terça-feira, 23 de outubro de 2018

SANTIAGO 2018

Desenho: JM Boieiro

Sob as batutas concertadas dos nossos ilustres Xaime e Xoaquim concretizou-se mais uma incursão em terras galegas, desta vez, em espírito eminentemente turigrino, para aproveitar o feriado que oficialmente comemora a implantação da República em 1910, mas que os defensores da causa monárquica gostam de celebrar como o da nascimento de Portugal por se também o aniversário da assinatura do Tratado de Zamora em 1143. Ao todo, 26 peregrinos, perdão, turigrinos. As 19 damas esmagavam os 7 vale(n)tes.

Partida em autocarro alugado (é um descanso), ainda escuro, por volta das 5 da madrugada às endireituras de Pontevedra com ideia de agarrar lugar no albergue público. Como habitualmente, para o almoço foi dada orientação para se respeitar o princípio de “leva o teu e come de todos”, mas, sem surpresa, a comprida mesa do albergue foi pequena para a quantidade e variedade de iguarias que apareceram. A farturinha deu para expandir aquele princípio para o jantar e para o desayuno do dia seguinte.

A noite foi árdua para alguns – obviamente esquisitos e betinhos -, que não se dão bem a dormir no mesmo “quarto” com mais 50 almas. Não lhes terá feito mal a experiência de terem passado a noite a apreciarem a sinfonia de tosses finas a cavernosas, de roncos “aviolinados” a “trombónicos”, e mesmo, consta, de flatulências libertadas em brisa suave e em trovão.

Nada que tivesse diminuído o elevado moral para atacar o modesto objectivo de caminhar entre Padrón e Compostela, derradeiro troço do Caminho Português. Em Esclavitud, improvisou-se uma cerimónia ritualística que se usa em Fisterra: a de queimar algo, valendo na mesma o significado simbólico de apagar um estado passado para recomeçar um novo.

Mesmo no final desta cerimónia começou a ocorrer algo de que estes albicatrenses já sentiam saudades: chuva. Nas duas horas seguintes, a água desabou dos céus, por vezes copiosamente, até quase à chegada a Milladoiro, ainda a tempo de tudo secar até à Praza do Obradoiro, que nos recebeu preenchida de gente, mas com um sol radioso.

Pernoita no já conhecido hostel “The last stamp”, ali a 385 passos do Obradoiro, quase a dar para a Praza Cervantes. À noite, depois dos caldos galegos, pinchos de pulpo, rachos, pimientos padrón, tortillas, etc. ainda houve tempo e ânimo para uma modesta contribuição para a movida compostelana com uma queimada “tradicional” com conxuro rezado em colectivo e alta voz, e com um pézinho de dança que animou especialmente quando o disc jokey conseguiu substituir a matraca electrónica espanhola pelos melódicos Toy (toda a noite) e Emanuel (e nós pimba). Aonde nós chegámos! Os compostelanos no estaminé parece que acharam piada ver 20 tugas a bailar com vontade.

No terceiro dia, domingo, a manhã incluiu missa na catedral com direito a botafumeiro e menção especial da nossa presença, pelo ordenante, aos miles de fiéis que enchiam as 4 naves da majestosa catedral de Santiago. As duas torres e fachada para o Obradoiro já se apresentam lavados, mas o pórtico da Glória ainda se mantém encerrado (tudo deve estar a ser programado para o Jacobeo de 2021).

Compras de regalos feitas, almoço na Casa Manolo, regresso a casa, com vontade de voltar.


Desenho: JM Boieiro
Desenho: JM Boieiro
Desenho: JM Boieiro




 Desenho: Paula Marques
 Desenho: Paula Marques
 Desenho: Paula Marques




Para memória futura, caminhantes: Anselmo Cunha, Claudia Vaz, Daniel Almeida, Elsa Rodrigues, Fátima Lucas, Fátima Rebelo, Fernanda Francisco, Fernando Castela, Gena Cabaço, Guida Lucas, Helena Lopes, Isabel Antunes, Jaime Matos, Joaquim Branco, José Manuel Boieiro, Lénia Nunes, Luis Ribeiro, Madalena Cunha, Magda Marrucho, Manuela Gomes, Maria José Rafael, Paula Marques, Paula Silva, Rosa Santos, São Pires, Úna O’Keefe.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

INSTANTÂNEOS - XVII





























Desenho: Fernando Micaelo

Quando se caminha em longas tiradas, numa orografia enrugada como é a da Galiza, as paragens técnicas são momentos apreciados, desde logo, para repor níveis. Nestes nossos globalizados tempos, são igualmente aproveitados para actualizar as redes sociais.

