" de cada um, é única e pessoal e só cada um interessa e move. 

O nevoeiro representa a incógnita do futuro. Sabemos o que queremos e o que nos move. Dissipem o "nevoeiro" com um sopro de vento de esperança por um mundo melhor. 

Os 3 peregrinos juntos representam-nos a nós. Sozinho vou mais rápido, mas em equipa vou mais longe, e será com a vossa presença, amizade e união que faremos este e outros Caminhos da vida. 

Por fim, o que não está na fotografia. A Alegria. De termos chegado ao fim, de termos partilhado bons momentos, com pessoas fantásticas, de termos vívido dias únicos e irrepetíveis.

Fernando Micaelo



Existem momentos que irão perdurar no tempo. Ficarão como memórias.

Estes dias, e não foram assim tão poucos, fizeram-nos pensar, reaprender a nós próprios, mas também aos outros. Dias intensos.

Onde esteve presente a alegria e a lágrima.

Onde esteve a dor e o sorriso.

Onde esteve o cansaço e a plenitude.

Onde esteve a solidão e a união.

Onde esteve a pessoa e o grupo.

Mas foram dias gratos e cheios.

"Nós chegamos. Por isso sente o prazer de cada passo dado e não te preocupes com aquilo que tens ainda de superar.

Não temos nada à nossa frente, apenas um Caminho para ser percorrido a cada momento com alegria ".

Jaime Matos

 

Existem experiências realmente transformadoras e que só conseguimos deixar que aconteçam quando saímos da nossa zona de conforto. Quando provamos a nós próprios que quando queremos, fazemos acontecer.

Fazer o Caminho de Santiago é muito mais que caminhar.

E, tal como na vida, nesta aventura de 14 dias tivemos tempo e oportunidades para tudo: rir, chorar, partilhar e conhecer pessoas novas com histórias inspiradoras.

Ao mesmo tempo fizemos um mergulho na história de vida de cada um, para deixar no Caminho o que era para ficar ali e conseguir aceitar, honrar, integrar e trazer carinho e compaixão ao que somos hoje.

Aos seres humanos extraordinários que partilharam comigo esta aventura, sinto-me profundamente grata por me terem acompanhado.

O verdadeiro caminho começa agora.

O Caminho da Vida.

Trazer a força interior que redescobrimos para fazer as mudanças que precisamos e viver uma vida mais leve e alinhada com o nosso coração.

Seguimos juntos

Paula Marques

 


Dizem que quem regressa de uma viagem não é a mesma pessoa que partiu e, não é mesmo. Somos a soma do que vivemos, como vivemos e com quem vivemos.

Que experiência incrível!!!

Bem hajam, maltinha. Adoramos estes dias convosco.

Teresa Silva

 


Amigos, foram dias cansativos, preciso de férias, mas foram dias inesquecíveis!!!

Obrigada a todos, pela partilha, ajuda, apoio e risadas.

Gena Cabaço

 


Queridos amigos, como sempre caminhar ao vosso lado é sempre um gosto. Foram uns dias híper/mega cansativos mas maravilhosos, uns mais alegres outros mais tristes ... mas o caminho faz-se caminhando e se não houvesse dificuldades no caminho provavelmente ele não nos levava a lado nenhum

Obrigado a todos sem exceção, por todo o apoio e ajuda do fundo do coração.

Cá estamos à espera do próximo.

Manuela Gomes

 


Nunca é fácil escrever sobre dias tão intensos. A extraordinária frase “sozinho vou mais rápido, acompanhado vou mais longe” talvez reflita o que todos nós pensamos.

E nós fomos muito longe. Somos todos vencedores.

Partilhámos momentos fantásticos, cruzámo-nos com pessoas admiráveis, tenha sido em Viana, com a grande multidão ou tenha sido em Agés, um pequeno recanto que vai ficar no nosso coração. É difícil escrever sobre dois marcos do nosso caminho, a imponente Catedral, ou o estrondoso amontoado de palha.

O Abraço final não é mais que um reforçar de Fé, de Amizade, do sentimento forte que nos une, que o Caminho ajuda a fortalecer.

