sexta-feira, 30 de agosto de 2013
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Diário de Caminhada - ETAPA VII: Trancoso - Ponte do Abade
“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
Etapa VII: Trancoso - Ponte do Abade
30 de junho de 2013, domingo
Caminhantes: Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Inserme, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, Sãozita Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade.
Sinopse:
Inicio em
Trancoso 7:30 horas
Distância
percorrida: 23,2 km
Tempo
total de caminhada: 6:15 horas
Tempo a
andar: 5:17 horas
Tempo
parado: 58 minutos
Velocidade
média: 4,4 km/h
Altitude
máxima: 822 metros aos 5Km de percurso
Subida
acumulada 279 Metros
Descida
acumulada 531 Metros
Povoados
e locais de referência ao longo do percurso:
Trancoso,
Sintrão, Montes, Vila Novinha, Palhais, Benvende, Peroferreiro, Lezírias, Ponte do
Abade, rio Távora.
Acumulado:
Caminho: 184,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Douro.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas,
Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe.
Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui
O caminho são
caminhos. Nas primeiras 3 etapas procurámos seguir o percurso a que se poderá
chamar “rota da cardosa”, desde Castelo Branco até Belmonte, a qual já vinha
desde o Tejo e cujo nome pode estar associado ao primitivo nome da colina à
volta da qual a cidade albicastrense se desenvolveu. As 3 etapas seguintes que
nos trouxeram até Trancoso incluem-se na que é conhecida por “via da Estrela”, a
qual fazia parte da rota que ligava Mérida a Braga passando pela serra da
Estrela. Não estando estes troços marcados, houve sempre a preocupação em
respeitarmos os percursos do “Caminho”, designadamente, as transposições das
principais linhas de água nas velhas pontes romanas, muito por mérito das
pesquisas e do trabalho do nosso camarada Xquim Branco.
A partir de
Trancoso, entramos no caminho de Torres. De acordo com as pesquisas realizadas, trata-se do caminho
percorrido na primeira metade do século XVIII por D. Diego de Torres Vilarroel,
um salamantino ilustre, da Universidade de Salamanca, que peregrinou a Santiago
através do caminho português interior, com passagem por Trancoso e daqui para
Sernancelhe, Lamego, Amarante, Guimarães, Braga e Ponte de Lima onde entronca
com o “caminho central” que conduz a Compostela. Recentemente, toda esta rota
foi marcada aproveitando o trabalho de Torres. A partir de Trancoso, só teremos
de estar atentos às setas amarelas, sem abdicar, à cautela, do GPS do Xquim
Branco.
Em plena
rotunda junto à porta norte da muralha de Trancoso saudámos a primeira seta,
eram precisamente 07:30 da manhã e, fizemo-nos então ao caminho de Torres. Nos pontos
mais elevados conseguíamos perceber a orografia acidentada da região, preparando-nos
mentalmente para os troços mais inclinados. O primeiro, e mais íngreme da
jornada, apareceu logo ao terceiro quilómetro passada a aldeia de Sintrão atingindo-se a altitude máxima da etapa a 822 metros. A
paisagem soava a inóspita, quase “selvagem”, submetendo-nos à exposição solar
em longos e estreitos trilhos ladeados por grossas e altas giestas, compensando
pela alternância com a frescura do pinhal frondoso, em percursos onde a
intervenção humana deve ser rara, exceptuando, talvez, as placas indicadoras
das reservas de caça. Durante cerca de duas horas não se viu uma horta, só
pinheiros, carvalhos, giestas e barrocos. Já com os santos a ajudar rodeámos as povoações
de Montes e Vila Novinha até encontrarmos o rio Távora que nos surpreendeu com
uma serena e pitoresca lagoa, logo aproveitada para breve mas refrescante pausa.
Prosseguiu-se
em alcatrão ao longo da floresta, retomando a terra batida à entrada de
Palhais, para a aldeia de Benvende. Aqui, alguém se lembrou de perguntar, em
jeito de brincadeira, se a terra possuía uma bica a deitar água. O benvendense
Daniel Batista, homem a aparentar sessenta e alguns, adiantou-se de imediato avisando que não
senhor, a deitar água não, mas a deitar vinho havia na sua adega. Não era produção própria porque o vinho daquela zona não era grande coisa, mas era caseiro comprado em Mêda. A nós soube-nos que nem ginjas. As senhoras
optaram por porto caseiro e todos brindámos à saúde do Ti Daniel enaltecendo a
sua hospitalidade.
