terça-feira, 28 de maio de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
INSTANTÂNEOS - IV
Era uma
verdadeira manhã de primavera: fresquinha, solarenga, um rouxinol cantava – e
como o rouxinol ninguém canta -, a caminhada tinha começado há minutos. A
conversa ia animada à conta de variados temas banais e filosoficamente despretensiosos. Sãozita acabaria por merecer a melhor atenção
quando anunciou que quando era gaiatita, tinha sido vendida pelo seu irmão.
Parece que um
tal “bicha” (leia-se “bitcha”), outro gaiato lá da aldeia se embeiçou pela
pequena Conceição. A sua estratégia de aproximação à mocita passava por
conquistar a cumplicidade do mano mais
velho, a quem ensinou onde estava um
ninho de cotovia, oferecia marouva que roubava, até presenteou com meia dúzia
de berlindes. O cachopito, porém, não atribuía o mesmo valor aquele tipo de
mimos. Precocemente imbuído do espírito capitalista, ele viu ali uma
oportunidade de negócio e, inspirado pela visão do gelado de groselha que
poderia comprar com o dinheiro, tratou de vender a irmã ao tal “bicha” por …
vinte cinco tostões.
Confrontado, e
após alguma insistência, Xquim Branco lá reconheceu que a sua esposa vale bem
mais.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Diário de caminhada: Etapa IV, Belmonte – Fernão Joanes
“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
Etapa IV: Belmonte – Fernão Joanes
13 de Abril de 2013, sábado
As etapas IV e V marcam uma mudança de estratégia: atacar duas em vez de apenas uma. Se até aqui se entendeu mais adequado vir dormir a casa no final da etapa, deixou de o ser à medida que avançamos no terreno. De ora em diante, havemos de concluir 2 etapas em dois dias consecutivos, pernoitando por lá. Desta vez, foi na Guarda, Residencial Filipe, em pleno centro histórico da cidade mais alta, condições aceitáveis e simpatia bastante.
Caminhantes: Carlos Matos, Clementina – que às vezes também acode por Gabriel -, Fernando Gaspar, Guida, Inserme, Jaime, Joaquim Branco, Luisa, Paula, Sãozita, Zé Manel. No apoio, Piedade.
Sinopse:
Distância percorrida: 24,7 km
Tempo total de caminhada: 6:53 horas
Tempo a andar: 5:30 horas
Tempo parado: 1:23 horas
Velocidade média: 4,5 km/h
Altitude máxima: 996 metros
Povoados no percurso: Belmonte, Centum Cellas, Valhelhas, Mosteiro do Bom Jesus, Famalicão da Serra, Santuário da Senhora do Soito, Fernão Joanes.
Fonte: GPS do Joaquim Branco
(ver track aqui)
Recolhidos os 11 magníficos, mais uma, nos respectivos domicílios, viagem tranquila até Belmonte. A “mais uma” acode por Piedade e partilha o destino com o nosso cabo mor Gaspar e, não podendo caminhar devido a lesão, fez o favor de se disponibilizar para nos assegurar apoio. O castelo de Belmonte, testemunha milenar de muitas batalhas e de maior número de casamentos (estima-se) viu-nos partir alegres e contentes, por volta das 7 da manhã.
Com o argumento de que é nosso dever é nossa obrigação aproveitar o caminho para conhecermos mais e melhor do património e da cultura deste nosso país, Xquim Branco programou o GPS para nos orientar até Centum Cellas num pequeno desvio em relação à rota “normal” em direcção a Valhelhas.
Sem ninguém o convidar, ter-se-á alojado um reles vírus no programa que nos obrigou a saltar um murete não previsto, mas acabámos mesmo por conquistar Centum Cellas. A placa informativa junto ao monumento ensinava que os arqueólogos ainda não chegaram definitivamente à origem e função do monumento. A julgar pelo espaço escavado acreditamos que eles se esforçaram na empreitada. Fazemos votos que haja financiamento para que eles continuem esse esforço, até para acabar de vez com as especulações interpretativas do monumento como a da idosa numa excursão que, contou a companheira Paula, manifestou a sua aprovação à beleza arquitetónica lamentando, todavia: “é bonito sim senhora, mas foi pena não o acabarem.”
