terça-feira, 17 de Junho de 2014

Diário de Caminhada - Etapa XIX: Rubiães - Tui

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XIX: Rubiães - Tui
13 de Abril de 2014, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Rubiães: 07:50 horas
Chegada a Tui: 15:40 horas
Distância percorrida: 20 km
Tempo total de caminhada: 06:50 horas
Tempo parado: 01:43 horas
Velocidade média: 4,3 Km/h


Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Ponte romana sobre o Coura (Rubiães), Igreja de S. Bento, Gontomil, Fontoura, Paços, ponte romana da Pedreira, Arão, Praça-Forte de Valença, Ponte Internacional de Valença-Tui, embarcadouro de Tui, Catedral de Tui.


Acumulado:
Caminho: 439,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva, Lima/Labruja, Coura, Minho.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga; Viana do Castelo.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde, Ponte de Lima, Paredes de Coura, Valença. Galiza.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track AQUI)

Despedida do albergue de Rubiães às 07:50, em direcção à ponte romana sobre o rio Coura. Daqui, em bom ritmo até S. Bento. Continua-se por entre verdes prados, bosques frondosos e riachos cantantes. Cruzamos Gontomil, Fontoura, Paços, a romana ponte pedreira, Arão, rumo a Valença do Minho. 
É visível e notório o aumento da densidade de peregrinos. Para além das nossas já conhecidas alemã, mexicana e sempre sorridentes jovens de Resende, foi estabelecido contacto com muitos outros. Destaque para o casal de americanos da Virgínia, que iniciaram no Porto, o italiano, figura esguia e já bem entradote que há pouco mais de um mês partira de Santarém, e, uma especial referência às duas gaulesas que na nossa rectaguarda, acharam o que tinha sido perdido pelo Inserme. Num pedaço do troço em bosque, saltaram da bolsinha presa ao cinto, sem ele lhes ter dado autorização, o telemóvel, uma carteirinha com o cartão de cidadão, cartão multibanco e 2 notas de 20.  Dando-se conta da falta, logo emergiu o espírito solidário e alguns peregrinos acompanharam-no a refazer o caminho em sentido contrário, olhos postos no chão, atentos. Foi breve, muito breve, a demanda, pois já as duas simpáticas senhoras gaulesas vinham a descer agitando os braços na ponta dos quais estavam seguros um telemóvel e a carteirinha. Inserme ainda se ofereceu, en français, bien sur,  para lhes pagar um verdinho tinto em malga branca. Elas aceitaram apenas os agradecimentos.


Valença do Minho ocupa uma posição estratégica. Basta analisar o mapa do Minho e da Galiza para se perceber que teria de se ali a passagem entre uma e outra região. A ponte internacional foi inaugurada em 1886, dando cabo do negócio dos barqueiros que asseguravam a travessia do rio Minho, mas abrindo um oceano de oportunidades aos comerciantes de atoalhados. Naturalmente, o caminho tem passagem obrigatória pelo local do antig0 embarcadouro, utilizado durante séculos pelos peregrinos vindos de sul.
Antes porém, fizeram estes peregrinos questão de subir à cidadela abaluartada de Valença, o maior atractivo turístico da cidade, com entrada mais ou menos triunfal pela Porta da Coroada. Na sua configuração actual, muito bem conservada, abone-se, esta praça-forte terá sido iniciada sobre a estrutura primitiva medieval, na época da Restauração de 1640, contribuindo, também ela, para travar a construção da Ibéria. Não terá sido suficiente, todavia, reza a história, para travar o general Soult comandante da segunda invasão napoleónica.

A zona histórica da cidade, sobretudo no interior da segunda fortaleza fervilha de actividade comercial, seguramente sustentada pela procura galega, com as estreitas ruas pejadas de pequenas lojas atafulhadas sobretudo de roupas e os tão apreciados atoalhados pelos nossos irmãos ibéricos. Saudação discreta a S. Teotónio, junto à capela do Bom Jesus, o primeiro português a ser canonizado pela Igreja Católica Apostólica Romana. Numa leitura mais ou menos política, foi avançada a tese, obviamente espontânea e não fundamentada, de que terá dado jeito ao nosso primeiro Afonso que o seu amigo e aliado Teotónio tenha sido canonizado logo em 1163, um ano após a sua morte. Conseguimos imaginá-lo, inchado de orgulho, a exibir tal troféu à progenitora Teresa e seus amigos galegos, prova maior da sua imparável influência no Vaticano, rumo à consolidação da independência lusa.



