quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
INSTANTÂNEOS - IX
A etapa estava já a terminar sem que tivesse ocorrido
episódio digno de instantâneo. Até que se chegou a Pedronelo, já com Amarante à
vista. Numa curva, surge, imponente e vistosa, uma vivenda bem traçada
arquitectonicamente. Vários pormenores chamaram a atenção dos peregrinos. O
primeiro, logo notado por apreciador convicto, era o telheiro que abrigava a
barbacoa, em telha de meia cava, armação em madeira tratada, forno, churrasco e bancadas em materiais de primeira; depois,
as persianas, todas em dourado brilhante conferiam-lhe um aspecto, digamos, nobre;
terceiro, o largo varandim que a circundava, assim à moda da mansão brasileira;
por último, à volta da mansão, numa área de uma centena de metros quadrados, em
plano inclinado, em vez de relva, pedras roliças e seixos.
Espalhadas pelo
peculiar quintal, erguiam-se várias estátuas, completamente pintadas de branco, algumas delas a jorrar água em prateados pequenos repuxos.
Seguindo o nosso instinto, tratámos de meter conversa com o proprietário que nos avaliava
desde o varandim e, apontando uma figura masculina trajada à moda do Renascimento
- gola rendilhada à volta do pescoço, jaqueta sem mangas, calças (agora parece que lhe chamam leggins) muito justas com ostentação despurada do contorno
dos genitais, sapatos largos encimados por grandes fivelas:
- Santas tardes, então quem é que está ali naquela estátua?
- É o D. Afonso Henriques – informou solícito.
Armados em sabichões, ensaiámos a correcção:
- Não pode. A vestimenta não é bem a da época do nosso Fundador.
O pedronalense senhor nem vacilou:
O pedronalense senhor nem vacilou:
- Ai isso é que é! Atão eu não sei? Olhe que eu tenho a 4ª
classe antiga, meu amigo, e conheço bem os nossos reis.
Metemos o rabinho entre as pernas e prosseguimos rua abaixo a ver do S. Gonçalo.
Diário de Caminhada - ETAPA XIV: Felgueiras - Guimarães
“Da nossa
casa a Santiago de Compostela”,
Etapa
XIV: Felgueiras - Guimarães
11 de Janeiro
de 2014, sábado
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos,
Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco,
Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade.
Sinopse:
Inicio em
Felgueiras: 08:20 horas
Chegada a Guimarães (Praça de Santiago): 15:00
Chegada a Guimarães (Praça de Santiago): 15:00
Distância
percorrida: 21,5 km
Tempo Total 6:41;
Tempo parado 1:37;
Velocidade média 4,2 Km/h.
Povoados e locais de
referência ao longo do percurso: Felgueiras, Mosteiro do Pombeiro, Ponte do Arco, Ciclovia (Fareja-Guimarães), Guimarães.
Acumulado:
Caminho: 346,7 Km
Bacias hidrográficas: Tejo,
Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave.
Distritos: Castelo Branco,
Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga.
Concelhos: Castelo Branco,
Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar
da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão
Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães.
Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)
A
etapa nº 14 fica marcada por uma mudança de estratégia no que toca a
deslocações e apoio: em vez dos 3 automóveis habituais, os peregrinos foram
todos em excursão num mini autocarro alugado. O apoio durante as etapas esteve igualmente assegurado com uma paragem para pequeno almoço. Feitas as contas,
fica mais barato e, claro, muito mais confortável. As despesas da viagem até
Felgueiras foram pois transferidas para o senhor condutor, facilitando a vida
aos peregrinos que se dedicaram à confraternização e, nos intervalos, a
dormitar.
A
Câmara Municipal de Felgueiras prestou-se a enquadrar o grupo. Antes do tiro de
partida às 08:20, Xquim Branco fez entrega das cadernetas que um dia havemos de
exibir aos nossos netos, como comprovativo desta nossa aventura.