Há uma teoria,
na área das ciências do território, que sustenta que a hospitalidade cresce de
sul para norte. O nosso projecto será uma boa oportunidade para a testar
empiricamente. A investigação realizada até agora, privilegiando a técnica da
observação participante, tende a reforça-la, mas, prometemos estar atentos e
seremos implacáveis a declará-la falsa tal como o faria Karl Popper, se formos
maltratados uma única vez. Sim, porque todos os cisnes são brancos até que
apareça um negro. Por isso, gentes do norte, cuidai-vos em nos cuidar!
Foi o que
fizeram as gentes de Lezírias, anexa da freguesia de Souto, concelho de Aguiar
da Beira, que se preparavam para um almoço de confraternização na antiga escola
primária, envolvendo toda a comunidade de pouco mais de 30 pessoas. Aquele que
parecia o “chefe” mandou que nos servissem bebidas frescas determinando com
alguma vivacidade “aqui ninguém paga nada!”. Aceitámos educadamente acompanhando com a
entrada localmente muito apreciada que prima pela simplicidade: cebola regada
com vinho tinto e temperada com duas areias de sal. Ninguém nos soube
satisfazer a curiosidade de saber porque é que chamavam àquilo …galinha.
Ganhámos
alento para a última meia hora da etapa, marcada para a Ponte do Abade, onde
chegámos às 13:45, uma hora boa para almoço. Era preciso um sítio fresco para
estender os farnéis e Jaime encontrou-o rapidamente numa pequena esplanada de
um café junto à estrada, que também era pensão e mercearia, propriedade do Sr
Seixeiro que acumulava ainda com as funções de taxista da aldeia. Não fomos
autorizados, porque o Sr Seixeiro, sem saber da nossa investigação acerca da
hospitalidade, quis contribuir para o reforço da teoria e ofereceu-nos uma sala
já equipada com uma mesa comprida. E quando a Paula perguntou pela casa de banho, foi a de casa que ele abriu. Por ele ficámos a saber alguns pormenores interessantes
sobre a povoação, a começar pela origem da ponte, edificada, segundo ele e a
lenda, para facilitar o trabalho do abade na sua missão pastoral junto da
população do outro lado do rio; e também para permitir a regularidade das suas
visitas a uma amiga do peito que lá residia.
A ponte
propriamente dita, apresenta características romano-góticas e localiza-se na
confluência de dois distritos (Guarda e Viseu), dois concelhos (Aguiar da Beira
e Sernancelhe), duas freguesias (Sequeiros e Ponte do Abade), duas dioceses
(Viseu e Lamego), duas comarcas (Trancoso e Moimenta da Beira).
sexta-feira, 19 de julho de 2013
INSTANTÂNEOS - VI
A etapa iniciara-se há minutos, o percurso era plano em estrada pouco frequentada, a boa disposição imperava a julgar pelas brejeirices que a (quase) todos contagiava. Ele era o bastão de peregrino do Zé Manel, aqui convenientemente chamado de pau que tinha a ponta escura, o Xquim que usava o pau para não lhe inchar as mãos, a Paula que era muito criativa, ou seja que era boa para a criação (aí estão os gémeos que o comprovam)…
A brejeirice foi quebrada pela Benvinda quando chamou a
atenção para o cemitério, para o aspecto bem arranjado dos canteiros onde
despontavam lindas rosas, gerberas, gladíolos, cravos, tulipas, e também para a
alvura das suas paredes, muito bem caiadas e limpas.
Zé Manel fez jus à sua fama no que toca a tiradas humorísticas
e em tom de voz a atirar para o cavernoso, desmanchou:
- Não te deixes enganar, rapariga, porque do lado de dentro
dessas paredes tão branquinhas…é só podridão!
terça-feira, 9 de julho de 2013
Diário de Caminhada - ETAPA VI: Vila Cortês do Mondego - Trancoso
“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
Etapa VI: Vila Cortês do Mondego - Trancoso
29 de Junho de 2013, sábado
Caminhantes: Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar,
Fernando Micaelo, Inserme, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques,
Sãozita Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade.
