terça-feira, 9 de julho de 2013

Diário de Caminhada - ETAPA VI: Vila Cortês do Mondego - Trancoso

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa VI: Vila Cortês do Mondego - Trancoso
29 de Junho de 2013, sábado

Caminhantes: Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Inserme, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, Sãozita Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade.


Sinopse:
Inicio em Vila Cortês - 06:25
Distância percorrida: 26.6 km
Tempo total de caminhada: 7:20 horas
Tempo a andar: 6:00 horas
Tempo parado: 1:20 horas
Velocidade média: 4.4 km/h
Altitude mínima: 419 metros
Altitude máxima: 889 metros (Torre de Menagem de Trancoso)
Subida acumulada: 658 metros
Descida acumulada: 263 metros

Povoados e locais de referência ao longo do percurso:
Porto da Carne, Vila Cortês do Mondego, Ponte do Ladrão, Aldeia Rica, Baraçal, Minhocal, Prado, Freches, Alto de S. Marcos, Trancoso.

Acumulado:
Caminho: 163,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego.
Distritos: Castelo Branco, Guarda.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso 

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)


A cidade de João “Amato Lusitano” Rodrigues dormia ainda por volta da quinta hora quando nos fizemos ao caminho, perdão, à estrada, apontando à Gardunha e mais além. Em táctica que ganha não se mexe: 3 viaturas para o transporte até ao ponto de partida, depois, uma delas, conduzida pela lesionada Piedade, acompanha no apoio ao longo de todo o percurso. As outras duas haviam de passar a manhã em Porto da Carne, ali mesmo juntinho à ponte sobre o Mondego.


Hora oficial de início de caminhada: 06:25, em alcatrão, por dentro de Vila Cortês, e depois sempre a acompanhar o rio até à ponte do Ladrão. Daqui, rapidamente se chegou a Aldeia Rica. Nesta anexa de Açores salta à vista a devoção a Nossa Srª de Fátima tal o número de casas com azulejos alusivos à dita e aos 3 pastorinhos, pormenor que se repetiria na aldeia seguinte. Em Baraçal, já com 12 km percorridos e porque eram horas, aceitámos o apelo da sombra fresca do telheiro que cobria dois tanques de água corrente para a primeira exposição e degustação de farnéis. Enquanto davam ao dente, os nossos 3 urban sketchers - Paula, Micaelo e Matos - não desaproveitaram para fazer mais uns rabiscos nos respectivos diários gráficos.


Ainda em Baraçal não deixou de impressionar o cruzamento onde as autoridades rodoviárias, seguramente preocupadas com os caminhantes, entenderam pregar ao chão não menos do que 20 placas de direcção. Indiferentes a tal desvelo, optámos por continuar a confiar nas orientações do GPS do nosso camarada Xquim Branco e prosseguimos para o Minhocal.


Os campos eram dominados por extensas áreas não cultivadas, intercaladas por pequenos campos de cereal e, nas baixas, hortas dispersas bem cuidadas. A manhã avançava e com ela o calor habitual num dia de verão.



As aldeias de Prado e de Freches surgiram-nos enquadradas pela serra que era preciso conquistar para alcançar Trancoso. À passagem por Freches quisemos saber como se chamava a linha de água que percorre a aldeia. "Rbêra", respondeu a autóctone a caminho da horta. Obviamente! Dahhh!!! Respirámos fundo e lançámo-nos determinados à montanha: foram cerca de 7 metros vezes mil de trilho por vezes íngreme que exigiram alguma concentração e água fresca. Valeu-nos, ainda assim, a sombra quente do pinhal. O ânimo renasceu no Alto de S. Marcos, a 850 metros de altitude, local onde foi erigida capela e monumento evocativo da batalha de Trancoso. Terá sido ali e nas imediações – entretanto declarado monumento nacional - que as tropas portuguesas infligiram uma importante e pesada derrota aos castelhanos quando estes regressavam do ataque e saque a Viseu, corria o ano de 1385. Apurou-se que, das muitas escaramuças que nesta época ocorreram entre os reinos de Portugal e Castela, esta batalha terá sido, depois de Aljubarrota, uma das mais decisivas no processo de consolidação da independência nacional face aos interesses hegemónicos de Castela.