O
percurso leva-nos a uma passagem pela Matriz da cidade e em seguida encaminha-nos
em direcção ao majestoso mosteiro de Santa Maria do Pombeiro, um edifício imponente que
remonta ao sec. XI, estilo românico na base, nave ampla, vários altares em
talha trabalhada e rendilhada. Consta, obviamente, da lista de monumentos
nacionais. Após a recolha do carimbo, prosseguimos para a ponte romana do Arco
que nos havia de deixar passar para a margem direita do rio Vizela. Três
centenas de metros antes, já com o som das águas do rio, nota para a casa das
Carrancas na Boavista, assim chamada por via das carantonhas que exibe na
frontaria de granito.
Duas
notas, à volta de cada margem do Vizela. Na esquerda, mesmo junto à ponte
puderam os peregrinos visitar um moinho em plena laboração, a convite do
moleiro, um rapazinho ainda novo. Nos seus tempos áureos, condicionada pela
levada ainda bem visível, a força bruta das águas do Vizela faziam rodar o
rodízio que fazia girar as mós, que moíam o grão; agora e naquele momento, era
o interruptor eléctrico na posição de ligado que fornecia a energia para o
mesmo efeito. Já na margem direita, na localidade de Serzedo, infirmou-se
finalmente a tese de que os minhotos não são gente hospitaleira. Picada pelo
nosso Zé Manel, a minhota Sra Conceição insistiu veementemente com os peregrinos
para que bebessem um portinho dos seus. Fizeram-lhe os peregrinos a vontade.
Ela havia de cantar os Reis à moda do Minho, tendo nós retribuído com as janeiras à moda da Beira
Baixa (acompanhadas com realejo e tudo). A hospitalidade, simpatia e boa disposição valeu-lhe para lhe perdoarmos que ela não soubesse e não se lembrasse de ter ouvido nunca o que era
isso da Beira Baixa, ou de uma cidade chamada Castelo Branco. A explicação do nível de ignorância, tê-la-á dado a própria quando invocou por 3 vezes o Manuel Goucha como referência para 3 temas.
Cinco
minutos à frente, pequeno almoço. Para registo histórico - e apenas para esse
efeito - aqui fica o cardápio (desta e de todas as refeições de ar livre nas
etapas XIV e XV): pastéis de bacalhau (dos verdadeiros); frango à brás; febras
palitadas com picles; azeitonas de várias qualidades e tempêros; queijos:
fresco, picante, mistura, beira baixa de ovelha à cabreira, Seia; javali no
forno; moelas; presunto: em guitarra e fatiado; chouriço; chouriça; farinheira
fumada e frita; morcela; salada de polvo; peixe frito; frango frito panado;
pastéis de carne; empadas; pão de mistura; pão centeio; bolacha do deserto;
arroz doce; bolo de cenoura com chocolate; filhós; ananaz; tangerinas; maçãs;
bica doce; pão de deus; marmelada dura e mole; bolos secos, vinhos de vários
cores e sabores, verdes e maduros mas todos autênticos néctares dionisíocos,
suminhos.
Repostos
os níveis, atacou-se a subida por Serzedo às endireituras da ciclovia que foi
instalada por cima do antigo ramal ferroviário que ligava Guimarães a Fafe. Passeio
agradável em piso alcatroado, em bom estado, nivelado, que se estende por quase uma
dezena de quilómetros, com passagem pelas antigas estações de Paço Vieira e
Mesão Frio, até à cidade berço.
O
castelo havia de ser conquistado pelo norte, sem grande resistência. Depois do
inevitável registo daguerreotípico com o nosso primeiro Afonso como testemunha,
visita ligeira, em dia de entrada livre, ao Palácio dos duques de Bragança,
onde os peregrinos beneficiaram ainda como bónus de uma breve sessão teórica sobre essa
nobre e antiga arte de treinar e cuidar falcões e outras aves de rapina na
actividade cinegética, que é como quem diz em falcoaria, ou, mais erudito, em
cetraria. Um simpático cavalheiro, braço esquerdo alçado, luva de cabedal a
proteger a mão das garras de um garboso falcão fêmea, foi respondendo a todas
as perguntas compenetrado de quem sabia do que estava a falar. Esboçou um
difícil sorriso apenas quando, questionado sobre o comportamento das aves,
informou que na sociedade dos falcões, a fêmea é que vai à caça enquanto o macho
fica de guarda.
