terça-feira, 22 de setembro de 2020

INSTANTÂNEOS - XXI

 


No nosso curriculum, já acumulamos várias centenas de milhas, com alíneas a reportar trajectos no Caminho Português, no Português Interior, no Camiño Torres, na Via Portugal Nascente, no Primitivo, no Inglês, Muxia-Fisterra, Caminho da Costa … Em projecto estão muitos outros, todos quantos pudermos.

Este despretensioso blogue foi dando conta – e continuará a dar – de episódios, de peripécias, de “instantâneos” protagonizados ou testemunhados por estes peregrinos que partilham o gozo de palmilhar o Caminho.

O Caminho da Costa ofereceu-nos um “instantâneo” algo peculiar.

Foi numa ruela estreita da extensa urbe que se estende entre Vila do Conde e a Póvoa do Varzim, ali mesmo ao lado das Caxinas, terra de pescadores, que um autóctone sénior nos fez parar para perguntar:

- Vós andais a fazer o Caminho?

Algo titubeantes, considerando o óbvio reflectido nos nossos adereços, gaguejámos:

- Sim, andamos.

O cavalheiro olhou-nos ostensivamente de frente e completou a pergunta:

- Vós andais a fazer o Caminho, ou o Caminho é que vos anda a fazer?

Nos peregrinos arcaicos, a matriz motivacional remetia para uma dimensão iniciática, mística, esotérica apontada ao finis terrae; após a apropriação cristã dos locais de culto druidas, a pulsão para peregrinar é marcada quase exclusivamente pelo espírito religioso; nos tempos recentes, a laicização do caminho deu entrada a todo o tipo de procura, integrando modernices como a busca interior, o espírito de aventura e até, simplesmente, o desporto.

Comparado com o antigo – e o antigo aqui vale, digamos, 30 a 40 anos -, o peregrino moderno tem a vida facilitada, como é fácil de reconhecer: caminho marcado para não se perder, albergues e restaurantes com fartura para descansar e se alimentar, roupas sofisticadas para aliviar o sofrimento, equipamento tecnológico… enfim, só tentações para ele se transformar num “turigrino”.

Àparte o propósito, para todos – antigos e modernos – o Caminho significa sempre uma procura, uma demanda, uma senda. Inacabada, porque para muitos, a pulsão para voltar, volta, mais cedo ou mais tarde.

Parece haver um elemento comum: nunca se regressa igual.

- Vós andais a fazer o Caminho, ou o Caminho é que vos anda a fazer?

Emudecemos.

A carga filosófica subjacente a pergunta tão singela ficou a pesar no sub-consciente.

O que é que o Caminho nos anda a fazer?


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Caminho Português da Costa

 


Caminho Português da Costa

Porto – Valença, 18 a 26/07/2020

Caminhantes:

Anselmo (Porto-Viana), Conceição Pires, Joaquim Branco, Elsa Maia, João Branco (Viana-Valença), João Maia, Pedro Branco, Raul Maia, Rita Maia.

A jornada começa no dia 18/07 com a viagem de comboio até ao Porto, e metro até à Póvoa do Varzim. Aproveitando a rede metropolitana, estabeleceu-se a base na Póvoa do varzim, nos primeiros 4 dias.

2 notas especiais: a primeira para a benfeitoria do nosso Raul Maia e da sua Sports Design que patrocinou 2 tshirts a cada um dos caminhantes, logotipo da Confraria à frente, seta amarela atrás; a segunda para a máscara personalizada com o logotipo da Confraria dos Caminhos, iniciativa do nosso Xoaquim Branco.

 



1ª Etapa, 19/07/2020

Porto – Modivas


Distancia: 21.9 km
Tempo movimento: 4:31
Tempo total : 6:04
Media: 4.7km/h
Tempo parado: 1:23
Altitude: 21mt

A jornada começa bem cedo, com a viagem de metro entre a Póvoa e o Porto. Para quem não está familiarizado, por via da utilização diária, a rede de metro do Porto apresenta estações com alguns nomes peculiares, como “Fonte do Cuco”, “Espaço Natureza” ou “Portas Fronhas”; depois, também se pode desconfiar do critério que atribuiu a outra a completa designação de “Vila do Conde Fashion Outlet Modivas”.

Partida oficial da Sé do Porto. O percurso segue monotonamente por avenidas, ruas e ruelas da área metropolitana do Porto, suscitando a ansiedade por chegar a campo aberto. Será preciso contornar o aeroporto para se chegar à estação de Modivas que marcará o fim da etapa.

