terça-feira, 8 de Abril de 2014

INSTANTÂNEOS - X

Como é habitual, o peregrino Carlos Matos acumula essa condição com repórter fotográfico e urban sketcher sempre que a circunstância o inspira, o que sucede amiúde. Enquanto uns tratavam do local de reforço alimentar correspondente ao período de almoço, e outros contavam os arcos da ponte sobre o Lima, ele sacou do seu caderno gráfico, do seu lápis de carvão e da sua caneta especial que pinta com qualquer coisa até com vinho tinto verde, e sentou-se a esboçar o quadro patrimonial junto à velha ponte, mesmo por baixo de uma bonita e florida camélia que por estas bandas é designada por japoneira.

Como é igualmente habitual, os seus companheiros peregrinos, brincalhões, insistem sempre em ajudar a compor o cenário depositando algumas moedas (às vezes até notas) no chão, para dar aquele ar moderno de artista de rua.

Dona Conceição, minhota convicta, cordão de ouro à volta do pescoço como pertence (parece que a Sharon Stone se andou recentemente a exibir em LA com uma réplica), 70 e alguns anos, viúva há mais de 20, paciente de artroses várias, prótese na perna direita, aproximou-se com a ajuda de uma muleta e veio postar-se ao lado do Matos, entre a necessidade de descanso e a curiosidade.

Ainda antes de deitar o olho aos rabiscos artísticos do Matos, reparou nas moedas aos seus pés e deixou escapar, espontânea (leia-se com entoação e sotaque minhoto carregado):
- oh! qui caralho, nasce dinheiro debaixo da japoneira!



Diário de Caminhada - ETAPA XVII: Goães - Ponte de Lima

Diário de Caminhada - ETAPA XVII: Goães – Ponte de Lima

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XVII: Goães – Ponte de Lima
26 de Janeiro de 2014, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Goães: 08:20 horas
Chegada a Ponte de Lima: 13:30 horas
Distância percorrida: 16,5 km
Tempo total de caminhada: 05:10 horas
Tempo parado: 01:00 horas
Velocidade média: 4,3 Km/h


Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Goães, Ponte Pedrinha (sobre o Neiva), Casas Novas, Queijada, Ponte de Lima.


Acumulado:
Caminho: 401,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva, Lima.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga; Viana do Castelo.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde, Ponte de Lima.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)


Toque de alvorada às sete. As tropas apresentam-se com o moral elevado. Está fresco mas não chove, a visibilidade é de mais de 10 quilómetros. Tudo arrumadinho, as chaves do albergue foram dissimuladas no sítio combinado, foto para memória futura, e ala vereda abaixo pela medieval ponte pedrinha sobre o rio Neiva. Logo ali se percebeu que o Minho, mascarado desde a Lixa, estava de volta. Finalmente, o Minho antigo, o Minho das fotografias: paisagem campestre, prados verdes, floresta frondosa, veredas estreitas, riachos de águas rápidas. A água brota por todo o lado, boicotando o caminho. Os peregrinos agradecem, é deste caminho de pedras desordenadas que eles gostam, é esta banda sonora composta pela água corrente e pelo vento sibilante que eles apreciam. Alegremente enlameiam as botas, dançam pelo caminho feito ribeira, saltitando sobre pedras e tufos de erva, cruzam “pomares” de choupos altos, muito empinados e alinhados.









Portugal está pejado de localidades com nomes curiosos, podendo incluir-se na lista “angulo 40”, assim mesmo em numeral, pertencente à freguesia de Goães. Passagem por Casas Novas, pequeno-almoço em Queijadas, com a mesa habitual (ver cardápio na etapa XVI). As setas amarelas guiaram-nos até Fornelos, onde houve lugar a reforço de malguinha de verde tinto e branco, logo após cruzarmos a A3 por baixo. A entrada em Ponte de Lima faz-se ao lado do campo de golfe. Saudação a D. Teresa, progenitora do nosso primeiro Afonso.
Fim de etapa junto à matriz, 13 horas.