Depois de degustado o almoço tardio nas instalações do Hostel Santiago (repetição de cardápio), a tarde foi dedicada a apreciar a zona histórica de Guimarães e a confirmar a sua harmonia arquitectónica. Uma jóia, inquestionavelmente. Naquela noite, sorte nossa, era noite de cantar os reis. Logo ali ao lado, no Largo da Oliveira, o povo saiu à rua e acorreu a ver e ouvir a dezena de grupos musicais oriundos de várias freguesias do concelho de Guimarães que cumpriram a tradição de cantar os reis. Mesmo antes de recolher, ainda houve tempo para assistir, agora na Praça de Santiago, à performance inusitada de uma bruxa a tocar violino numa varanda. Para o quadro ficar completo, só faltava o elemento moderno na noite vimaranense, e esse estava mesmo por baixo da nossa janela: rompendo corajosamente a penumbra do bar, fazia-se ouvir, forte, o rufar ritmado acompanhando o trinar destorcido das guitarras roqueiras.
Amanhã, havemos de ver Braga.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Diário de Caminhada - ETAPA XIII: Amarante - Felgueiras
“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
Etapa XIII: Amarante - Felgueiras
17 de Novembro de 2013, domingo
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.
Sinopse:
Inicio em
Amarante: 08:35 horas
Distância
percorrida: 21 km
Tempo
total de caminhada: 07:12 horas
Tempo a
andar: 05:34 horas
Tempo
parado: 01:38 minutos
Velocidade
média: 4,3 km/h
Da cota
de 68 metros para 306 metros
Altitude
máxima: 412 metros
Subida acumulada: 528 metros
Descida
acumulada: 285 metros
Povoados e locais de
referência ao longo do percurso: S. Gonçalo, Stª Luzia, Vinha, Pinheiro,
Estradinha, Freitas, Telões, Castanheira, Redondo, Lixa, Caramos, Moure, Felgueiras.
Acumulado:
Caminho: 325,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro,
Tâmega, Vizela/Ave.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas,
Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da
Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras.
Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui
O Tâmega assistiu sereno ao nosso acordar. Impávido, testemunhou a
surpresa que nos fizeram a Alexandra, o Luís e o Daniel, da Associação Viver
Canadelo e Serra do Marão (AVCSM). Alguém que nos viu passar e soube do nosso desiderato,
terá tido a boa ideia de informar a Senhora Presidente da Junta de Amarante que
teve a amabilidade de comunicar à AVCSM e, eis 3 ilustres embaixadores que se
nos apresentam a dar as boas vindas. A AVCSM dedica-se à organização de
eventos, à promoção da região e, claro, ao apoio e divulgação do caminho de
Santiago. Gozámos da sua boa companhia durante cerca de 2 horas até ao limite
do concelho de Amarante, guiando-nos por entre vinhedos dispersos, num percurso
ligeiramente desviado em pequenos troços do caminho de Torres, justificado,
segundo eles, por acertos já consolidados.
Em Telões, tiveram os peregrinos direito a cerimónia de bênção pelo pároco Nelson Soares na bela Igreja românica do sec. XIII. Segundo informação
do Daniel, arqueólogo de formação, o monumento terá sido originalmente erigido no
sec. XI a mando de Murio Viegas, nobre cavaleiro do conde D. Henrique,
progenitor do nosso primeiro monarca.
O pequeno almoço foi servido logo ali no café junto à obra de
Murio, lauto, acompanhado, também, por vinho verde tinto e branco, ambos os
dois de superior qualidade. O branco, em especial, mereceu mesmo rasgados
elogios, ainda antes de se saber que fora produzido na quinta do senhor Padre
Nelson.