Sinopse:
Inicio em
Vila Cortês - 06:25
Distância
percorrida: 26.6 km
Tempo
total de caminhada: 7:20 horas
Tempo a
andar: 6:00 horas
Tempo
parado: 1:20 horas
Velocidade
média: 4.4 km/h
Altitude mínima: 419 metros
Altitude máxima: 889 metros
(Torre de Menagem de Trancoso)
Subida acumulada: 658 metros
Descida acumulada: 263 metros
Povoados e locais de
referência ao longo do percurso:
Porto da
Carne, Vila Cortês do Mondego, Ponte do Ladrão, Aldeia Rica, Baraçal, Minhocal,
Prado, Freches, Alto de S. Marcos, Trancoso.
Acumulado:
Caminho: 163,2 Km
Caminho: 163,2 Km
Bacias
hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego.
Distritos: Castelo Branco, Guarda.
Concelhos:
Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da
Beira, Trancoso
Fonte: GPS de Joaquim Branco
A cidade de João “Amato Lusitano”
Rodrigues dormia ainda por volta da quinta hora quando nos fizemos ao caminho,
perdão, à estrada, apontando à Gardunha e mais além. Em táctica que ganha não se mexe: 3
viaturas para o transporte até ao ponto de partida, depois, uma delas,
conduzida pela lesionada Piedade, acompanha no apoio ao longo de todo o
percurso. As outras duas haviam de passar a manhã em Porto da Carne, ali mesmo
juntinho à ponte sobre o Mondego.
Hora oficial de início de
caminhada: 06:25, em alcatrão, por dentro de Vila Cortês, e depois sempre a
acompanhar o rio até à ponte do Ladrão. Daqui, rapidamente se chegou a Aldeia
Rica. Nesta anexa de Açores salta à vista a devoção a Nossa Srª de Fátima tal o
número de casas com azulejos alusivos à dita e aos 3 pastorinhos, pormenor que
se repetiria na aldeia seguinte. Em Baraçal, já com 12 km percorridos e porque
eram horas, aceitámos o apelo da sombra fresca do telheiro que cobria dois
tanques de água corrente para a primeira exposição e degustação de farnéis. Enquanto davam ao dente, os nossos 3 urban sketchers - Paula, Micaelo e Matos - não desaproveitaram para fazer mais uns rabiscos nos respectivos diários gráficos.
Ainda em Baraçal não deixou de impressionar o cruzamento onde as autoridades rodoviárias, seguramente preocupadas com os caminhantes, entenderam pregar ao chão não menos do que 20 placas de direcção. Indiferentes a tal desvelo, optámos por continuar a confiar nas orientações do GPS do nosso camarada Xquim Branco e prosseguimos para o Minhocal.
Os campos eram dominados por extensas áreas não cultivadas, intercaladas por pequenos campos de cereal e, nas baixas, hortas dispersas bem cuidadas. A manhã avançava e com ela o calor habitual num dia de verão.
As aldeias de Prado e de Freches surgiram-nos enquadradas pela serra que era preciso conquistar para alcançar Trancoso. À passagem por Freches quisemos saber como se chamava a linha de água que percorre a aldeia. "Rbêra", respondeu a autóctone a caminho da horta. Obviamente! Dahhh!!! Respirámos fundo e lançámo-nos determinados à montanha: foram cerca de 7 metros vezes mil de trilho por vezes íngreme que exigiram alguma concentração e água fresca. Valeu-nos, ainda assim, a sombra quente do pinhal. O ânimo renasceu no Alto de S. Marcos, a 850 metros de altitude, local onde foi erigida capela e monumento evocativo da batalha de Trancoso. Terá sido ali e nas imediações – entretanto declarado monumento nacional - que as tropas portuguesas infligiram uma importante e pesada derrota aos castelhanos quando estes regressavam do ataque e saque a Viseu, corria o ano de 1385. Apurou-se que, das muitas escaramuças que nesta época ocorreram entre os reinos de Portugal e Castela, esta batalha terá sido, depois de Aljubarrota, uma das mais decisivas no processo de consolidação da independência nacional face aos interesses hegemónicos de Castela.
Era fim de semana de feira medieval na mui nobre vila de Trancoso, hoje cidade. O pretexto era a celebração das bodas reais entre el rei D. Dinis, o Lavrador, e D. Isabel “são rosas senhor” de Aragão que aqui organizaram banquete, na sua viagem, já unidos pelo santo sacramento do matrimónio, desde as terras aragonesas. Juntámo-nos às festividades e também nós nos banqueteámos. As iguarias eram muitas e variadas, com destaque para o néctar vinícola de superior qualidade apresentado pelo Fernando Micaelo.