Bem hajam por tudo, pelo vosso apoio, pelo vosso carinho e pela vossa amizade.

Hoje estamos um pouco mais “ricos” do que estávamos no dia 1 de setembro.

Elsa Branco

 


Sou mais de números! E chato! É só para dizer que gosto muito de vocês!

Joaquim Branco



segunda-feira, 18 de setembro de 2023

INSTANTÂNEOS - XXIII

 


É mais ou menos universal: quando se pretende uma fotografia de grupo com toda a gente sorridente combina-se que todos sejam apanhados a “dizer” cheese, whisky, batata, pepsi, enfim, qualquer esgar da boca que a máquina capte como expressão de felicidade.

Em Agés, pequena aldeia com 25 residentes habituais, uma igreja datada de 1492 mandada construir pelos reis católicos Fernando e Isabel, um albergue e 3 restaurantes, quisemos registar com uma foto de grupo a simpatia de Doña Amapolla e seu marido António.

Quando abordada sobre a eventualidade de nos fornecer o jantar, Amapolla revelou-se o estereotipo daquela personalidade que junta alegria, simpatia, extroversão, vitalidade, energia, liderança (que o diga António, pobre António), e, sem papas na língua, informou convicta:

- Aquí podéis comer comida casera, productos naturales, yo misma la cocino, y quiero trataros divinamente; pero si quieres comer mierda, puedes ir a otro lado.

Os argumentos, pessoais e gastronómicos, pareceram-nos imbatíveis. Aceitámos. E fizemos bem, porque acabámos por degustar uma das melhores refeições naqueles 13 dias que já levávamos de Camino. É verdade que, de primero, a sua receita casera da “sopa” de legumes incluía uma dose generosa de pimentón de la vera que lhe conferia uma travo algo picante, mas, era uma sopa honesta. De segundo, estava tudo igualmente muito saboroso.

De maneiras que, na manhã seguinte, depois do desayuno que também ela nos forneceu, e imediatamente antes de partirmos para a última etapa que nos levaria à catedral de Burgos, foi o simpático e prestável casalinho convidado a registar o daguerreotipo para memória futura. 

E, claro, ela não abdicou de comandar a cena.

Sem nos avisar, em vez do habitual cheese ou patata:

- Todos conmigo ahora: CLITORIS.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

INSTANTÂNEOS - XXII


Peregrino que é peregrino janta frugal e deita-se cedo, que no dia seguinte é dia de trabalho árduo. Ele sabe bem que não é aconselhável exagerar nas proteínas animais, deve ser contido nas calorias etílicas. Bastas vezes, admite-se (assumindo aquela posição estereotipada do baixar a cabeça e olhar de lado), estes peregrinos prevaricam. Desavergonhadamente.

Com a sensatez que o caracteriza e define, Xaime contratou uma sopa para cada uma das duas noites que dormimos em Silleda. Para a história será secundariamente relevante que as ditas pudessem ser classificadas como tal. Na verdade, aquilo que a senhora galega nos apresentou, com toda a simpatia e boa vontade não pode, nunca por nunca, entrar na categoria de sopa, no exigente padrão português/beirão do que é um caldo. Vá lá! Poderá aceitar-se que são da família. Afastada.

A primeira consistia num caldo de água quente no qual boiavam, em cada prato, meia dúzia de pequenos cubos de nabo, uma dezena de pedaços de alho francês cortado grosso e três folhas de espinafre esfarripadas. Não! Não tinha base de courgete e/ou chuchu e/ou abóbora e/ou cebola e/ou alho e/ou cenoura e/ou batata… nada! Tão pouco foi adicionado um fio de azeite na fervura. Só faltava estar ensossa. E estava. Ponto a favor: aconchegadinhos com ela, o descanso nocturno parece que até foi de fracos roncos.

Na segunda noite, fomos brindados com uma espessa massa de cenoura – simplesmente cenoura, sem absolutamente mais nada - daquelas que quase aguenta a colher espetada. Os nossos olhos, consta, ficaram exageradamente bonitos.

Mas o mais relevante para este instantâneo veio com o episódio do pagamento. Para evitar a taxa de levantamento no ATM, a nossa Manela pediu que lhe entregássemos a contribuição de cada um, e ela pagaria a totalidade com o seu cartão.