Lá em baixo, o rio Minho, e, à distância de um tiro de canhão, a mui nobre e antiga vila de Tui. A ponte é atravessada por passadiço lateral, facilitando a admiração do vale do rio minho que divide as terras galegas e portuguesas.

A etapa termina após ligeira subida por algumas ruas estreitas na bem conservada zona histórica de Tui, à porta da catedral de Tui. Breve visita à mesma para apreciação do trabalhado pórtico principal, e interior onde, entre muitos motivos de deleite, sobressai o vistoso órgão de tubos. Que som celestial dele se extrairá!



Faltam 115 km. 

segunda-feira, 16 de Junho de 2014

Diário de Caminhada - ETAPA XVIII: Ponte de Lima - Rubiães


“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XVIII: Ponte de Lima- Rubiães
12 de Abril de 2014, sábado

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Ponte de Lima: 07:30 horas
Chegada a Rubiães: 13:35 horas
Distância percorrida: 18 km
Tempo total de caminhada: 06:00 horas
Tempo parado: 01:16 horas
Velocidade média: 4,2 Km/h


Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Ponte de Lima, Ponte de Giães (sobre o rio Labruja), Ermida da Senhora das Neves, Fonte das 3 bicas, serra da Labruja, Cruz dos Franceses, Portela da Labruja, Igreja de S. Pedro de Rubiães .


Acumulado:
Caminho: 419,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva, Lima/Labruja, Coura.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga; Viana do Castelo.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde, Ponte de Lima, Paredes de Coura.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track AQUI)

O dia amanheceu fresquinho mas solarengo. O Lima corria um pouco menos impetuoso do que no final de Janeiro, quando concluímos a etapa nº 17, permitindo a dois pescadores a navegação tranquila, supostamente, foi aventado, à cata de lampreia. 

Confirmado de um lado e de outro, conferiram-se os arcos da velhinha ponte romano-gótica em número de 22. Passagem obrigatória pelo albergue, viragem à direita em direcção ao trabalhado portão da quinta do Sabadão. Logo se começou a pressentir que deixámos de estar sós a fazer o Caminho. Ponte de Lima fica na confluência do caminho central e do caminho interior na variante Camino Torres (o “nosso” caminho desde Trancoso), bem como é ponto de partida para inúmeros peregrinos. Haveríamos de estabelecer contacto com um casal de jovens italianos, uma mexicana e outra alemã ambas na casa dos 50, um casal de americanos, duas francesas, mais um italiano, mais um alemão, um venezuelano, fora os portugueses com destaque para as companheiras de albergue, as simpáticas e sorridentes jovens Sofia e Anabela de Resende.


O rio Labruja, afluente do Lima, acompanha-nos durante alguns quilómetros, com destino oposto ao nosso, oferecendo a sua partitura musical e alguns recantos e cascatas agradáveis à vista e às máquinas fotográficas.



Em Codeçal, junto à ermida da Senhora das Neves, um café, o último até Rubiães. Solicitada a devida autorização, foram 3 mesas encostadas à parede ensombrada da ermida sobre as quais se estenderam os farnéis. Para registo histórico, eis o cardápio das etapas XVIII e XIX:

Febras palitadas com picles, salada de polvo, omolete de farinheira, chouriça, morcela, bolinhas de carne com farinheira, ovos verdes, pastéis de bacalhau, pastéis de legumes, rissóis de camarão, vigaristas, bolacha do deserto, borrachões, bolinhos de côco, uvas, laranjas maçãs, ananaz
  