O património histórico de Trancoso é deveras considerável. A zona histórica localiza-se dentro do perímetro muralhado encimado por um imponente castelo, apresentava-se bem arranjada, os edifícios em geral relativamente bem conservados e respeitadores da traça original. No castelo foram recentemente acrescentados alguns elementos que pareceram bem enquadrados com a função primordial de facilitadores no acesso.
Para além da referência histórica concedida pelas bodas reais, dois outros elementos históricos se destacam: as trovas do Bandarra e o padre Costa de Trancoso. Na primeira metade do século XVI viveu em Trancoso um sapateiro, de seu nome Gonçalo Anes, e de alcunha o Bandarra, que teria dotes de profeta, tendo vertido em trovas o futuro de Portugal, o que lhe deve dar o direito a ostentar o ceptro de Nostradamus português. Para além de leituras manhosas das Escrituras que transformava em profecias, é-lhe atribuída a profecia do regresso do “Encoberto” que daria origem ao mito sebastiânico. Consta que se safou, por pouco, de ser grelhado na fogueira do Santo Ofício.
O perdão do nosso monarca mais esclarecido terá sido justificado com um argumento de peso: o contributo, valiosíssimo para a época, do Padre Francisco para o povoamento daquela região do reino de Portugal. Alguém fez notar que lamentavelmente se tratou de caso isolado, nunca mais foi repetido, pese embora a jurisprudência protectora.
A praça central da zona antiga de Trancoso acabaria por satisfazer todas as nossas necessidades durante toda a tarde e noite: interacção com antepassados medievais, sesta para alguns, urban sketching, reposição de líquidos (muitos) e de sólidos. À noite, a teatralização montada no castelo à volta da chegada da comitiva real, com a presença do rei Lavrador e da Belinha das rosas, em pessoa, não estava a convencer justificando retirada estratégica para a residencial D. Dinis.
Ainda em Baraçal não deixou de impressionar o cruzamento onde as autoridades rodoviárias, seguramente preocupadas com os caminhantes, entenderam pregar ao chão não menos do que 20 placas de direcção. Indiferentes a tal desvelo, optámos por continuar a confiar nas orientações do GPS do nosso camarada Xquim Branco e prosseguimos para o Minhocal.
As aldeias de Prado e de Freches surgiram-nos enquadradas pela serra que era preciso conquistar para alcançar Trancoso. À passagem por Freches quisemos saber como se chamava a linha de água que percorre a aldeia. "Rbêra", respondeu a autóctone a caminho da horta. Obviamente! Dahhh!!! Respirámos fundo e lançámo-nos determinados à montanha: foram cerca de 7 metros vezes mil de trilho por vezes íngreme que exigiram alguma concentração e água fresca. Valeu-nos, ainda assim, a sombra quente do pinhal. O ânimo renasceu no Alto de S. Marcos, a 850 metros de altitude, local onde foi erigida capela e monumento evocativo da batalha de Trancoso. Terá sido ali e nas imediações – entretanto declarado monumento nacional - que as tropas portuguesas infligiram uma importante e pesada derrota aos castelhanos quando estes regressavam do ataque e saque a Viseu, corria o ano de 1385. Apurou-se que, das muitas escaramuças que nesta época ocorreram entre os reinos de Portugal e Castela, esta batalha terá sido, depois de Aljubarrota, uma das mais decisivas no processo de consolidação da independência nacional face aos interesses hegemónicos de Castela.
Era fim de semana de feira medieval na mui nobre vila de Trancoso, hoje cidade. O pretexto era a celebração das bodas reais entre el rei D. Dinis, o Lavrador, e D. Isabel “são rosas senhor” de Aragão que aqui organizaram banquete, na sua viagem, já unidos pelo santo sacramento do matrimónio, desde as terras aragonesas. Juntámo-nos às festividades e também nós nos banqueteámos. As iguarias eram muitas e variadas, com destaque para o néctar vinícola de superior qualidade apresentado pelo Fernando Micaelo.
O programa incluía muita música de rua, jogos, danças, torneios de armas e, claro, a encenação do esposamento e bodas dos monarcas pombinhos. As ruas da zona histórica estavam pejadas de tendas e animadas com grupos de bombos e gaitas de foles e inúmeros figurantes indumentados com a moda medieval, tendo nós tido o privilégio de contactar directamente com algumas altas entidades do clero, da nobreza, mas também do povo.