 



2ª Etapa, 20/07/2020

Modivas – Póvoa do Varzim

Distancia: 17.4 km
Tempo movimento: 4:25
Tempo total : 6:26
Media: 3.9km/h
Tempo parado: 2:01
Altitude: 34 mt
 

Durante a primeira hora de caminhada, o trajecto é agradável, por entre alguns bosques e pequenas searas de milho que nesta altura e nesta zona se apresentam com um viço exuberante e já embandeirado.

Entra-se depois no comprido e serpenteante tecido urbano que nos conduzirá por Vila do Conde, ao lado das Caxinas e Póvoa do Varzim. Fazem-se notar as inúmeras vivendas com piscina, muitas delas construídas naquele modelo arquitectónico dominante nas décadas de 70 e 80 do século passado, cujo elemento mais saliente é o seu revestimento exterior a azulejo berrante. Na cidade do Ave sobressai o imponente Mosteiro de Santa Clara e a majestosa Igreja de São João Batista.

Mesmo à chegada a Vila do Conde, eis que a GNR nos tolhe o passo e nos dá ordem para parar. O nosso Sargento Humberto, peregrino veterano, milhões de passadas no seu vasto currículum no que toca a Camiño, queria saber se precisávamos de algo. 

A tarde foi de praia, num mar surpreendentemente calmo e água a temperatura algarvia.



 


3ª Etapa, 21/07/2020

Póvoa do Varzim- Esposende

Distancia: 26.8 km

Tempo movimento: 6:22
Tempo total : 9:11
Media: 4.2 km/h
Tempo parado: 2:48
Altitude: 10 mt

Depois de 2 etapas em espaço predominantemente urbano, o Caminho começa a justificar finalmente o nome “da Costa”. Em boa parte do percurso, o piso é em passadiço de madeira com a orla marítima e praias quase sempre à vista, convidando a manter o olhar fixado entre as 9 e as 11. Fácil e agradável.

Na Apúlia, almoço na esplanada da Adega do Agostinho. Peixe, evidentemente. Foi aqui que calhou sermos úteis. Já tínhamos encomendado umas clarinhas para sobremesa quando na mesa ao lado, um octogenário de Braga se sente mal e, literalmente, cai da cadeira. Os nossos profissionais de saúde (Pedro, médido, São e Elsa, enfermeiras) saltaram imediatamente para a assistência, os restantes ajudaram na libertação de espaço para o ancião jazer na horizontal até à chegada do INEM. A rapidez e eficácia colocada em acção terá impressionado a família bracarense do assistido senhor, desfazendo-se em elogios e agradecimentos. Registado, mas o espírito do Caminho também é feito destas posturas solidárias e incondicionais.

Resto de trajecto descontraído até à majestosa foz do Cávado e ao AL que nos albergou em Esposende.



 


4ª Etapa, 22/07/2020

Esposende – Viana do Castelo

Distancia: 25 km
Tempo movimento: 5:57
Tempo total : 8:37
Media: 4.2 km/h
Tempo parado: 2:39
Altitude: 14 mt

O caminho deixa de ser da “Costa” novamente logo à saída de Esposende, virando ligeiramente para nordeste, conduzindo-nos através do povoamento disperso característico do Minho. Embalados pela quase ausência de desníveis das últimas etapas, fomos obrigados a reparar nas subidas e descidas que esta etapa nos oferecia. Ainda por cima, o calor de Julho também se quis fazer notar.

O trajecto segue agora maioritariamente em floresta. A travessia do Neiva tem de fazer-se com alguns cuidados pelas poldras deixadas pela ponte caída que “liga” os municípios de Esposende e Viana. A fadiga imposta pela subida até à Igreja de Santiago do Castelo do Neiva é atenuada pela pausa concedida pelas excelentes condições disponíveis no complexo. Mais floresta até à Igreja de S. Romão do Neiva, antes de entrar na “área metropolitana” de Viana do Castelo. Pouco faltava para o sino tocar as 3, estávamos nós com o santuário de Santa Luzia à vista. Apesar da hora, a Nela, na sua tasca, havia de nos alimentar com um farto rancho à minhota, binho berde e tudo o mais a que tínhamos direito.

Depois, foi só aproveitar a ponte Eiffel sobre o Lima.



