terça-feira, 27 de outubro de 2026

INSTANTÂNEO XXXIII


Foi mesmo ali na rua da oficina do peregrino, a que se acede a partir do Obradoiro que quase sucedeu o que não era suposto suceder. Nunca, jamais, em tempo algum.

Contar-se-á o episódio - insólito, avisa-se -, mas não antes de algumas considerações prévias, para contextualizar e enquadrar.

Considere-se a extensa lista de elementos que o peregrino segue na preparação da mochila no dia anterior a fazer-se ao caminho. Alguns, não pode ele dispensar: classifiquemo-los como “absolutamente essenciais”. Outros há que, não sendo essenciais, os peregrinos, digamos, mais veteranos, sobretudo esses, fazem questão de exibir.

Nesta segunda categoria, podemos integrar, desde logo, a trindade que inclui a cabaça, o bordão e a vieira.

A cabaçita envernizada que o peregrino pendura na mochila, é sabido que nunca a utilizará como cantil como faziam os medievos peregrinos, mas ele vai convencido que faz um figurão com ela a abanar e a chocalhar ao ritmo das suas passadas.

O bordão, bem, o bordão, já o moderno peregrino o substituiu por dois bastões dramaticamente mais leves do que o antigo cajado de pau de eucalipto, avelaneira ou castanheiro. Estamos a falar, claro, de um produto em fibra de carbono, punho de cortiça ou espuma, alça em poliéster, segmentos ajustáveis, sistema de bloqueio, discos para evitar o afundanço na lama, ponteira em tungsténio e protetor de borracha amovível.

A vieira, vai porque sim, porque parece que peregrino que se preze deve fazer-se acompanhar por uma, de preferência com a cruz de Santiago pintada a esmalte vermelho. E segue ele de consciência tranquila, porque, garantiu-lhe o vendedor, não foi apanhada ilegalmente na praia de Muxia, é um mero subproduto da aquicultura galega.

Para além desta trindade, podem listar-se, também, uma série de penduricalhos e outros artefactos que ficam sempre bem em qualquer mochila, a começar pela série de emblemas em fundo azul, cuidadosamente cosidos à mão com agulha e dedal, que ostentam os grandes feitos de ter no currículum, em acumulado, o Caminho Português (nas suas variantes), o Francês, o Inglês, o Primitivo, o da Costa, Fisterra…; mas também a cruz de San Antón recolhida no Convento homónimo a chegar a Castrojeriz; a medalhinha em lata com a estampa da Virgem do Mosteiro, ofertada pela Irmã Carmen das Filhas da Caridade em Rabé de Las Calzadas; um pin da Federação Portuguesa dos Caminhos de Santiago; a mascote de pano com a figura do Apóstolo; a caneca de alumínio com mosquetão...

Mas, depois, há os tais elementos “absolutamente essenciais”, tais como o saco cama, toalha, chapéu, poncho, roupa suplente indispensável, credencial, carteira com documentos e dinheiro, garrafa de água, telemovel e carregador...

Nesta categoria, porém, há um elemento que pode ser alcandorado ao patamar de créme de la créme da essencialidade: o “necessaire”.

A sua importância atinge as raias da preciosidade. É nele que o peregrino guarda alguns dos objetos que contribuem para fazer jus ao afrancesado nome: necessaire. A maioria desses objetos são de uso estritamente individual, não é suposto partilhá-los. Seria algo inusitado que alguém quisesse utilizar o necessaire de outro alguém.

Mas, aconteceu.

Inserme tinha deixado o seu precioso necessaire num canto da bancada da casa de banho, durante os instantes em que se recatou no cubículo apertado, em preparação mental e física para o duche retemperador que lhe exigia o esqueleto, depois dos mais de vinte exigentes quilómetros percorridos entre Santiago e Negreira. À saída, foi pelo champú com aroma de lavanda em frasco de 50 mililitros que deveria estar no necessaire que deveria estar no cantinho da bancada.

Mas que não estava.

O mui importante saquinho com a sua impartilhável escova de dentes, pasta dentífrica anticárie, palete de escovilhões dentários descartáveis, protetor solar, barrinha de sabão azul e branco, lâmina e gel de afeitar e comprimidos para dormir, tinha desaparecido. Instintivamente, abriu a porta e, ainda conseguiu vislumbrar a sombra de um peregrino em tronco nú que se esgueirava para o seu quarto. O mesmo instinto deu-lhe para ir atrás dele e, sorte suprema, ele tinha o seu precioso necessaire na mão, imediatamente identificado pela flor de liz bordada a dourado em fundo preto.

Nem se lembrou de falar noutra língua que não a sua, mas com voz grossa e viril, avisou:

- Ei! Isso é meu!

O outro olhou-o com uns olhos muito abertos e expressão entre o confuso e o surpreendido.

- This is mine! - enfatizou em linguagem mais universal, não fosse o caso de ele não entender português, e agarrou energicamente na sua bolsinha.

O meliante nem resistiu. Limitou-se a gaguejar:

- Sorry.

Calhasse Inserme não ser uma pessoa com a personalidade sensata, ponderada e racional que o universo lhe reconhece, e o relato do episódio prosseguiria agora com a descrição de uma cena invulgar entre peregrinos, nada consentânea com o espírito do Caminho.

Todavia, na circunstância, um duche era a prioridade das prioridades. Virou costas e regressou à casa de banho. Já com a água morna a deslizar pele abaixo, ele cogitava:

- Mas será que o indivíduo teve mesmo intenção de se apropriar do meu necessaire? Na! Não pode ser. Ninguém necessita do necessaire de ninguém.


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