Já todos tínhamos abandonado o estabelecimento a caminho do albergue quando os últimos reparam que a simpática galega fazedora de “sopas” especiais vem apressada e ar aflito no nosso encalço. Visivelmente incomodada, pergunta quem é que ia pagar a conta.

Rapidamente e com a argúcia de quem tem o bandulho cheio de pasta de cenoura se dá pela mancada: desconhecendo a combinação e porque a Manela não se lembrou de a informar, a senhora tinha debitado apenas a parte dela na sua maquineta.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS 3/3

 

CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS 3/3

 


CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS: Peso da Régua – Santiago

Depois da JORNADA 1/3 e da JORNADA 2/3a mochila voltou para as costas disposta a completar o projecto iniciado em 2019.

2022 - 3/3: Ourense - Compostela

Etapa 1 -29/05/2022

Ourense – Cea

26,6 km

Média: 4,3 km/h

Etapa 2 – 30/05/2022

Cea – Santo Domingo

20,8 km

Média: 4 km/h

Etapa 3 -31/05/2022

Santo Domingo – Silleda

27,6 km

Média: 4,3 km/h

Etapa 4 -01/06/2022

Silleda – Ponte Ulla

22,8 km

Média: 4,3 km/h

Etapa 5 -02/06/2022

Ponte Ulla - Compostela

24 km

Média: 4,2 km/h


 Caminhantes: 

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Elsa Maia, Felizarda Lourenço, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Rita Crisóstomo, São Pires, Teresa Silva.




A jornada tem início oficial na estação da CP de Castelo Branco onde as tropas agrupam. Moral em alta, notoriamente. Pa
ra chegar a Ourense foi agradável fazer a linha da Beira Baixa até ao Entroncamento com vistas para o Tejo quase sempre às 9 horas, a linha do Norte com alguns vislumbres do mar ali para as bandas de Espinho, o comboio celta até Vigo e finalmente uma espécie de linha do Minho galega que acompanha o rio até que deixa de funcionar como fronteira, passado Melgaço.

Em Ourense pontifica aquela magnífica Ponte Maior sobre o rio Minho. Ourense é também terra de termas. A água brota a uns escaldantes 30 graus (ou mais) e, nas que são públicas, algum povo – corajoso e foito – mantém-se imerso em pequenas piscinas na esperança de assim encontrar cura para as maleitas da artrose. Para a história desta jornada fica registado, também, o pormenor quase insignificante dos 3 peregrinos do grupo, que fizeram questão de ir “aquecer” para o Camiño durante cerca de 5 km só para experimentarem a dita água termal escaldante nas termas da “Chavasqueira”, indiferentes à indicação de um termómetro exterior onde as luzinhas desenhavam 43 graus célsius, por volta das 4 da tarde. O lugar não estava muito bem arrumado e inclusivamente havia espalhados alguns gradeamentos amarelos daqueles que as autoridades utilizam para vedar o acesso a determinados espaços. Parece que era o caso, segundo informaram 2 galegos encostados nas paredes do tanque, mas o povo, continuaram eles, é soberano e porque ordena mais do que tudo, não ligou a tal ditatorial restrição e instalou-se a bel-prazer. “Aqui nada funciona”, esclareceram ainda os ourensenses galegos, “estes políticos san unos hijos de puta”. O discurso continuou com opiniões no mesmo registo, aliviando-nos um pouco daquela nossa sensação de que só nosso país é que os políticos são isto e aquilo.

Estava um pouco mais fresco na manhã seguinte quando atravessámos a Ponte Maior de Ourense para começar os primeiros 8 quilómetros em modo de subida, inevitável para transpormos a orografia da bacia hidrográfica do Minho. Já a descer, numa ponte sobre uma pequena ribeira, fresca e sombreada onde se fez paragem técnica para reposição de líquidos e arrefecimento corporal, fomos apanhados por uma americana de Chicago, região plana - salientou - sem subidas nem descidas, nada parecido com o que ela acabara de fazer. Caminhava sozinha, com as suas próprias motivações.





