segunda-feira, 27 de junho de 2022

CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS 3/3

 

CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS 3/3

 


CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS: Peso da Régua – Santiago

Depois da JORNADA 1/3 e da JORNADA 2/3a mochila voltou para as costas disposta a completar o projecto iniciado em 2019.

2022 - 3/3: Ourense - Compostela

Etapa 1 -29/05/2022

Ourense – Cea

26,6 km

Média: 4,3 km/h

Etapa 2 – 30/05/2022

Cea – Santo Domingo

20,8 km

Média: 4 km/h

Etapa 3 -31/05/2022

Santo Domingo – Silleda

27,6 km

Média: 4,3 km/h

Etapa 4 -01/06/2022

Silleda – Ponte Ulla

22,8 km

Média: 4,3 km/h

Etapa 5 -02/06/2022

Ponte Ulla - Compostela

24 km

Média: 4,2 km/h


 Caminhantes: 

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Elsa Maia, Felizarda Lourenço, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Rita Crisóstomo, São Pires, Teresa Silva.




A jornada tem início oficial na estação da CP de Castelo Branco onde as tropas agrupam. Moral em alta, notoriamente. Pa
ra chegar a Ourense foi agradável fazer a linha da Beira Baixa até ao Entroncamento com vistas para o Tejo quase sempre às 9 horas, a linha do Norte com alguns vislumbres do mar ali para as bandas de Espinho, o comboio celta até Vigo e finalmente uma espécie de linha do Minho galega que acompanha o rio até que deixa de funcionar como fronteira, passado Melgaço.

Em Ourense pontifica aquela magnífica Ponte Maior sobre o rio Minho. Ourense é também terra de termas. A água brota a uns escaldantes 30 graus (ou mais) e, nas que são públicas, algum povo – corajoso e foito – mantém-se imerso em pequenas piscinas na esperança de assim encontrar cura para as maleitas da artrose. Para a história desta jornada fica registado, também, o pormenor quase insignificante dos 3 peregrinos do grupo, que fizeram questão de ir “aquecer” para o Camiño durante cerca de 5 km só para experimentarem a dita água termal escaldante nas termas da “Chavasqueira”, indiferentes à indicação de um termómetro exterior onde as luzinhas desenhavam 43 graus célsius, por volta das 4 da tarde. O lugar não estava muito bem arrumado e inclusivamente havia espalhados alguns gradeamentos amarelos daqueles que as autoridades utilizam para vedar o acesso a determinados espaços. Parece que era o caso, segundo informaram 2 galegos encostados nas paredes do tanque, mas o povo, continuaram eles, é soberano e porque ordena mais do que tudo, não ligou a tal ditatorial restrição e instalou-se a bel-prazer. “Aqui nada funciona”, esclareceram ainda os ourensenses galegos, “estes políticos san unos hijos de puta”. O discurso continuou com opiniões no mesmo registo, aliviando-nos um pouco daquela nossa sensação de que só nosso país é que os políticos são isto e aquilo.

Estava um pouco mais fresco na manhã seguinte quando atravessámos a Ponte Maior de Ourense para começar os primeiros 8 quilómetros em modo de subida, inevitável para transpormos a orografia da bacia hidrográfica do Minho. Já a descer, numa ponte sobre uma pequena ribeira, fresca e sombreada onde se fez paragem técnica para reposição de líquidos e arrefecimento corporal, fomos apanhados por uma americana de Chicago, região plana - salientou - sem subidas nem descidas, nada parecido com o que ela acabara de fazer. Caminhava sozinha, com as suas próprias motivações.





O albergue em Cea estava mais preenchido do que o previsto, considerando que apenas nos cruzámos com a americana. Afinal, já lá estavam instalados alguns espanhóis, 2 israelitas, 2 alemães, 3 italianos e outros a quem não houve oportunidade de perguntar de onde vinham. Sem surpresa, os mais comunicativos foram os italianos, bicigrinos que estavam a fazer a Via de la Plata, desde Sevilha.

A nota mais saliente da noite, no entanto, vai para o concerto roncal oferecido por 4 prodigiosos instrumentistas. As partituras tocadas foram várias, em diferentes tons e volumes, ao longo de muitos quartos de hora, para deleite dos apreciadores que se mantiveram despertos e atentos.