Tempo para desfrutar, ainda que ao de leve, das belezas arquitectónicas de Ponte de Lima, a primeira vila portuguesa, com foral da nossa avó D. Teresa, nos idos de 1125. A vila abarrotava de gente concentrada na famosa ponte e imediações a mirar o rio, a apreciar as admiráveis esculturas em homenagem aos trabalhadores do campo e ao folclore, ou a tirar fotos agarrados aos cornos da vaca das cordas, enfim a admirar o rico património desta tão ilustre e antiga urbe. Neste fim de semana, acumulava a categoria de antiga com a de vila dos namorados: era dia de feira na Expolima, uma nova edição de qualquer coisa parecida com “Verde Noivos” dedicada ao negócio do santo sacramento do matrimónio, o que, parece, a nenhum peregrino interessou.




Almoço farto e bem regado com o inevitável verde, viagem tranquila rumo a sul até à cidade albicastrense, satisfeitos por mais uma agradável jornada. Na próxima, queremos conferir as águas do rio Minho em Valença.

Diário de Caminhada - ETAPA XVI: Braga - Goães

Diário de Caminhada - ETAPA XVI:  Braga - Goães

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XVI: Braga - Goães
25 de Janeiro de 2014, sábado
Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Elsa Maia, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Piedade, Raul Maia, São Branco, Zé Manel Machado.

Sinopse:

Inicio em Braga (Sé): 07:28 horas
Chegada a Goães (albergue): 13:38 horas
Distância percorrida: 19,5 km
Tempo total de caminhada: 06:10 horas
Tempo parado: 01:31 horas
Velocidade média: 4,5 Km/h

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Braga, Praceta de Santiago, Vila de Prado; Moure, Torre de Penegate, Portela das Cabras, Goães.

Acumulado:
Caminho: 384,7 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave, Cávado, Neiva.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto, Braga.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga, Vila Verde.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)

A nova estratégia de se alugar mini autocarro para o transporte, testada nas etapas anteriores, foi avaliada muito favoravelmente, pelo que se manteve: viagem desde Castelo Branco até Braga em 4 horas (incluindo paragens técnicas), sem percalços. Foto da praxe junto à Sé de Braga e tentativa frustrada de obter carimbo. Faltavam 5 minutos para bater a meia das 7, surgiu de dentro do milenar monumento um funcionário carregado de 2 corgalhos de chaves com as quais ia abrindo portas e portões. Instado ao registo do correspondente carimbo na nossa preciosa caderneta, recusou liminarmente, a raiar os maus modos, nada consentâneos com as suas funções, com a desculpa de que tinha de preparar o altar para a missa das oito menos um quarto. Um dia, há-de prestar contas a Santiago do seu mau humor para com estes peregrinos madrugadores e o santo certamente lhe atribuirá uma avaliação menos boa, acompanhada de várias recomendações que incluem a de que os altares para as missas das oito menos um quarto devem ficar minimamente preparados de véspera. Foi necessário recorrer ao licor de maçã-canela do Micaelo para recuperar o ânimo.







Primeiros passos a partir da Sé de Braga, às 07:30, seguindo as setas amarelas que começaram a surgir acompanhadas pelas placas de madeira indicativas da Via XIX, velhíssima estrada romana que ligava Braga a Astorga, através da Galiza. Ainda dentro da cidade dos arcebispos, saudação a Santiago na sua praceta, prosseguindo-se em malha urbana em direcção ao rio Cávado, nesta altura a exibir-se caudaloso. A travessia faz-se através duma imponente ponte filipina que terá sido construída sobre uma outra medieval e esta sobre a primitiva romana. Do outro lado, num pequeno jardim de Vila do Prado, e porque já eram horas, pequeno almoço.







Cardápio (igual para todas as refeições): ovos verdes, ovos com farinheira, pastéis de carne, trança de carne, rissóis de peixe, pastéis de bacalhau, febras palitadas e picles, paté de fiambre de perú, frango frito, panceta (toucinho espanhol), vigaristas, salada de polvo, lombo de porco assado (simples, com molho doce e fingido), bucho de morcela, chouriço, farinheira frita, feijões vermelhos salteados com cebola, empadas de galinha, bolacha do deserto, pão de várias qualidades e consistências, vinhos de várias cores, travos e proveniências, queijos de vários sabores e texturas, azeitonas de vária tonalidades e acidezes, bolos de vários sabores e paladares, fruta da época e de fora da época.

