domingo, 28 de dezembro de 2025

INSTANTÂNEOS - XXXII

    Desenho: Nulita Lourenço 

Já tinham batido as doze nas igrejas todas da Galiza há mais de dois quilómetros quando chegámos ao pequeno Pueblo com pouco mais de uma dúzia de edifícios, dois deles a exibir a placa de “restaurante” e a publicitar o industrializado “menu de peregrino”. O primeiro borbulhava de gente com ar de peregrinos, aparentemente deliciados na degustação do filete de ternera e das batatas fritas, com a mesma vontade de todos os dias que levavam de Caminho. O segundo, estava vazio, completamente vazio, passe o pleonasmo vicioso.

Este seria um sinal imediatamente descodificado por qualquer camionista.

O segundo sinal foi dado pela galega moça que, perante a oportunidade de rentabilizar o seu negócio de restauração com 14 refeições, manifestou alguma hesitação e atrapalhação.

Eis que fomos encaminhados escadas abaixo para uma sala na cave, onde havia uma mesa comprida e várias mais pequenas, mas nenhuma preparada para a restauração, como seria expectável num … restaurante. E vão três sinais.

A sala empestava ao azedo característico da bosta de vaca, o mesmo cheiro acre que se vinha sentindo desde que entráramos em terras galegas em o Cebreiro, indicador de uma região cuja economia muito assenta na bovinicultura.

Imbuídos do melhor espírito, os lusos peregrinos ainda se puseram a ajudar a atrapalhada galega empresária da restauração, espalhando toalhas de papel, pratos com vestígios de pouco uso, talheres desiguais e copos manchados, por onde, à cautela, passavam um guardanapo.

Tantos sinais! Faltava um. Aquele que serve de melhor indicador sobre a qualidade de um restaurante: o estado de limpeza das instalações sanitárias.

Quando a água começou a transbordar das sanitas entupidas, tanto das damas como dos valetes, e se encaminhou para a sala, e a atrapalhada galega empresária da restauração correu a buscar uma esfregona, os peregrinos tugas decidiram que seria sensato ir degustar o menu de peregrino ao outro restaurante.

 


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

INSTANTÂNEOS - XXXI

 


As ruas do pequeno Pueblo estavam pejadas de bosta de vaca obrigando os peregrinos a cuidar onde pisavam e a inspirar um ar carregado de notas ácidas e amoniacais, características do esterco fresco.

A velhinha galega, pequena estatura, seca de carnes, face rugosa, pele ressecada, tudo indícios de uma vida de trabalho duro, postou-se à porta do barracão onde uma dúzia de vacas ruminavam a silagem, exibindo dois pequenos chouriços pendurados nos dedos médios.

- Sois españoles?

A nosso lado, estava Nathan, um bonacheirão americano, denunciado pelo típico boné que escarrapachava FLORIDA (confessaria ser anti MAGA), polícia reformado que ao longo da última meia hora nos vinha a contar a história dramática do furacão que destruiu noventa por cento da pequena ilha do golfo do México onde vivia, incluindo a sua casa.

Se calhar por isso, a resposta saiu em “americano”:

- No!

Logo a seguir, a pergunta foi formulada em galaico-português:

- Quanto custam los chórizos?

Provavelmente, a velhinha galega só deve ter fixado os elementos que lhe inspiraram a ideia de que estava perante americanos. É a única explicação para ela ter pedido:

- cinco euros cada uno.

Armado em engraçadinho, o lusitano atira:

- Hóstia! Muito caros. São de vaca autóctone?

A galega sénior não entendeu. Ainda que apreciador de produtos tradicionais locais, o preço inflacionado e o aroma ambiental acabaram a influenciar a decisão do peregrino lusitano que declinou simpaticamente.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

INSTANTÂNEOS - XXX

 

    Desenho: F Micaelo

 

Triacastela, albergue, perto da hora em que o dia muda de data, na camarata ouviam-se respirações compassadas, alguns suaves assobios, um ou outro ronco mais decibélico.

A entrada tardia da peregrina fez-se notar. No bater descuidado da porta, nos tropeções nas mochilas, nos encontrões nos beliches e, claro, nas imprecações e nos impropérios – presume-se – que ia soltando na sua difícil língua.

A peregrina alemã – viríamos a saber posteriormente – parece que quis antecipar a Oktoberfest logo ali em Triacastela. Nada a opor. Mas, Fraulein Helga ter-se-á entusiasmado e não terá avaliado adequadamente a capacidade do seu organismo para a quantidade de água misturada com malte de cevada, lúpulo e levedura que ele suporta. Quando a mais, não tem ele outro remédio senão expulsar.