Depois dos nossos novos amigos da AVCSM se despedirem e nos
orientarem o caminho, limitámo-nos a seguir preguiçosamente as setas amarelas
profusamente distribuídas. Salvo raras excepções em que o caminho nos levou por
veredas estreitas sombreadas por compridas latadas, a aproximação à Lixa, o seu atravessamento e o último troço até Felgueiras é feito em espaço urbano e
peri-urbano. Convenhamos: o troço não é dos mais agradáveis para quem prefere o
espaço amplo e rural.
Ponto de interesse na Igreja de Caramos a que se acede por um
pequeno troço de estrada romana em muito mau estado. Por entre várias
localidades, trilho estreito até à Igreja matriz de Moure. As setas amarelas
conduzem-nos numa espécie de slalom na malha urbana dos arrabaldes de
Felgueiras até a um edifício que já albergou gente famosa: a domus municipalis.
Fim de etapa. Próxima, a XIV: Felgueiras-Guimarães.
Diário de Caminhada - ETAPA XII: Loivos do Monte - Amarante
“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.
Etapa XII: Loivos do Monte - Amarante
16 de Novembro de 2013, sábado
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade e João.
Sinopse:
Inicio em (perto
de) Loivos do Monte: 08:30 horas
Distância
percorrida: 17 km
Tempo total de
caminhada: 05:20 horas
Tempo a andar: 04:22
horas
Tempo parado: 58 minutos
Velocidade média: 4,2
km/h
Da cota de 740
metros para 68 metros
Altitude máxima: 755
metros
Subida acumulada: 154 metros
Descida acumulada:
808 metros
Povoados e locais
de referência ao longo do percurso: Noveleiras, Rechãozinho, Reboreda,
Bailadoiro, Gualta, Vinhateiro, Matias, Corujeira, Amarante.
Acumulado:
Caminho: 304,2 Km
Bacias
hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega.
Distritos:
Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto.
Concelhos:
Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira,
Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso
da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante.
Fonte:
GPS de Joaquim Branco
(ver
track aqui)
Mal que batiam as 04:30 reuniu a fadistagem na rotunda
da Mina. Viagem bem disposta, atendendo à hora, A23 acima até à Guarda, inflexão
para oeste na A25 até Viseu, novamente para norte na A24 até ao Peso da Régua,
N108 até Mesão Frio, N101 até ao cruzamento para Loivos do Monte/Baião. A
estratégia de transporte e apoio implicou, comme
d’habitude, um compasso de espera, pelos companheiros que foram parquear as
viaturas a Amarante. Estava frio, bastante frio. Foi preciso aquecer a alma com
uma jeropiga.
Início junto ao cruzamento para Baião às 08:30 com
entrada imediata numa artéria peculiar, a começar pelo nome: Marquês de Pombal.
Não, não era rectilínea e larga, acompanhava rudemente a N101, rodeando os
acidentes orográficos que eram bastantes e pronunciados, característica, aliás,
de toda a região (estamos a norte do Douro, numa região meio minhota meio
transmontana, certo?); depois, a dita “rua” estende-se por cerca de mil vezes
3,5 metros, ao longo dos quais, tocam-na não mais do que uma dúzia de casas.
Mas o que a torna única, mesmo única a sério, são as inúmeras pequenas cascatas
de água que brotam por entre os penhascos de castanheiros, compondo a banda
sonora da caminhada ao longo deste troço.