Na pequena esplanada do café posavam ao sol duas senhoras que caminhavam juntas, uma mexicana a outra alemã. À vista do variado farnel, quiseram saber se tínhamos cozinhado tudo aquilo antes de partir. Os peregrinos fizeram juz à hospitalidade e simpatia portuguesas e chamaram-nas a partilhar a degustação, e elas, não menos simpaticamente, aceitaram os ovos verdes, pastéis, borrachões e demais iguarias. Haveriam de pernoitar, como nós no albergue de Rubiães, e haveríamos de as encontrar por diversas vezes ao longo das duas etapas até Tui, ao ponto de numa das tasquinhas para reforço de verde tinto em malga branca, uma delas, se despedir: “adeus, até ao próximo café”.

O troço prossegue por entre verdes minhotos, prados viçosos, vinhas já a despontar, floresta frondosa de árvores muito empinadas, com vistas para a Matriz de Labruja e para o Mosteiro do Senhor do Socorro. 




Na fonte das 3 bicas, breve paragem para reposição cautelar de stock de líquidos, informados do que aí vinha: a subida da Labruja. Troço agradável, duro qb, quase a exasperar a Guida, justificando palavras de incentivo e até um empurrãozinho. Pausa na Cruz dos Franceses, uma espécie de ex-libris do Caminho, local que pretende assinalar uma escaramuça ocorrida no final da segunda invasão francesa, que o marechal Soult conduziu pelo norte. A coisa não lhe correu bem, como se sabe, tendo sido obrigado a fugir também pela Galiza e, terá sido ali quase no cimo da Labruja que alguns soldados napoleónicos em fuga foram tragicamente impedidos de regressar à Gália.






O local está pejado de pequenas pedras que milhares de peregrinos vão deixando, uns para expiar os seus pecados, outros apenas para assinalarem a sua passagem. O nosso Carlos Matos, veterano sabido e experiente, ia preparado com uma caneta apropriada, de tinta resistente à água, com a qual alguns peregrinos escreveram o seu nome nas pedrinhas.

A Portela da Labruja marca a passagem da bacia hidrográfica do Lima para a do Coura. A descida faz-se descontraída na expectativa da chegada breve a Rubiães. O mapa indicava a proximidade de Romarigães e da Casa Grande que o mestre Aquilino elegeu como cenário central da sua obra prima literária. A vontade de a visitar ficou desde logo gorada com a informação de que o edifício estaria em adiantado estado de degradação, não justificando o desvio. Que pena. Senhores autarcas de Paredes de Coura, shame on you! (perdoe-se-nos o british desabafo). No final da descida, na área de Agualonga, um empreendedor percebeu o filão oferecido pelo Caminho e montou uma tienda numa roulotte, onde reencontrámos o casal de jovens italianos.

Já se avista a Igreja de S. Pedro de Rubiães onde os nossos urban sketchers Paula, Matos e Micaelo haveriam de passar duas horas na contemplação e a passar ao caderno gráfico.

Nas imediações do albergue de Rubiães, vão surgindo placas anunciadoras e publicitárias de unidades de alojamento alternativas, sinal de que o Caminho mexe e justifica certos investimentos.

Finalmente, o albergue, adaptado de uma antiga escola primária. O senhor Presidente da Junta esperava-nos para nos registar no livro, nome, número da caderneta de peregrino, origem. Mais tarde, haveríamos de o espreitar, para constatar: a) a média diária do mês de Abril era de cerca de 30 peregrinos; b) a esmagadora maioria eram estrangeiros; c) destes, a maioria era oriunda da Europa, sobretudo do norte, mas também havia registos de gente de latitudes tão distantes como o Japão, a Venezuela ou o Brasil; d) somos os pioneiros oriundos de Castelo Branco.


