quarta-feira, 28 de setembro de 2016

INSTANTÂNEOS - XV


Reza qualquer manual que o peregrino deve preparar e planear cuidadosamente a viagem: o percurso, as etapas, as estadias nos albergues, o recheio da mochila, preparação dos pés, tipos de calçado, etc. No nosso caso, a responsabilidade de planeamento no que toca ao colectivo é habitual e competentemente assegurada pelo nosso Xoaquim Branco.

Ele leva tão a sério a missão – ou não fosse ele um garboso ex-militar – que chega ao pormenor de escolher criteriosamente o vinho que se vai degustar ao jantar do primeiro dia, aquele em que ainda é possível seguir esse tão são princípio “leva o teu e come de todos”.

Foi o caso. Desta vez, a escolha recaiu sobre uma Cartuxa, uma garrafinha contendo um néctar de conceituada qualidade superior, para acompanhar as iguarias que haviam de saltar para a mesa, finalizadas com um queijo de Castelo Branco mal cheiroso, mas de sabor e textura ímpar (em resultado deste excesso de zelo, consta que há peregrinos neste grupo que chegam a casa mais pesados do que quando partiram).

Envolta em folhas de jornal, foi a menina cuidadosamente acondicionada na parte superior da mochila, atada como se fosse um saco-cama.

Foi ainda no Entroncamento, essa terra famosa por determinados fenómenos inusitados que a tragédia ocorreu. Na linha nº 9 tinha dado entrada o comboio intercidades com destino a Porto Campanhã com paragens em Pombal, Coimbra B, Aveiro, Ovar e Espinho. Na azáfama habitual de procurar e ocupar lugar e arrumar bagagens, eis que foi necessário erguer a mochila na horizontal para a acondicionar no porta volumes superior.

Foi nesse acto que, inexplicavelmente, a Cartuxa deslizou dos jornais e veio estatelar-se a meio do corredor da carruagem nº 3, fragmentando-se em mais de 120 lascas de vidro. O líquido desenhou longas manchas corredor abaixo (por via da inércia do comboio já em andamento), libertando um aroma característico que, supõe-se, não terá incomodado os discretamente divertidos passageiros.

Responsável e solidariamente, mobilizou-se todo o grupo para ir buscar toalhetes de papel e, à passagem pelo apeadeiro de Fungalvaz já a carruagem nº 3 voltava a apresentar um aspecto satisfatório. O aroma, esse manteve-se até Fátima.












terça-feira, 26 de julho de 2016

Diário de Caminhada - Caminho Inglês - Etapa III


3ª ETAPA:  SIGUEIROS - COMPOSTELA

11/06/2016

Distância: 18,1 km
Tempo total: 04:26 horas
Tempo em movimento: 03:50 horas
Tempo parado: 00:36 horas
Velocidade média: 4,7 km/h
Altitude máxima: 284 metros

Track aqui

Caminhantes: Anselmo Cunha, Conceição Branco, Elsa Branco, Fernando Micaelo, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Raul Maia e Teresa Martins.



Às 07:10 já estávamos a passar por cima do rio Tambre. O dia ofereceu-se bom para caminhar, o moral das tropas elevado, inspirando mesmo algumas discussões acaloradas sobre qualquer coisa que tinha a ver com o papel dos sindicatos na sociedade capitalista ocidental em geral, na sociedade portuguesa em particular, na classe dos enfermeiros ainda mais em particular.

Caminhada tranquila, pois, maioritariamente por entre bosques, ao lado de algumas unidades industriais até às imediações de Compostela. Entrada triunfal no Obradoiro onde fomos ovacionados pelo Carlos Matos que desta vez se meteu a fazer uma perninha voluntária no albergue “Fim do Camiño”, gerido pela Associação de Peregrinos Via Lusitana.

Ainda antes do duche no hostal do costume “O ultimo sello”, ali a 200 passos da catedral, rua do preguntadoiro, receberam estes peregrinos instruções para se encaminharem rapidamente para a Catedral porque ia haver botafumeiro na missa do meio dia. A entrada fez-se mesmo a tempo de testemunhar o início da eucaristía, isto graças a um pormenor que tem de se deixar registado.