Quase sem nos darmos conta, fomos atravessando as
“localidades” de Outeiro, Noveleiras, Rechãozinho, Almas, Reboreda, Vinhateiro,
Bailadoiro, Cabana, Corujeiras, Gualta, Matias (não necessariamente por esta
ordem). Pelas 6 horas perseguia-nos a serra da Abobereira, pelas 3 vigiava-nos
o Marão. Passava das 10 quando, numa comprida mesa da esplanada do café
simpático da localidade de Cavalinho, foi estendido o farnel e cada um
alambazou-se com o que quis, desde que quisesse: pão, borrachões e bolacha do
deserto (de Aldeia do Bispo), enchidos vários, paté de atum e delícias do mar,
queijo fresco, queijo de mistura, azeitonas carrasquenhas retalhadas, azeitonas
cordovil marteladas e aromatizadas com orégãos e alho, frango frito, febras aux vin, pezinhos de coentrada, moelas,
bacalhau aux punheta, rissóis, feijão
frade, papas de carolo, empadas de galinha, tinto do Micaelo, verde branco do
Zé Manel, verde tinto da tasquinha servido em malga branca. Mesa farta e
variada, pois.
Petiscou-se devagar, com vagar. Já mais compostinhos,
prosseguiu-se. O vagar está associado à “slow food” (que nos seja perdoado o
anglicismo), mas também ao acto em si de conhecer o país enquanto se caminha…
com vagar. Forçando a analogia, sabe-nos melhor, faz-nos melhor, o “slow
knowledge” (em português equivalerá a apropriação lenta de saber, suave,
preciosista), facilitado pelo caminhar com tempo para permitir que o olhar se
detenha nos pormenores, imperceptíveis de outra forma. Ao longo do caminho, temos
confirmado a tese: a diversidade deste país é uma das suas maiores riquezas,
nos usos e nos costumes, no sotaque, na gastronomia, na cultura em geral, na
orografia, na flora, na paisagem; na marcação e apropriação do território
também, como foi confirmado nas imediações de Amarante, e que nos tornou a
mostrar o peculiar conceito de rua destas paragens. Já havíamos conhecido a rua
Marquês de Pombal, as suas cascatas e as suas 10 casas em 5 quilómetros; agora
caminhamos pela rua Souto Chão que ao longo de mais de 1000 metros às vezes em
terra, outras vezes calcetada, serve 2 edifícios decrépitos consideravelmente
distanciados, até à rua do Bandoleiro, agora já em alcatrão, subitamente
continuada pela rua do Pedregal em calçada, com delimitação bem marcada no
chão. Perguntámos a uma autóctone e eis a explicação: cada rua pertence a sua
localidade. As autoridades administrativas de Jazente entenderam diferente das
autoridades administrativas de Pedronelo, pelo que, do portão da vivenda
Belinha para cima, Jazente mandou colocar alcatrão, daí para baixo mandou Pedronelo
colocar calçada. E assim se evidenciou quem manda aonde.
Pedronelo orgulha-se da fama que tem o pão que aí é
fabricado. Na padaria, após alguma insistência no chamamento, a padeira assoma
a uma janela:
Inteirando-se da nossa condição, e antes de saber a
encomenda, a simpática pedronalense logo fez questão de oferecer 3 pãezinhos de
quartos, atitude que os caminheiros acharam muito correcta, comprando-lhe 3
casqueiros dos grandes, em compensação.
A entrada em Amarante é feita, obviamente, pela ponte
de S. Gonçalo. Reza a história que foi o próprio que tratou de reconstruir a
velha ponte romana que constituía (e constitui) uma importante via de ligação
entre o sul e o norte, em direcção a Guimarães, Braga e, naturalmente,
Compostela. Embalado, terá mandado também erigir, junto à ponte, a ermida que
haveria de ser transformada em Igreja com o seu nome. Pese embora Frei Gonçalo
nunca tenha sido reconhecido como santo pela Santa Igreja Católica Apostólica
Romana, mas “apenas” como Beato, a verdade é que o povo, seguramente em
consideração ao seu fervor (e dinâmica edificadora), tratou de o canonizar como
tal, envolvendo-o em lendas e histórias que lhe atribuem feitos ímpares com as
raparigas e não só. A cultura popular mais brejeira e brincalhona valia-se da
capa protectora de S. Gonçalo para atacar preconceitos e tabus em tempos de
repressão, única forma de contextualizar quadras como esta:
S. Gonçalo de Amarante
Casai-me que bem podeis
Já tenho teias de aranha
Naquilo que vós sabeis.