O caminho prossegue subjugado ao característico povoamento disperso do Minho por entre ruas e casas. Em Moure, paragem para verde (branco e tinto) em malguinha branca. Nesta povoação, nota especial para o enorme eucalipto seco que se mantém de pé, e que precisou de 10 peregrinos para ser abraçado.





O caminho vai agora em modo predominante de subida através de Portela das Cabras até à cota máxima que separa as bacias do Cávado e do Neiva, com passagem pela torre de Penegate, construída em 1132 sob o magestoso auspício do nosso rei Lavrador e marido da Santa – são rosas, senhor – Isabel.

Daí, foi um saltinho até Goães onde a escola primária foi transformada em albergue. O sítio é agradável, simpática e prestável a senhora minhota que nos entregou as chaves, nos mostrou como utilizar a cozinha e nos facilitou o acesso à lenha para as salamandras. Mas, depois, começaram as peripécias. Contam-se, de um rasgo.

Primeiro, o cilindro para águas quentes só permitia um duche a cada quarto de hora e apenas durante 2 minutos; depois, o esquentador negava-se a aquecer a água para a loiça: chamado o picheleiro, rapaz novo que não largou o sorriso enquanto tentava o concerto do dispositivo, muito à conta dos temas e abordagens que se desenvolviam nas suas costas, ficámos, constatámos já depois da sua abalada, na mesma. O problema maior, todavia, residia numa das salamandras que insistia em devolver o fumo à sala em vez de o expelir para o exterior. Após vários testes concluiu-se que o tubo de evacuação – com cerca de 4 metros de altura, dois dos quais acima do telhado, estava obstruído. O sentido de desenrascanço e improvisação de que se arvoram os portugueses foi então posto à prova. A primeira solução passou por um pau introduzido pelo tubo acima na tentativa de extrair o material bloqueador; evoluiu-se para o pau de uma vassoura; conseguiu-se apenas perceber que se tratava de palhiço seco, supostamente usado pelos passarinhos na construção dos ninhos; um peregrino engenheiro sugeriu que se utilizasse uma mangueira de rega, primeiro, simples, mas depois sucessivamente sofisticada com acrescentos do primitivo pau enfiado numa das pontas, substituído pela vassoura e ainda por um arame que se pediu ao vizinho da frente. As engenhocas resultaram em meio saco de plástico de restos de ninhos. Malogradamente, o tubo continuava a não facilitar a evacuação do fumo. Reunido o conselho científico dos peregrinos engenheiros, foi conseguido consenso quanto à solução final: proceder à extração do lixo a partir de cima. Foi o vizinho novamente chamado a cooperar com uma escada de alumínio. Munido de 5 metros de arame das vinhas e de uma turquesa, Xquim Branco avançou, qual soldado mais corajoso do pelotão. Vários ensaios após, de que resultou um saco de plástico cheio, o nosso operacional acabou por decidir retirar a campânula que encimava o tubo e, assim sim, o comprido cilindro expeliu mais um saco de palhiço. Foram duas horas de engenharias, mas o facto é que a salamandra ficou a deitar um calor que muito regalou e confortou os peregrinos durante a noite.