A etapa entre Cea e Santo Domingo foi tranquila, com pequenos troços de dificuldade alta média, temperatura amena, sem chuva, a contrastar com o dia seguinte, destino Silleda, em que as capas e ponchos se justificaram durante boa parte do trajecto. Ainda assim, este troço é extremamente agradável, percorrendo extensos bosques onde o tapete de fetos fazia conjunto e harmonia com os frondosos castanheiros e carvalhos, paraíso para os numerosos melros de bico amarelo que ali se sentirão seguramente muito felizes.

É preciso realçar a passagem pela Ponte Taboada sobre o rio Deza, local onde os peregrinos têm oportunidade de pisar as mesmas pedras que outros pisaram há mais de 1000 anos atrás.

À saída da Silleda caia água que Deus a mandava e, teimosinha, acompanhou-nos durante duas horas. Vá lá que o cenário se mantinha de conto de fadas, por entre bosques autóctones abundante em verdes de todas as matizes. A meio, eis que surgiu abrigo no albergue Casa das Leiras, gerido pelo italiano Andrea que ficou visivelmente feliz com a paragem para breve secagem e chupitos daqueles 15 encharcadinhos. Muito palrador e simpático, mereceu o sketch rápido que o nosso Micaelo lhe esboçou à pressa (passe a redundância), mas a retratar os traços principais da ponte Taboada.


A descida final para a Ponte Ulla é bastante pronunciada, verdadeiro teste para os joelhos mais gastos. À chegada, interacção com 3 heróis, um italiano, cinquentão, rodas baixas e careca, um canadiano, trinta e poucos, e um austríaco, sessentas e tais, bigodinho tirolês. Os dois primeiros haviam partido de Sevilha, o tirolês de Tarifa, ou seja, este senhor contabilizava mais de 1200 quilómetros naqueles pés. O canadiano tinha para contar que apanhou o covid em Salamanca que o obrigou a recolher-se num hotel durante uma inteira semana, impedindo-o de ir tentar reconhecer la rana de la suerte, tão pouco pôde combater o calor com uma caña na magnífica plaza mayor de Salamanca.

No albergue O Cruceiro conseguimos, finalmente, ter acesso a um honesto caldo galego. Que saudades de um bom caldo galego! aquela água turva ligeiramente salgada onde cozeu um naco de presunto rançoso, mais uns ricos gravanzos e as famosas couves galegas, transportando-nos para a sopa da nossa avó em dia de matança. Sensibilizada com os nossos elogios, a patroa fez questão de ir à cozinha e tornar a encher a terrina para que ninguém ficasse com vontade.

No final, já liquidada a conta, a funcionária Sónia, jovem galega, rendida à nossa simpatia – e charme de alguns – apresentou-se com uma garrafinha de licor de hierbas e outra de licor de café e obrigou os pobres peregrinos à degustação de 2 generosas doses de cada. Justificou: os peregrinos mais simpáticos – e charmosos – que lhe aparecem ali são os portugueses. Os piorzinhos e mais difíceis de aturar: os franceses e… os espanhóis. Obviamente, estes nunca têm direito a oferta de licor de hierbas ou de café.



O último troço correu tranquilo, sem chuva, já em clima de expectativa da chegada. Referência especial para o casal de belgas, 76 e 75 anos, que caminhavam lentos mas despreocupados puxando cada um seu carrinho com rodas, esquema que já tinham utilizado para fazer o caminho português desde o Porto. Eles também devem ter lido a placa em Susana que nos recordava um dos elementos cruciais do espírito do Camiño: 

“No corras! Que donde tines que llegar es a ti mismo” (retirado de um poema de Juan Jimenez)

Quis ele saber num espanhol arrevezado: “Sois portugueses? Aqui solo para nosotros, los portugueses son más amistosos que los espanholes”. Se o tivéssemos ali à mão, era certinho que partilharíamos um chupito de hierbas.

A entrada no casco histórico de Compostela foi feita pela Rua do Franco, a mesma do caminho português. A multidão aclamou-nos até ao Obradoiro. 

As emoções acumuladas encontram sempre ali, no ponto zero frente ao Pórtico da Glória, o momento adequado para se manifestarem. É ali, e naquele momento, que a carga emocional do Camiño se abate sobre nós e, não raro, é descarregada em cloreto de sódio na forma de uma lágrima. 

O que nós gostamos destas emoções!




