Primeira e mais relevante nota: é
impossível fazer o Caminho sem tropeçar no magnífico património histórico, sobretudo religioso,
resultado, entre outros fatores, do vigor, da estratégia e, principalmente, dos
recursos à disposição da Igreja Católica Apostólica Romana em Espanha. Não pode
o peregrino deixar de ficar impressionado com a quantidade e grandiosidade das igrejas e catedrais que pontificam em todas as cidades e pueblos por onde o Caminho segue. Quase que incomoda ver tamanha
monumentalidade e imponência exterior, assim como a opulência, a riqueza
artística e a diversidade estilísticas no interior, em aldeias que nem sequer
são de grande dimensão.
E se há património, há história, há cultura.
Desenho: Nulita Lourenço (Puente La Reina)
Para a nossa história,
selecionemos então duas ou três relevantes notas sobre cultura e história
locais desta nossa jornada, a primeira, no Caminho Francês.
Desde logo, St Jean Pied de Port. Esta ville, actualmente francesa, mas que já foi de Navarra e, conserva a cultura e língua basca, ocupa uma posição estratégica para quem, ao longo de muitos séculos, quis atravessar o Pirinéus.
Faltará sempre serenidade ao
peregrino para apreciar convenientemente a riqueza patrimonial do local,
boicotado pelo ambiente festivo, e pela adrenalina associada à expectativa de
começar o caminho bem cedinho na manhã seguinte. Quem resiste e se mantém sereno – como estes lusos albicastrenses – sempre arranja tempo para, pelo menos, visitar a Igreja
de Notre-Dame (sec. XIII) e fazer um tour pela cidadela (sec. XVII).
St Jean marca o início icónico do
Caminho Francês e é lá que está instalada uma oficina de peregrinos onde todos
vão obter o primeiro carimbo e dali partem, através da mítica porta de Santiago
(St Jacques, para os franceses) à conquista dos Pirinéus, por caminhos calcorreados desde há milénios. É plausível que Iberos, Celtas, Romanos, Suevos, Vandalos, Alanos, Visigodos por ali tenham transposto os Pirinéus.
Foi seguramente por estes trilhos
que nos conduzem a Roncesvalles (Valcarlos) que o exército de Carlos Magno terá
retirado, derrotado, corrido da fracassada incursão a territórios bascos e
mouros. Pese embora a importância que a história reconhece a Carlos Magno para a formação da Europa, as crónicas relevam como marcante a batalha de Roncesvalles,
no longínquo ano de 778, na qual terá perecido o lendário Rolando, um dos
guerreiros medievais mais icónicos, inspirador de lendas, canções e óperas (https://worldvaticano.wordpress.com/carlos-magno/).
Por esta mesma rota marcharam os
poderosos exércitos de Napoleão, provavelmente a toque de caixa e sem botas de
caminhada Merrell, com ordens para invadirem Espanha e
prosseguirem para Portugal, e por ali regressaram a casa em muito menor número
mas carregados com o muito espólio roubado.
São
estas pedras carregadas de história, enfim, no piso do caminho, suporte centenário de ponte, ou
artisticamente alinhadas num capitel, que agora testemunham a passagem de muitos
milhares de pacíficos peregrinos rumo a Compostela.
A
região, Navarra, é rica em história, pois. A sua identidade enquanto comunidade
foi sendo construída e moldada na confluência de uma matriz de elementos, com expressão, também, no vigor que mantêm algumas tradições (exemplo: a Festa de
San Firmin e similares), e, sem pertencer ao “país”, o basco como segunda e oficial língua.
Em
Pamplona, capital, são justas duas referências especiais (e nenhuma deles é a
Festa de San Firmin). A primeira é que, sobretudo para quem gosta de
literatura, não deixa de ser algo emotivo tomar um viño tinto num
local conhecido como o rincón de Ernest Hemingway. Terá sido
naquele ambiente que ele se inspirou para alguns dos seus escritos para o Nobel
da Literatura de 1954.
Deu-se ainda o caso, feliz, de
nos ter sido concedido o privilégio de acompanhar a degustação de um tinto de La Rioja, com uma demonstração
de cultura local/regional digna de realce. O dia era solarengo, a Plaza del
Castillo fervilhava de gente. No coreto, o quarteto de sopros desenvolvia
algumas músicas tradicionais, enquanto uma multidão de navarros, séniores,
jovens, crianças, acompanhava com danças bascas/navarras numa coreografia
razoavelmente sincronizada, algo muito próximo de um flashmob (mil perdões pelo anglicismo). Lindo de se ouvir e ver.
Na mesa ao lado, sentavam-se
quatro senhoritas doñas para cima de sexagenárias, tomando um thé. Metemos conversa. Entre outras
curiosidades, quisemos saber, com um laivo de provocação, se Pamplona pertencia
ao país basco. A resposta foi peremptória e taxativa: No! Claro que no!”. Ainda
argumentámos que estávamos a assistir a uma demonstração da cultura basca, e
que as placas nas ruas e estradas tinham todas os dizeres em castelhano e
basco… “Qué no!” ripostaram convictamente as pamplonenses senhoras. “Ellos lo
quieren, y hay muchos bascoparlantes, pero Navarra es Navarra”.
Não menos relevante, foi a sorte
que calhou a estes lusos peregrinos em Viana, segunda feliz coincidência,
segunda demonstração da vitalidade identitária e cultural deste povo e desta região de
Navarra. Era o primeiro dia das festas de nossa Senhora das Neves que se
prolongariam por uma semana, e cujo programa incluíam as famosas largadas de
toiros pelas ruas, à semelhança de Pamplona, as mesmas que tanto cativaram
Hemingway.
O cenário tinha algo de surpreendente e, mesmo de espectacular.
Todos os habitantes de Viana se apresentavam trajados com a mesma indumentária:
calça e camisa brancas e lenço vermelho. Os únicos seres que destoavam eram
estes humildes mas curiosos lusos peregrinos. Curiosos e atrevidos, misturaram-se sorrateiramente na multidão que se aglomerava na praça do Ayuntamiento, escutaram atentamente os discursos em basco da Senhora Alcaldeza, registaram em video o foguete que ela apichou para dar início oficial às
grandiosas festividades em honra de Nossa Senhora das Neves, acompanharam os "Viva Viana" que a turba gritava em uníssono, e, até se puseram ao despique com os Vianenses de todas as idades, a ver quem apanhava mais caramelos, dos milhares que foram atirados à rebatina para o meio do povo, desde a varanda do autárquico edifício.


Viana justifica uma outra nota
com uma bem relevante carga histórica. É na localidade que está sepultado César
Bórgia. Tinha esta figura uma particularidade única: era filho de Papa. Sim, o
Papa Alexandre VI, 214.º chefe maior da igreja Católica entre 1492 e 1503 era o
senhor seu pai. Para além de ser filho de quem era, chegou o rapazinho, ainda
jovem, a Cardeal. Aborrecido, decidiu abandonar a carreira eclesiástica para se dedicar à carreira militar, trocando, pois, o encarnado barrete cardinalício pelo cinzento metálico elmo, algo
que, presume-se, lhe dava mais satisfação, tendo-se envolvido em múltiplas
pelejas até ser morto numa delas em 1507. Rezam as crónicas que ele conviveu
com Leonardo da Vinci, e, Maquiavel ter-se-á inspirado nele para escrever a sua
obra maior “O Príncipe”. Este César terá sido uma personagem e tanto. E ali
estavam os seus restos mortais, na Igreja de Santa Maria em Viana.
Monasterio de Irache

Puente La Reina
Monastério de Santa Maria La Real de Najera
Catedral de Burgos