sexta-feira, 15 de agosto de 2025

INSTANTÂNEOS - XXIX



 


Foi no caminho Lebaniego que tudo se passou. Não foi connosco, mas podia ter sido. O Mário Videira é que nos contou esta história.

Ia ele todo contente, cantando e rindo, quando, à chegada a um pequeno pueblo, tropeça num casal de seniores que cumpriam a sua caminhada diária. A comarca de la Liébana fará parte da lista de regiões de baixa densidade da imensa España vaciada, pontuada por pequenas aldeias habitadas por gente sénior onde qualquer quebra da rotina é valorizada.

Entabulada a conversa de circunstância e, antes que se perdesse a oportunidade, Doña Pilar apressou-se a convidar Mário a sentar-se num banquinho que por ali estava, vira-se para Don Paco seu marido e do alto da sua autoridade matriarcal, ordena:

- Tu, vai andando para casa que eu já lá vou ter, porque eu preciso de falar com este senhor (tradução livre do castelhano com sotaque cantábrico).

Ela precisava, deduz-se, de falar um pouco com alguém diferente do seu Paco. E, coincidência, o Mário precisava de descansar um pouco, porque, parece que aquele caminho Lebaniego não é para meninos.

Para além do Lignum Crucis (para os crentes, o maior fragmento da cruz em que Jesus foi crucificado), o caminho atrai igualmente pelas paisagens dos montes cantábricos, cercanas dos Picos de Europa. Provavelmente por esse motivo, as autoridades espanholas responsáveis pelo Turismo terão providenciado algum investimento na colocação de sinalética. O Mário, à cautela, ia confirmando com recurso às novas tecnologias de localização. Nunca se sentiu perdido.

Falava ele disso, na presunção de que a simpática interlocutora autóctone reconheceria e valorizaria o facto de pela sua aldeia passar um caminho milenar e que a melhoria na sinalética poderia significar mais peregrinos, um pouco mais de animação, mais quebras na rotina.

Ficou algo desconcertado com a opinião diferente, contrária mesmo, de Doña Pilar. 

Entendeu tudo quando ela o interrompeu para dizer:

- Não! Isso não é bom, porque agora já quase ninguém nos pergunta nada.

 

A navegação pesquisatória na rede global digital sobre o Caminho Lebaniego forneceu basta informação, resumindo-se:

- a Cantabria é a única região do mundo cristão que conta com dois caminhos de peregrinação Património Mundial da UNESCO: o Caminho Lebaniego e o Caminho do Norte;

- o lugar central e destino do Caminho Lebaniego é o mosteiro de Santo Toribio que faz parte do seleto grupo de cinco lugares santos do cristianismo que concedem o privilégio do jubileu, junto com Roma, Santiago de Compostela, Caravaca de la Cruz e Jerusalém;

- é lá que está depositada e preservado o Lignum Crucis, o motivo principal que justifica a peregrinação, que já se faz desde o século VIII.


domingo, 27 de julho de 2025

José Alberto Martins. Uma vida, várias missões e vários caminhos.


 José Alberto Martins nasceu em Navais, Póvoa do Varzim, em 1972.

Licenciado em Medicina pela Universidade do Porto, peregrino, de Santiago, mas sobretudo do Mundo. Na “Conversas no Caminho” realizada no passado dia 18 de junho, que também contou com a participação do historiador Joel Cleto, o Dr. José Alberto Martins partilhou as suas experiências como Médico em várias latitudes onde ele foi preciso e (extremamente) útil, com destaque para as missões em São Tomé e Príncipe, na Guiné e em Timor Leste.

Aí ficam algumas das suas memórias, de boa parte da vida dedicada a facilitar o Caminho de outros.



Uma Reflexão de Vida:

Os Valores como Justiça, Igualdade, Humanidade, entrega ao próximo e Fé, deveriam ser universais, eles têm sido os meus valores de Vida.

Portugal, Timor Leste e José Alberto Martins.

Um testemunho de vida!

 

A primeira memória que me ocorreu quando decidi transpor em palavras o que me vai na alma remonta a algures a 1978-79.