Assim que conseguiu espojar-se na liteira, Fraulein Helga começou a desconfiar que o seu organismo iniciara manobras e procedimentos de ativação de alguns mecanismos de defesa. Começou por sentir a respiração irregular, um aumento da salivação e da frequência cardíaca, e, por uma espécie de magia, ela até conseguia sentir o movimento de rotação da Terra. Apoderou-se dela uma desagradável indisposição, uma desconfortável náusea.

Foi mesmo à justa, mas conseguiu virar-se de lado em tempo oportuno e, sem controlo, cedeu à ordem de expulsão que vinha das suas entranhas.

Foi bem audível o som do jacto emético do conteúdo gástrico a espalhar-se no soalho encerado.

Aliviada da carga excedentária, Fraulein Helga voltou a colocar-se na horizontal e assim se manteve durante breves minutos, suscitando alguma estupefação nos peregrinos de sono mais solto que foram testemunhando a incomum cena.  Não fora uma chamada de atenção de um deles e, provavelmente, entregar-se-ia a pai Hypnos e a filho Morpheus o resto da noite. A custo, porventura contrariada, cambaleante e desajeitadamente, tratou de remover o material gregoriado.

A mistura de cheiros habituais numa camarata num albergue ficou enriquecida por um novo elemento, entre o ácido e o sulfuroso.

A vida de peregrino também é feita destes pequenos nadas.

 


sábado, 6 de dezembro de 2025

Caminho Francês - Epílogo

 

    


Início: St Jean Pied de Port, 03 de setembro de 2023

Término: Santiago de Compostela, 03 de outubro de 2025

Etapas: 33

Distância total: ~780 km

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Rita Crisóstomo, Teresa Silva.

 

De St Jean Pied de Port a Compostela

 são muitas centenas de horas de distância

 a vaguear

 devagar

 com vagar.

 Um bilião de passos

 de ofegações

 de suores

 de arrepios

 de risos

 de charadas 

 de partilhas 

 de acumulação de sensações.

 Até ao falso epílogo de entrar no Obradoiro

 abraçar a vieira no centro com as botas sujas

 emudecer tudo à volta

 para ouvir apenas a melodia de uma gaita de foles arrastada

 acompanhada por um violino tímido

 em cima de uma harpa cadenciada

 olhar de frente a catedral 

 sentir uma dolorosa nostalgia

 e

 uma misteriosa vontade de recomeçar.



sexta-feira, 15 de agosto de 2025

INSTANTÂNEOS - XXIX



 


Foi no caminho Lebaniego que tudo se passou. Não foi connosco, mas podia ter sido. O Mário Videira é que nos contou esta história.

Ia ele todo contente, cantando e rindo, quando, à chegada a um pequeno pueblo, tropeça num casal de seniores que cumpriam a sua caminhada diária. A comarca de la Liébana fará parte da lista de regiões de baixa densidade da imensa España vaciada, pontuada por pequenas aldeias habitadas por gente sénior onde qualquer quebra da rotina é valorizada.

Entabulada a conversa de circunstância e, antes que se perdesse a oportunidade, Doña Pilar apressou-se a convidar Mário a sentar-se num banquinho que por ali estava, vira-se para Don Paco seu marido e do alto da sua autoridade matriarcal, ordena:

- Tu, vai andando para casa que eu já lá vou ter, porque eu preciso de falar com este senhor (tradução livre do castelhano com sotaque cantábrico).

Ela precisava, deduz-se, de falar um pouco com alguém diferente do seu Paco. E, coincidência, o Mário precisava de descansar um pouco, porque, parece que aquele caminho Lebaniego não é para meninos.

Para além do Lignum Crucis (para os crentes, o maior fragmento da cruz em que Jesus foi crucificado), o caminho atrai igualmente pelas paisagens dos montes cantábricos, cercanas dos Picos de Europa. Provavelmente por esse motivo, as autoridades espanholas responsáveis pelo Turismo terão providenciado algum investimento na colocação de sinalética. O Mário, à cautela, ia confirmando com recurso às novas tecnologias de localização. Nunca se sentiu perdido.

Falava ele disso, na presunção de que a simpática interlocutora autóctone reconheceria e valorizaria o facto de pela sua aldeia passar um caminho milenar e que a melhoria na sinalética poderia significar mais peregrinos, um pouco mais de animação, mais quebras na rotina.

Ficou algo desconcertado com a opinião diferente, contrária mesmo, de Doña Pilar. 

Entendeu tudo quando ela o interrompeu para dizer:

- Não! Isso não é bom, porque agora já quase ninguém nos pergunta nada.