 


5ª Etapa, 23/07/2020

Viana do Castelo – Caminha

Distancia: 31.8 km
Tempo movimento: 8:05
Tempo total : 10:25
Media: 4.1 km/h
Tempo parado: 4:22
Altitude: 8 mt

Mudança de base: depois da Póvoa do Varzim, passamos agora para Vila Nova de Cerveira, utilizando a linha do Minho para as deslocações até aos pontos de partida.

Testemunhas da nossa partida foram o Santuário do Sagrado Coração de Jesus lá no alto do Monte de Santa Luzia e, menos imponente, o edifício Coutinho, o tal que está para ir abaixo há 20 anos. O percurso foi andado sempre a meia encosta com vista para o Atlântico, com direito a conferir a temperatura da água em Afife e em Moledo. No meio, Vila Praia de Âncora ofereceu-nos um almoço de posta.

Com o Monte de Santa Tecla a espreitar-nos pelas 9 horas, chegada tranquila a Caminha, trauteando a história da minhota:

foi num baile a meio de junho
entre canecas de vinho
e ela em vez de ganga russa
tinha um corpete de linho

enquanto a moça dançava
a mim dáva-me a doideira
já não sei se era do vinho
ou se era da bailadeira

tive que ir a ter com ela
a perguntar-lhe de onde vinha
e ela respondeu manhosa
c'um raios sou de caminha

eu contei-lhe o que sentia
que me tinha apaixonado
e ela disse-me que ainda a procissão ia no adro

e a minhota prometeu-me que ainda havia de ser minha
quando se acabar o baile vai-me levar pra caminha

mas o vinho não perdoa e a manhã veio apressada
a minhota foi-se embora e eu nem sequer dei por nada
acordei com o sol alto no terreiro já vazio
tudo aquilo parecia que era um sonho fugidio

quis ir à procura dela, pensei nela todo o dia
mas passaram tantas horas, onde é que ela já estaria
pra que bebi tanto vinho, fiquei tão arrependido
não me saia da ideia o que ela tinha prometido

a minhota prometeu-me que ainda havia de ser minha
quando se acabar o baile vai-me levar pra caminha

(letra e música de Sebastião Antunes/Quadrilha)




 


6ª Etapa, 24/07/2020

Caminha – Vila Nova de Cerveira

Distancia: 17.6 km
Tempo movimento: 4:16
Tempo total : 5:49
Media: 4.1 km/h
Tempo parado: 1:32
Altitude: 24 mt

Os primeiros passos são logo na ponte sobre o estuário pantanoso do rio Coura, prosseguindo quase sempre com vista para o rio Minho, a Galiza logo ali do outro lado. Sucediam-se os solares, alguns deles imponentes, todos brasonados, testemunhas de muitas histórias, e de muita história, protagonizada que terá sido por habitantes antigos, gente de linhagem nobre, aristocratas e burgueses.

Chegada a Cerveira a horas de almoço. Na vila das artes já se notava alguma agitação nos preparativos da Bienal Internacional de Arte, cuja vigésima primeira edição irá cumprir-se do primeiro de agosto até ao último dia de 2020.



 


7ª Etapa, 25/07/2020

Vila Nova de Cerveira – Valença

Distancia: 16.8 km
Tempo movimento: 3:45
Tempo total : 6:04
Media: 4.5 km/h
Tempo parado: 1:38
Altitude: 80 mt

Última etapa deste nosso projecto.

À semelhança do anterior, o percurso segue quase sempre próximo do rio. Fácil e tranquilo, apesar do cansaço acumulado.

Para memória futura, registe-se que à comemoração de mais um projecto cumprido desta nossa sã teimosia de regularmente fazermos o caminho de Santiago, calhava ser dia de aniversário de bodas matrimoniais dos nossos Raul e Elsa Maia, e, ainda com o bónus da visita do patrício Rui quelhas que, estando na zona, ajudou e abrilhantou a festa final.

A tarde, já novamente na base Cerveira, foi dedicada à feira – feira a sério, à minhota – e saltinho ao miradouro do Cervo para apreciar as espectaculares vistas que dali se alcançam (cortesia na nossa anfitriã, antiga camarada d’ármas do nosso Raul, na missão cumprida na Bósnia há um quarto de século.