A “Porta Santa”, na praça Quintana, mais ou menos oposta à “Porta da Glória” que dá para o Obradoiro mas que se encontra em obras de restauro e conservação, abre apenas nos anos santos, mais conhecidos por Jubileo ou Jacobeo – sempre que o dia de Santiago que se celebra a 25 de Julho coincide com um domingo. O próximo será em 2021. Acontece que Francisco, Sumo Pontífice, na sua infalibilidade, decretou um ano jubilar extraordinário que iniciou 08/12/2015 e vai até 20/11/2016. Eis porque, excepcionalmente está aberta a “Porta Santa”, por onde estes humildes peregrinos acederam à magnífica Catedral de Santiago de Compostela. 

Nota muito importante: desde 1122, é a primeira vez que a Porta Santa abre ao público, fora de um Jacobeo. De maneiras que, é de aproveitar. Até 20 de Novembro.



Naquela tarde de 11/06/2016, Compostela ainda havia de oferecer aos peregrinos e demais visitantes uma animação surpresa, com inúmeros grupos de gaitas de foles, acordeões, guitarras e pandeiretas e muita gente a cantar, espalhando por ruas e praças da zona antiga a contagiante música tradicional galega. Era o VI Encontro de Cantares de Taberna.




Domingo, 12/06/2016, a greve dos ferroviários espanhóis obrigou-nos a mais de 3 horas de autocarro até ao Porto. Com uma francesinha a aconchegar, o cavalo de ferro rumou a sul e devolveu-nos a terras da Beira Baixa.



Prontinhos para o próximo camiño...

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Diário de Caminhada - Caminho Inglês - Etapa II

2ª ETAPA: BRUMA - SIGUEIROS

10/06/2016

Distância: 25,6 km
Tempo total: 07:02 horas
Tempo em movimento: 05:32 horas
Tempo parado: 01:30 horas
Velocidade média: 4,6 km/h
Altitude mínima: 241 metro
Altitude máxima: 422 metros

Track aqui


Caminhantes: Anselmo Cunha, Conceição Branco, Elsa Branco, Fernando Micaelo, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Raul Maia e Teresa Martins.

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A nossa pequena comunidade de 9 portugueses celebra o dia por estas terras galegas.

Saída de Bruma às 07:15, meteorologia favorável: nublado, fresco q.b., visibilidade e luz excelentes. Tirada com longos trajectos em ambiente rural, quase sem casas a estragar a vista, tornando a etapa mais interessante e agradável do que a primeira. Dois destaques: o primeiro vai para os túneis de frondosos loureiros que abundam, em que apetece caminhar devagar, para sentir os odores e o fresco, apreciar os verdes sombreados e escutar a polifonia dos chilreados; o segundo pormenor a merecer destaque é a longuíssima recta ondulada de vários quilómetros que leva o peregrino quase à entrada de Sigueiros.











Em Sigueiros não existem albergues da rede pública, o que permite marcação prévia nos privados disponíveis. Por nós, Xaime escolhera o Fogar da Chisca, uma unidade simpática e acolhedora, com condições aceitáveis para quem não é muito exigente, e, sabemo-lo, não podem existir peregrinos de Santiago exigentes. Mesmo quando os colchões particularmente ruidosos, como neste albergue, competiam com os roncos dos do costume.

Recebeu-nos Doña Josefina, mulher alegre e despachada: “todos me chaman por CHUS, que te parece, cariño?” Haviamos de constatar que todos os peregrinos tinham direito a ser tratados por “cariño”. Fogar significa casa/lar, e Chisca era o nome da sua cadela que ela amava como uma filha e que morreu com 21 anos. Não conseguiu evitar as lágrimas a contar-nos a sua história. Depois de recomposta e de muita conversa, CHUS havia de se sair com esta: “o falar no tem cancelas”. Pois não.

Lanche ajantarado no Méson de Tambre, um restaurante propriedade de um português para aqui veio fixar-se há 20 anos.

