segunda-feira, 18 de maio de 2015

FÁTIMA POR OUTROS CAMINHOS - 2015 - ETAPAS III / IV / V

Caminhantes:
Anselmo, Benvinda Monteiro, Carlos Filipe, Carlos Matos, Fernando Gaspar, João Dias, João Salvado, Joaquim Branco, José Luís Rodrigues, José Manuel Machado, Mário, Piedade Gabriel.

SINOPSE:


11/04/2015, sábado
ETAPA III: Proença-a-Nova (SOTIMA) – Vila de Rei, 30 kms, em 10 horas
12/04/2015, domingo
ETAPA IV: Vila de Rei – Alviobeira, 29 kms, em 9 horas
26/04/2015, domingo
ETAPA V: Alviobeira – Fátima, 46 kms, em 12 horas e 40 minutos

ACUMULADO:
Castelo Branco - Fátima: 146 kms
Concelhos: Castelo Branco, Vila Velha de Ródão, Proença-a-Nova, Mação, Vila de Rei, Ferreira do Zêzere, Tomar, Ourém.
Bacias hidrográficas: Ocreza, Tejo, Zêzere, Nabão

(Track completo AQUI)



ETAPA III: Proença-a-Nova (SOTIMA) – Vila de Rei


A etapa III começa em ambiente descontraído, reforçado com os dizeres inscritos na placa colocada 200 metros à frente do cruzamento de acesso à antiga Sotima:  “Centro I.R. Animais Errantes”. Era apontado o sentido da direita e ... foi para a direita que virámos, embrenhando-nos no coração da região a que apropriadamente foi atribuído o nome de Pinhal – o tal pinhal que supostamente terá sido semeado de aeroplano como referido na crónica anterior. Havíamos de constatar, todavia, que há quem ande empenhado em boicotar tal nome, considerando a quantidade de eucaliptais que já se intrometeram.



Nas quase 3 horas que precisámos para atingir Cardigos, nenhuma alma nos “incomodou”, logo a nós que gostamos de ser incomodados. Sempre em terra batida, bordejámos os raros e pequenos lugarejos característicos destas paragens impondo-nos a nós próprios, estoicamente, a privação de parar em todas as capelinhas para “rezar” ao lúpulo e à cevada fermentados. As energias gastas a subir até Cardigos foram repostas com descanso e almoço no Café Central – há sempre um Café Central.













À distância, guiava-nos a ponta fálica da Milriça, convencionalmente o ponto que marca o centro geodésico de Portugal, porque sabíamos que mesmo ao lado, estava Vila de Rei. O Roteiro Turístico recolhido propunha: “ experimente dobrar simetricamente um mapa de Portugal Continental em quatro partes: no ponto de união das dobras encontrará Vila de Rei.” Havemos de experimentar.

Naturalmente, nunca prescindimos de seguir as ordens do nosso estratega Xoaquim Branco que, a cada Alminhas, nos comandava em frente marche, esquerda volver, direita volver, depois de consultar o seu apêndice GPS. Os vestígios do gigantesco incêndio de 2003 que cinzentou quase 80% da área florestal do concelho de Vila de Rei, ainda são perceptíveis, pese embora a mãe natureza, na sua infinita paciência, os venha cuidadosamente apagando. Se assim não fosse, se a mãe natureza não desse uma mãozinha, ficaria comprometido o objectivo dos senhores autarcas que projectaram e mandaram construir a piscina fluvial de Cardigos, um espaço agradável, seguramente refrescante no estio.

Em Vila de Rei já nos esperavam na pensão/restaurante com o invulgar nome “o Cobra”. Instalações de repouso e banho próximos dos valores mínimos do intervalo de confiança. Igual classificação para o jantar. Notas muito positivas para a sala de piso em xisto, bem decorada e boas vistas. Mais ainda para a jovem vilaregense que nos aprovisionou sem nunca abandonar a sua postura profissional, mesmo quando a conversa subia exageradamente de volume e os ditos raiavam o brejeiro.

Ao final da tarde, tempo para passeio pela zona mais antiga da vila, muito bem arranjada e limpa. Disponíveis vários museus – Geodesia, Municipal, das Aldeias, do Fogo etc., merecendo este último a nossa inspecção mais demorada. Recomenda-se. Os outros locais e motivos de interesse tiveram de ficar para uma próxima oportunidade, incluindo a sala José Cardoso Pires na Biblioteca Municipal. As ruas desertas não surpreenderam ninguém.