Não tardará muito a que cá voltemos. Esperamos nós que assim seja.




segunda-feira, 27 de julho de 2020

INSTANTÂNEOS - XX



As paragens técnicas fazem parte do plano que o nosso estratega Joaquim Branco delineia previamente. No Caminho da Costa, para além da beleza do trajecto através dos passadiços à beira mar, é possível, a qualquer momento, fazer uma pausa numa esplanada quase em cima da areia. Foi numa dessas paragens técnicas de reposição dos níveis que um simpático sénior meteu conversa connosco.

Fez questão de nos apresentar um relatório sucinto mas muito preciso sobre os muitos achaques de que padecia, para justificar que a sua condição física não lhe permitia fazer o Caminho como ele bastas vezes disse que gostaria. Com base na informação fornecida, os profissionais de saúde presentes não tiveram dúvidas em receitar que ele deveria continuar a ficar-se apenas por cumprimentar os peregrinos que por ali passarem.

Despediu-se com os votos habituais de Bom Caminho e foi-se para oeste. Antes de entrar na areia, porém, deu meia volta e veio de novo junto de nós:

- Os meus amigos são capazes de me fazerem um favor?

- Só se não pudermos de todo.

Colocou o seu ar mais sério e, na musicalidade lexical e fonética de um verdadeiro minhoto, pegou numa moeda e apresentou o seu pedido:

- Quando chegarem a Santiago, deitem lá esta moedinha ao Santo, para ele acabar com o caralho do Cóbide.

Estamos, pois, fiéis depositários de uma moeda de 20 cêntimos, e com o compromisso de a introduzir na caixa de esmolas da catedral de Compostela. 

Obviamente, tencionamos honrar escrupulosamente esse compromisso. 

A tremenda carga simbólica do gesto do simpático sénior minhoto tocou-nos, alimentando a nossa ligação ao Caminho. Concordámos logo ali que nos juntaríamos na sua intenção e reforçaríamos, à nossa conta, o montante a entregar a Santiago para ele acabar com o não sei quê do tal Cóbide.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

ALBERGUE DOS AMARELOS

A via Portugal Nascente já está a dar sinais de ser percorrida por muitos peregrinos.
E o "albergue" dos Amarelos já está a cumprir a sua função.
Desde a sua inauguração em maio de 2018, já foi utilizado por 33 peregrinos.

Eis as primeiras estatísticas, a partir do livro de registos:

2018 - 9 peregrinos
2019 - 24 peregrinos
O peregrino mais velho já completara 73 anos
O peregrino mais novo ainda não tinha chegado aos 16

Em 2018, pernoitaram nos Amarelos:
Portugueses - 7
Alemães - 2 
Em 2019, pernoitaram
Portugueses - 14
Polacos - 7
Espanhóis - 3
 O mês com mais registos foi Agosto de 2019:


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS 1/3


CAMINHO INTERIOR PORTUGUÊS: Peso da Régua – Santiago

Plano plurianual: cumprir o Caminho Interior Português, a partir do Peso da Régua, por 3 jornadas, a primeira em 2019, segunda em 2020, terceira em 2021, que é ano JACOBEO.

2019 - 1/3: Régua Chaves

Etapa 1 -02/06/2019
Peso da Régua - Santa Marta de Penaguião
Etapa 2 -03/06/2019
Santa Marta de Penaguião – Vila Real
Etapa 3 -04/06/2019
Vila Real – Vila Pouca de Aguiar
Etapa 4 -05/06/2019
Vila Pouca de Aguiar - Vidago
Etapa 5 -06/06/2019
Vidago - Chaves

Caminhantes: 
Anselmo Cunha, Elsa Maia, Felizarda Lourenço, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, São Pires.





Etapa 1 -02/06/2019
Peso da Régua - Santa Marta de Penaguião
Distância: 10 km
Média: 4.1 km/h