______ " _____
























quarta-feira, 20 de outubro de 2021

CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS 2/3

 CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS: Peso da Régua – Santiago


O plano inicial era cumprir o Caminho Interior Português, a partir do Peso da Régua, em 3 jornadas, a primeira em 2019, segunda em 2020, e terminar no Obradoiro no JACOBEO 2021. O “cóbide” boicotou-nos 2020, obrigando a adiamento para 2021.

Dois anos depois distoeis-nos de volta ao caminho para a jornada 2 de 3 no Caminho Interior Português.


2021 - 2/3: Chaves - Ourense

Etapa 1 -08/06/2021

Chaves - Verín

Etapa 2 -09/06/2021

Verín - Laza

Etapa 3 -10/06/2021

Laza - Vilar de Barrio

Etapa 4 -11/06/2021

Vilar de Barrio - Xunqueira de Ambía

Etapa 5 -12/06/2021

Xunqueira de Ambía - Ourense


 Caminhantes: 

Aníbal, Anselmo Cunha, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, São Pires.


Provavelmente, teremos de classificar a primeira etapa desta jornada como a menos agradável que já fizemos, no nosso já longo currículo. Todinha em asfalto, debaixo de um calor abrasador que terá ultrapassado os 30º, muito pouco sombreada, boa parte dela a “ouvir” o Tâmega lá em baixo. Uma veredinha a serpentear por entre aqueles salgueiros é mesmo o que faz ali falta (à atenção do Sr Presidente da Câmara de Chaves). É que as palminhas dos pés ressentiram-se…

A primeira atenuante apareceu-nos logo em Outeiro Seco, onde a D. Alice, simpática velhota montada numas socas tamanho 44 em pés 36, nos esperava com as chaves da Igreja de S. Miguel.

A segunda atenuante veio meia hora à frente quando fomos interceptados pela jornalista da Rádio Renascença, Olímpia. Eis aqui a peça escrita publicada no site:

https://rr.sapo.pt/especial/religiao/2021/06/09/peregrinos-de-volta-ao-caminho-de-santiago/241929/

Foi preciso caminharmos 12 km para encontrarmos um estabelecimento comercial com bebidas frescas, em Vilarelho da Raia. Depois, só em Verín. Valeu o “pulpo galego” que nos foi servido simpaticamente por uma portuguesa da Madeira que para ali foi parar e se deixou ficar por amor.

Nas cercanias de Verín, surge imponente e majestoso o castelo de Monterrey. Vale a pena a subida para mirar as pedras antigas e a paisagem.

As etapas seguintes foram bem mais satisfatórias, nos trajectos, nas paisagens, no espírito (do Caminho).

Na próxima, havemos de chegar a Compostela, e entrar pela Porta Santa no Ano Xacobeo de 2022 (especialmente concedido por Sua Santidade o Papa Francisco), e havemos de dar um abraço a Santiago, e comer uns pinchos, e uns pimientos padrón, e uns chupitos de hierbas e tudo o que tivermos direito, e havemos de nos divertir e sentir-nos sortudos por podermos fortalecer a amizade, em paz, em segurança, em liberdade. Porque, como disse convictamente um peregrino, é o caminho que nos faz. Não há um motivo para caminhar a Santiago. Há todos os motivos.




 



 



 


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

COLÓQUIO




A Câmara Municipal de Castelo Branco em parceria com a Associação de Peregrinos Via Lusitana e a Confraria dos Caminhos, vai organizar o Colóquio “Construir um Itinerário de Sucesso na Beira Baixa, no enquadramento do Caminho de Santiago, Via Portugal Nascente/Caminho Nascente.

O mesmo vai acontecer no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, dia 9 de Outubro de 2020, sexta-feira, com início às 14h30.

Serão apresentadas várias comunicações organizadas em dois painéis:

- Estratégias para a afirmação do Caminho
- Experiências de um Caminho.

Sendo esta uma temática de grande interesse para a região, tendo em conta que 2021 é Ano Jacobeu, e enfatizando o facto de nesta matéria só com trabalho de cooperação entre todos os concelhos se poder oferecer ao peregrino uma experiência compensadora, com retorno para todos, convidamos os interessados a inscrever-se, através do endereço doscaminhosconfraria@gmail.com .