ETAPA IV: Vila de Rei – Alviobeira
Era dia de feira em Vila de Rei. O povo começou a juntar-se bem cedo e a azáfama era geral. Desjejuados em estabelecimento local, rumámos a oeste pelo PR1 VLR também conhecido por trilho das cascatas, direitinhos à cascata do Escalvadouro. A água da ribeira do Lavadouro é abruptamente obrigada a cair na vertical por uma parede de cerca de 10 metros criando um efeito que é sempre bonito de se ver. A descida até à estrada que nos levaria à ponte sobre o Zêzere, faz-se por um trilho estreito e inclinações por vezes pronunciadas, a vegetação ameaça abraçar-nos, enfim, a obrigar a cuidados especiais para evitar quedas e escorregadelas.




















Até ao Zêzere, os ténis pisaram, coisa rara neste projecto, cerca de 5 quilómetros de alcatrão. É um rio fabuloso, o Zêzere. Quem o mira desde a ponte, disfarçado de albufeira, não se lembra de o imaginar na sua forma original, rugindo viril, emproado por ter tido a paciência e a persistência de romper por entre aqueles montes, impondo imponentes penhascos e ravinas. Agora, à conta do enorme paredão de Castelo de Bode, o mirante delicia-se com um relaxante espelho de água, ligeiramente sinuoso, sugestivamente renomeado de “lago azul”. Lá em baixo, sob esse azul, escondem-se peixes de desmesurado tamanho, indevidamente importados de outras latitudes, devoradores das espécies autóctones, e que, uma vez, alguém mais assustadiço confundiu com um crocodilo, dando um surpreendente motivo de reportagem ao nosso amigo Nunes Farias.
Regressámos à terra batida até próximo de Ferreira do Zêzere. Alviobeira, já no concelho de Tomar assistiu à nossa chegada batidas já as 4 da tarde.


ETAPA V: Alviobeira – Fátima

Tirada valente até Fátima. Questionado sobre quão valente ela seria, o nosso estratega do GPS Xoaquim Branco, após muita insistência, lá foi adiantando que podiam muito bem ser mais de 40 metros vezes mil. Carlos Filipe, homem das Finanças, desconfiou e avisou que sobre aquele número deveria incidir IVA.  De luxo. O aparelhinho haveria de registar 46,9, junto à capelinha das aparições.

A viagem iniciou-se em modo predominantemente descendente até ao Nabão, com passagem pelo pontão que 2000 anos depois construíram a jusante da ponte romana que já não passa ninguém para o outro lado, na ribeira da Milheira. Em homenagem aos imperiais romanos que tanto nos ensinaram, fizeram os caminhantes questão de posar sobre a velha estrutura para a pequena objectiva assente em minúsculo espécie de tripé do Zé Manel Machado. Logo a seguir, demos com as ruínas de uma antiga fábrica de papel à beira do Nabão, num sítio aprazível, melhorado com um pequeno açude.






Geologicamente, já estamos no planeta do calcário. A floresta de pinhal e eucaliptal é muito menos densa, convivendo com outras espécies, a terra é mais facilitadora do trabalho humano, oferecendo-se mais fértil e aplanada. Indo de encontro às expectativas e vontade expressa dos caminhantes, Xoaquim Branco traçou um percurso, digamos, essencialmente rural, por caminhos maioritariamente de terra batida, algo diferente do caminho habitual que contempla longos trajectos em área urbana.





Na paisagem já se começa a destacar a colina do castelo de Ourém. Pese embora alguma resistência, considerando a distância já cumprida - quase 30 km - fomos discretamente encaminhados a subir ao castelo. Em boa hora. Sente-se que ali há muita história. A torre de D. Mécia espicaça a nossa imaginação fantástica, colocando-a aprisionada naqueles aposentos impedida de ser rainha de Portugal. A mesma pesquisa posterior também havia de nos dar a saber que foi daqui que o condestável bonjardino partiu para uma das vitórias maiores na nossa portugalidade, Aljubarrota.


A descida é feita pela calçada da mulher morta, decididos a rumar a Fátima sem vacilar. A aproximação é feita pelo Alto das Pinheiras com entrada na freguesia de Fátima pela N356, um troço marcado pela "calçada" natural em calcário tipicamente esburacado, ladeado por frondosa mata de arbustos onde pontifica o alecrim, emprestando um odor muito agradável.


Eis-nos no destino. Orgulhosos e com a alma cheia de novas sensações e experiências que "O CAMINHO" sempre nos oferece. Se as pudéssemos converter em valor material, seriamos umas pessoas abastadas.




domingo, 17 de maio de 2015

INSTANTÂNEOS - XIII

Interior é Interior e a desertificação é cada vez mais uma das suas características. Recentemente, os académicos estudiosos da problemática têm concordado em referir-se a esse "Interior" como "territórios de baixa densidade" o que também é bonito. Os políticos, habitualmente mais criativos, acrescentaram um elemento que alcandora o conceito ao topo e passaram a falar em "territórios de baixa densidade mas" ... (atenção ao pormenor) "com elevado potencial". Seja como for, estamos em territórios onde não há gente e os serviços escasseiam, entendendo-se estes (neste particular) como estabelecimentos comerciais de comeres e beberes, de pasto, se se preferir, tabernas, para os menos esquisitos. Para caminhantes com o espírito que estes invocam e praticam, essa rarefação representa um percalço, tão grave como uma borrega junto ao pododáctilo maior do pé direito.