O caminho foi retomado, agora já com Belmonte nas 6 horas, ladeados por extensas baixas verdejantes de primavera. Numa das curvas do caminho eis que se junta uma agradável companhia: o Zêzere que fazia ouvir a sua cantiga, satisfeito com a farturinha de água. Paragem em Valhelhas para a bucha à moda de dou o meu recebo de todos. Uns escolheram água do fontanário que a debitava bem fresca, outros preferiram chá quentinho ou sumo, mas também houve quem se tivesse atirado às mines das nove da manhã. Quanto a sólidos, foi um pequeno almoço de mesa farta.
O caminho inflectiu agora para norte em direcção a Famalicão da Serra através de um vale verdejante ladeado por imponentes cumes. O povo saiu à rua, melhor, ao campo, atarefando-se no plantio da batata, aproveitando o primeiro verdadeiro dia de sol em meses. Que lindo dia para plantar batatas! E nós a caminhar vale acima… É de salientar o espírito alegre e hospitaleiro das gentes de Valhelhas que nos cumprimentava rejeitando amavelmente as nossas ofertas de ajuda.
Breve paragem junto às ruínas do mosteiro do Bom Jesus, edifício de alguma imponência que terá tido os seus tempos de glória. Xquim Branco ia informando:
- Estamos a 530 metros de altitude e temos de chegar aos mil.
10 Km à frente havíamos de saber que, afinal, só atingimos os 996 metros de altitude máxima. À entrada em Famalicão da Serra alguém logo reparou no cartaz que anunciava festa neste dia. A praça central da aldeia já tinha o palco montado mas, festa, só à noite. Inserme aproveitou para se exibir com o realejo e tocou duas modas, bailadas pelas manas Guida e Luísa. Os autóctones apreciaram e, consta, até bateram palmas à actuação. Um dos que veio indagar de onde vínhamos e para onde íamos, calha a ser sogro de um salgueireiro como o Matos e, naturalmente, fez questão de celebrar a constatação bastas vezes constatada de que o mundo é pequeno, com um copito na sua adega. O vinho não se comparava, convenhamos, a um Cartuxa, mas a intenção e hospitalidade aproximava-se (um bocadinho) à de um esquimó. E nós, humildes e modestos turigrinos, apreciamos bastante estas situações e estes gestos.
Ainda em Famalicão da Serra, justifica-se a referência à escultura em castanho “plantada” num dos cantos da praça. Com cerca de 5 metros de altura, está talhada um pouco à laia de tótem índio exibindo, para além de várias carantonhas, o perfil de uma mulher completa, quer dizer, eram facilmente identificáveis a cara, os seios, o umbigo, a boca do corpo e as pernas. Os autóctones não tinham muita informação sobre o real significado da peça de arte, porque se trata de facto de uma peça artística, mas um deles foi chamando a atenção para os pormenores mais “interessantes”. Hesitou na altura de mencionar a “boca do corpo”, intimidado com a presença da Clementina, preconceito rapidamente destruído pela própria.
O plano era cada vez mais inclinado, e o esforço de contrariar teimosamente a gravidade manifestava-se ruidosamente na respiração ofegante, aplanada a espaços com as brevíssimas paragens que eram aproveitadas para nos virarmos a sul e contemplar o cenário composto pelo vale que íamos vencendo, enquadrado pelo fundo majestoso do maciço central da Estrela com os pontos mais altos a reluzirem na alvura da neve.
A cumeada foi finalmente transposta. Ali se mudava da bacia hidrográfica do Tejo para a do Mondego. Os recortes dos vales deixavam adivinhar o percurso do maior rio português que nos seus primeiros 20 km se encaminha em direcção a Espanha mas que depois parece arrepender-se e inflecte para o nosso litoral à procura de Coimbra e da Figueira da Foz. O caminho leva-nos a atingir a altitude de 996 metros, e é já a descer que encontramos o santuário da Senhora do Soito, nas imediações da aldeia de Fernão Joanes.
Era hora de almoço e precisávamos de um local para, mais uma vez, oferecer o nosso e comer de todos. Jaime avançou e não demorou a obter autorização para a ocupação da pequena e abrigada esplanada do único café da aldeia. O dono calhava ser o Presidente da Junta, Daniel de Jesus Vendeiro de seu nome, homem que para além de nos brindar com a sua hospitalidade e simpatia presenteando-nos com meia dúzia de broas de milho, nos mostrou a sua faceta de autarca dinâmico. Ficámos a saber que foi ele o pioneiro na recriação da transumância, ideia que foi depois apropriada, segundo ele, por Alpedrinha que a associa ao nosso bem conhecido Festival dos Chocalhos . Fernão Joanes, publicitou o Sr. Presidente da Junta, é uma aldeia pequena mas muito dinâmica, rica em eventos culturais e desportivos, possuindo mesmo uma pista de motocross que integra o circuito nacional.