Entre San Román de Retorta e Melide, no Caminho Primitivo, às exigentes subidas seguiam-se não menos exigentes descidas com inclinações de dar cabo de qualquer joelho menos robusto. A mudez aconselhada pela íngreme subida de quase 2 km que acabara de ser vencida transformou-se em tagarelice descontraída à vista da esplanada que nos surgiu a meio de uma pequena descida ladeada por frondosos carvalhos e castanheiros.

Conferido que havia “wifi” disponível, os pequenos aparelhos rectangulares saltaram rapidamente das mochilas e, antes de mais nada, urgente mesmo, era preciso introduzir a senha mágica. Suplicada a dita à senhora dona do estabelecimento, ela respondeu seca e ar sério:

- primeiro toma algo!

Xaime ainda ensaiou que sim senhora nós iriamos pedir bebidas para todos mas se pudesse fazer o favor de adiantar a senha…

- primeiro toma algo!, repetiu ríspida a galega, regressando para dentro a aviar outros clientes.

Algo consternados, não habituados a atitudes deste jaez por parte do bom povo galego, não havia outro remédio senão encomendar as 1906 Reserva e os chupitos de hierbas para ter direito à preciosa senha. Quando a senhora voltou a dar-nos atenção, ouvido o pedido de abastecimento líquido e requerida novamente a senha, ela comunicou, meio divertida:

- primeiro toma algo, todo xunto.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

PORTUGAL NASCENTE - Beira Baixa



Numa iniciativa da Associação Via Lusitana, com a parceria da Confraria dos Caminhos e com o apoio logístico da Câmara Municipal de Castelo Branco, estão devidamente marcadas as etapas Vila Velha de Ródão - Amarelos; Amarelos - Castelo Branco; Castelo Branco - Soalheira, do Caminho Interior Português ou Portugal Nascente, que liga Tavira a Santiago de Compostela.

Apresentação em Évora com participação do Presidente da República:
https://www.rtp.pt/…/apresentado-em-evora-novo-percurso-dos…#










Com a "benção" do ilustre Dr João Queiroz e Melo o bordão da Rainha Santa Isabel esteve bem entregue à nossa Paula Marques e Joaquim Branco enquanto andou nos concelhos de Vila Velha de Ródão e Castelo Branco. 
Passagem de testemunho na Sé Concatedral de Castelo Branco - 13/05/2018.



terça-feira, 24 de abril de 2018

domingo, 24 de setembro de 2017

Diário de Caminhada - Caminho Primitivo - Etapas I, II, III, IV

Desenho de Fernando Micaelo

CAMINHO PRIMITIVO 
 LUGO - COMPOSTELA

Caminhantes: Anselmo Cunha, Conceição Branco, Elsa Branco, Fernando Micaelo, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques e Raul Maia.

Projecto 2017: Caminho Primitivo, não todo, apenas as 4 últimas etapas, porque é preciso gerir tempo de férias e orçamento. A planificação - eficiente como tem sido hábito – ficou a cargo dos nossos Jaime e Xoaquim. Dia 03/06, o comboio regional das 05:56 em Castelo Branco deixar-nos-ia no Entroncamento para passar para o IC que nos colocou – sem sobressaltos - no Porto. Daqui até Compostela, 4 horas de autocarro. Pernoita no Albergue Credencial, não muito longe da estação de autocarros, condições aceitáveis.

Era dia de amigável Portugal-Chipre (4-0), sem Ronaldo porque também era dia de final da Champions entre Real Madrid e Juventus. No minúsculo estádio que se improvisou na sala comum, os portugueses iam torcendo pelo RM, os italianos, obviamente, pela Juve. Todos? Não, um deles, magricelas, barba de pelo menos 2 semanas, colocara-se estrategicamente atrás apresentando um sorrisinho maroto. Haviamos de vir a saber a razão do seu não entusiasmo com a Juventus de Turim: era romano.