Era fim de semana de feira medieval na mui nobre vila de Trancoso, hoje cidade. O pretexto era a celebração das bodas reais entre el rei D. Dinis, o Lavrador, e D. Isabel “são rosas senhor” de Aragão que aqui organizaram banquete, na sua viagem, já unidos pelo santo sacramento do matrimónio, desde as terras aragonesas. Juntámo-nos às festividades e também nós nos banqueteámos. As iguarias eram muitas e variadas, com destaque para o néctar vinícola de superior qualidade apresentado pelo Fernando Micaelo.



O programa incluía muita música de rua, jogos, danças, torneios de armas e, claro, a encenação do esposamento e bodas dos monarcas pombinhos. As ruas da zona histórica estavam pejadas de tendas e animadas com grupos de bombos e gaitas de foles e inúmeros figurantes indumentados com a moda medieval, tendo nós tido o privilégio de contactar directamente com algumas altas entidades do clero, da nobreza, mas também do povo.

Toda esta encenação suscitou a reflexão sobre este movimento, mais ou menos recente, seguido por inúmeras Câmaras Municipais de promoverem feiras e outros eventos à volta de elementos oferecidos pelo seu património histórico. Em princípio, estaremos perante uma acção absolutamente louvável, porquanto, idealmente, à volta de um recurso endógeno e estável, todos os outros recursos endógenos da área do município são valorizados e rentabilizados, sejam da esfera da gastronomia, da produção agrícola (e mesmo industrial), sejam da esfera ampla da cultura local (música, danças, artesanato, etc). No quadro da problemática do desenvolvimento local e, mais amplo, da animação do mundo rural, as virtualidades deste tipo de iniciativas são muitas se se tratar de um aproveitamento integrado desses recursos endógenos, por via da mobilização dos actores locais (no sentido de agentes de uma acção), que concertadamente contribuem quer para o reforço da sua matriz identitária, quer para a dinamização dos seus sectores produtivos. Já não o serão tanto se se tratar de uma mera folclorização, bastas vezes enviesadoras do rigor histórico. Condescende-se nas vantagens da contratação de actores (agora no sentido teatral) que ajudam à recriação mais "autêntica" da época que se pretende, desde que as suas encenações incluam, por exemplo, figurantes locais que podem ser alunos das escolas, oportunamente entronizados sobre o acontecimento em celebração e a época correspondente.

Em Trancoso, pudemos ver um pouco de tudo isto, só não sabemos se nas proporções adequadas. O grupo de profissionais já rotinado em feiras medievais ia fazendo o seu trabalho, através da animação permanente com música e malabarismos vários, exibindo algumas das  personagens mais marcantes da época, devidamente trajadas e caracterizadas: o clero estava representado pelo bispo e seu  séquito, a nobreza pelos cavaleiros (sem cavalo) ostentando armadura e espada comprida e acompanhados pelos aios, o povo, pelas lavadeiras andrajosas, malabaristas, comerciantes, domesticadores de serpentes, etc. As ruas e largos estavam pejadas de tendas oferecendo produtos antigos e modernos.







O património histórico de Trancoso é deveras considerável. A zona histórica localiza-se dentro do perímetro muralhado encimado por um imponente castelo, apresentava-se bem arranjada, os edifícios em geral relativamente bem conservados e respeitadores da traça original. No castelo foram recentemente acrescentados alguns elementos que pareceram bem enquadrados com a função primordial de facilitadores no acesso.

Para além da referência histórica concedida pelas bodas reais, dois outros elementos históricos se destacam: as trovas do Bandarra e o padre Costa de Trancoso. Na primeira metade do século XVI viveu em Trancoso um sapateiro, de seu nome Gonçalo Anes, e de alcunha o Bandarra, que teria dotes de profeta, tendo vertido em trovas o futuro de Portugal, o que lhe deve dar o direito a ostentar o ceptro de Nostradamus português. Para além de leituras manhosas das Escrituras que transformava em profecias, é-lhe atribuída a profecia do regresso do “Encoberto” que daria origem ao mito sebastiânico. Consta que se safou, por pouco, de ser grelhado na fogueira do Santo Ofício.