Cumprida a etapa, accionado o sistema de apoio logístico facilitado pela nossa Piedade, transportámo-nos para a forte, farta, fria, fiel e formosa cidade da Guarda, onde a residencial Filipe nos vendeu, em condições aceitáveis, repouso, duche e pequeno almoço. O final da tarde foi dedicado a pequeno passeio pela zona histórica, com a inevitável visita à Sé, onde decorria a celebração da Eucaristia presidida por Sua Excelência Reverendíssima D. Manuel Felício, Bispo da Guarda. Antes porém, Inserme e Zé Manel não desaproveitaram o ensejo de se juntarem ao numeroso grupo de sacerdotes e fiéis que percorriam algumas ruas cantando cânticos de louvor ao Senhor. Junto à Sé, o grupo ofereceu um miniconcerto que incluiu uma espécie de bailado em que todos davam as mãos fazendo uma grande roda. Os dois ex seminaristas que foram na juventude, viveram o momento com alguma nostalgia.
Diário de caminhada: Etapa V, Fernão Joanes – Vila Cortês do Mondego
“Da nossa casa a Santiago
de Compostela”,
Etapa
V: Fernão Joanes – Vila Cortês do Mondego
14
de Abril de 2013, domingo
Sinopse:
Distância
percorrida: 20,8 km
Tempo
total de caminhada: 6:15 horas
Tempo
em movimento: 4:49 horas
Tempo
parado: 1:26 horas
Velocidade
média: 4,4 km/h
Sítios
e povoados no percurso: Fernão Joanes, Meios, Trinta, Barragem do Caldeirão,
Miradouro do Mocho Real, Faia, Aldeia Viçosa.
Fonte:
GPS do Joaquim Branco
(ver
track aqui)
O
caminho é retomado em Fernão Joanes por volta das 08:30 de domingo, 14 do
quatro. O corpo está recomposto e fresco como a primaveril manhã, disponível para
aceitar mais umas horas de caminhada; o espírito, esse, reflectia-se nas
animadas conversas.
Nos
Meios, o povo ia-se juntando no pequeno adro da matriz para a missa das nove. À
semelhança de tantas outras aldeias, só se viam a chegar para o serviço
religioso figuras de perfil ligeiramente curvado e andar lento por via das
artroses. À pergunta brincalhona do Zé Manel: “então o caminho para Santiago de
Compostela é por aqui?” a informação veio honesta: “não! olhe que têm de ir à
Guarda”.
A
freguesia de Trinta espraia-se por uma extensa encosta e terá sido uma aldeia
próspera com inúmeras unidades na área do têxtil, designadamente, fiação de lãs
e produção de xailes, cobertores, mantas. O estado em que se encontravam alguns
edifícios indiciavam que esses tempos de prosperidade já pertencem ao passado
que terá tido início, eventualmente, em 1896 quando a aldeia de Trinta teve o
privilégio de ser uma das primeiras terras do país a dispor de energia
eléctrica.
O
percurso fazia-se agora com todos os santos a ajudar já a dar vistas para a
albufeira do Caldeirão. Alguns imprevistos na rota programada levou-nos por
trilhos menos frequentados, retomada na estrada que conduz ao paredão da
barragem hidroeléctrica do Caldeirão, construída numa imponente garganta da
ribeira homónima. Eram horas de reforço alimentar e os barrocos nas imediações
do miradouro do mocho real emprestaram um local apropriado.
O
caminho percorria agora uma zona onde pontificavam numerosas quintas ocupadas
por gente com feições nórdicas, pele clara e cabelos loiros, provavelmente oriundos
de territórios onde o sol e as montanhas não devem abundar, o que poderá
explicar o seu fascínio por esta e por este clima. As casas pareciam bem
arranjadas, arquitectura de bom gosto, todas com piscinas, campos aramados que
guardavam rebanhos de ovelhas e cabras. Surpresa – ou talvez não – tivemos
quando, junto a uma destas quintas, encarámos com uma estrutura de metal com
cerca de 4 metros de altura, exibindo uma figura estilizada que alguém mais
observador avançou que aquilo lhe sugeria a figura de um anjo. Avaliação
acertada, já que na aldeia de Faia foi confirmado que efectivamente naquele
local se realizava todos os anos, no início de Agosto, um grande festival de
música – e não só – apropriadamente conhecido como Festival do Anjo – se se
preferir, “angel art festival”
ao qual acorrem milhares de pessoas,
sobretudo, alemães e holandeses.