Após o revigorante duche, a tarde foi gasta na troca de ideias sobre o país e o mundo. O jantar teve a leveza à vontade de cada um. A noite teve como único putativo motivo de reportagem o facto de Zé Manel ter tombado do leito quando se esticava para ver o video do Vitinho que estava a ser projectado no tecto.
Amanhã, conquistaremos Tui.


terça-feira, 8 de Abril de 2014

INSTANTÂNEOS - X

Como é habitual, o peregrino Carlos Matos acumula essa condição com repórter fotográfico e urban sketcher sempre que a circunstância o inspira, o que sucede amiúde. Enquanto uns tratavam do local de reforço alimentar correspondente ao período de almoço, e outros contavam os arcos da ponte sobre o Lima, ele sacou do seu caderno gráfico, do seu lápis de carvão e da sua caneta especial que pinta com qualquer coisa até com vinho tinto verde, e sentou-se a esboçar o quadro patrimonial junto à velha ponte, mesmo por baixo de uma bonita e florida camélia que por estas bandas é designada por japoneira.

Como é igualmente habitual, os seus companheiros peregrinos, brincalhões, insistem sempre em ajudar a compor o cenário depositando algumas moedas (às vezes até notas) no chão, para dar aquele ar moderno de artista de rua.

Dona Conceição, minhota convicta, cordão de ouro à volta do pescoço como pertence (parece que a Sharon Stone se andou recentemente a exibir em LA com uma réplica), 70 e alguns anos, viúva há mais de 20, paciente de artroses várias, prótese na perna direita, aproximou-se com a ajuda de uma muleta e veio postar-se ao lado do Matos, entre a necessidade de descanso e a curiosidade.

Ainda antes de deitar o olho aos rabiscos artísticos do Matos, reparou nas moedas aos seus pés e deixou escapar, espontânea (leia-se com entoação e sotaque minhoto carregado):
- oh! qui caralho, nasce dinheiro debaixo da japoneira!



Diário de Caminhada - ETAPA XVII: Goães - Ponte de Lima

Diário de Caminhada - ETAPA XVII: Goães – Ponte de Lima

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XVII: Goães – Ponte de Lima
26 de Janeiro de 2014, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Goães: 08:20 horas
Chegada a Ponte de Lima: 13:30 horas
Distância percorrida: 16,5 km
Tempo total de caminhada: 05:10 horas
Tempo parado: 01:00 horas
Velocidade média: 4,3 Km/h


Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Goães, Ponte Pedrinha (sobre o Neiva), Casas Novas, Queijada, Ponte de Lima.


Acumulado:
Caminho: 401,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva, Lima.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga; Viana do Castelo.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde, Ponte de Lima.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)


Toque de alvorada às sete. As tropas apresentam-se com o moral elevado. Está fresco mas não chove, a visibilidade é de mais de 10 quilómetros. Tudo arrumadinho, as chaves do albergue foram dissimuladas no sítio combinado, foto para memória futura, e ala vereda abaixo pela medieval ponte pedrinha sobre o rio Neiva. Logo ali se percebeu que o Minho, mascarado desde a Lixa, estava de volta. Finalmente, o Minho antigo, o Minho das fotografias: paisagem campestre, prados verdes, floresta frondosa, veredas estreitas, riachos de águas rápidas. A água brota por todo o lado, boicotando o caminho. Os peregrinos agradecem, é deste caminho de pedras desordenadas que eles gostam, é esta banda sonora composta pela água corrente e pelo vento sibilante que eles apreciam. Alegremente enlameiam as botas, dançam pelo caminho feito ribeira, saltitando sobre pedras e tufos de erva, cruzam “pomares” de choupos altos, muito empinados e alinhados.









Portugal está pejado de localidades com nomes curiosos, podendo incluir-se na lista “angulo 40”, assim mesmo em numeral, pertencente à freguesia de Goães. Passagem por Casas Novas, pequeno-almoço em Queijadas, com a mesa habitual (ver cardápio na etapa XVI). As setas amarelas guiaram-nos até Fornelos, onde houve lugar a reforço de malguinha de verde tinto e branco, logo após cruzarmos a A3 por baixo. A entrada em Ponte de Lima faz-se ao lado do campo de golfe. Saudação a D. Teresa, progenitora do nosso primeiro Afonso.
Fim de etapa junto à matriz, 13 horas.