Caminhava-se já há bem mais do que um par de horas na companhia quase exclusiva de passarinhos a cantar, pinheiros e eucaliptos, os caminhantes clamavam por descanso, alguns dispunham-se mesmo a trocar o seu reino por uma cerveja quando arrivámos a Serra de Baixo, pequeno lugarejo onde a D. Natália possui um pequeno café e minimercado. Eis que lhe entram porta adentro uma dúzia de clientes, sedentos, algo barulhentos. Foi visível o seu incómodo e hesitação perante a catadupa de pedidos:

- uma sagres média fresquinha para mim;
- outra para mim, urgente;
- eu antes quero mine;
- não tem super bock?
- são dois cafés para aqui;
- arranje-me um Martini, por favor, com 2 pedras de gelo;
- ó minha senhora, para mim pode ser um traçadinho branco bem fresco.

As caricas foram saltando e as garrafas vazias iam-se alinhando em cima do balcão. Para cima da mesa saltaram croquetes, empadas, pão, queijo, borrachões... O destaque, porém, foi para o chouriço apresentado por João Dias, que ele se encarregou de apregoar como caseiro e de excelente qualidade, saído das mãos e da arte em extinção da sua senhora sogra. Perante tal publicidade, atiraram-se os apreciadores ao dito. Unanimemente, confirmaram a qualidade extra do produto, recomendando ao João Dias que estimasse a senhora sua sogra, de maneira a que ela continuasse a presenteá-lo com tais iguarias. Sai-se então este genro ingrato:

- Não é preciso, que eles aparecem lá em casa na mesma. Eu até já lhe disse: olhe, sogra, nem que você me oferecesse um chouriço todos os dias, não me pagava o mal que me fez.

O estado de espírito dos caminhantes ia em crescendo, por via do ambiente descontraído, as forças iam-se retemperando à conta do reforço alimentar mas também do descanso. D. Natália, essa, continuava atarefada a retirar caricas e a alinhar garrafas vazias em cima do balcão. Notou-se algum desapontamento no seio do grupo quando ela veio anunciar, timidamente, algo envergonhada mesmo:

- Vocês desculpem, mas já não tenho mais cerveja fresca.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

FÁTIMA POR OUTROS CAMINHOS - 2015 - CARLOS FILIPE

A nossa mais recente aquisição - CARLOS FILIPE - brindou-nos com este belíssimo texto:

"Corria o ano da graça de 2015, mais concretamente o dia 24 de janeiro quando, no interlúdio de um belíssimo repasto que teve lugar na cidade da Figueira da Foz, o meu amigo Carlos Matos me informou que iria encetar em breve uma viagem de Castelo Branco até ao Santuário de N. Sra. de Fátima.
Convém neste momento referir que de há uns anos a esta parte, este menino de quem se fala foi uma boa meia dúzia de vezes (pelo menos) àquele local. Noutras duas ocasiões rumou a Santiago de Compostela, uma das quais fazendo o percurso desde a porta da sua residência até à Catedral de Santiago (cerca de 5 centenas de km!) sempre recorrendo a uma de duas formas: a pé ou andando!! Um mero amador, portanto!!!
Ora, voltando ao repasto, estava eu a “embalar” uma tosta cuidadosa e minuciosamente revestida com paté de atum, quando ele me disse que iria voltar a fazer o dito percurso. Pensei imediatamente: “peaners”.
E continuou, enquanto eu roía mais uma azeitona, dizendo que a empreitada seria levada a cabo pelos suspeitos do costume, quase todos digníssimos membros da Confraria dos Caminhos, grupo constituído por vários especialistas destas andanças. Acrescentou ainda que este ano seria algo diferente, na medida em que o percurso seria feito em mais dias (6 contra os 3 normais), com um grupo mais reduzido (cerca de dez pessoas contra os vinte e tais dos anos anteriores), obedecendo a uma filosofia de autogestão, em que cada um levaria à sua conta (tradução: às costas) o material necessário e o percurso seria pelo meio do mato. Ok, pensei eu, “traçando” um pastelinho de bacalhau.
E termina, disparando: queres ir? A resposta saiu pronta: Nesses moldes, porque não?
Ainda hoje desconheço a razão, mas o certo é que nesse momento os restantes comensais presentes na mesa suspenderam, momentaneamente é certo, a actividade degustativa e rodaram a cabeça na nossa direcção...
Não vou maçar ninguém com os pormenores da viagem, até porque os mesmos estão superiormente descritos pelo Anselmo no Blog da Confraria, mas antes tecer algumas considerações pessoais sobre a mesma.
Haverá decerto quem leia estas linhas e pense que dado o nº de dias decorridos e respectiva quilometragem, este percurso nada tem de especial. Comparando com o que normalmente é feito (3 dias: 60km, 50Km, 40Km) admito que terão a sua razão.
No entanto, considerando que esta foi a minha 1ª experiência nestas coisas e principalmente que, por minha exclusiva culpa e armado em artista, não fiz qualquer tipo de preparação, o 1º fim-de-semana (em especial o 1º dia) foi duro. Muito duro!
Quando ao fim de 15Km vi o amigo Branco olhar para o seu GPS e dizer que estávamos quase a atingir a metade do percurso até engoli em seco. Apercebi-me nesse momento de algo que desconhecia: à distância anunciada pelo Branco no início da secção havia que aplicar uma taxa de IVA. 
E dadas as diferenças obtidas, isto de andar a pé deve ser considerado bem de luxo pois a taxa era alta!
Do almoço para a frente, cada passo era um martírio: a subir doía-me do joelho para cima e a descer era do joelho para baixo. Pelo menos nenhuma das partes tinha algo a apontar à outra…
Não falei (a não ser para amaldiçoar tudo e todos, sem grande critério diga-se), não apreciei a paisagem, não fiz fotografias, nada. A coisa chegou ao ponto de só não ter “dado ao slide” nesse 1º dia por vergonha, orgulho e, agora que penso nisso, por respeito pelo Carlos e restantes companheiros de luta que não mereciam tal atitude. 
E em boa hora não o fiz!
Após um fantástico jantar acompanhado de saudável convívio e uma restauradora noite de descanso (em que nem ouvi o concerto de sopro do Matos, fiel companheiro de quarto), o 2º dia já correu francamente melhor, a que não será de todo alheio o facto de ter começado com um pequeno-almoço digno de campeões: pão, ovos mexidos, chouriço, presunto e outras iguarias, com uma média fresquinha a acompanhar.
Baixa da etapa: uns ténis Berg (comprados 2 semanas antes) que entregaram a alma ao criador no final dos 60Km. Outdoor? Certo...
Já nas restantes etapas tudo correu sobre carris, o que me fez reflectir e admirar a extraordinária capacidade de adaptação da máquina que é o corpo humano. Há uns meses atrás quem é que me havia de convencer que na última etapa seria capaz de levar de vencida os cerca de 46Km que nos separavam do final? E o certo é que foi isso que aconteceu, sem nada mais a apontar do que o cansaço normal do esforço.
Chegados ao Santuário, a sensação de objectivo cumprido era evidente. Mas mais evidente ainda é a sensação de pequenez que sempre tive das poucas vezes que ali estive, não tendo nesta ocasião sido diferente. A fé das pessoas, quer se concorde ou não com a sua origem, é algo de extraordinariamente imenso. E ainda que da minha parte não houvesse qualquer intuito religioso associado à viagem, foi também por respeito a quem tem essa fé que acendi duas velas: uma por quem achei que gostaria de o fazer; outra por quem já não o pode fazer.
Muito obrigado Anselmo, Benvinda, Carlos, Fernando, João Dias,Salvado, Branco, José Luis, José Manuel, Mário e Piedade.
Dois agradecimentos especiais:
Ao Matos, por me ter convidado para fazer parte deste grupo e proporcionado esta experiência feita de convívio e amizade, em que tive o privilégio de partilhar algum tempo com estas pessoas, umas conhecidas de longa data e outras que eram até então totalmente desconhecidas. Pessoas diferentes com profissões diferentes, vivências diferentes e opiniões diferentes.
Ao Branco, por toda a dedicação na organização e logística da coisa, mesmo estando constantemente debaixo de fogo, com ameaças verbais recorrentes e bocas de diversa ordem, nomeadamente da minha parte. Reagiu sempre com boa disposição, embora tenha ficado meio atrapalhado quando a meio do 1º dia lhe disse que não me voltava a apanhar lá… 
Deixo o registo das datas, distâncias e algumas fotos que fui fazendo.
28/02/2015, Castelo Branco a Foz do Cobrão: 33km
01/03/2015, Foz do Cobrão a Proença-a-Nova: 27km
11/04/2015, Proença-a-Nova a Vila de Rei: 28Km
12/04/2015, Vila de Rei a Alviobeira: 29Km
26/04/2015, Alviobeira ao Santuário: 46Km
Castelo Branco, 27/04/2015