A
rota programada para Faia teve de sofrer um desvio que implicou uma volta
atrás. Junto a um enorme tanque de água onde os estrangeiros ocupantes gravaram
que “ Think like a mountain “ o caminho virava à
direita descendo para um pontão sobre a linha de água que atravessa a aldeia mas
estava barrado por um portão metálico. O autóctone que nos refrescou a goela
numa simpática tasquinha de Faia confirmaria que se trata de uma apropriação
indevida de um caminho público. A extensa rua principal de Faia apresentava
sinais claros de que em tempos terá sido uma povoação com alguma prosperidade,
sobretudo devido às numerosas casas em granito com portados quinhentistas,
muitos deles conjugando com janelas que exibiam belos rendilhados manuelinos.
O
Mondego foi transposto na velha ponte romana junto à Quinta da Ponte, rumo a
Aldeia Viçosa. No batorel de granito da taberna junto à matriz, alguns
autóctones juntaram-se-nos, curiosos. O cepticismo e ar desconfiado foi deveras
evidente nalguns deles quando lhes assegurámos que tínhamos partido de Belmonte
no dia anterior, de estupefacção mesmo, quando os informámos do nosso
desiderato de caminhar até Santiago de Compostela.
Seis
horas depois da partida, eis-nos chegados ao cruzamento para Vila Cortês do
Mondego e Porto da Carne, 14:45, fim de etapa. Será aqui, exactamente aqui, que
se iniciará a próxima.
sexta-feira, 29 de março de 2013
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Porto de Vacas
Porto
de Vacas, 09 de Fevereiro de 2013
A
organização chamava assim:
Comemore o Carnaval de forma diferente percorrendo o Caminho do Xisto de
Porto de Vacas, um dos seis da rede de Percursos Pedestres do concelho de
Pampilhosa da Serra.
Porto
de Vacas é a terra natal do Manel Bento. No ano passado teve artes para nos
levar a participar na caminhada que a comissão de melhoramentos de Porto de
Vacas e parceiros organizaram. Não, a nossa participação não teve nada a ver
com o facto de a inscrição, reforço e almoço carecerem de qualquer
comparticipação da nossa parte, assumindo a autarquia os custos da operação.
É
preciso entender e enquadrar a estratégia que está por detrás deste tipo de
iniciativas. Numa análise mais fina ela inscreve-se num paradigma que tem no
seu núcleo duro a teoria do intervencionismo compensatório. Em termos mais
claros, assenta na ideia de que nos territórios desfavorecidos, de baixa
densidade, se se preferir, a fragilidade da dinâmica “civil” tem de ser
compensada pela acção das autarquias, sob pena de se agravar o movimento de
abandono a que parecem estar votados. No caso, os resultados estão à vista: se
a autarquia não tivesse tomado a iniciativa de canalizar alguns dos seus
recursos, mobilizando igualmente a câmara municipal da Pampilhosa, os bombeiros
voluntários, o projecto aldeias de xisto, e a comissão de melhoramentos,
provavelmente, uma boa parte dos cerca de 300 participantes desconheceriam
agora que existe uma aldeia simpática, localizada num cenário natural fabuloso,
onde se produz um pão de azeite delicioso, um queijo que combina muito bem,
aguardentes gulosas de vários travos, tigelada da verdadeira, etc, etc. Nesta
perspectiva, poderemos aceitar, que a autarquia não deverá inscrever os custos
na rubrica das despesas mas na do investimento. Lá mais para a frente, o senhor
que veio de propósito de Lisboa, sózinho, vai querer voltar para descobrir o
resto, e trará com ele a família e alguns amigos.
No
que nos diz respeito, a nós, confrades, também contribuiu para a decisão de
participarmos na caminhada de 2012, a promessa de inaugurarmos um pipo na adega
do parteiro do Manel. Sim, que o Manel teve a ajuda do Ti Zé Alfaiate no
momento do parto. Confirmado pelo próprio, era ele adolescente imberbe de 15
anos, já fazia pela vida nos negócios do pai do Manel, quando a patroa entrou
em trabalhos de parto. À falta do INEM, alinhou o rapazinho. E o Manel lá saiu
para enfrentar o mundo. E por aí anda, pesadote.