Havia feira de antiguidades no adro. Ainda antes do
lauto almoço nas imediações do rio (o cardápio era o mesmo do pequeno almoço),
os peregrinos fizeram questão de ir tocar o túmulo do santo padroeiro e, saudar
o colega Santiago na capelinha lateral da Igreja.
Amarante é terra natal de ilustres figuras da
literatura e das artes portuguesas. Amarantinos são Amadeu de Souza-Cardozo,
Agustina Bessa Luís e Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos que preferiu
ficar conhecido como Teixeira de Pascoaes. Das pesquisas efectuadas – pois, o
Caminho, essa via de conhecer mais e mais devagar o país, inclui passear pelas
referências locais, consolidámos a nossa simpatia pelo Pascoaes arauto do
bucolismo da ruralidade, pré-ecologista, mas já não tanto pelo Pascoaes perdido
nas teias do saudosismo, com as conotações imobilistas e excessivamente
nostálgicas que ele parece ter querido dar ao conceito de saudade. Gostariamos,
mas não o conseguimos, de ter ficado definitivamente esclarecidos sobre a
disputa intelectual que ele travou com António Sérgio relativamente à exclusividade
da saudade portuguesa, ideia que corre e vingou no imaginário apologético
nacionalista. Dever-se-á, muito provavelmente ao contributo de Pascoaes, essa ideia que nos
levaram a interiorizar de que o sentimento associado à saudade é excepcional
nos portugueses e que mais nenhuma língua no mundo traduz com a mesma força tal
sentimento. Sérgio terá chegado a ser indelicado com o amarantino desmontando
essa genuidade e exclusividade, argumentando que a palavra existe com o mesmo
significado em várias línguas, até em islandês, onde assume a forma de saknaor. Não sabia António Sérgio, não
podia saber, que os islandeses quase um século depois haviam de cortar radical
e definitivamente com um certo saknaorismo
que os governava. Adiante.
O final de tarde e noite foi gasto pelos peregrinos
entre tabernas, socializando com os autóctones disponíveis. Esta opção implicou
um custo de oportunidade: escasseou o tempo para visitar o excelente museu
Amadeu de Souza-Cardoso. Primeiro, foi a taberna do Rodrigo, pequeno e acolhedor
entreposto de venda de variadíssimos enchidos e presuntos regionais, cujas paredes
e mesas estavam forradas com papéis avulsos nos quais os clientes deixam
mensagens, poemas e outros dizeres. Depois, foram os peregrinos buscar o
reforço alimentar da noite na Taberna das Comadres, ali a dois passos do Tâmega, rebuscado com sopinha de
feijão, couve esfarripada e batata ralada com garfo, ameijoa à moda das
comadres, tripas à moda das comadres, “verde” (bifinhos de porco longamente alagados em
vinha d’alho e pimenta e depois fritos em azeite), pastéis de bacalhau
enrolados pelas comadres, pastelão (espécie de omolete), verde (vinho) branco e
tinto a gosto (alguém contou meia dúzia de garrafas despejadas).
O anfitrião, homem afável, conversador, visual de
baterista de banda de rock pesado com rabinho de cavalo e tudo, tratou-nos bem
e terá gostado da nossa companhia. Se calhar por isso é que quando se lhe pediu
um chá para “compor” o organismo, ele perguntou:
- É para compor? Então vão beber um chá especial,
ofereço eu.
A cor era parecida com o chá de tília e carqueja
misturados; os ingredientes é que derivavam para aguardente caseira envelhecida
e embebendo uma cereja de Resende.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Diário de Caminhada - ETAPA XI: Oliveira (Mesão Frio) - Loivos do Monte (Amarante)
“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
Ver track AQUI
Etapa XI: Oliveira - Loivos do Monte
20 de Outubro de 2013, domingo
Depois de uma repousante noite, entrecortada por uma trovoada cerca das 05.40 h, a manhã começou às 06:30, com um apetitoso pequeno almoço no hotel. Reunidas "armas e bagagens" nas viaturas de transporte, regressamos a Oliveiras para deixar o pessoal e largar as viaturas no ponto de destino.