Tempo para desfrutar, ainda que ao de leve, das belezas arquitectónicas de Ponte de Lima, a primeira vila portuguesa, com foral da nossa avó D. Teresa, nos idos de 1125. A vila abarrotava de gente concentrada na famosa ponte e imediações a mirar o rio, a apreciar as admiráveis esculturas em homenagem aos trabalhadores do campo e ao folclore, ou a tirar fotos agarrados aos cornos da vaca das cordas, enfim a admirar o rico património desta tão ilustre e antiga urbe. Neste fim de semana, acumulava a categoria de antiga com a de vila dos namorados: era dia de feira na Expolima, uma nova edição de qualquer coisa parecida com “Verde Noivos” dedicada ao negócio do santo sacramento do matrimónio, o que, parece, a nenhum peregrino interessou.




Almoço farto e bem regado com o inevitável verde, viagem tranquila rumo a sul até à cidade albicastrense, satisfeitos por mais uma agradável jornada. Na próxima, queremos conferir as águas do rio Minho em Valença.

Diário de Caminhada - ETAPA XVI: Braga - Goães

Diário de Caminhada - ETAPA XVI:  Braga - Goães

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XVI: Braga - Goães
25 de Janeiro de 2014, sábado
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Braga (Sé): 07:28 horas
Chegada a Goães (albergue): 13:38 horas
Distância percorrida: 19,5 km
Tempo total de caminhada: 06:10 horas
Tempo parado: 01:31 horas
Velocidade média: 4,5 Km/h

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Braga, Praceta de Santiago, Vila de Prado; Moure, Torre de Penegate, Portela das Cabras, Goães.

Acumulado:
Caminho: 384,7 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)

A nova estratégia de se alugar mini autocarro para o transporte, testada nas etapas anteriores, foi avaliada muito favoravelmente, pelo que se manteve: viagem desde Castelo Branco até Braga em 4 horas (incluindo paragens técnicas), sem percalços. Foto da praxe junto à Sé de Braga e tentativa frustrada de obter carimbo. Faltavam 5 minutos para bater a meia das 7, surgiu de dentro do milenar monumento um funcionário carregado de 2 corgalhos de chaves com as quais ia abrindo portas e portões. Instado ao registo do correspondente carimbo na nossa preciosa caderneta, recusou liminarmente, a raiar os maus modos, nada consentâneos com as suas funções, com a desculpa de que tinha de preparar o altar para a missa das oito menos um quarto. Um dia, há-de prestar contas a Santiago do seu mau humor para com estes peregrinos madrugadores e o santo certamente lhe atribuirá uma avaliação menos boa, acompanhada de várias recomendações que incluem a de que os altares para as missas das oito menos um quarto devem ficar minimamente preparados de véspera. Foi necessário recorrer ao licor de maçã-canela do Micaelo para recuperar o ânimo.







Primeiros passos a partir da Sé de Braga, às 07:30, seguindo as setas amarelas que começaram a surgir acompanhadas pelas placas de madeira indicativas da Via XIX, velhíssima estrada romana que ligava Braga a Astorga, através da Galiza. Ainda dentro da cidade dos arcebispos, saudação a Santiago na sua praceta, prosseguindo-se em malha urbana em direcção ao rio Cávado, nesta altura a exibir-se caudaloso. A travessia faz-se através duma imponente ponte filipina que terá sido construída sobre uma outra medieval e esta sobre a primitiva romana. Do outro lado, num pequeno jardim de Vila do Prado, e porque já eram horas, pequeno almoço.







Cardápio (igual para todas as refeições): ovos verdes, ovos com farinheira, pastéis de carne, trança de carne, rissóis de peixe, pastéis de bacalhau, febras palitadas e picles, paté de fiambre de perú, frango frito, panceta (toucinho espanhol), vigaristas, salada de polvo, lombo de porco assado (simples, com molho doce e fingido), bucho de morcela, chouriço, farinheira frita, feijões vermelhos salteados com cebola, empadas de galinha, bolacha do deserto, pão de várias qualidades e consistências, vinhos de várias cores, travos e proveniências, queijos de vários sabores e texturas, azeitonas de vária tonalidades e acidezes, bolos de vários sabores e paladares, fruta da época e de fora da época.