Já
veteranos à conta da (boa) experiência do ano passado, voltámos a aceitar o
convite para a edição de 2013, sem ligarmos nada à novidade de que ia haver
prova de produtos locais, para além, claro, do almocinho, e lá comparecemos 17
confrades, prontos para ajudar no que fosse preciso.
À
descida para Janeiro de Cima, o Zêzere estava coberto por um comprido e sinuoso
manto de algodão branco que não deixava ver na sua plenitude o magnífico
cenário que enquadra a aldeia de Porto de Vacas. Levantaria ainda antes do
início da caminhada.
Sensivelmente
a meio, a organização preparou-nos uma pequena lição e demonstração pratica. Um
antigo resineiro esperava-nos no meio do pinhal numa curva do caminho que
descia ao vale de muro armado de utensílios vários apropriados à tarefa de extrair
resina dos pinheiros bravos. Com visível entusiasmo na sua função efémera de
professor ia explicando os trabalhos que ia realizando. Começou por remover uma
parte da casca na base do pinheiro, depois espetou uma peça de metal ligeiramente
aconcavada que servia para direcionar o fluxo da resina para o recipiente de
plástico que colocou imediatamente por baixo. Quando tudo já estava en su
sitio, pegou numa bisnaga com um líquido esbranquiçado e borrifou a ferida por
cima do metal, para, disse o resineiro, “puxar a resina”. Um brincalhão, se
calhar um enfermeiro, ainda perguntou se, puxar por puxar, não seria mais
prático espetar no pinheiro a agulha de uma seringa e, puxar a resina. Que não!
Tinha de ser daquela maneira. Discretamente, Xquim Branco explicitou a questão
do “puxar a resina”: o líquido é um ácido que atrasa a reacção do pinheiro para
sarar a ferida e permitir assim que a resina continue a escoar por ali. As
coisas que o Xquim sabe…
Bom,
ficámos também a saber que a resina servia essencialmente para a produção de
aguarrás que, por sua vez, era utilizada como solvente e na fabricação de
graxas e tintas, e de pez branco utilizado, atenção a esta informação já fruto
de pesquisa nossa, para calafetar barris de cerveja (aqui). A extração de resina dos pinheiros
já foi uma actividade com alguma pujança em Portugal. Já não é. Parece que o
petróleo também possui este tipo de átomos e é mais barato (!).
Os
últimos 3 km foram feitos na companhia do Zêzere que ali corre sereno, por via
do dique construído mais à frente. À chegada, entraram os bombos de Dornelas do
Zêzere, para abrir o apetite para o discurso do senhor Presidente da Junta que
reafirmou a satisfação de ali ter mais de 300 pessoas que fizeram uma caminhada
“com muito estilo” (sic), e, sem mais demoras foram todos os caminhantes
ordeiramente recolher o arroz de feijão e grelhado misto de porco. Estava tudo
muito bom.
O
Rancho Folclórico e Bombos de Dornelas do Zêzere ofereceram um concerto honesto
durante as duas horas seguintes. O que lhes sobra em honestidade falta-lhes em
autenticidade. Do ponto de vista do reportório, entenda-se. Mesmo para quem
pouco ou nada entende de folclore, soa-lhe estranho que o rancho de Dornelas do
Zêzere, concelho da Pampilhosa da Serra, cante e dance o vira do Minho e lhe chame
vira do Zêzere.
No
próximo ano, somos capazes de estar disponíveis para inaugurar outro pipo.
INSTANTÂNEOS - III
Ruta del Emperador Carlos V em Jarandilla de la Vera
Partimos às 5 e meia mesmo. A viagem teria decorrido sem
histórias se não tivéssemos perdido o xquim e restante tripulação, já nas horas
deles (deles, dos nuestros hermanos). Felizmente foi apenas um atraso para
compor as minis na geleira, por terem dado uma cambalhota nalguma curva mais
apertada. Claro que a tripulação aproveitou logo a paragem para regar as
estevas (planta com outros aproveitamentos por ali, como iremos ver mais à
frente).
E o xquim, apesar dalguns já o darem por perto de Madrid,
mais uma vez provou que com ou sem gps não é homem para se desorientar, muito.
Chegados a Jarandilla de la Vera, fomos recebidos com um
frio para secar fumeiros e curar presuntos instantaneamente, excepto os Lourenço
claro está. Era tanto o frio, que alguém mais distraído poderia pensar estar
nalguma região montanhosa afegã, tantas eram as burkas e turbantes que os
caminhantes exibiam.
Agora já sabe.
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