Reiniciámos o Caminho às 08:20 na igreja de Oliveira, logo em modo subida, em direção a Portela e depois Nostim, sempre com o vale onde corre a ribeira de Seromenha, lado a lado com a estrada. A manhâ estava húmida, com uma chuva certinha que teimava em acompanhar-nos. Ao longe, os bancos de nevoeiro entre os vinhedos permitia-nos fotos fantásticas!
A chuvinha, ia dando lugar aos primeiros raios de sol, e logo ali o arco iris começou a dominar a paisagem, ao ponto de se duplicarem! A seguir a Nostim encontramos uma igreja pequenina e um singelo cruzamento, com uma placa que indicava Ponte Cavalar.... querem lá ver que temos um ponte feita de cavalos??? :-)
Em boa descendente, entramos num caminho lajado de xisto, escorregadio quanto baste , mas bonito de percorrer. Lá embaixo encontramos a ponte, antiquíssima no seu traço, com um arco perfeito, coberto de heras que permitia uma moldura fantástica. Muito bonito.
Escondida pelo meio de um figueira, um antigo marco dita a separação de 3 concelhos: Sedielos para a direita, atrás de nós a Régua e para a esquerda, nosso destino Mesão Frio. A verdade é que não saberia nada disto, se não tivesse chegado o José, outro viticultor duriense, que se chegou á conversa, da sua modesta casa ali paredes meias com a ponte. Em discurso de quem gosta de falar, lá foi contando a sua vida enquanto nos mostrava a modesta adega.
A pendente agora era de subida, sempre por alcatrão, com destino a Mártir, uma aldeia à meia encosta entre os vinhedos da margem direita do Douro. A chuva ia dando um ar da sua graça, sempre com os bancos de nevoeiro a esconderem paisagens fantásticas, aqui e ali entrecobertas pelos raios de sol da manhã.
A pendente agora era de subida, sempre por alcatrão, com destino a Mártir, uma aldeia à meia encosta entre os vinhedos da margem direita do Douro. A chuva ia dando um ar da sua graça, sempre com os bancos de nevoeiro a esconderem paisagens fantásticas, aqui e ali entrecobertas pelos raios de sol da manhã.
Sempre pela mesma cota de nível, a meia altura fazia-se a aproximação a Mesão Frio. Fazendo jus ao nome, o frio e a humidade da manhã ia-nos "entrando nos ossos", pelo que uma garrafinha de jeropiga miraculosamente surgida, deu-nos algum alento. Depois da localidade de Estrada e Quinta da Boa Vista, entramos em Mesão Frio pelas 11:00,mesmo a tempo de um reforço do pequeno almoço.
Instalados na praça central, fomos criando alguma curiosidade nos presentes, pois nao será muito habitual ver um grupo de caminheiros, fazer grandes petiscadas por ali. Recuperadas energias, devidamente acompanhadas por uma boa dose de cafeína, regressamos ao Caminho já perto das 11:45 h.
O reinicio do Caminho, marca neste ponto o abandono do Douro e das suas castas generosas, virando-nos já para a rota do Vinho Verde e para a bacia do Tâmega. A partir daqui, à cota de 260 m incia-se a maior subida de todo o Caminho de Torres, que culmina com a chegada ao ponto mais alto desta rota, a 970 m de altitude, com o Marão ali mesmo ao lado.
Começamos com uma subida recentemente alcatroda, mas com zonas de inclinação de perto de 20%, passando pelas localidades de Anquião, Portela e Graça. Enquanto subiamos, iamos vendo lá em baixo o Douro a ficar para trás e o imenso Marão a dominar a paisagem bem na nossa frente.
Sempre em pendente marcada, aproximamo-nos de Gestaçô, onde um oportuno café permitiu-nos "matar" a sede com um par de minis, porque subir, subir, subir... faz sede! Eram 13:30, estavamos a 600m de altitude e ainda faltavam alguns kms. Mas a paisagem começava a mudar, com o surgimento das primeiras vinhas em latada e alguns espigueiros.