Amanhã, iremos dar um calduço ao Santiago.

sábado, 2 de julho de 2016

Diário de Caminhada - Caminho Inglês - Etapa I


1ª ETAPA: A CORUÑA – BRUMA

09/06/2016

Distância: 35,2 km
Tempo total: 10 horas
Tempo em movimento: 8 horas
Tempo parado: 2 horas
Velocidade média: 4,3 km/h
Altitude mínima: 1 metro
Altitude máxima: 445 metros

Track aqui

Caminhantes: Anselmo Cunha, Conceição Branco, Elsa Branco, Fernando Micaelo, Jaime Matos, Joaquim Branco, Paula Marques, Raul Maia e Teresa Martins.







Para chegar a A Coruña, a partir de Castelo Branco é preciso sair cedo, quase 2 dias. O chefe da estação apitou para autorizar a partida do comboio das 15:20, às 15:20, rumo ao Entroncamento, onde subimos para o que nos levou até Porto Campanhã; daqui foi um saltinho até São Bento, o mesmo saltinho novamente para Campanhã, depois outro para Vigo, finalmente outro que nos conduziu à antiga capital da Galiza. No meio, dormida no Porto, Rua das Flores, com direito a sangria em esplanada de Mafamude que é como quem diz, ali na ribeira, à beirinha do Douro.
A Coruña é uma cidade média à escala ibérica, albergando cerca de 250 mil almas, com muito para ver. Seleccionámos a torre de Hércules ou torre de Bréogan, por ser o monumento mais antigo e mais emblemático. Parece que é o farol em funcionamento mais antigo do mundo. Instalação em plena zona histórica, de ruas estreitas, no Hostal Hotil, preços e condições aceitáveis.






O dia ofereceu-se-nos fresco às 06:15, nublado mas sem precipitação. Bem dispostos, alegres e contentes, atacámos a 1ª etapa desta variante do Camiño Inglés determinados a enfrentar os mais de 36 quilómetros que nos conduziu a Bruma. Nos primeiros 5 rolámos pelo perímetro urbano de A Coruña, junto a um braço da ria, passagem ao largo do aeroporto até nos embrenharmos finalmente no típico caminho em espaço predominantemente rural. Todos os cronómetros já registavam mais de 3 horas de esforço sem pequeno almoço, por falta de tascas, quando a salvação surgiu miraculosamente numa carrinha de venda ambulante de pão, conduzida pela mui simpática Sandra, mesmo pertinho de um fontanário que debitava um caldeiro de lata dos grandes a cada 30 segundos. Desnocou-se o pão quentinho, entremeou-se com chouriço e queijo, e eis que o ânimo ressuscitou, a pontos de inspirar o nosso Jaime que, cumprindo uma tradição muito sua, presenteou a sua amada Paula com umas rosas surripiadas a um quintal galego.



Foi preciso galgar mais um bom par de quilómetros até Sergude onde finalmente foi possível tomar um cafezinho no Adolfo. A dona apressou-se a informar-nos que existe um albergue público em Sergude, novinho, com excelentes condições, pouco utilizado. Seria uma boa opção se não tivéssemos planeado pernoitar em Bruma e plano é plano, talvez para a próxima. Fomos prometendo que divulgaríamos a novidade e aí está ela: para quem pretender fazer o Camiño Inglés a partir de A Coruña tem um albergue da rede pública à vossa espera em Sergude. O que ganham com isso? Localiza-se mais ou menos ao vigésimo quinto quilómetro, antes da terrível tirada de cerca de 5 quilómetros pronunciadamente inclinados que se seguem, logo a seguir ao Café Central em Desabanda a que os galegos chamam A Costaneira. Se não fossem os chupitos de hierbas que aí degustámos, ficaria complicado chegar à antena que plantaram quase no topo.




A reposição de líquidos é possível em As Travessas, a um saltinho do albergue de Bruma, onde manda o jovial e despachado D. Benino. Chegámos em boa hora: a lotação é pequena e 10 minutos depois já estava a chegar um grupo de pesados alemães, e depois outro, provenientes de Ferrol que já não tiveram lugar. Felizmente para eles, D. Benino está preparado para os reencaminhar para os albergues privados de Meson do Vento. Ali, a 50 metros do albergue, restaurante e esplanada satisfatórios.