Viagem em comboio, entre Castelo Branco e o Peso da Régua, na primeira parte com o Tejo às 9, na terceira, com o Douro às 3. No meio, Entroncamento-Campanhã.
Ainda que as instruções tivessem sido dadas no sentido de cada um acautelar uma buchazita para repartir, o facto - nada surpreendente -, é que apareceu comida para todo o Regimento. O cenário foi montado em plena estação de Campanhã, revelando uns beirões exibicionistas de algumas das suas iguarias. Registe-se: chouriça, presunto, empadas de galinha e de porco, pastéis de carne, courgete e cebola frita, rissóis, ovos verdes, salgados de chouriço, bolos variados, fruta variada, vinho…
O troço entre a Régua e Santa Marta de Penaguião é curto – cerca de 10 km -, mas algo penoso nos primeiros 6, sempre em modo ascendente desde o Douro. O cansaço foi imediatamente esquecido quando demos com a Festa em honra de Santa Bárbara que acontecia em S. João de Lobrigos. A conjugação feliz da nossa simpatia natural e da esperada curiosidade dos autóctones, facilitaram a integração mais ou menos discreta na festa. Celebrámos pois a Santa Bárbara nos brindes com águapé e vinho do Porto – que aqui se designa de generoso – de qualidade superior. Obviamente, não podíamos deixar de deixar um modesto contributo à santa para que nos protegesse de raios e tempestades.
Até Santa Marta, não se cansaram nem os pés nem os olhos deliciados com uma paisagem soberba, marcada por imponentes montes e colinas geometricamente pontificadas por filas de videiras. Lá no fundo, bem lá em baixo, corria o Corgo.
Pernoita no Hotel Oásis - nome habitualmente perigoso, mas que não era definitivamente o caso - , boas condições e ainda por cima gerido pela afável D. Adelaide, que também era produtora de vinho e teve a amabilidade de nos oferecer uma garrafinha de branco bem fresca.


Etapa 2 -03/06/2019
Santa Marta de Penaguião – Vila Real
Distância: 21 km
Média: 3.6 km/h

Este troço pode ser descrito em 3 palavras: durinho, durinho, durinho.
Muito raramente em alcatrão, o caminho segue, numa boa parte, por entre vinhedos dispostos em socalcos, obriga a ir muito em plano bastante inclinado até à velha ponte sobre o rio, e, correspondentemente, em plano bastante inclinado desde a velha ponte sobre o rio até ao cume do monte seguinte, e assim (mais ou menos) sucessivamente.
O imponente Marão ria-se como que a relembrar: aqui mandam os que cá estão.

Em Vila Real, corremos a provar os covilhetes na pastelaria Gomes, mas também as cristas de galo e os pitos na Casa Lapão.


Etapa 3 -04/06/2019
Vila Real – Vila Pouca de Aguiar
Distância: 35 km
Média: 4.2 km/h

Logo após o tiro de partida, mal batidas as 6, demos com uma pastelaria já aberta. À cautela, aproveitámos para o mata-bicho. Mas havia um pormenor interessante que tem de ser revelado: na porta ao lado da pastelaria funcionava uma barbearia, igualmente aberta, às 06:15 da manhã.
O percurso é de dificuldade média até Vilarinho de Samardã, complica muito com a descida ao Corgo e a subida íngreme até à antiga estação/apeadeiro homónimo, onde começa uma longa tirada sobre a antiga linha do Corgo, agora transformada em ecopista. À semelhança de outras linhas desactivadas na província de Trás-os-Montes – Tua, Sabor -, a linha do Corgo oferecia uma paisagem de lavar os olhos, com vista para as magestosas e agrestes serranias entre o Alvão e a Padrela. O caminho fácil, sem desnível, foi aproveitado para por a conversa em dia que a dureza do dia anterior não tinha facilitado. O primeiro tema em debate foi, naturalmente, a desactivação da linha do Corgo, tendo-se concluído que, se algum dos caminhantes fosse governante, nunca tal teria sido autorizado, antes pelo contrário, transformar-se-ia aquele linha – e a do Tua e a do Sabor -  num pólo de turismo de excelência.
Nota curiosa para o enorme eucalipto plantado em Vilarinho de Samardã que exibia duas placas comemorativas. Uma indicava que já houve uma época em que plantar um eucalipto justificava placa: o padre Luís Castelo Branco terá, muito provavelmente num ambiente de festa com pompa, circunstância e missa campal, procedido à plantação da mirtácea. A outra placa indicava que Sua Excelência o Primeiro Ministro Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva visitou Vilarinho de Samardã em julho de 1994, e aquele eucalyptus foi considerado suficientemente e bastante digno para registar tal ocorrência.

Etapa 4 -05/06/2019
Vila Pouca de Aguiar – Vidago
Distância: 21 km
Média: 4.3 km/h

Vila Pouca de Aguiar é sede da Federação Portuguesa do Caminho de Santiago, criada no passado dia 17 de maio do corrente ano de 2019. As placas e sinaléctica novinhas ainda estavam frescas.

Nota muito importante: não foi possível estar presente mas a nossa Confraria consta do rol de associações aderentes.