Depois do Fojo e Águas Mortas, os últimos algomerados de casas a cerca de 800 m, entramos nos caminhos de terra batida, rumo ao cume, onde a 970 m os aerogeradores dominam a paisagem. Apesar do vento, do frio e da humidade, a paisagem era fantástica.
Em modo descendente fomos-nos aproximando de Loivos do Monte o local onde estava previsto terminarmos mais esta etapa. Chegamos lá cerca das 15:30, registando aquilo que sabiamos ser o dia mais dificil em termos de caminhada: 22 km e perto de 900 D+, mesmo assim realizados a 4,1 km/h. Nada mau.
Seguiu-se mais um lauto almoço de grãozada com bacalhau e ovo, que fez as delicias dos presentes, pois àquela hora, o corpinho já pedia sustento. Na hora do café tivemos ainda oportunidade de conhecer melhor as gentes locais, com uma cachopa de pouco mais de 30 anos a destacar-se, por estar em plena conversa com os demais e a... cozer sapatos à mão de uma forma frenética. Um parco ganha pão de 50 centimos,cada 5 pares cozidos... à mão!
Próxima etapa: conquista da ponte de S. Gonçalo de Amarante
Instalados na praça central, fomos criando alguma curiosidade nos presentes, pois nao será muito habitual ver um grupo de caminheiros, fazer grandes petiscadas por ali. Recuperadas energias, devidamente acompanhadas por uma boa dose de cafeína, regressamos ao Caminho já perto das 11:45 h.
O reinicio do Caminho, marca neste ponto o abandono do Douro e das suas castas generosas, virando-nos já para a rota do Vinho Verde e para a bacia do Tâmega. A partir daqui, à cota de 260 m incia-se a maior subida de todo o Caminho de Torres, que culmina com a chegada ao ponto mais alto desta rota, a 970 m de altitude, com o Marão ali mesmo ao lado.
Começamos com uma subida recentemente alcatroda, mas com zonas de inclinação de perto de 20%, passando pelas localidades de Anquião, Portela e Graça. Enquanto subiamos, iamos vendo lá em baixo o Douro a ficar para trás e o imenso Marão a dominar a paisagem bem na nossa frente.
Sempre em pendente marcada, aproximamo-nos de Gestaçô, onde um oportuno café permitiu-nos "matar" a sede com um par de minis, porque subir, subir, subir... faz sede! Eram 13:30, estavamos a 600m de altitude e ainda faltavam alguns kms. Mas a paisagem começava a mudar, com o surgimento das primeiras vinhas em latada e alguns espigueiros.
Depois do Fojo e Águas Mortas, os últimos algomerados de casas a cerca de 800 m, entramos nos caminhos de terra batida, rumo ao cume, onde a 970 m os aerogeradores dominam a paisagem. Apesar do vento, do frio e da humidade, a paisagem era fantástica.
Em modo descendente fomos-nos aproximando de Loivos do Monte o local onde estava previsto terminarmos mais esta etapa. Chegamos lá cerca das 15:30, registando aquilo que sabiamos ser o dia mais dificil em termos de caminhada: 22 km e perto de 900 D+, mesmo assim realizados a 4,1 km/h. Nada mau.
Seguiu-se mais um lauto almoço de grãozada com bacalhau e ovo, que fez as delicias dos presentes, pois àquela hora, o corpinho já pedia sustento. Na hora do café tivemos ainda oportunidade de conhecer melhor as gentes locais, com uma cachopa de pouco mais de 30 anos a destacar-se, por estar em plena conversa com os demais e a... cozer sapatos à mão de uma forma frenética. Um parco ganha pão de 50 centimos,cada 5 pares cozidos... à mão!
Próxima etapa: conquista da ponte de S. Gonçalo de Amarante
Texto e fotos de Fernando Micaelo
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