O Padre Francisco Costa foi pároco em Trancoso na segunda metade do século XV e ficou para a história não pelo seu fervor religioso mas pelo seu fervor procriador. Está tudo na sentença proferida em 1467 e constante dos Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço 7:

 “Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas publicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos.”
(Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres.)
“El-Rei D. João II. lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos dezassete dias do mês de Marco de 1487 e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papeis que formaram o processo.”

O perdão do nosso monarca mais esclarecido terá sido justificado com um argumento de peso: o contributo, valiosíssimo para a época, do Padre Francisco para o povoamento daquela região do reino de Portugal. Alguém fez notar que lamentavelmente se tratou de caso isolado, nunca mais foi repetido, pese embora a jurisprudência protectora.

A praça central da zona antiga de Trancoso acabaria por satisfazer todas as nossas necessidades durante toda a tarde e noite: interacção com antepassados medievais, sesta para alguns, urban sketching, reposição de líquidos (muitos) e de sólidos. À noite, a teatralização montada no castelo à volta da chegada da comitiva real, com a presença do rei Lavrador e da Belinha das rosas, em pessoa, não estava a convencer justificando retirada estratégica para a residencial D. Dinis. 
Amanhã, etapa VII, rumo à Ponte do Abade.






quinta-feira, 6 de junho de 2013

INSTANTÂNEOS - V


No extenso rol dos benefícios inerentes às caminhadas incluem-se, naturalmente, os que resultam das oportunidades de se fazer observação directa e atenta de determinados pequenos pormenores dos sítios por onde os passos nos conduzem.

Muito à conta do trabalho fotográfico que Carlos Matos tinha realizado com os portados quinhentistas na zona histórica de Castelo Branco, não lhe passaram despercebidos os que caracterizam muitas das casas da rua principal da aldeia de Faia (Guarda). Era evidente e notória a sua sapiência na arte de bem talhar o granito, levando-nos a apreciar e a valorizar as técnicas da cantaria e da construção dos lintéis à luz das condições dos artesãos da época, tecnologicamente rudimentares.

Mas o elemento distintivo, ensinava ele a Zé Manel e Inserme, mostrando o pormenor num portado de uma belíssima casa em granito a atirar para o palacete, é que as arestas são … chanfradas.

Já ele tinha saltado para a chamada de atenção dos rendilhados manuelinos nas janelas quando Zé Manel o interrompe:

- Isto é que é chanfrado? Então que dizer que não me devo sentir insultado quando me chamam chanfrado! O chanfrado até fica bem, é muito bonito.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

INSTANTÂNEOS - IV



Era uma verdadeira manhã de primavera: fresquinha, solarenga, um rouxinol cantava – e como o rouxinol ninguém canta -, a caminhada tinha começado há minutos. A conversa ia animada à conta de variados temas banais e filosoficamente despretensiosos.  Sãozita acabaria por merecer a melhor atenção quando anunciou que quando era gaiatita, tinha sido vendida pelo seu irmão.

Parece que um tal “bicha” (leia-se “bitcha”), outro gaiato lá da aldeia se embeiçou pela pequena Conceição. A sua estratégia de aproximação à mocita passava por conquistar  a cumplicidade do mano mais velho, a quem ensinou  onde estava um ninho de cotovia, oferecia marouva que roubava, até presenteou com meia dúzia de berlindes. O cachopito, porém, não atribuía o mesmo valor aquele tipo de mimos. Precocemente imbuído do espírito capitalista, ele viu ali uma oportunidade de negócio e, inspirado pela visão do gelado de groselha que poderia comprar com o dinheiro, tratou de vender a irmã ao tal “bicha” por … vinte cinco tostões.

Confrontado, e após alguma insistência, Xquim Branco lá reconheceu que a sua esposa vale bem mais.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Diário de caminhada: Etapa IV, Belmonte – Fernão Joanes

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa IV: Belmonte – Fernão Joanes
13 de Abril de 2013, sábado

 As etapas IV e V marcam uma mudança de estratégia: atacar duas em vez de apenas uma. Se até aqui se entendeu mais adequado vir dormir a casa no final da etapa, deixou de o ser à medida que avançamos no terreno. De ora em diante, havemos de concluir 2 etapas em dois dias consecutivos, pernoitando por lá. Desta vez, foi na Guarda, Residencial Filipe, em pleno centro histórico da cidade mais alta, condições aceitáveis e simpatia bastante.
Caminhantes: Carlos Matos, Clementina – que às vezes também acode por Gabriel -, Fernando Gaspar, Guida, Inserme, Jaime, Joaquim Branco, Luisa, Paula, Sãozita, Zé Manel. No apoio, Piedade.