Toda esta encenação suscitou a reflexão sobre este movimento, mais ou menos recente, seguido por inúmeras Câmaras Municipais de promoverem feiras e outros eventos à volta de elementos oferecidos pelo seu património histórico. Em princípio, estaremos perante uma acção absolutamente louvável, porquanto, idealmente, à volta de um recurso endógeno e estável, todos os outros recursos endógenos da área do município são valorizados e rentabilizados, sejam da esfera da gastronomia, da produção agrícola (e mesmo industrial), sejam da esfera ampla da cultura local (música, danças, artesanato, etc). No quadro da problemática do desenvolvimento local e, mais amplo, da animação do mundo rural, as virtualidades deste tipo de iniciativas são muitas se se tratar de um aproveitamento integrado desses recursos endógenos, por via da mobilização dos actores locais (no sentido de agentes de uma acção), que concertadamente contribuem quer para o reforço da sua matriz identitária, quer para a dinamização dos seus sectores produtivos. Já não o serão tanto se se tratar de uma mera folclorização, bastas vezes enviesadoras do rigor histórico. Condescende-se nas vantagens da contratação de actores (agora no sentido teatral) que ajudam à recriação mais "autêntica" da época que se pretende, desde que as suas encenações incluam, por exemplo, figurantes locais que podem ser alunos das escolas, oportunamente entronizados sobre o acontecimento em celebração e a época correspondente.
Em Trancoso, pudemos ver um pouco de tudo isto, só não sabemos se nas proporções adequadas. O grupo de profissionais já rotinado em feiras medievais ia fazendo o seu trabalho, através da animação permanente com música e malabarismos vários, exibindo algumas das personagens mais marcantes da época, devidamente trajadas e caracterizadas: o clero estava representado pelo bispo e seu séquito, a nobreza pelos cavaleiros (sem cavalo) ostentando armadura e espada comprida e acompanhados pelos aios, o povo, pelas lavadeiras andrajosas, malabaristas, comerciantes, domesticadores de serpentes, etc. As ruas e largos estavam pejadas de tendas oferecendo produtos antigos e modernos.
Toda esta encenação suscitou a reflexão sobre este movimento, mais ou menos recente, seguido por inúmeras Câmaras Municipais de promoverem feiras e outros eventos à volta de elementos oferecidos pelo seu património histórico. Em princípio, estaremos perante uma acção absolutamente louvável, porquanto, idealmente, à volta de um recurso endógeno e estável, todos os outros recursos endógenos da área do município são valorizados e rentabilizados, sejam da esfera da gastronomia, da produção agrícola (e mesmo industrial), sejam da esfera ampla da cultura local (música, danças, artesanato, etc). No quadro da problemática do desenvolvimento local e, mais amplo, da animação do mundo rural, as virtualidades deste tipo de iniciativas são muitas se se tratar de um aproveitamento integrado desses recursos endógenos, por via da mobilização dos actores locais (no sentido de agentes de uma acção), que concertadamente contribuem quer para o reforço da sua matriz identitária, quer para a dinamização dos seus sectores produtivos. Já não o serão tanto se se tratar de uma mera folclorização, bastas vezes enviesadoras do rigor histórico. Condescende-se nas vantagens da contratação de actores (agora no sentido teatral) que ajudam à recriação mais "autêntica" da época que se pretende, desde que as suas encenações incluam, por exemplo, figurantes locais que podem ser alunos das escolas, oportunamente entronizados sobre o acontecimento em celebração e a época correspondente.
Em Trancoso, pudemos ver um pouco de tudo isto, só não sabemos se nas proporções adequadas. O grupo de profissionais já rotinado em feiras medievais ia fazendo o seu trabalho, através da animação permanente com música e malabarismos vários, exibindo algumas das personagens mais marcantes da época, devidamente trajadas e caracterizadas: o clero estava representado pelo bispo e seu séquito, a nobreza pelos cavaleiros (sem cavalo) ostentando armadura e espada comprida e acompanhados pelos aios, o povo, pelas lavadeiras andrajosas, malabaristas, comerciantes, domesticadores de serpentes, etc. As ruas e largos estavam pejadas de tendas oferecendo produtos antigos e modernos.
O património histórico de Trancoso é deveras considerável. A zona histórica localiza-se dentro do perímetro muralhado encimado por um imponente castelo, apresentava-se bem arranjada, os edifícios em geral relativamente bem conservados e respeitadores da traça original. No castelo foram recentemente acrescentados alguns elementos que pareceram bem enquadrados com a função primordial de facilitadores no acesso.