Domingo, 04/06, viagem de autocarro com volta por A Coruña até Lugo, 2 horas e meia. Alojamento do Albergue Lug2, almocinho na pulperia “o Xogo”, ali mesmo à beirinha do frondoso parque Rosalía de Castro, nas imediações da zona histórica de Lugo, com centro na Catedral.
Situada na margem esquerda do rio Minho, Lugo ostenta um fabuloso património onde pontifica, para além da catedral, a muralha romana que circunda toda a zona histórica. Sabemos agora um “pormenor” interessante: é a única no mundo dominado pelos romanos que se mantém completa, permitindo mesmo caminhar sobre ela ao longo de mais de 2000 metros.

ETAPA I: LUGO – SAN ROMÁN DE RETORTA
05/06/2017
Distância: 23 km
Tempo total: 06:25 horas

As previsões iniciais apontavam para aguaceiros mas a manhã ofereceu apenas o cinzento claro das nuvens. Início de caminhada junto à Catedral de Lugo e saída pela Porta Miña direitos à velha ponte romana sobre o rio Minho. A etapa é maioritariamente em alcatrão, com pequenos troços em caminho “verdadeiro”, profusamente sombreados, ladeado de pequenos muros em xisto.
Meia dúzia de horas depois, damos inesperadamente com o Albergue Candido, localizado num bonito envolvente, única oferta de alojamento nas redondezas. Condições sofríveis, mesmo para 10 euros com pequeno almoço. Compensação na simpatia do dono que nos forneceu um honesto caldo galego.
Antes, longa conversa com um casal de andaluzes, ele médico, ela professora, com quem partilhamos perspectivas não inconciliáveis sobre as vantagens do Iberismo. Sob um governo único – respeitadas todas as identidades regionais – a Ibéria seria inquestionavelmente uma potência mundial. Uma República, claro! E, se a Catalunha levar por diante a sua pretensão à independência, garantiram, passar-se-ão de imediato de adeptos do Barcelona para o Benfica.

ETAPA 2: SAN ROMÁN DE RETORTA - MELIDE
06/06/2017
Distância:  27 km
Tempo total: 07:20 horas

Choveu copiosamente durante a noite. Às 6 da manhã, estava apenas fresco. Foi preciso caminhar 14 km para que estes lusitanos dependentes da dose matinal de cafeína pudessem enfim matar o vício. E Delta, ainda por cima, em Seixas, casa Gorinhos. A jovem galega, ao aviso: “corto e solo”, adivinhou logo: “portugueses?”.
À chegada a Melide, no mesmo albergue San Antón que nos albergou, damos de caras com um grupo de peregrinos paramentados com camisolas que exibiam a palavra “PAPABOYS”. Tivemos que rapidamente esclarecer o significado de palavra tão estranha aos olhos de um português.  Eram do Paraguay, iniciaram o caminho Francês em Ponferrada e, informaram, após darem o abraço a Santiago, seguiriam de autocarro acender uma vela em Fátima. O nome colectivo não tinha nada de impróprio, pretendia apenas designar o grupo de rapazes e raparigas católicos constituído no tempo de João Paulo II. Estranho a sério foi o facto de desconhecerem, todos eles, aquele fruto achatado nos polos da família dos pêssegos que nós chamamos “paraguaios” .

ETAPA 3:  MELIDE - PEDROUZOS
07/06/2017
Distância: 33 km
Tempo total:  07:55 horas

Em Melide encontram-se os caminhos Primitivo e Francês. O número de peregrinos aumenta consideravelmente. O andar desengonçado de alguns denuncia a sua longa viagem ao longo de muitos dias, provavelmente desde os Pirinéus. A senhora argentina da Patagónia, caminhar vagaroso, visivelmente em sofrimento, suscitou o altruísmo pessoal e profissional do nosso Xaime que lhe dedicou alguma atenção, forneceu alguns conselhos acompanhados de diflofenac e flexor.
Pedrouzos, pequena localidade, beneficia muito, nota-se, do Camiño: albergues em número de sete, pensões mais de uma dezena. Nós calhámos no albergue “O Cruceiro”, boas condições.