Estou num banco corrido de madeira na sala de espera da Casa do Povo de Aguçadoura, Póvoa de Varzim.  Estou a arder em febre, com arrepios e muito mau estar, deitado no colo da minha mãe, cansado duma difícil caminhada de mais de 4 km de casa até onde funciona o posto de saúde, futuro Centro de Saúde, nos primórdios do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Lembro-me duma médica, jovem, muito simpática, era a segunda vez que me tratava. Recordo uma capa de arquivo com canhotos de caixas de medicamentos e o que mais tarde descobri serem as bulas de medicamentos (seria o Índice terapêutico dela, suponho eu).

Saí muito feliz!!! Doente mas feliz! Recebi da simpática Sr.ª Doutora a minha maior prenda que me recordo desses anos: um pequeno livro de Erico Veríssimo, Um certo Capitão Rodrigo.

O meu primeiro sonho, queria ser médico!

Mas na minha vida quase tudo vem com boa dose de sofrimento... e os próximos dias o meu rabo sentiria os efeitos da penicilina!!!

Não me lembro do nome dessa colega, nem onde está agora, mas devo-lhe o lançamento desta semente maravilhosa de querer cuidar dos outros!

Ser Médico!

A segunda memória, aconteceu aos 12-13 anos, junto à igreja de Navais onde nasci e vivia. Era dia de visita da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, uma carrinha Citroën, vermelho escuro. Não perdia uma única vez essas visitas! Numa família de gente pobre e analfabeta não haviam livros! Mas sabia onde procurar!!!

Vi com atenção um volume das Selecções do Reader's Digest. Em primeira página um desenho duma equipa de médicos dos MSF a passar uma montanha. Era a descrição do trabalho dos Médicins Sans Frontiéres franceses e belgas no Afeganistão, durante a guerra entre os mujahidin afegãos e os russos nos anos 80. E aí surge outro sonho, serei médico missionário como eles!

Terceira memória, surge bem mais tarde a 12 de novembro de 1991. Os vídeos e fotos do jornalista Max Stahl do massacre no cemitério de Santa Cruz em Díli, Timor Leste provocou uma explosão de emoções e sentimentos. Obrigou-me a olhar o Mundo de olhos bem abertos! Surge o Free East Timor!

Nesse início do ano letivo, a minha vida era já muito intensa.

Estava no 2º ano de Medicina na Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto, nas Biomédicas como se chamava e no velhinho Hospital Santo António.

Eram as aulas, a vida social na faculdade, na residência universitária do Breiner, o desporto universitário, ser delegado de ano, o Pormsic (intercâmbio de estudantes), ser representante dos alunos no conselho pedagógico e em especial o voluntariado na urgência pela Liga de Amigos do Hospital Santo António.

Depois do 11 de novembro damos início, com o Luís de Leiria e o Miguel Martins ao NADH - Núcleo de Apoio aos Direitos Humanos, tendo como principal objetivo a luta pela liberdade do povo Maubere, de Timor Leste.

Timor foi uma luta constante do nosso NADH, culminou numa tarja Free East Timor nossa que chegou ao palco dos U2 em Alvalade em 1993.

Aluno bolseiro e trabalhador estudante, pois trabalhava aos fins de semana e férias, num restaurante, permitiam-me sobreviver sem os parcos apoios de meus simples pais.

As cantinas da Universidade do Porto eram já a minha casa, em especial as da Reitoria e de Engenharia. Mas estas eram de má qualidade na maioria das vezes. A bolsa vinha quase sempre com muitos meses de atraso, sendo frequente recebermos a primeira bolsa em janeiro/fevereiro.

Nesse novembro de 1991 a situação para muitos de nós bolseiros atingiu um limite. Alguns dias após termos visto as imagens de Timor, algumas dezenas de nós, munidos duma tijela da sopa de metal e uma colher fomos em manifestação ruidosa, muito ruidosa, da cantina da Reitoria até aos Serviços Sociais da Universidade na rua da Boa Hora onde interrompemos a rua durante horas. Vinda da PSP e polícia de choque resultou em muitas cacetadas, algumas cabeças partidas e vários colegas presos...

A luta contra as injustiças ganhou outra dimensão. Surgiu a Associação de Bolseiros da Universidade do Porto, e daí resultou claras melhorias nas cantinas, nas residências universitárias e no pagamento atempado das bolsas!

Quarta memória, estamos em setembro de 1999.

Acabamos de visitar uma puérpera no Hospital Materno-Infantil de São João dos Angolares, São Tomé e Príncipe. Éramos a equipa da AMI, Assistência Médica Internacional.