Sinopse:
Distância percorrida: 24,7 km
Tempo total de caminhada: 6:53 horas
Tempo a andar: 5:30 horas
Tempo parado: 1:23 horas
Velocidade média: 4,5 km/h
Altitude máxima: 996 metros
Povoados no percurso: Belmonte, Centum Cellas, Valhelhas, Mosteiro do Bom Jesus, Famalicão da Serra, Santuário da Senhora do Soito, Fernão Joanes.

Fonte: GPS do Joaquim Branco
(ver track aqui)

Recolhidos os 11 magníficos, mais uma, nos respectivos domicílios, viagem tranquila até Belmonte. A “mais uma” acode por Piedade e partilha o destino com o nosso cabo mor Gaspar e, não podendo caminhar devido a lesão, fez o favor de se disponibilizar para nos assegurar apoio. O castelo de Belmonte, testemunha milenar de muitas batalhas e de maior número de casamentos (estima-se) viu-nos partir alegres e contentes, por volta das 7 da manhã.




Com o argumento de que é nosso dever é nossa obrigação aproveitar o caminho para conhecermos mais e melhor do património e da cultura deste nosso país, Xquim Branco programou o GPS para nos orientar até Centum Cellas num pequeno desvio em relação à rota “normal” em direcção a Valhelhas. 


Sem ninguém o convidar, ter-se-á alojado um reles vírus no programa que nos obrigou a saltar um murete não previsto, mas acabámos mesmo por conquistar Centum Cellas. A placa informativa junto ao monumento ensinava que os arqueólogos ainda não chegaram definitivamente à origem e função do monumento. A julgar pelo espaço escavado acreditamos que eles se esforçaram na empreitada. Fazemos votos que haja financiamento para que eles continuem esse esforço, até para acabar de vez com as especulações interpretativas do monumento como a da idosa numa excursão que, contou a companheira Paula, manifestou a sua aprovação à beleza arquitetónica lamentando, todavia: “é bonito sim senhora, mas foi pena não o acabarem.”


O caminho foi retomado, agora já com Belmonte nas 6 horas, ladeados por extensas baixas verdejantes de primavera. Numa das curvas do caminho eis que se junta uma agradável companhia: o Zêzere que fazia ouvir a sua cantiga, satisfeito com a farturinha de água. Paragem em Valhelhas para a bucha à moda de dou o meu recebo de todos. Uns escolheram água do fontanário que a debitava bem fresca, outros preferiram chá quentinho ou sumo, mas também houve quem se tivesse atirado às mines das nove da manhã. Quanto a sólidos, foi um pequeno almoço de mesa farta.









O caminho inflectiu agora para norte em direcção a Famalicão da Serra através de um vale verdejante ladeado por imponentes cumes. O povo saiu à rua, melhor, ao campo, atarefando-se no plantio da batata, aproveitando o primeiro verdadeiro dia de sol em meses. Que lindo dia para plantar batatas! E nós a caminhar vale acima… É de salientar o espírito alegre e hospitaleiro das gentes de Valhelhas que nos cumprimentava rejeitando amavelmente as nossas ofertas de ajuda.



Breve paragem junto às ruínas do mosteiro do Bom Jesus, edifício de alguma imponência que terá tido os seus tempos de glória. Xquim Branco ia informando:
-  Estamos a 530 metros de altitude e temos de chegar aos mil.


10 Km à frente havíamos de saber que, afinal, só atingimos os 996 metros de altitude máxima. À entrada em Famalicão da Serra alguém logo reparou no cartaz que anunciava festa neste dia. A praça central da aldeia já tinha o palco montado mas, festa, só à noite. Inserme aproveitou para se exibir com o realejo e tocou duas modas, bailadas pelas manas Guida e Luísa. Os autóctones apreciaram e, consta, até bateram palmas à actuação. Um dos que veio indagar de onde vínhamos e para onde íamos, calha a ser sogro de um salgueireiro como o Matos e, naturalmente, fez questão de celebrar a constatação bastas vezes constatada de que o mundo é pequeno, com um copito na sua adega. O vinho não se comparava, convenhamos, a um Cartuxa, mas a intenção e hospitalidade aproximava-se (um bocadinho) à de um esquimó. E nós, humildes e modestos turigrinos, apreciamos bastante estas situações e estes gestos.