Curiosidades recolhidas junto de D. Benino:
- em 2015, pernoitaram no albergue de Bruma mais de 4000 peregrinos;
- a maioria são espanhóis, seguidos de italianos, portugueses e alemães em número aproximadamente igual;
- há mais irlandeses a fazer o Camiño Inglés do que súbditos de Isabel II, que são mesmo raros;
- peregrinos de outras nacionalidades são residuais;
- na história do albergue foi registado um peregrino, único, da Namíbia;
- não há muitos peregrinos a fazerem o Camiño Inglés a partir de A Coruña; a esmagadora maioria parte de Ferrol, seguramente porque é esse que dá direito à “compostela”;

- neste dia, teremos sido os únicos que saíram de A Coruña.

domingo, 13 de março de 2016

Marcação do caminho - Vila Velha de Ródão_Castelo Branco_Soalheira


Projecto em curso: marcar o caminho nos concelhos de Vila Velha de Ródão e Castelo Branco. 
No fim de semana de 5 e 6 de Março de 2016 tratou-se do trajecto entre Vila Velha de Ródão e Castelo Branco (track  aqui)
No dia 12 de Março, sábado, completou-se o trajecto entre Castelo Branco e a Soalheira (track aqui).

O percurso foi estabelecido previamente pelo nosso estratega Xoaquim Branco, após aturados estudos e pesquisas. As setas amarelas foram desenhadas e configuradas pelo nosso artista Carlos Matos, em número de 600.

Material de apoio à fixação e pintura: uma enxó para alisar superfícies lenhosas e limpar ramos obstaculizadores de uma boa visibilidade, uma escova de arame para limpar superfícies não lenhosas, uma pistola de cola, pincel e lata de tinta amarela.  

A jornada começou manhã cedo no dia 5 de março, sábado, com uma agradável e curta viagem de comboio até Vila Velha de Ródão, breve incursão à pontinha do Alentejo do outro lado da ponte metálica sobre o tejo inaugurada em 1888, ao encontro da ultima seta amarela colocada pela Câmara de Nisa. A meio da ponte quedámo-nos um rato a admirar as paredes escarpadas das portas de ródão. Diz-nos a literatura que há 2,6 milhões de anos deveria haver aqui uma imponente cascata, até a água mole do tejo furar a pedra dura formando aquela imponente garganta para poder fluir livremente. Atravessamento da vila, subida para Atalaia, direitinho a Sarnadas e Amarelos. No dia 6, domingo, marcou-se o trajecto entre os Amarelos e a cidade albicastrense. Calcorrearam-se cerca de 34 km no total.

A região é predominantemente xistosa, a paisagem dominada por pinheiros e estevas, visivelmente despovoada até às imediações de Castelo Branco. Aqui, o caminho segue naturalmente pela rua de Santiago, entra na zona histórica na rua de Santa Maria em direção à Sé.

E aí se parou para reposição de níveis hídricos e decreto de fim de jornada.
Caminhantes: Anselmo Cunha, Benvinda Monteiro, Carlos Matos, Fernando Gaspar, Joaquim Branco, José Manuel Machado, Mário Raposo, Paula Marques.

Sábado, 12 de março, reencontro em frente à Sé e retoma na fixação de setas amarelas, passagem por baixo do arco que liga o jardim dos reis e paço episcopal ao parque da cidade, museu Francisco Tavares Proença Junior, rua da mina abaixo às endireituras da ponte de Santiago sobre o Ocreza, passagem pela capela do santo em Caféde, Póvoa do Rio de Moinhos, ultrapassagem da barragem de Santa Águeda / Marateca pela esquerda, até à Soalheira e à primeira sinalética do Fundão. A orografia não é tão enrugada como na etapa anterior, nos campos a esteva já não é rainha cedendo o lugar a montados de sobro alternando com olivais desordenados e verdejantes prados ladeados por carvalhos negrais. Sempre pelas 12 horas impõe-se o recorte da Gardunha e, como que espreitando por cima do seu ombro, a alvura da estrela.

Caminhantes: Carlos Matos, Joaquim Branco e Paula Marques.

Objectivo cumprido: os peregrinos que atravessarem os concelhos de Vila Velha de Ródão e de Castelo Branco não deixarão de tropeçar regularmente com as setas amarelas que lhes confirmarão que vão bem. Bom caminho para todos eles.