O albergue em Cea estava mais preenchido do que o previsto, considerando que apenas nos cruzámos com a americana. Afinal, já lá estavam instalados alguns espanhóis, 2 israelitas, 2 alemães, 3 italianos e outros a quem não houve oportunidade de perguntar de onde vinham. Sem surpresa, os mais comunicativos foram os italianos, bicigrinos que estavam a fazer a Via de la Plata, desde Sevilha.

A nota mais saliente da noite, no entanto, vai para o concerto roncal oferecido por 4 prodigiosos instrumentistas. As partituras tocadas foram várias, em diferentes tons e volumes, ao longo de muitos quartos de hora, para deleite dos apreciadores que se mantiveram despertos e atentos.

A etapa entre Cea e Santo Domingo foi tranquila, com pequenos troços de dificuldade alta média, temperatura amena, sem chuva, a contrastar com o dia seguinte, destino Silleda, em que as capas e ponchos se justificaram durante boa parte do trajecto. Ainda assim, este troço é extremamente agradável, percorrendo extensos bosques onde o tapete de fetos fazia conjunto e harmonia com os frondosos castanheiros e carvalhos, paraíso para os numerosos melros de bico amarelo que ali se sentirão seguramente muito felizes.

É preciso realçar a passagem pela Ponte Taboada sobre o rio Deza, local onde os peregrinos têm oportunidade de pisar as mesmas pedras que outros pisaram há mais de 1000 anos atrás.

À saída da Silleda caia água que Deus a mandava e, teimosinha, acompanhou-nos durante duas horas. Vá lá que o cenário se mantinha de conto de fadas, por entre bosques autóctones abundante em verdes de todas as matizes. A meio, eis que surgiu abrigo no albergue Casa das Leiras, gerido pelo italiano Andrea que ficou visivelmente feliz com a paragem para breve secagem e chupitos daqueles 15 encharcadinhos. Muito palrador e simpático, mereceu o sketch rápido que o nosso Micaelo lhe esboçou à pressa (passe a redundância), mas a retratar os traços principais da ponte Taboada.


A descida final para a Ponte Ulla é bastante pronunciada, verdadeiro teste para os joelhos mais gastos. À chegada, interacção com 3 heróis, um italiano, cinquentão, rodas baixas e careca, um canadiano, trinta e poucos, e um austríaco, sessentas e tais, bigodinho tirolês. Os dois primeiros haviam partido de Sevilha, o tirolês de Tarifa, ou seja, este senhor contabilizava mais de 1200 quilómetros naqueles pés. O canadiano tinha para contar que apanhou o covid em Salamanca que o obrigou a recolher-se num hotel durante uma inteira semana, impedindo-o de ir tentar reconhecer la rana de la suerte, tão pouco pôde combater o calor com uma caña na magnífica plaza mayor de Salamanca.

No albergue O Cruceiro conseguimos, finalmente, ter acesso a um honesto caldo galego. Que saudades de um bom caldo galego! aquela água turva ligeiramente salgada onde cozeu um naco de presunto rançoso, mais uns ricos gravanzos e as famosas couves galegas, transportando-nos para a sopa da nossa avó em dia de matança. Sensibilizada com os nossos elogios, a patroa fez questão de ir à cozinha e tornar a encher a terrina para que ninguém ficasse com vontade.

No final, já liquidada a conta, a funcionária Sónia, jovem galega, rendida à nossa simpatia – e charme de alguns – apresentou-se com uma garrafinha de licor de hierbas e outra de licor de café e obrigou os pobres peregrinos à degustação de 2 generosas doses de cada. Justificou: os peregrinos mais simpáticos – e charmosos – que lhe aparecem ali são os portugueses. Os piorzinhos e mais difíceis de aturar: os franceses e… os espanhóis. Obviamente, estes nunca têm direito a oferta de licor de hierbas ou de café.