Como tudo na vida, esta bem sucedida operação teve um custo: dois feridos, um ligeiro e um grave: o nosso Xquim Branco que se feriu num dedo, e o nosso Carlos Matos que, no exercício das suas funções de repórter e sketcher, foi protagonista de uma aparatosa escorregadela que o fez embater estrondosamente com o tronco no soalho da sala, da qual, viria a radiografia a revelar 2 dias depois, resultou em 3 costelas machucadas. Não pode deixar de se enaltecer o seu espírito de peregrino que se impôs a tal minudência, tendo prosseguido bravamente para a etapa do dia seguinte entre Goães e Ponte de Lima. Naturalmente, também ajudaram os conselhos e pílulas prontamente disponibilizados pelos nossos companheiros peregrinos enfermeiros.
Amanhã, receber-nos-á a mais antiga vila portuguesa.

sábado, 1 de Março de 2014

Diário de Caminhada - ETAPA XV: Guimarães - Braga

Diário de Caminhada - ETAPA XV:  Guimarães - Braga

“Da nossa casa a Santiago de Compostela”,

Etapa XIV: Guimarães - Braga
12 de Janeiro de 2014, domingo

Caminhantes: Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Fernando Micaelo, Guida Mendes, Jaime Matos, Joaquim Branco, Luisa, Paula Marques, São Branco, Zé Manel Machado. No apoio, Piedade.

Sinopse:

Inicio em Guimarães: 08:50 horas
Chegada a Braga (Sé): 15:12 horas
Distância percorrida: 22,5 km
Tempo total de caminhada: 06:22 horas
Tempo parado: 01:02 minutos
Velocidade média: 4,2 km/h

Povoados e locais de referência ao longo do percurso: Guimarães, Ponte de Roldes (Fermentões), Caldas das Taipas, estrada romana Falperra, Igreja de Santiago (Fraião), Braga.

Acumulado:
Caminho: 369,2 Km
Bacias hidrográficas: Tejo, Zêzere, Mondego, Távora, Varosa, Douro, Tâmega, Vizela/Ave.
Distritos: Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real, Porto.
Concelhos: Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Belmonte, Manteigas, Guarda, Celorico da Beira, Trancoso, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego, Peso da Régua, Mesão Frio, Baião, Amarante, Felgueiras, Fafe, Guimarães, Braga.

Fonte: GPS de Joaquim Branco
(ver track aqui)

A partilha de espaços de descanso nocturno tem riscos para os que são mais atreitos à insónia. Se calha haver um (ou mais) que, não sofrendo desse mal, fazem do ronco a banda sonora dos seus sonhos, as noites tornam-se longas e penosas para os outros. Foi o caso, e ocorreu desta vez no Hostel que abrigou estes humildes peregrinos situado em plena praça de Santiago, ali arcadas meias com o largo da Oliveira.



E o caso fica soberbamente ilustrado com a ajuda do mestre Aquilino, n’A Casa Grande de Romarigães quando descreve, como só ele é capaz, o problema do personagem Luís Azevedo quando em viagem por estas mesmas bandas, quiçá percurso igual, encontrou guarida no convento de S. Gonçalo em Amarante numa cela ao lado do seu companheiro Padre Tirteu, depois de já ter aguentado uma noite em claro em Guimarães. Ora, aprecie-se como Aquilino nos sensibiliza para a sua agonia nocturna:

“O diabo é que ele ressonava mais alto, variado e plangente que o órgão na vigília da Paixão. Fosse obra de esturrinho, com semiobstrução das fossas nasais, o certo é que dentro daquelas ventas monásticas ora mugiam dez gaitas de foles galegas, ora assobiava a gaitinha de palha mofareira que os rapazes fazem do trigo a apendoar. A partitura entrecortava-se de solos que estrugiam pelo claustro e deviam, transbordando para o exterior, extasiar céu e terra. Quando no decorrer dum piano pianíssimo, que também tinha dessas variações a trompa prodigiosa, Luís Azevedo conseguia pregar olho, de repente soltava ela um larghetto, com notas de oboé e rabecão, e lá se ia o regalado soninho. Às seis horas da manhã, quando começou a luzir a claraboia e um cochicho veio para os loureiros soltar a sua solfa, ainda andava ele aos tombos com o travesseiro.”

A boa disposição matinal do grupo e o pequeno almoço farto (ver cardápio da etapa anterior) no hostel, ajudaram a espevitar os mais infelizes. Acondicionados os bornais no autocarro, despedimo-nos da praça do nosso orago caminhante às 08:50. A chuva miudinha, tipo moinha, aconselhou o poncho impermeável que não mais largaríamos durante toda a etapa. Desde a Gardunha, no ido mês de Novembro de 2012, que não se apanhava um dia como este, molhado e ventoso. Bravamente, os peregrinos não se detiveram perante tal minudência e atacaram o caminho, cuidando apenas em rodear os lapacheiros.