Estava um grupo imenso de pessoas a olhar para uma televisão comunitária na praça central. E paramos para ver: muitas imagens de destruição, choro, sofrimento. Era em Timor!!!

A 30 de Agosto de 1999 após o referendo que deu uma maioria esmagadora ao Sim à independência de Timor Leste do jugo Indonésio, que durava da invasão desta em 1975, resultou em ataques brutais das milícias pro indonésias. Houve centenas de mortos e centenas de milhares de deslocados nas montanhas.

Nos próximos dias, passo várias vezes pela TV comunitária para saber mais informações pela RTP Internacional. Os relatos são aterradores de Timor por um lado, mas ao mesmo tempo são espetaculares as imagens de emoção e apoio de Portugal e do Mundo.

O quanto daria para estar em Portugal nesse tempo. Mas tinha a minha missão no Caué. E o meu substituto viria em breve.

Várias pessoas que me marcaram antes e depois vão surgindo nas notícias: Xanana Gusmão, Ramos-Horta, Bispo Ximenes Belo, Bill Clinton, António Guterres, Dr. Fernando Nobre e alguns diplomatas como a Ana Gomes.

São Tomé era a minha quinta missão em África. A terceira pela AMI. Tinha estado já 3 vezes na Guiné Bissau, a última no ano anterior em plena guerra civil, 3 meses algures em Gabu e Sonaco, na frente de guerra entre a Junta Militar e as forças governamentais do General Nino Vieira apoiadas por tropas do Senegal e Guiné Conacri.

O ano de 1999 estava a ser memorável! Com 27 anos, a coordenar a missão da AMI, no distrito do Caué. Responsável pela vigilância materno infantil neste paraíso na Terra. Tinha como colega o Enf.º Luciano e a Teresa, minha namorada de há 5 anos, futura esposa e mãe dos meus filhos. Ela acabara o curso de Medicina em Julho e veio fazer a sua missão como voluntária.

Em janeiro desse ano tinha entrado na especialidade desejada, Anestesia, Cuidados Intensivos e Emergência dando continuidade aos votos feitos na igreja de Quinhamel, Guiné em 1995.

E um mês depois fui chamado para o SMO- Serviço Militar Obrigatório, na Marinha. Comecei no Alfeite depois na fragata NRP Jacinto Cândido, em missão de patrulha, apoio e Search and Rescue nos Açores. Terminei nas escolas da Marinha em Vila Franca de Xira e Hospital da Marinha. 

A ida para São Tomé surge por mero acaso numa visita de cortesia à sede da AMI, onde o Dr. Custódio Issa me propõe a missão de São Tomé que tinha ficado sem médico

Aquelas 3 semanas finais da missão em São Tomé foram um sobressalto continuo. A missão estava bem orientada e estável, contávamos sempre com o apoio da equipa dos HUC no hospital central na Cidade de São Tomé. Fizemos uma equipa luso-sãotomense fantástica. Coordenávamos uma equipa de dezenas de trabalhadores de saúde locais com especial atenção nas grávidas e crianças do distrito, percorríamos todas as roças e lugarejos, incluindo duas vezes por mês a comunidade do ilhéu das Rolas. Na altura com uma equipa de trabalhadores portugueses que estavam a construir o que seria o futuro Hotel Pestana no Ilhéu das Rolas.

A missão estava a ser fantástica mas há semanas que me sentia doente, extremamente cansado, com febre esporádica. Nesse tempo a malária era muito agressiva em São Tomé e uma preocupação persistente! O Luciano tinha ficado doente com ela duas vezes. Mas os testes eram negativos e não tinha acesso a exames que ajudassem.

O sobressalto/emoção era agravado pelas imagens de Timor, de Portugal e do Mundo em união pela causa Maubere.

A 25 de Setembro chego a Lisboa, terminada a missão. Vou à sede da AMI, em Marvila onde sou recebido pela Dr.ª Leonor Nobre. Diz-me que o Dr. Fernando Nobre, seu irmão Eduardo e alguns colegas que conheço bem da missão da Guiné do ano anterior, já se encontram na Austrália ou a caminho de lá.

Minutos para passar o relatório da missão de São Tomé, que ficou bem entregue pois o Enf. Luciano continuou em missão.