 

A navegação pesquisatória na rede global digital sobre o Caminho Lebaniego forneceu basta informação, resumindo-se:

- a Cantabria é a única região do mundo cristão que conta com dois caminhos de peregrinação Património Mundial da UNESCO: o Caminho Lebaniego e o Caminho do Norte;

- o lugar central e destino do Caminho Lebaniego é o mosteiro de Santo Toribio que faz parte do seleto grupo de cinco lugares santos do cristianismo que concedem o privilégio do jubileu, junto com Roma, Santiago de Compostela, Caravaca de la Cruz e Jerusalém;

- é lá que está depositada e preservado o Lignum Crucis, o motivo principal que justifica a peregrinação, que já se faz desde o século VIII.


domingo, 27 de julho de 2025

José Alberto Martins. Uma vida, várias missões e vários caminhos.


 José Alberto Martins nasceu em Navais, Póvoa do Varzim, em 1972.

Licenciado em Medicina pela Universidade do Porto, peregrino, de Santiago, mas sobretudo do Mundo. Na “Conversas no Caminho” realizada no passado dia 18 de junho, que também contou com a participação do historiador Joel Cleto, o Dr. José Alberto Martins partilhou as suas experiências como Médico em várias latitudes onde ele foi preciso e (extremamente) útil, com destaque para as missões em São Tomé e Príncipe, na Guiné e em Timor Leste.

Aí ficam algumas das suas memórias, de boa parte da vida dedicada a facilitar o Caminho de outros.



Uma Reflexão de Vida:

Os Valores como Justiça, Igualdade, Humanidade, entrega ao próximo e Fé, deveriam ser universais, eles têm sido os meus valores de Vida.

Portugal, Timor Leste e José Alberto Martins.

Um testemunho de vida!

 

A primeira memória que me ocorreu quando decidi transpor em palavras o que me vai na alma remonta a algures a 1978-79.

Estou num banco corrido de madeira na sala de espera da Casa do Povo de Aguçadoura, Póvoa de Varzim.  Estou a arder em febre, com arrepios e muito mau estar, deitado no colo da minha mãe, cansado duma difícil caminhada de mais de 4 km de casa até onde funciona o posto de saúde, futuro Centro de Saúde, nos primórdios do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Lembro-me duma médica, jovem, muito simpática, era a segunda vez que me tratava. Recordo uma capa de arquivo com canhotos de caixas de medicamentos e o que mais tarde descobri serem as bulas de medicamentos (seria o Índice terapêutico dela, suponho eu).

Saí muito feliz!!! Doente mas feliz! Recebi da simpática Sr.ª Doutora a minha maior prenda que me recordo desses anos: um pequeno livro de Erico Veríssimo, Um certo Capitão Rodrigo.

O meu primeiro sonho, queria ser médico!

Mas na minha vida quase tudo vem com boa dose de sofrimento... e os próximos dias o meu rabo sentiria os efeitos da penicilina!!!

Não me lembro do nome dessa colega, nem onde está agora, mas devo-lhe o lançamento desta semente maravilhosa de querer cuidar dos outros!

Ser Médico!

A segunda memória, aconteceu aos 12-13 anos, junto à igreja de Navais onde nasci e vivia. Era dia de visita da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, uma carrinha Citroën, vermelho escuro. Não perdia uma única vez essas visitas! Numa família de gente pobre e analfabeta não haviam livros! Mas sabia onde procurar!!!

Vi com atenção um volume das Selecções do Reader's Digest. Em primeira página um desenho duma equipa de médicos dos MSF a passar uma montanha. Era a descrição do trabalho dos Médicins Sans Frontiéres franceses e belgas no Afeganistão, durante a guerra entre os mujahidin afegãos e os russos nos anos 80. E aí surge outro sonho, serei médico missionário como eles!

Terceira memória, surge bem mais tarde a 12 de novembro de 1991. Os vídeos e fotos do jornalista Max Stahl do massacre no cemitério de Santa Cruz em Díli, Timor Leste provocou uma explosão de emoções e sentimentos. Obrigou-me a olhar o Mundo de olhos bem abertos! Surge o Free East Timor!

Nesse início do ano letivo, a minha vida era já muito intensa.

Estava no 2º ano de Medicina na Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto, nas Biomédicas como se chamava e no velhinho Hospital Santo António.

Eram as aulas, a vida social na faculdade, na residência universitária do Breiner, o desporto universitário, ser delegado de ano, o Pormsic (intercâmbio de estudantes), ser representante dos alunos no conselho pedagógico e em especial o voluntariado na urgência pela Liga de Amigos do Hospital Santo António.

Depois do 11 de novembro damos início, com o Luís de Leiria e o Miguel Martins ao NADH - Núcleo de Apoio aos Direitos Humanos, tendo como principal objetivo a luta pela liberdade do povo Maubere, de Timor Leste.

Timor foi uma luta constante do nosso NADH, culminou numa tarja Free East Timor nossa que chegou ao palco dos U2 em Alvalade em 1993.