 





terça-feira, 28 de julho de 2015

INSTANTÂNEO XIV

“Podemos não saber a razão porque fazemos o caminho, mas de certeza que temos uma”, decretou um filósofo de mochila às costas. Entre muitas outras, a perspectiva de encontrar gente de outras latitudes e estabelecer conversa, foi (é) uma das mais valorizadas motivações para se fazer o caminho. Isto é absolutamente verdade para estes peregrinos albicastrenses mas sê-lo-á seguramente também para muitos dos que abraçam esta extraordinária aventura de rumar a Santiago.

Não se perde uma oportunidade de interacção com qualquer um ou qualquer uma, velho ou nova, na língua mais a jeito. A entreajuda, essa, é uma obrigação sagrada. Um peregrino está sempre disponível para ajudar outro peregrino. Incondicionalmente. Assim deve ter sido ao longo dos séculos, desde que os druidas celtas se meteram a buscar o fim da terra para aí orarem ao deus sol, continuado na cristianização do movimento desviado para Compostela, partilhado e alimentado tanto por reis como Alfonso II ou a nossa Santa Isabel, como pelo humilde servo da gleba actual.

Zé Manel comunga, por excesso e por defeito, de personalidade e profissional, respectivamente, desse ancestral e verdadeiro espírito de acudir a qualquer um que necessite.

Aconteceu que - algures entre Pontevedra e Caldas del Rey - foi chamado a acudir a duas vistosas jovens que nele anteviram a imagem de um qualquer messias salvador. Parece que os dentes metálicos do fecho-eclair da mochila tinham cariado e não corriam no cursor. Parece que elas vinham pela arte e engenho de Zé Manel na esperança que ele encaixasse adequadamente os dentes do fecho-eclair da mochila.

Não há qualquer evidência que Zé Manel tenha entendido o que as duas beldades pretendiam dele, considerando a rudimentaridade do seu inglês. A verdade é que, Zé Manel, num tom entre o meloso e o provocatório, não hesitou:


- Ó meninas… eu tenho tudo o que vós precisais…


sábado, 18 de julho de 2015

Diário de Caminhada - Caminhos do fim da terra - Etapa IV

CAMINHOS DO FIM DA TERRA

Caminhantes:

Anselmo, Benvinda Monteiro, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Jaime Matos, João Valente, Joaquim Branco, José Manuel Machado, Paula Marques, Raul Maia.


ETAPA IV – Muxía - Fisterra
10/06/2015




Naquele tempo, julgava-se que o cabo Fisterra era a ponta mais ocidental da Europa, o local onde a terra acabava e o mar sem fim começava. Havíamos de ter oportunidade de esclarecer alguns peregrinos desactualizados, e apontar o cabo da Roca como o ponto mais ocidental do continente europeu. Na hora, não houve discernimento para tal, mas teríamos feito um figurão se a esses mesmos peregrinos exibíssemos que em matéria de fim da terra e começo do mar, nós, se calhar melhor que ninguém, também podemos falar d’alto, e ilustrássemos assim (com a devida vénia ao galáctico Camões):

"Já a vista pouco e pouco se desterra
Daqueles pátrios montes que ficavam;
Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam;
E já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais enfim que mar e céu

Até Fisterra, sabiamo-lo, só encontraríamos um local para parar e abastecer: Lires. Pressente-se a proximidade do mar, mas só o veríamos à vista da enorme baía dominada pelo imponente Monte Pindo. O trajecto é agradável, propício a amenizar a fadiga do 4º dia consecutivo de caminhada, sobretudo nos trilhos estreitos bordejados por bastos e verdejantes fetos e ensombreados por frondosos carvalhos e eucaliptos empinados.






A espaços, ocorria o cruzamento com os muitos peregrinos que optaram por realizar o caminho a terminar em Muxía. No mesmo sentido que o nosso, destaque para as 4 jovens japonesas que mereceram a nossa simpatia e admiração, não só porque se exibiam sempre sorridentes como é do seu perfil estereotipado, mas também porque caminhavam há 45 dias seguidos. Depois de todo o caminho francês, ei-las a completar o circuito até Fisterra. Abona a favor, o facto de serem relativamente secas de carne, logo mais leves.






Em Fisterra, localidade, corremos a repor os níveis com duas canecas das grandes de cerveja com limão, mesmo antes de atacarmos o istmo de mais de 3 km até ao promontório sagrado, sabendo que a viagem era de volta atrás.