 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

INSTANTÂNEOS - XXI

 


No nosso curriculum, já acumulamos várias centenas de milhas, com alíneas a reportar trajectos no Caminho Português, no Português Interior, no Camiño Torres, na Via Portugal Nascente, no Primitivo, no Inglês, Muxia-Fisterra, Caminho da Costa … Em projecto estão muitos outros, todos quantos pudermos.

Este despretensioso blogue foi dando conta – e continuará a dar – de episódios, de peripécias, de “instantâneos” protagonizados ou testemunhados por estes peregrinos que partilham o gozo de palmilhar o Caminho.

O Caminho da Costa ofereceu-nos um “instantâneo” algo peculiar.

Foi numa ruela estreita da extensa urbe que se estende entre Vila do Conde e a Póvoa do Varzim, ali mesmo ao lado das Caxinas, terra de pescadores, que um autóctone sénior nos fez parar para perguntar:

- Vós andais a fazer o Caminho?

Algo titubeantes, considerando o óbvio reflectido nos nossos adereços, gaguejámos:

- Sim, andamos.

O cavalheiro olhou-nos ostensivamente de frente e completou a pergunta:

- Vós andais a fazer o Caminho, ou o Caminho é que vos anda a fazer?

Nos peregrinos arcaicos, a matriz motivacional remetia para uma dimensão iniciática, mística, esotérica apontada ao finis terrae; após a apropriação cristã dos locais de culto druidas, a pulsão para peregrinar é marcada quase exclusivamente pelo espírito religioso; nos tempos recentes, a laicização do caminho deu entrada a todo o tipo de procura, integrando modernices como a busca interior, o espírito de aventura e até, simplesmente, o desporto.

Comparado com o antigo – e o antigo aqui vale, digamos, 30 a 40 anos -, o peregrino moderno tem a vida facilitada, como é fácil de reconhecer: caminho marcado para não se perder, albergues e restaurantes com fartura para descansar e se alimentar, roupas sofisticadas para aliviar o sofrimento, equipamento tecnológico… enfim, só tentações para ele se transformar num “turigrino”.

Àparte o propósito, para todos – antigos e modernos – o Caminho significa sempre uma procura, uma demanda, uma senda. Inacabada, porque para muitos, a pulsão para voltar, volta, mais cedo ou mais tarde.

Parece haver um elemento comum: nunca se regressa igual.

- Vós andais a fazer o Caminho, ou o Caminho é que vos anda a fazer?

Emudecemos.

A carga filosófica subjacente a pergunta tão singela ficou a pesar no sub-consciente.

O que é que o Caminho nos anda a fazer?


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Caminho Português da Costa

 


Caminho Português da Costa

Porto – Valença, 18 a 26/07/2020

Caminhantes:

Anselmo (Porto-Viana), Conceição Pires, Joaquim Branco, Elsa Maia, João Branco (Viana-Valença), João Maia, Pedro Branco, Raul Maia, Rita Maia.

A jornada começa no dia 18/07 com a viagem de comboio até ao Porto, e metro até à Póvoa do Varzim. Aproveitando a rede metropolitana, estabeleceu-se a base na Póvoa do varzim, nos primeiros 4 dias.

2 notas especiais: a primeira para a benfeitoria do nosso Raul Maia e da sua Sports Design que patrocinou 2 tshirts a cada um dos caminhantes, logotipo da Confraria à frente, seta amarela atrás; a segunda para a máscara personalizada com o logotipo da Confraria dos Caminhos, iniciativa do nosso Xoaquim Branco.

 



1ª Etapa, 19/07/2020

Porto – Modivas


Distancia: 21.9 km
Tempo movimento: 4:31
Tempo total : 6:04
Media: 4.7km/h
Tempo parado: 1:23
Altitude: 21mt

A jornada começa bem cedo, com a viagem de metro entre a Póvoa e o Porto. Para quem não está familiarizado, por via da utilização diária, a rede de metro do Porto apresenta estações com alguns nomes peculiares, como “Fonte do Cuco”, “Espaço Natureza” ou “Portas Fronhas”; depois, também se pode desconfiar do critério que atribuiu a outra a completa designação de “Vila do Conde Fashion Outlet Modivas”.

Partida oficial da Sé do Porto. O percurso segue monotonamente por avenidas, ruas e ruelas da área metropolitana do Porto, suscitando a ansiedade por chegar a campo aberto. Será preciso contornar o aeroporto para se chegar à estação de Modivas que marcará o fim da etapa.