Ainda em Famalicão da Serra, justifica-se a referência à escultura em castanho “plantada” num dos cantos da praça. Com cerca de 5 metros de altura, está talhada um pouco à laia de tótem índio exibindo, para além de várias carantonhas, o perfil de uma mulher completa, quer dizer, eram facilmente identificáveis a cara, os seios, o umbigo, a boca do corpo e as pernas. Os autóctones não tinham muita informação sobre o real significado da peça de arte, porque se trata de facto de uma peça artística, mas um deles foi chamando a atenção para os pormenores mais “interessantes”. Hesitou na altura de mencionar a “boca do corpo”, intimidado com a presença da Clementina, preconceito rapidamente destruído pela própria.


O plano era cada vez mais inclinado, e o esforço de contrariar teimosamente a gravidade manifestava-se ruidosamente na respiração ofegante, aplanada a espaços com as brevíssimas paragens que eram aproveitadas para nos virarmos a sul e contemplar o cenário composto pelo vale que íamos vencendo, enquadrado pelo fundo majestoso do maciço central da Estrela com os pontos mais altos a reluzirem na alvura da neve.





A cumeada foi finalmente transposta. Ali se mudava da bacia hidrográfica do Tejo para a do Mondego. Os recortes dos vales deixavam adivinhar o percurso do maior rio português que nos seus primeiros 20 km se encaminha em direcção a Espanha mas que depois parece arrepender-se e inflecte para o nosso litoral à procura de Coimbra e da Figueira da Foz. O caminho leva-nos a atingir a altitude de 996 metros, e é já a descer que encontramos o santuário da Senhora do Soito, nas imediações da aldeia de Fernão Joanes.

Era hora de almoço e precisávamos de um local para, mais uma vez, oferecer o nosso e comer de todos. Jaime avançou e não demorou a obter autorização para a ocupação da pequena e abrigada esplanada do único café da aldeia. O dono calhava ser o Presidente da Junta, Daniel de Jesus Vendeiro de seu nome, homem que para além de nos brindar com a sua hospitalidade e simpatia presenteando-nos com meia dúzia de broas de milho, nos mostrou a sua faceta de autarca dinâmico. Ficámos a saber que foi ele o pioneiro na recriação da transumância, ideia que foi depois apropriada, segundo ele, por Alpedrinha que a associa ao nosso bem conhecido Festival dos Chocalhos . Fernão Joanes, publicitou o Sr. Presidente da Junta, é uma aldeia pequena mas muito dinâmica, rica em eventos culturais e desportivos, possuindo mesmo uma pista de motocross que integra o circuito nacional.



 Cumprida a etapa, accionado o sistema de apoio logístico facilitado pela nossa Piedade, transportámo-nos para a forte, farta, fria, fiel e formosa cidade da Guarda, onde a residencial Filipe nos vendeu, em condições aceitáveis, repouso, duche e pequeno almoço. O final da tarde foi dedicado a pequeno passeio pela zona histórica, com a inevitável visita à Sé, onde decorria a celebração da Eucaristia presidida por Sua Excelência Reverendíssima D. Manuel Felício, Bispo da Guarda. Antes porém, Inserme e Zé Manel não desaproveitaram o ensejo de se juntarem ao numeroso grupo de sacerdotes e fiéis que percorriam algumas ruas cantando cânticos de louvor ao Senhor. Junto à Sé, o grupo ofereceu um miniconcerto que incluiu uma espécie de bailado em que todos davam as mãos fazendo uma grande roda. Os dois ex seminaristas que foram na juventude, viveram o momento com alguma nostalgia.




Diário de caminhada: Etapa V, Fernão Joanes – Vila Cortês do Mondego


“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,
Etapa V: Fernão Joanes – Vila Cortês do Mondego
14 de Abril de 2013, domingo

Sinopse:
Distância percorrida: 20,8 km
Tempo total de caminhada: 6:15 horas
Tempo em movimento: 4:49 horas
Tempo parado: 1:26 horas
Velocidade média: 4,4 km/h
Sítios e povoados no percurso: Fernão Joanes, Meios, Trinta, Barragem do Caldeirão, Miradouro do Mocho Real, Faia, Aldeia Viçosa.