Queres ir para Timor? Foi a pergunta seguinte!

Claro que quero! Há muito tempo!!!

Lisboa-Póvoa de Varzim. Um beijo e um grande abraço aos meus pais. Sempre muito emocional as chegadas. As partidas eram de mansinho ou de madrugada!

E de imediato a minha mãe afirma: vais sair de novo, vais para Timor!

Pois vou mãe! Tenho que ir!!!

Aproveitei os dias par tentar descansar e mais uma vez passo pelo Hospital de Santo António. Primeiro pelo Serviço de Anestesia, a pedir autorização à Dr.ª Fernanda Nunes (que mais tarde viria ela a ser um uma apaixonada pela Guiné e seu povo).

Depois pelo Serviço de Pessoal para entregar mais um pedido de licença sem vencimento, assim não tinham como recusar! Tal como nas missões anteriores.

Dia 9 de Outubro de 1999 parti de Lisboa para a Austrália. Darwin.

Eu e mais alguns colegas voluntários, um médico, duas enfermeiras e dois logísticos. Darwin era o centro da ajuda a Timor, coordenado pela Interfet, força de intervenção em Timor. Primeiro militar e depois também civil até a transição para a ONU.

Uma máquina militar, logística, administrativa e toda a espécie de pessoas e instituições estavam nesta cidade do Norte da Austrália.  Dava início à missão mais importante da ONU nos últimos 50 anos. Coordenar e montar a administração dum “novo” país!!! Timor Leste. Que seria verdadeiramente independente, mais tarde em 2002 depois das eleições livres.

E foi a missão de Portugal, como país e como povo!

Ainda é, em especial na Educação da Língua Portuguesa.

E foi a mais espetacular Missão da AMI. Magnífica Missão como se veio a comprovar ao longo dos anos!

Díli, Timor-Leste, 12 de outubro de 1999.

Good morning Timor Leste. Como um filme de guerra ao vivo e a cores de cinza!!!

O que me impressionou?

A destruição!

E o olhar de receio e desconfiança dos adultos em contraste com o sorriso magnífico das crianças!

E por elas a missão valeu tudo!

Recebidos pelo Dr. Fernando Nobre, Dr.ª Fátima, Eduardo, Enf.º Aranha, enf.ª Nazaré, Enf.ª Duarte, a alma, o coração e o músculo efetivo da AMI.

Conhecemos o resto da equipa, médicos e enfermeiros australianos, logísticos, motoristas, uma grande equipa, uma grande família.

A AMI ficou responsável pelos cuidados de saúde num bairro de Díli e do distrito de Manatuto.

Alguns dias depois a minha equipa foi para Manatuto. Tínhamos a responsabilidade da organização e prestação dos cuidados de saúde de todo o distrito. Uma tarefa hercúlea!

Se Díli tinha impressionado pela destruição, Manatuto foi o esplendor da raiva das milícias pro indonésias.

Só a Igreja e o monumento a Santo António, no alto da montanha estavam incólumes. Sobraram 3-4 edifícios destruídos mas utilizáveis. O hospital era um retalho de cinzas!!!

Transformámos o edifício esventrado do banco em hospital em tempo recorde. Muito eficiente, multiétnico, ecológico e super-humano.

O sentido de missão, o cuidar, o viver, o sofrer, foram levados aos limites em muitas ocasiões!

Houve aspetos magníficos a recordar.

A chegada da NRP Vasco da Gama, ver os meus colegas de armas de alguns meses atrás a sair do helicóptero Linx fortemente armados, depois o apoio médico, logístico e humano da guarnição do navio foi magnífico.

A visita do Xanana Gusmão, do Ramos Horta acompanhado pelo Sérgio Vieira de Melo, do Dom Ximenes Belo, da missa do Bispo de Baucau Dom Basílio de Nascimento...

O trabalho magnífico com a missão militar das Filipinas.

Contrariando as indicações da AMI de não trabalhar com forças militares, a equipa AMI de Manatuto trabalhou com alma e coração com os militares portugueses da NRP Vasco da Gama e com os militares das Filipinas.

Armas não entravam!!!

Foi um envolvimento magnífico com a Interfet, ONU/UNTAET, Médicos Sem Fronteiras em Baucau, Cruz Vermelha Internacional em Díli e várias ONG’s estrangeiras.