 



2ª Etapa, 20/07/2020

Modivas – Póvoa do Varzim

Distancia: 17.4 km
Tempo movimento: 4:25
Tempo total : 6:26
Media: 3.9km/h
Tempo parado: 2:01
Altitude: 34 mt
 

Durante a primeira hora de caminhada, o trajecto é agradável, por entre alguns bosques e pequenas searas de milho que nesta altura e nesta zona se apresentam com um viço exuberante e já embandeirado.

Entra-se depois no comprido e serpenteante tecido urbano que nos conduzirá por Vila do Conde, ao lado das Caxinas e Póvoa do Varzim. Fazem-se notar as inúmeras vivendas com piscina, muitas delas construídas naquele modelo arquitectónico dominante nas décadas de 70 e 80 do século passado, cujo elemento mais saliente é o seu revestimento exterior a azulejo berrante. Na cidade do Ave sobressai o imponente Mosteiro de Santa Clara e a majestosa Igreja de São João Batista.

Mesmo à chegada a Vila do Conde, eis que a GNR nos tolhe o passo e nos dá ordem para parar. O nosso Sargento Humberto, peregrino veterano, milhões de passadas no seu vasto currículum no que toca a Camiño, queria saber se precisávamos de algo. 

A tarde foi de praia, num mar surpreendentemente calmo e água a temperatura algarvia.



 


3ª Etapa, 21/07/2020

Póvoa do Varzim- Esposende

Distancia: 26.8 km

Tempo movimento: 6:22
Tempo total : 9:11
Media: 4.2 km/h
Tempo parado: 2:48
Altitude: 10 mt

Depois de 2 etapas em espaço predominantemente urbano, o Caminho começa a justificar finalmente o nome “da Costa”. Em boa parte do percurso, o piso é em passadiço de madeira com a orla marítima e praias quase sempre à vista, convidando a manter o olhar fixado entre as 9 e as 11. Fácil e agradável.

Na Apúlia, almoço na esplanada da Adega do Agostinho. Peixe, evidentemente. Foi aqui que calhou sermos úteis. Já tínhamos encomendado umas clarinhas para sobremesa quando na mesa ao lado, um octogenário de Braga se sente mal e, literalmente, cai da cadeira. Os nossos profissionais de saúde (Pedro, médido, São e Elsa, enfermeiras) saltaram imediatamente para a assistência, os restantes ajudaram na libertação de espaço para o ancião jazer na horizontal até à chegada do INEM. A rapidez e eficácia colocada em acção terá impressionado a família bracarense do assistido senhor, desfazendo-se em elogios e agradecimentos. Registado, mas o espírito do Caminho também é feito destas posturas solidárias e incondicionais.

Resto de trajecto descontraído até à majestosa foz do Cávado e ao AL que nos albergou em Esposende.



 


4ª Etapa, 22/07/2020

Esposende – Viana do Castelo

Distancia: 25 km
Tempo movimento: 5:57
Tempo total : 8:37
Media: 4.2 km/h
Tempo parado: 2:39
Altitude: 14 mt

O caminho deixa de ser da “Costa” novamente logo à saída de Esposende, virando ligeiramente para nordeste, conduzindo-nos através do povoamento disperso característico do Minho. Embalados pela quase ausência de desníveis das últimas etapas, fomos obrigados a reparar nas subidas e descidas que esta etapa nos oferecia. Ainda por cima, o calor de Julho também se quis fazer notar.

O trajecto segue agora maioritariamente em floresta. A travessia do Neiva tem de fazer-se com alguns cuidados pelas poldras deixadas pela ponte caída que “liga” os municípios de Esposende e Viana. A fadiga imposta pela subida até à Igreja de Santiago do Castelo do Neiva é atenuada pela pausa concedida pelas excelentes condições disponíveis no complexo. Mais floresta até à Igreja de S. Romão do Neiva, antes de entrar na “área metropolitana” de Viana do Castelo. Pouco faltava para o sino tocar as 3, estávamos nós com o santuário de Santa Luzia à vista. Apesar da hora, a Nela, na sua tasca, havia de nos alimentar com um farto rancho à minhota, binho berde e tudo o mais a que tínhamos direito.

Depois, foi só aproveitar a ponte Eiffel sobre o Lima.