O caminho prossegue subjugado ao característico povoamento disperso do Minho por entre ruas e casas. Em Moure, paragem para verde (branco e tinto) em malguinha branca. Nesta povoação, nota especial para o enorme eucalipto seco que se mantém de pé, e que precisou de 10 peregrinos para ser abraçado.





O caminho vai agora em modo predominante de subida através de Portela das Cabras até à cota máxima que separa as bacias do Cávado e do Neiva, com passagem pela torre de Penegate, construída em 1132 sob o magestoso auspício do nosso rei Lavrador e marido da Santa – são rosas, senhor – Isabel.

Daí, foi um saltinho até Goães onde a escola primária foi transformada em albergue. O sítio é agradável, simpática e prestável a senhora minhota que nos entregou as chaves, nos mostrou como utilizar a cozinha e nos facilitou o acesso à lenha para as salamandras. Mas, depois, começaram as peripécias. Contam-se, de um rasgo.

Primeiro, o cilindro para águas quentes só permitia um duche a cada quarto de hora e apenas durante 2 minutos; depois, o esquentador negava-se a aquecer a água para a loiça: chamado o picheleiro, rapaz novo que não largou o sorriso enquanto tentava o concerto do dispositivo, muito à conta dos temas e abordagens que se desenvolviam nas suas costas, ficámos, constatámos já depois da sua abalada, na mesma. O problema maior, todavia, residia numa das salamandras que insistia em devolver o fumo à sala em vez de o expelir para o exterior. Após vários testes concluiu-se que o tubo de evacuação – com cerca de 4 metros de altura, dois dos quais acima do telhado, estava obstruído. O sentido de desenrascanço e improvisação de que se arvoram os portugueses foi então posto à prova. A primeira solução passou por um pau introduzido pelo tubo acima na tentativa de extrair o material bloqueador; evoluiu-se para o pau de uma vassoura; conseguiu-se apenas perceber que se tratava de palhiço seco, supostamente usado pelos passarinhos na construção dos ninhos; um peregrino engenheiro sugeriu que se utilizasse uma mangueira de rega, primeiro, simples, mas depois sucessivamente sofisticada com acrescentos do primitivo pau enfiado numa das pontas, substituído pela vassoura e ainda por um arame que se pediu ao vizinho da frente. As engenhocas resultaram em meio saco de plástico de restos de ninhos. Malogradamente, o tubo continuava a não facilitar a evacuação do fumo. Reunido o conselho científico dos peregrinos engenheiros, foi conseguido consenso quanto à solução final: proceder à extração do lixo a partir de cima. Foi o vizinho novamente chamado a cooperar com uma escada de alumínio. Munido de 5 metros de arame das vinhas e de uma turquesa, Xquim Branco avançou, qual soldado mais corajoso do pelotão. Vários ensaios após, de que resultou um saco de plástico cheio, o nosso operacional acabou por decidir retirar a campânula que encimava o tubo e, assim sim, o comprido cilindro expeliu mais um saco de palhiço. Foram duas horas de engenharias, mas o facto é que a salamandra ficou a deitar um calor que muito regalou e confortou os peregrinos durante a noite.


Como tudo na vida, esta bem sucedida operação teve um custo: dois feridos, um ligeiro e um grave: o nosso Xquim Branco que se feriu num dedo, e o nosso Carlos Matos que, no exercício das suas funções de repórter e sketcher, foi protagonista de uma aparatosa escorregadela que o fez embater estrondosamente com o tronco no soalho da sala, da qual, viria a radiografia a revelar 2 dias depois, resultou em 3 costelas machucadas. Não pode deixar de se enaltecer o seu espírito de peregrino que se impôs a tal minudência, tendo prosseguido bravamente para a etapa do dia seguinte entre Goães e Ponte de Lima. Naturalmente, também ajudaram os conselhos e pílulas prontamente disponibilizados pelos nossos companheiros peregrinos enfermeiros.
Amanhã, receber-nos-á a mais antiga vila portuguesa.