Mas o melhor e mais marcante foi o trabalho efetivo com as muitas dezenas de profissionais da área da saúde que trabalharam connosco.

Manatuto, Laleia, Laclubar, Laclo, Soibada, Cribas e outras aldeias mais pequenas, tiveram apoio médico, medicamentos, formação, transportes de emergência, tudo o que estivesse ao nosso alcance e que conseguíamos! Quase tudo!...

O que me marcou na missão de Timor?

  A destruição!

 O sorriso magnífico e sempre presente das crianças em contraste com o olhar desconfiado e reservado dos adultos traduzindo muito sofrimento e espírito de sobrevivência!

 O sentir em cada momento difícil que havia um sentido que se manifestava das formas mais variadas! A sensação que nada acontecia por acaso!!!

Foi a missão da minha vida!!!

Sinto que só foi possível a missão de dar a liberdade a Timor Leste por uma corrente humana que deu a volta ao Mundo! E devidamente coordenados por várias pessoas fundamentais, destaco o Xanana Gusmão, Ramos Horta, Mari Alkatiri, Sérgio Vieira de Melo, António Guterres e Ana Gomes!

Cheguei a Portugal a 10 de Janeiro de 2000. Exausto mas sentindo-me a pessoa mais realizada do Mundo!!!

Depois da vinda de Timor soube que tinha contraído hepatite A e provavelmente febre tifóide em São Tomé e/ou em Timor!

 

Nota:

Acredito em Deus. Sou católico convicto. A minha religiosidade pratico-a no meu dia a dia. Não gosto de dogmas e muito menos de rituais padronizados.

Tenho como exemplos de vida a Madre Teresa de Calcutá, São Francisco Xavier e São Francisco de Assis. Conheci e trabalhei com pessoas maravilhosas e muitos mestres da minha caminhada como médico e missionário: a Irmã Valéria, o Frei Silvano e Dom Settimio Ferrazeta, missionários da Guiné, São Tomé e Timor. E muitos outros missionários com e sem título!

Sinto que a nossa vida só tem sentido em correntes de ação, de comunhão de princípios e atitudes para com os nossos e com os nossos semelhantes.

Todos iguais, todos necessários, todos essenciais!

 

José Alberto Martins

Médico

Janeiro de 2000,

Timor-Indonésia–Singapura-Frankfurt- Lisboa-Aveiro

domingo, 29 de junho de 2025

INSTANTÂNEOS - XXVIII


 

É impossível não tropeçar com eles, os asiáticos. Quase todos esguios, rodas baixas, sorridentes, ainda que pouco dados a grandes conversas.

Consultadas as estatísticas oficiais[1], ficámos a saber que só no ano de 2024 a oficina do peregrino registou 14.337 peregrinos provenientes da Coreia do Sul (8174), Taiwan (3866), Japão (1590), China (601) e Hong Kong (106).

Já foram feitos filmes e documentários sobre o Caminho, escritos muitos livros, até há gente que se entretém a escrever num blogue algumas das impressões que o caminho lhe inspira e pequenas histórias que presencia ou protagoniza. Ainda não há – pelo menos do nosso conhecimento -, mas seguramente vai aparecer um documentário, um filme, um estudo que seja, sobre o significativo número de asiáticos que vêm do outro lado do mundo para fazer o Caminho.

Provavelmente, nesse estudo, será desenvolvida, entre outras, a interessante hipótese ouvida por lá, de que as empresas sul coreanas valorizam os trabalhadores que atravessam meio mundo e utilizam as suas férias para caminharem durante um mês no Caminho de Santiago. Parece que, garantiram-nos, esses trabalhadores verão valorizados os seus curriculum vitae, porque essa sua decisão indicia alguém com coragem e resiliência, alguém que parte em busca do aperfeiçoamento pessoal, e as empresas sul coreanas apreciam isso num trabalhador.

A ser confirmada esta hipótese, estamos perante uma cultura organizacional muito avançada. E, também provavelmente, perante uma cultura, agora no sentido mais amplo, que igualmente enquadra pacificamente o caso de Ji-woo.

Seria rapariga para os quarenta anitos e deu nas vistas porque estava a fazer o Caminho acompanhada pelo seu cão Shin-chan, um simpático e dócil Labrador de pelo amarelo dourado. Como é óbvio o cão foi eleito a mascote de todos os peregrinos, aguentando deles, pacientemente, todas as festas e falinhas doces.