 


5ª Etapa, 23/07/2020

Viana do Castelo – Caminha

Distancia: 31.8 km
Tempo movimento: 8:05
Tempo total : 10:25
Media: 4.1 km/h
Tempo parado: 4:22
Altitude: 8 mt

Mudança de base: depois da Póvoa do Varzim, passamos agora para Vila Nova de Cerveira, utilizando a linha do Minho para as deslocações até aos pontos de partida.

Testemunhas da nossa partida foram o Santuário do Sagrado Coração de Jesus lá no alto do Monte de Santa Luzia e, menos imponente, o edifício Coutinho, o tal que está para ir abaixo há 20 anos. O percurso foi andado sempre a meia encosta com vista para o Atlântico, com direito a conferir a temperatura da água em Afife e em Moledo. No meio, Vila Praia de Âncora ofereceu-nos um almoço de posta.

Com o Monte de Santa Tecla a espreitar-nos pelas 9 horas, chegada tranquila a Caminha, trauteando a história da minhota:

foi num baile a meio de junho
entre canecas de vinho
e ela em vez de ganga russa
tinha um corpete de linho

enquanto a moça dançava
a mim dáva-me a doideira
já não sei se era do vinho
ou se era da bailadeira

tive que ir a ter com ela
a perguntar-lhe de onde vinha
e ela respondeu manhosa
c'um raios sou de caminha

eu contei-lhe o que sentia
que me tinha apaixonado
e ela disse-me que ainda a procissão ia no adro

e a minhota prometeu-me que ainda havia de ser minha
quando se acabar o baile vai-me levar pra caminha

mas o vinho não perdoa e a manhã veio apressada
a minhota foi-se embora e eu nem sequer dei por nada
acordei com o sol alto no terreiro já vazio
tudo aquilo parecia que era um sonho fugidio

quis ir à procura dela, pensei nela todo o dia
mas passaram tantas horas, onde é que ela já estaria
pra que bebi tanto vinho, fiquei tão arrependido
não me saia da ideia o que ela tinha prometido

a minhota prometeu-me que ainda havia de ser minha
quando se acabar o baile vai-me levar pra caminha

(letra e música de Sebastião Antunes/Quadrilha)




 


6ª Etapa, 24/07/2020

Caminha – Vila Nova de Cerveira

Distancia: 17.6 km
Tempo movimento: 4:16
Tempo total : 5:49
Media: 4.1 km/h
Tempo parado: 1:32
Altitude: 24 mt

Os primeiros passos são logo na ponte sobre o estuário pantanoso do rio Coura, prosseguindo quase sempre com vista para o rio Minho, a Galiza logo ali do outro lado. Sucediam-se os solares, alguns deles imponentes, todos brasonados, testemunhas de muitas histórias, e de muita história, protagonizada que terá sido por habitantes antigos, gente de linhagem nobre, aristocratas e burgueses.

Chegada a Cerveira a horas de almoço. Na vila das artes já se notava alguma agitação nos preparativos da Bienal Internacional de Arte, cuja vigésima primeira edição irá cumprir-se do primeiro de agosto até ao último dia de 2020.



 


7ª Etapa, 25/07/2020

Vila Nova de Cerveira – Valença

Distancia: 16.8 km
Tempo movimento: 3:45
Tempo total : 6:04
Media: 4.5 km/h
Tempo parado: 1:38
Altitude: 80 mt

Última etapa deste nosso projecto.

À semelhança do anterior, o percurso segue quase sempre próximo do rio. Fácil e tranquilo, apesar do cansaço acumulado.

Para memória futura, registe-se que à comemoração de mais um projecto cumprido desta nossa sã teimosia de regularmente fazermos o caminho de Santiago, calhava ser dia de aniversário de bodas matrimoniais dos nossos Raul e Elsa Maia, e, ainda com o bónus da visita do patrício Rui quelhas que, estando na zona, ajudou e abrilhantou a festa final.

A tarde, já novamente na base Cerveira, foi dedicada à feira – feira a sério, à minhota – e saltinho ao miradouro do Cervo para apreciar as espectaculares vistas que dali se alcançam (cortesia na nossa anfitriã, antiga camarada d’ármas do nosso Raul, na missão cumprida na Bósnia há um quarto de século.

Não tardará muito a que cá voltemos. Esperamos nós que assim seja.