O último troço correu tranquilo, sem chuva, já em clima de expectativa da chegada. Referência especial para o casal de belgas, 76 e 75 anos, que caminhavam lentos mas despreocupados puxando cada um seu carrinho com rodas, esquema que já tinham utilizado para fazer o caminho português desde o Porto. Eles também devem ter lido a placa em Susana que nos recordava um dos elementos cruciais do espírito do Camiño: 

“No corras! Que donde tines que llegar es a ti mismo” (retirado de um poema de Juan Jimenez)

Quis ele saber num espanhol arrevezado: “Sois portugueses? Aqui solo para nosotros, los portugueses son más amistosos que los espanholes”. Se o tivéssemos ali à mão, era certinho que partilharíamos um chupito de hierbas.

A entrada no casco histórico de Compostela foi feita pela Rua do Franco, a mesma do caminho português. A multidão aclamou-nos até ao Obradoiro. 

As emoções acumuladas encontram sempre ali, no ponto zero frente ao Pórtico da Glória, o momento adequado para se manifestarem. É ali, e naquele momento, que a carga emocional do Camiño se abate sobre nós e, não raro, é descarregada em cloreto de sódio na forma de uma lágrima. 

O que nós gostamos destas emoções!




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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS 2/3

 CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS: Peso da Régua – Santiago


O plano inicial era cumprir o Caminho Interior Português, a partir do Peso da Régua, em 3 jornadas, a primeira em 2019, segunda em 2020, e terminar no Obradoiro no JACOBEO 2021. O “cóbide” boicotou-nos 2020, obrigando a adiamento para 2021.

Dois anos depois distoeis-nos de volta ao caminho para a jornada 2 de 3 no Caminho Interior Português.


2021 - 2/3: Chaves - Ourense

Etapa 1 -08/06/2021

Chaves - Verín

Etapa 2 -09/06/2021

Verín - Laza

Etapa 3 -10/06/2021

Laza - Vilar de Barrio

Etapa 4 -11/06/2021

Vilar de Barrio - Xunqueira de Ambía

Etapa 5 -12/06/2021

Xunqueira de Ambía - Ourense


 Caminhantes: 

Aníbal, Anselmo Cunha, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, São Pires.


Provavelmente, teremos de classificar a primeira etapa desta jornada como a menos agradável que já fizemos, no nosso já longo currículo. Todinha em asfalto, debaixo de um calor abrasador que terá ultrapassado os 30º, muito pouco sombreada, boa parte dela a “ouvir” o Tâmega lá em baixo. Uma veredinha a serpentear por entre aqueles salgueiros é mesmo o que faz ali falta (à atenção do Sr Presidente da Câmara de Chaves). É que as palminhas dos pés ressentiram-se…

A primeira atenuante apareceu-nos logo em Outeiro Seco, onde a D. Alice, simpática velhota montada numas socas tamanho 44 em pés 36, nos esperava com as chaves da Igreja de S. Miguel.

A segunda atenuante veio meia hora à frente quando fomos interceptados pela jornalista da Rádio Renascença, Olímpia. Eis aqui a peça escrita publicada no site:

https://rr.sapo.pt/especial/religiao/2021/06/09/peregrinos-de-volta-ao-caminho-de-santiago/241929/

Foi preciso caminharmos 12 km para encontrarmos um estabelecimento comercial com bebidas frescas, em Vilarelho da Raia. Depois, só em Verín. Valeu o “pulpo galego” que nos foi servido simpaticamente por uma portuguesa da Madeira que para ali foi parar e se deixou ficar por amor.

Nas cercanias de Verín, surge imponente e majestoso o castelo de Monterrey. Vale a pena a subida para mirar as pedras antigas e a paisagem.

As etapas seguintes foram bem mais satisfatórias, nos trajectos, nas paisagens, no espírito (do Caminho).

Na próxima, havemos de chegar a Compostela, e entrar pela Porta Santa no Ano Xacobeo de 2022 (especialmente concedido por Sua Santidade o Papa Francisco), e havemos de dar um abraço a Santiago, e comer uns pinchos, e uns pimientos padrón, e uns chupitos de hierbas e tudo o que tivermos direito, e havemos de nos divertir e sentir-nos sortudos por podermos fortalecer a amizade, em paz, em segurança, em liberdade. Porque, como disse convictamente um peregrino, é o caminho que nos faz. Não há um motivo para caminhar a Santiago. Há todos os motivos.