ETAPA 4:  PEDROUZOS - SANTIAGO
08/06/2017
Distância: 20 km
Tempo total: 05:50 horas

Nesta última etapa comum aos caminhos Francês e Primitivo sobressai com evidência a força que o Camiño actualmente detém. É uma verdadeira multidão, uma autêntica Babel. Todos sem excepção sabem, contudo, distribuir a saudação: “buen camino”.
Passagem obrigatória pelo Monte do Gozo, fotos junto às estátuas dos peregrinos, para memória futura. Descida serena até ao Obradoiro.

Objectivo atingido. Até para o ano.















terça-feira, 22 de agosto de 2017

INSTANTÂNEOS - XVI


Rumo a Fátima por MAUS caminhos, à passagem por Ferreira do Zêzere fomos calhar à Taverna da Vila, ali mesmo na alameda principal, gerida por um casal que merece a nossa referência e consideração.

Para além da autorização, fácil e espontânea, para ocupar as mesas da esplanada onde foram espalhadas as buchas que cada um levava na mochila, a senhora presenteou-nos com um prato de peixinhos-rei e outro de lagostins do rio acabadinhos de fritar em alho e azeite, que exalavam um daqueles cheiros a que as glândulas salivares reagem instintivamente.

Parece que nunca nenhum dos caminhantes tinha degustado lagostins do rio.

À pergunta:
- Como se deve comer isto?

A resposta veio do elemento feminino, sob o ar divertido do companheiro:

- Simples: come-se o rabo e chupa-se a cabeça.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

FATIMA POR MAUS CAMINHOS - 2017



Animados pela experiência de 2015, nova aventura no caminho de Fátima, por MAUS CAMINHOS, em 5 etapas:

ETAPA 1
28/04: Castelo Branco – Foz do Cobrão
ETAPA 2
29/04: Foz do Cobrão – Proença-a-Nova
ETAPA 3
30/04: Proença-a-Nova – Vila de Rei
ETAPA 4
01/05: Vila de Rei – Tomar
ETAPA 5
02/05: Tomar Fátima.

Caminhantes: Carlos Filipe, Carlos Matos, João Salvado, Joaquim Branco, José Luís (ao 2º dia), Anselmo Cunha (ao 3º dia).

Nas etapas I e II foi percorrida a zona setentrional do Campo Albicastrense a caminho das serranias do Pinhal, entre muitos pinheiros e cada vez mais eucaliptos. À passagem pela estação das Sarnadas, o José Luís Rodrigues surpreendeu com uma pratada de favas, unanimemente avaliada como excelente, ou, segundo os mais modernistas, actualizados e sofisticados, gourmet. Pernoita na antiga escola da Foz do Cobrão que a Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão adaptou a alojamentos. O estado das instalações e equipamentos reclamam evidentes cuidados de manutenção.

As etapas II e III ofereceram-se molhadas, aumentando o nível de dificuldade, contando com a orografia muito enrugada entre a Foz do Cobrão e Proença-a-Nova, onde se pernoitou, e depois até Vila de Rei, via Cardigos.

O dia IV apresentou-se azul. Descanso mais prolongado na cascata do Escalvadouro, antes da descida serpenteante até à estrada que conduz à ponte sobre o Zêzere e depois sempre a subir até Ferreira do Zêzere.
O caminho que nos levou a Tomar contém troços fabulosos, sobretudo os últimos 5 quilómetros, em vereda estreita quase tapada por vegetação próximo do “virgem”, ao longo do Nabão nos derradeiros 2, de tal modo que a cidade templária nos surge quase sem avisar.
Pernoita no Hostel de Tomar, em pleno centro histórico, na antiga rua da Corredoura, condições aceitáveis.

A última etapa correu em dia de Nossa Senhora de Mércoles, feriado municipal na nossa cidade albicastrense. Passagem pelo fabuloso aqueduto dos Pegões rumo a Fungalvaz. A partir daqui inicia o longo, estreito e sinuoso troço, seguramente o mais cansativo, inquestionavelmente, o modelo de MAU caminho que procurávamos.
Informação importante: de Fungalvaz a Fátima (3 horas) não se encontra café algum, fonte nenhuma. Opção acertada revelou-se a nossa de almoçar no “Barril” em Fungalvaz, honesto no preço e na qualidade.
A grande alameda do Santuário de Fátima estava pouco preenchida, como que a preparar-se para a enchente da visita papal que se aproximava.


Cumpridos os rituais habituais, regresso tranquilo a casa com a satisfação de mais um objectivo alcançado, ainda que por MAUS CAMINHOS.