O Minho, aquele Minho cuja imagem se alojou no nosso álbum fotográfico mental tem vindo a sofrer actualizações ao longo do caminho, muito por via do caos urbanístico que se impõe na paisagem, sobretudo desde as imediações da Lixa. A variedade cromática em torno do característico verde do Minho é selvaticamente agredida pela salganhada de cores e azulejos nas milhentas casas semeadas ao desbarato na paisagem. O caminho alterna entre veredas rodeadas de verdes, vinhas altas e ruas mal alcatroadas. O primeiro ponto digno de interesse é a ponte de Roldes em Fermentões. Era domingo de manhã, o povo religioso apresentava-se aperaltado para a missa. Meia hora mais à frente o rio Ave surge algo agitado, nas Caldas das Taipas, onde a velha ponte mal tapa o leito.

A chuva faz-se sentir cada vez mais forte, obrigando os peregrinos a ajustarem capas e ponchos. Até ao alto da Falperra, o percurso faz-se em caminho empredrado, supostamente uma estrada romana, muito maltratada, rodeada por uma incaracterística floresta de eucaliptos.



Já se vê Braga lá em baixo. Descida por trilhos pejados de troncos de eucaliptos até Fraião, onde a Igreja de Santiago exibe um bonito painel de azulejos. Pediram os peregrinos licença e o Santo concedeu a graça de fotografia enquadrada pela sua figura.


Por Braga adentro, cruzando o campo de Santiago, fim de etapa na Catedral de Santa Maria de Braga, passava um quarto de hora das 3 da tarde.



quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

Banda Sonora para um Caminho - VI


INSTANTÂNEOS - IX

A etapa estava já a terminar sem que tivesse ocorrido episódio digno de instantâneo. Até que se chegou a Pedronelo, já com Amarante à vista. Numa curva, surge, imponente e vistosa, uma vivenda bem traçada arquitectonicamente. Vários pormenores chamaram a atenção dos peregrinos. O primeiro, logo notado por apreciador convicto, era o telheiro que abrigava a barbacoa, em telha de meia cava, armação em madeira tratada, forno, churrasco e bancadas em materiais de primeira; depois, as persianas, todas em dourado brilhante conferiam-lhe um aspecto, digamos, nobre; terceiro, o largo varandim que a circundava, assim à moda da mansão brasileira; por último, à volta da mansão, numa área de uma centena de metros quadrados, em plano inclinado, em vez de relva, pedras roliças e seixos.

Espalhadas pelo peculiar quintal, erguiam-se várias estátuas, completamente pintadas de branco, algumas delas a jorrar água em prateados pequenos repuxos. Seguindo o nosso instinto, tratámos de meter conversa com o proprietário que nos avaliava desde o varandim e, apontando uma figura masculina trajada à moda do Renascimento - gola rendilhada à volta do pescoço, jaqueta sem mangas, calças (agora parece que lhe chamam leggins) muito justas com ostentação despurada do contorno dos genitais, sapatos largos encimados por grandes fivelas:

- Santas tardes, então quem é que está ali naquela estátua?
- É o D. Afonso Henriques – informou solícito.

Armados em sabichões, ensaiámos a correcção:

- Não pode. A vestimenta não é bem a da época do nosso Fundador.

O pedronalense senhor nem vacilou:

- Ai isso é que é! Atão eu não sei? Olhe que eu tenho a 4ª classe antiga, meu amigo, e conheço bem os nossos reis.

Já bastas vezes tinhamos ouvido os nossos pais argumentar que a 4ª classe antiga é que era, que quem a fez sabe mais do que muitos doutores. O entusiasmo com que foi feita a defesa da tese, desarmou-nos sem apelo nem agravo.
Metemos o rabinho entre as pernas e prosseguimos rua abaixo a ver do S. Gonçalo.