A literatura antiga convida o peregrino que completa ali o caminho a cumprir a tradição de queimar as botas e a indumentária que usa no momento, bem como a descer o promontório e mergulhar no mar ao por do sol. Autores mais liberais e atrevidos advertem mesmo que o banho no mar deverá ser feito sem qualquer roupa, sustentando a tese de que este banho de limpeza do corpo cansado está associada à limpeza de pecados concedida ao peregrino pelo facto de ter encetado e concluído a peregrinação. E, ainda, no facto trivial e pretensamente coerente de o peregrino não possuir roupas uma vez que as acabara de queimar. Foi cumprida apenas a parte da queima de tshirts usadas na empreitada. De resto, ofereceram-se os peregrinos um breve tempo de relaxe a mirar o tal mar sem fim, desde o tal fim da terra, na tentativa de pressentirem um cheirinho da perspectiva que seria a dos antigos quando ali chegavam e lhes era dado mirar o mar infindável no qual o sol se desvanecia todas as tardes. Aliás, toda a Costa da Morte carrega uma dimensão esotérica e mística, assente em numerosas lendas e cultos antigos, todos eles substituídos no processo de cristianização que se operou sobretudo durante a Idade Média, ou a ele referenciados.



Para além das histórias sobre a Virgem que navegava numa barca de pedra (Muxía), parece que a imagem do Santo Cristo terá dado à praia e originado movimento de grande devoção que ainda hoje perdura; a ira divina terá submergido cidades como Dugium como castigo por os seus mandantes não terem autorizado a sepultura das relíquias santas do apóstolo; na ponta do promontório os fenícios terão erigido um altar ao sol supostamente destruído por Santiago; monte Pindo seria uma espécie de Olimpo dos celtas, etc.

A mais fantástica, todavia, é a que nos leva a olhar para o céu nocturno estrelado e a imaginar aquela enorme mancha composta por biliões de estrelas, a que alguns chamam Via Láctea, mas muitos preferem ver ali a projecção do Caminho de Santiago apontando precisamente para esta Fisterra.





Carregados com a Muxiana e com a Fisterrana, carregados com os sentimentos de mais uma extraordinária experiência, carregados com a vontade de continuar a fazer caminhos, estes, e outros, regressaram estes peregrinos a casa. Satisfeitos. Limpos de todos os pecados.



Post Scriptum

Um pouco à margem do camiño propriamente dito, ainda 3 notas dignas de registo.

A primeira vai para a viagem de autocarro entre Fisterra e Compostela: quase 3 horas. A camioneta da carreira serpenteia por uma série de rias, pára em muitos apeadeiros, inclui transbordo para outra camioneta da carreira e, deixa-nos no terminal compostelano obrigando a mais 20 minutos de caminhada até ao albergue. Ou seja, o peregrino que acabou a sua viagem em Fisterra desde Muxía, foi ao promontório e regressou, quase 40 km palmilhados, ainda leva com 3 horas dentro de uma camioneta antes de tomar um duche, vestir roupa lavadinha e deambular um pouquinho por entre a velha história da velha Compostela.

Chegados à Rua de Preguntório - cá vai a 2ª nota -, já o sol se tinha amagado lá por debaixo de Fisterra, eis que são estes peregrinos informados de que não há duche com água quente, devido a avaria da caldeira. Valeu a motivação militar de alguns, o incentivo de outros, sustentado na tese de que a água fria é boa para os músculos, mas, sobretudo, a necessidade de se voltar a sentir aquela sensação de tapar um corpo lavadinho com roupa lavadinha.

Finalmente, 3ª nota, esta positiva: o reencontro do Xoaquim Branco com o nosso amigo Sergio de Nisa (blogue campus stellae). Foi no Manolo, restaurante habitual, mesmo antes da partida. A justificação desta referência advém do pormenor de que, contou Xoaquim, é a uma conversa em Nisa com Sergio que se deve ir buscar um dos embriões da ideia de se fazer o caminho português desde Castelo Branco. Aliás, Xoaquim e Matos, já por diversas vezes reivindicaram que, na verdade, eles os dois, e só eles, têm o percurso feito desde o Crato até Compostela. Não há muitos com este curriculum.