Foi mesmo ali na rua da oficina do peregrino, a que se acede a partir do Obradoiro que quase sucedeu o que não era suposto suceder. Nunca, jamais, em tempo algum.
Contar-se-á o episódio - insólito, avisa-se -, mas não antes
de algumas considerações prévias, para contextualizar e enquadrar.
Considere-se a extensa lista de elementos que o peregrino
segue na preparação da mochila no dia anterior a fazer-se ao caminho. Alguns,
não pode ele dispensar: classifiquemo-los como “absolutamente essenciais”.
Outros há que, não sendo essenciais, os peregrinos, digamos, mais veteranos,
sobretudo esses, fazem questão de exibir.
Nesta segunda categoria, podemos integrar, desde logo, a
trindade que inclui a cabaça, o bordão e a vieira.
A cabaçita envernizada que o peregrino pendura na mochila, é
sabido que nunca a utilizará como cantil como faziam os medievos peregrinos,
mas ele vai convencido que faz um figurão com ela a abanar e a chocalhar ao
ritmo das suas passadas.
O bordão, bem, o bordão, já o moderno peregrino o substituiu
por dois bastões dramaticamente mais leves do que o antigo cajado de pau de
eucalipto, avelaneira ou castanheiro. Estamos a falar, claro, de um produto em
fibra de carbono, punho de cortiça ou espuma, alça em poliéster, segmentos
ajustáveis, sistema de bloqueio, discos para evitar o afundanço na lama,
ponteira em tungsténio e protetor de borracha amovível.
A vieira, vai porque sim, porque parece que peregrino que se
preze deve fazer-se acompanhar por uma, de preferência com a cruz de Santiago
pintada a esmalte vermelho. E segue ele de consciência tranquila, porque,
garantiu-lhe o vendedor, não foi apanhada ilegalmente na praia de Muxia, é um mero
subproduto da aquicultura galega.
Para além desta trindade, podem listar-se, também, uma série
de penduricalhos e outros artefactos que ficam sempre bem em qualquer mochila,
a começar pela série de emblemas em fundo azul, cuidadosamente cosidos à mão
com agulha e dedal, que ostentam os grandes feitos de ter no currículum, em acumulado, o Caminho
Português (nas suas variantes), o Francês, o Inglês, o Primitivo, o da Costa,
Fisterra…; mas também a cruz de San Antón recolhida no Convento homónimo a
chegar a Castrojeriz; a medalhinha em lata com a estampa da Virgem do Mosteiro,
ofertada pela Irmã Carmen das Filhas da Caridade em Rabé de Las Calzadas; um
pin da Federação Portuguesa dos Caminhos de Santiago; a mascote de pano com a
figura do Apóstolo; a caneca de alumínio com mosquetão...
Mas, depois, há os tais elementos “absolutamente essenciais”,
tais como o saco cama, toalha, chapéu, poncho, roupa suplente indispensável, credencial,
carteira com documentos e dinheiro, garrafa de água, telemovel e carregador...
Nesta categoria, porém, há um elemento que pode ser alcandorado
ao patamar de créme de la créme da
essencialidade: o “necessaire”.
A sua importância atinge as raias da preciosidade. É nele que
o peregrino guarda alguns dos objetos que contribuem para fazer jus ao afrancesado
nome: necessaire. A maioria desses objetos
são de uso estritamente individual, não é suposto partilhá-los. Seria algo
inusitado que alguém quisesse utilizar o necessaire
de outro alguém.
Mas, aconteceu.
Inserme tinha deixado o seu precioso necessaire num canto da bancada da casa de banho, durante os
instantes em que se recatou no cubículo apertado, em preparação mental e física
para o duche retemperador que lhe exigia o esqueleto, depois dos mais de vinte exigentes
quilómetros percorridos entre Santiago e Negreira. À saída, foi pelo champú com aroma de lavanda em frasco de
50 mililitros que deveria estar no necessaire
que deveria estar no cantinho da bancada.
Mas que não estava.
O mui importante saquinho com a sua impartilhável escova de
dentes, pasta dentífrica anticárie, palete de escovilhões dentários
descartáveis, protetor solar, barrinha de sabão azul e branco, lâmina e gel de
afeitar e comprimidos para dormir, tinha desaparecido. Instintivamente, abriu a
porta e, ainda conseguiu vislumbrar a sombra de um peregrino em tronco nú que
se esgueirava para o seu quarto. O mesmo instinto deu-lhe para ir atrás dele e,
sorte suprema, ele tinha o seu precioso necessaire
na mão, imediatamente identificado pela flor de liz bordada a dourado em fundo
preto.
Nem se lembrou de falar noutra língua que não a sua, mas com
voz grossa e viril, avisou:
- Ei! Isso é meu!
O outro olhou-o com uns olhos muito abertos e expressão entre
o confuso e o surpreendido.
- This is mine! - enfatizou em linguagem mais universal, não
fosse o caso de ele não entender português, e agarrou energicamente na sua
bolsinha.
O meliante nem resistiu. Limitou-se a gaguejar:
- Sorry.
Calhasse Inserme não ser uma pessoa com a personalidade
sensata, ponderada e racional que o universo lhe reconhece, e o relato do
episódio prosseguiria agora com a descrição de uma cena invulgar entre
peregrinos, nada consentânea com o espírito do Caminho.
Todavia, na circunstância, um duche era a prioridade das
prioridades. Virou costas e regressou à casa de banho. Já com a água morna a
deslizar pele abaixo, ele cogitava:
- Mas será que o indivíduo teve mesmo intenção de se
apropriar do meu necessaire? Na! Não
pode ser. Ninguém necessita do necessaire
de ninguém.

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