Tínhamos de meter conversa com ela. As condições eram propícias a uma boa charla, pese embora o seu inglês rudimentar e arrevesado com sotaque coreano: tempo fresco, caminho largo, plano, bom piso. De tal modo que Jin-woo acabou a sentir-se à vontade para partilhar alguns pormenores sobre si.

Deixam-se aqui quatro, avisando já que o último é absolutamente extraordinário.

Primeiro, ficou-se a saber que ela e o seu cão Shin-chan já cumpriam um acumulado de quase 600 quilómetros nos quarenta dias de Caminho Francês.

O segundo é que era casada e que tinha vindo fazer o Caminho por decisão própria, apenas com o seu cão, um sonho antigo.

O terceiro é que não precisava de trabalhar porque o marido tratava disso e com sucesso, porque era muito rico.

O quarto "pormenor" é que - confidenciou a própria - ele lhe enviava dinheiro para financiar este seu sonho.

Na nossa ocidental cultura, este último pormenor suscita inevitavelmente interpretações - putativamente machistas - sobre as “verdadeiras” intenções do marido. Mas uma cultura que majora o valor dos seus elementos porque eles vão quase às antípodas “só” para caminhar, é a mesma que deverá sublimar a genuína disponibilidade de um marido que financia o sonho da sua amada mulher Ji-woo de fazer o milenar Caminho de Santiago apenas na companhia do seu cão Shin-chan.


sábado, 21 de junho de 2025

CAMINHO FRANCÊS (3) - NOTAS DE REPORTAGEM - VII

 


Projecto (em curso): Caminho Francês, Fase 3.

Início: León

Término: O Cebreiro

Etapas: 7

Partida: 26 de abril de 2025

Chegada: 03 de maio de 2025

Distância total: 160 km

Acumulado Caminho Francês: 640 km

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.

 

    Notas de reportagem – VII

Do Caminho- fase 3 do Caminho Francês



Em termos de paisagem - e dificuldade -, o troço entre León e O Cebreiro pode ser dividido em 2 partes distintas, com divisória em Rabanal del Camino.

Até aqui, o caminho continua a oferecer inúmeros pontos de interesse designadamente no que concerne a património edificado, todavia, a paisagem será o elemento com menor cotação. Já se tinha referido antes que o planalto castelhano-leonês é relativamente monótono do ponto de vista paisagístico e de ocupação cultural do solo, dada a sua relativa homogeneidade: colinas suaves, searas extensas ocupadas com cereal, floresta pouca.

Admitindo-se um certo exagero na apreciação, sempre se dirá que o peregrino que tem na expectativa algo mais do que simplesmente “caminhar”, o caminho francês, nesta região de Castela e Leão torna-se, digamos, “aburrido”. Chega quase a ser penosa a saída de León, em que o caminho segue umas boas duas horas em perímetro urbano, levando o peregrino a ansiar que a qualquer momento acabe o alcatrão, as casas e seja engolido por um bosque com passarinhos a sinfoniar.

O monte Irago, porém, que se alcança logo a seguir a Rabanal del Camino, marca um antes e um depois.

Três elementos se destacam.

O primeiro são as aldeias de Foncebadón e de Molinaseca, verdadeiras jóias típicas e pitorescas, a última a reivindicar mesmo ser “uno de los pueblos más bonitos de España”. O segundo aspeto que marca este troço é a descida da vertente oeste do Monte Irago: são cerca de 15 km de pronunciada pendente em piso irregular, que é preciso fazer com todos os cuidados, já a contar com a confirmação no dia seguinte de que o nosso corpo possui gémeos e barriga das pernas; em contrapartida, a paisagem é pontuada por majestosas montanhas e alguns picos ainda com neve. O terceiro aspeto é a Cruz de Fierro (exatamente, com “F”) no topo do monte a 1530 metros de altitude, o ponto mais alto de todo o caminho francês. Vale mais pelo simbolismo do que pela sua monumentalidade, porquanto, na verdade, a dita cruz de ferro é de pequena dimensão e está colocada no topo de um mastro de madeira com cerca de 5 metros de altura. À volta, vão-se acumulando as pequenas pedras que os peregrinos aí vêm depositando há décadas. As nossas lá ficaram, e nelas os nossos pecados, que eram poucos e leves.