O caminho prossegue na linha do Corgo, regressando ao seu ambiente “natural” em Sabrosa de Aguiar. Antes, porém, paragem obrigatória em Pedras Salgadas para passeio no parque e “degustação” da famosa água naturalmente gaseificada. A natureza foi simpática para esta região.

Chegada tranquila a Vidago com recolha do passaporte para a rota das fontes no posto de turismo. No hotel Vidago há acesso à “fonte nº 1” onde – na opinião credível dos enfermeiros – a água”sabe a sangue”.


Etapa 5 -06/06/2019
Vidago - Chaves

A primeira metade deste troço é ascendente, a segunda descendente. Caminhou-se em paz até à entrada de Chaves quando uma chuvazita obrigou a usar os impermeáveis. As notícias davam conta de um tal Miguel que traria perturbação atmosférica, mas o dito acabaria por se mostrar muito tímido.

Passeio turístico pela zona histórica da mui antiga cidade de Aquae Flaviae, com direito a degustação da água bicarbonatada nas Caldas de Chaves. Tempo ainda para a foto no marco do km zero da Nacional 2 e, claro, para recolha dos famosos pastéis de Chaves.






















 


2020: Caminho Português Interior 2/3: Chaves – Orense.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

INSTANTÂNEOS - XIX


Desenho: Fernando Micaelo

Um estigma é uma espécie de cicatriz, uma espécie de carimbo, uma espécie de label (perdoe-se o anglicismo) que se associa a uma pessoa, com caracter duradoiro.
A sociedade é pródiga na categorização – em regra acompanhada de uma certa marginalização social - de alcoólicos, drogados, delinquentes, criminosos, ciganos, homossexuais, prostitutas, etc.

O estigma de I. não é nenhum destes.

Com base em alguns episódios – estatisticamente irrelevantes, segundo o próprio – foi-lhe aplicado o carimbo de “esquecido”. Consta que há vários albergues no Camiño com espólio enriquecido por toalhas, calções, cuecas, meias, pijama, t-shirts, e até uma escova de dentes que ele terá deixado ficar para – justifica ele já longe dos sítios – “alguém que precise” (excepção para a escova de dentes).

O carimbo estigmatizante de “distraído” ou de "esquecido" ficou quase irremediavelmente gravado a ferro em brasa nas suas nalgas com a cena ocorrida ali mesmo na Praza Cervantes em Compostela, mais precisamente, no Manolo.

Eis, resumidamente, a história.

Depois de cumprido o caminho Primitivo (desde Lugo) durante os 5 dias anteriores, o dia era para partir de regresso a casa, logo após almoço na Casa Manolo. A manhã, como habitualmente, tinha sido aproveitada para comprar uns regalos para a família e amigos. À conta da meia dúzia de cañas e outros tantos pinchos que ele (e outros) embrulharam nos intervalos das lojas, I. precisou de apressar a chegada ao Manolo a fim de responder aos alertas que o seu organismo lhe enviava insistentemente há algum tempo.

Carregado com 3 sacos contendo 2 pacotes de caprichos de Santiago, uma tarta Santiago, 2 camisetas do Camiño, um botafumeiro em miniatura, uma garrafa de licor de hierbas e uns brincos em azabache, foi-se direitinho aos sanitários, enquanto o grupo se sentava no piso inferior. À saída, já o mundo lhe aparecia com uma cor mais luminosa, reparou que – distraidamente, claro – tinha utilizado as instalações reservadas às damas. Preocupado em evitar qualquer engulho, acelerou o passo para escapar dali e juntar-se ao grupo que já escolhia o prato de primera e de segundo.

Foi já depois de ter degustado os pimientos padrón e a meio da chuleta de ternera grelhada que I. se levanta repentinamente e, com ar consternado, galga a escadaria 3 a 3 degraus, deixando todo o grupo a especular sobre os motivos de tamanha aflição. Reapareceria dois minutos depois, sorrindo, com 3 sacos de compras. Alguém – uma señorita, presume-se – tinha tido a gentileza de os recolher do cubículo sanitário feminino onde os encontrara e entregado a Don Manolo.

Obrigado a contar toda a história, Paula, atenta, não deixou passar o “pormenor”:

- E Don Manolo não disse nada sobre teres utilizado a casa de banho das senhoras?

Aí, I. acabou por confessar que introduzira uma personagem na história, ausente a mais de 500 quilómetros:

- Eu disse-lhe que foi a minha mulher que se tinha esquecido dos sacos.