Fonte: GPS do Joaquim Branco
(ver track aqui)

O caminho é retomado em Fernão Joanes por volta das 08:30 de domingo, 14 do quatro. O corpo está recomposto e fresco como a primaveril manhã, disponível para aceitar mais umas horas de caminhada; o espírito, esse, reflectia-se nas animadas conversas.

Nos Meios, o povo ia-se juntando no pequeno adro da matriz para a missa das nove. À semelhança de tantas outras aldeias, só se viam a chegar para o serviço religioso figuras de perfil ligeiramente curvado e andar lento por via das artroses. À pergunta brincalhona do Zé Manel: “então o caminho para Santiago de Compostela é por aqui?” a informação veio honesta: “não! olhe que têm de ir à Guarda”.

A freguesia de Trinta espraia-se por uma extensa encosta e terá sido uma aldeia próspera com inúmeras unidades na área do têxtil, designadamente, fiação de lãs e produção de xailes, cobertores, mantas. O estado em que se encontravam alguns edifícios indiciavam que esses tempos de prosperidade já pertencem ao passado que terá tido início, eventualmente, em 1896 quando a aldeia de Trinta teve o privilégio de ser uma das primeiras terras do país a dispor de energia eléctrica.


O percurso fazia-se agora com todos os santos a ajudar já a dar vistas para a albufeira do Caldeirão. Alguns imprevistos na rota programada levou-nos por trilhos menos frequentados, retomada na estrada que conduz ao paredão da barragem hidroeléctrica do Caldeirão, construída numa imponente garganta da ribeira homónima. Eram horas de reforço alimentar e os barrocos nas imediações do miradouro do mocho real emprestaram um local apropriado.





O caminho percorria agora uma zona onde pontificavam numerosas quintas ocupadas por gente com feições nórdicas, pele clara e cabelos loiros, provavelmente oriundos de territórios onde o sol e as montanhas não devem abundar, o que poderá explicar o seu fascínio por esta e por este clima. As casas pareciam bem arranjadas, arquitectura de bom gosto, todas com piscinas, campos aramados que guardavam rebanhos de ovelhas e cabras. Surpresa – ou talvez não – tivemos quando, junto a uma destas quintas, encarámos com uma estrutura de metal com cerca de 4 metros de altura, exibindo uma figura estilizada que alguém mais observador avançou que aquilo lhe sugeria a figura de um anjo. Avaliação acertada, já que na aldeia de Faia foi confirmado que efectivamente naquele local se realizava todos os anos, no início de Agosto, um grande festival de música – e não só – apropriadamente conhecido como Festival do Anjo – se se preferir, “angel art festival ao qual acorrem milhares de pessoas, sobretudo, alemães e holandeses.

A rota programada para Faia teve de sofrer um desvio que implicou uma volta atrás. Junto a um enorme tanque de água onde os estrangeiros ocupantes gravaram que “ Think like a mountain “ o caminho virava à direita descendo para um pontão sobre a linha de água que atravessa a aldeia mas estava barrado por um portão metálico. O autóctone que nos refrescou a goela numa simpática tasquinha de Faia confirmaria que se trata de uma apropriação indevida de um caminho público. A extensa rua principal de Faia apresentava sinais claros de que em tempos terá sido uma povoação com alguma prosperidade, sobretudo devido às numerosas casas em granito com portados quinhentistas, muitos deles conjugando com janelas que exibiam belos rendilhados manuelinos.


O Mondego foi transposto na velha ponte romana junto à Quinta da Ponte, rumo a Aldeia Viçosa. No batorel de granito da taberna junto à matriz, alguns autóctones juntaram-se-nos, curiosos. O cepticismo e ar desconfiado foi deveras evidente nalguns deles quando lhes assegurámos que tínhamos partido de Belmonte no dia anterior, de estupefacção mesmo, quando os informámos do nosso desiderato de caminhar até Santiago de Compostela.

Seis horas depois da partida, eis-nos chegados ao cruzamento para Vila Cortês do Mondego e Porto da Carne, 14:45, fim de etapa. Será aqui, exactamente aqui, que se iniciará a próxima.