Para além da referência histórica concedida pelas bodas reais, dois outros elementos históricos se destacam: as trovas do Bandarra e o padre Costa de Trancoso. Na primeira metade do século XVI viveu em Trancoso um sapateiro, de seu nome Gonçalo Anes, e de alcunha o Bandarra, que teria dotes de profeta, tendo vertido em trovas o futuro de Portugal, o que lhe deve dar o direito a ostentar o ceptro de Nostradamus português. Para além de leituras manhosas das Escrituras que transformava em profecias, é-lhe atribuída a profecia do regresso do “Encoberto” que daria origem ao mito sebastiânico. Consta que se safou, por pouco, de ser grelhado na fogueira do Santo Ofício.
O Padre Francisco Costa foi pároco em Trancoso na segunda metade do século XV e ficou para a história não pelo seu fervor religioso mas pelo seu fervor procriador. Está tudo na sentença proferida em 1467 e constante dos Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço 7:
“Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas publicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos.”
(Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres.)
“El-Rei D. João II. lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos dezassete dias do mês de Marco de 1487 e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papeis que formaram o processo.”
O perdão do nosso monarca mais esclarecido terá sido justificado com um argumento de peso: o contributo, valiosíssimo para a época, do Padre Francisco para o povoamento daquela região do reino de Portugal. Alguém fez notar que lamentavelmente se tratou de caso isolado, nunca mais foi repetido, pese embora a jurisprudência protectora.
A praça central da zona antiga de Trancoso acabaria por satisfazer todas as nossas necessidades durante toda a tarde e noite: interacção com antepassados medievais, sesta para alguns, urban sketching, reposição de líquidos (muitos) e de sólidos. À noite, a teatralização montada no castelo à volta da chegada da comitiva real, com a presença do rei Lavrador e da Belinha das rosas, em pessoa, não estava a convencer justificando retirada estratégica para a residencial D. Dinis.
Amanhã, etapa VII, rumo à Ponte do Abade.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
INSTANTÂNEOS - V
No extenso rol dos benefícios inerentes às caminhadas incluem-se, naturalmente, os que resultam das oportunidades de se fazer observação directa e atenta de determinados pequenos pormenores dos sítios por onde os passos nos conduzem.
Muito
à conta do trabalho fotográfico que Carlos Matos tinha realizado com os
portados quinhentistas na zona histórica de Castelo Branco, não lhe passaram
despercebidos os que caracterizam muitas das casas da rua principal da aldeia
de Faia (Guarda). Era evidente e notória a sua sapiência na arte de bem talhar
o granito, levando-nos a apreciar e a valorizar as técnicas da cantaria e da
construção dos lintéis à luz das condições dos artesãos da época,
tecnologicamente rudimentares.
Mas
o elemento distintivo, ensinava ele a Zé Manel e Inserme, mostrando o pormenor
num portado de uma belíssima casa em granito a atirar para o palacete, é que as
arestas são … chanfradas.
Já
ele tinha saltado para a chamada de atenção dos rendilhados manuelinos nas
janelas quando Zé Manel o interrompe:
-
Isto é que é chanfrado? Então que dizer que não me devo sentir insultado quando
me chamam chanfrado! O chanfrado até fica bem, é muito bonito.
terça-feira, 28 de maio de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
INSTANTÂNEOS - IV
Era uma
verdadeira manhã de primavera: fresquinha, solarenga, um rouxinol cantava – e
como o rouxinol ninguém canta -, a caminhada tinha começado há minutos. A
conversa ia animada à conta de variados temas banais e filosoficamente despretensiosos. Sãozita acabaria por merecer a melhor atenção
quando anunciou que quando era gaiatita, tinha sido vendida pelo seu irmão.
Parece que um
tal “bicha” (leia-se “bitcha”), outro gaiato lá da aldeia se embeiçou pela
pequena Conceição. A sua estratégia de aproximação à mocita passava por
conquistar a cumplicidade do mano mais
velho, a quem ensinou onde estava um
ninho de cotovia, oferecia marouva que roubava, até presenteou com meia dúzia
de berlindes. O cachopito, porém, não atribuía o mesmo valor aquele tipo de
mimos. Precocemente imbuído do espírito capitalista, ele viu ali uma
oportunidade de negócio e, inspirado pela visão do gelado de groselha que
poderia comprar com o dinheiro, tratou de vender a irmã ao tal “bicha” por …
vinte cinco tostões.
Confrontado, e
após alguma insistência, Xquim Branco lá reconheceu que a sua esposa vale bem
mais.
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