O peregrino volta a ser chamado a testar a sua resiliência nos últimos 8 quilómetros antes de O Cebreiro. A partir de Las Herrerias a pendente é também pronunciadamente inclinada, mas agora em desfavor da gravidade, obrigando o peregrino a “saltar” da cota 700 para os 1300 metros de altitude em meia dúzia de quilómetros. As vistas vão ficando cada vez mais deslumbrantes, a entrada na Galiza provoca sempre alguma emoção e a chegada a O Cebreiro é um prémio merecido.















    O Cebreiro


domingo, 15 de junho de 2025

CAMINHO FRANCÊS (3) - NOTAS DE REPORTAGEM - VI

Projecto (em curso): Caminho Francês, Fase 3.

Início: León

Término: O Cebreiro

Etapas: 7

Partida: 26 de abril de 2025

Chegada: 03 de maio de 2025

Distância total: 160 km

Acumulado Caminho Francês: 640 km

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.


Notas de reportagem – VI

Calle Mayor de Europa



O albergue de Santa Marina em Molinaseca é propriedade de Alfredo Álvarez, o hospitaleiro mais entusiasta e dinamizador do caminho que já encontrámos.

Serviu-nos e acompanhou-nos em dois ou três Mencía – para recuperar da longa e extenuante descida do monte Irago – o tempo suficiente para percebermos a sua paixão pelo Caminho.

Deu-nos a conhecer a Associação Calle Mayor de Europa um nome apropriado para o Camino. Possui a sua sede social precisamente em Molinaseca e da qual Alfredo é o atual Presidente. O portal da Associação diz que ele é um histórico do movimento associativo de amigos do Caminho, um arquivo de histórias e anedotas do Caminho.

Vale a pena uma visita à Calle Mayor de Europa: https://callemayordeeuropa.com/


terça-feira, 10 de junho de 2025

CAMINHO FRANCÊS (3) - NOTAS DE REPORTAGEM - V

Projecto (em curso): Caminho Francês, Fase 3.

Início: León

Término: O Cebreiro

Etapas: 7

Partida: 26 de abril de 2025

Chegada: 03 de maio de 2025

Distância total: 160 km

Acumulado Caminho Francês: 640 km

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Teresa Silva.


Notas de reportagem – V

Reino de Leão


Ao longo do caminho, nesta região autónoma de Castilla y León, é rara a placa sinalizadora que não tenha o nome de “Castilla” riscado ou apagado. Os autóctones consultados confirmaram a hipótese avançada anteriormente de que tal fenómeno estará associado a uma rivalidade ancestral entre castelhanos e leoneses, e com a pretensão destes – não se conhece a representatividade estatística – em se “libertarem” de Castela enquanto região, e ser constituída a região autónoma de León, uma espécie de restauração do medieval reino de Leão, a qual incluiria as províncias de León, Zamora e Salamanca.

Não, nenhum dos defensores da ideia mencionou a restauração do reino de Alfonso VI, suserano de Leão, mas que também chegou a ser senhor da Galiza e do território do condado portucalense, o qual viria a doar, como se sabe, à sua filha ilegítima Teresa, progenitora que foi do nosso primeiro monarca. 

Aproveita-se para fazer referência a dois pormenores a propósito, que nos são próximos.

A primeira referência vai para as ruínas de Salvaleón, aqui bem perto na confluência dos rios Erges e Baságueda. O castelo que aí esteve erigido foi conquistado aos mouros pelo rei leonês Alfonso IX em 1227 e durante algum tempo, terá sido a fronteira sul do reino de Leão com o território ocupado pelos mouros. Vale uma visita.

O segundo pormenor merecedor de referência é a Fala, na mesma zona de Salvaleón, linguajar exclusivo dos pueblos raianos da Serra da Gata de Valverdi du Fresnu, Ellas e Sa Martin de Trevellu, uma mistura de português, galego e, suspeita-se, ainda com alguns resquícios do antigo leonês. Vale uma breve pesquisa e, claro, uma visita.

Provavelmente porque não se queriam deixar ficar, os castelhanos de Castilla atreveram-se a ripostar riscando León. Não nascerá daqui nenhuma guerra, seguramente, mas tem de se relevar o esforço pela persistência identitária.