Aluno bolseiro e trabalhador estudante, pois trabalhava aos fins de semana e férias, num restaurante, permitiam-me sobreviver sem os parcos apoios de meus simples pais.

As cantinas da Universidade do Porto eram já a minha casa, em especial as da Reitoria e de Engenharia. Mas estas eram de má qualidade na maioria das vezes. A bolsa vinha quase sempre com muitos meses de atraso, sendo frequente recebermos a primeira bolsa em janeiro/fevereiro.

Nesse novembro de 1991 a situação para muitos de nós bolseiros atingiu um limite. Alguns dias após termos visto as imagens de Timor, algumas dezenas de nós, munidos duma tijela da sopa de metal e uma colher fomos em manifestação ruidosa, muito ruidosa, da cantina da Reitoria até aos Serviços Sociais da Universidade na rua da Boa Hora onde interrompemos a rua durante horas. Vinda da PSP e polícia de choque resultou em muitas cacetadas, algumas cabeças partidas e vários colegas presos...

A luta contra as injustiças ganhou outra dimensão. Surgiu a Associação de Bolseiros da Universidade do Porto, e daí resultou claras melhorias nas cantinas, nas residências universitárias e no pagamento atempado das bolsas!

Quarta memória, estamos em setembro de 1999.

Acabamos de visitar uma puérpera no Hospital Materno-Infantil de São João dos Angolares, São Tomé e Príncipe. Éramos a equipa da AMI, Assistência Médica Internacional.

Estava um grupo imenso de pessoas a olhar para uma televisão comunitária na praça central. E paramos para ver: muitas imagens de destruição, choro, sofrimento. Era em Timor!!!

A 30 de Agosto de 1999 após o referendo que deu uma maioria esmagadora ao Sim à independência de Timor Leste do jugo Indonésio, que durava da invasão desta em 1975, resultou em ataques brutais das milícias pro indonésias. Houve centenas de mortos e centenas de milhares de deslocados nas montanhas.

Nos próximos dias, passo várias vezes pela TV comunitária para saber mais informações pela RTP Internacional. Os relatos são aterradores de Timor por um lado, mas ao mesmo tempo são espetaculares as imagens de emoção e apoio de Portugal e do Mundo.

O quanto daria para estar em Portugal nesse tempo. Mas tinha a minha missão no Caué. E o meu substituto viria em breve.

Várias pessoas que me marcaram antes e depois vão surgindo nas notícias: Xanana Gusmão, Ramos-Horta, Bispo Ximenes Belo, Bill Clinton, António Guterres, Dr. Fernando Nobre e alguns diplomatas como a Ana Gomes.

São Tomé era a minha quinta missão em África. A terceira pela AMI. Tinha estado já 3 vezes na Guiné Bissau, a última no ano anterior em plena guerra civil, 3 meses algures em Gabu e Sonaco, na frente de guerra entre a Junta Militar e as forças governamentais do General Nino Vieira apoiadas por tropas do Senegal e Guiné Conacri.

O ano de 1999 estava a ser memorável! Com 27 anos, a coordenar a missão da AMI, no distrito do Caué. Responsável pela vigilância materno infantil neste paraíso na Terra. Tinha como colega o Enf.º Luciano e a Teresa, minha namorada de há 5 anos, futura esposa e mãe dos meus filhos. Ela acabara o curso de Medicina em Julho e veio fazer a sua missão como voluntária.

Em janeiro desse ano tinha entrado na especialidade desejada, Anestesia, Cuidados Intensivos e Emergência dando continuidade aos votos feitos na igreja de Quinhamel, Guiné em 1995.

E um mês depois fui chamado para o SMO- Serviço Militar Obrigatório, na Marinha. Comecei no Alfeite depois na fragata NRP Jacinto Cândido, em missão de patrulha, apoio e Search and Rescue nos Açores. Terminei nas escolas da Marinha em Vila Franca de Xira e Hospital da Marinha. 

A ida para São Tomé surge por mero acaso numa visita de cortesia à sede da AMI, onde o Dr. Custódio Issa me propõe a missão de São Tomé que tinha ficado sem médico

Aquelas 3 semanas finais da missão em São Tomé foram um sobressalto continuo. A missão estava bem orientada e estável, contávamos sempre com o apoio da equipa dos HUC no hospital central na Cidade de São Tomé. Fizemos uma equipa luso-sãotomense fantástica. Coordenávamos uma equipa de dezenas de trabalhadores de saúde locais com especial atenção nas grávidas e crianças do distrito, percorríamos todas as roças e lugarejos, incluindo duas vezes por mês a comunidade do ilhéu das Rolas. Na altura com uma equipa de trabalhadores portugueses que estavam a construir o que seria o futuro Hotel Pestana no Ilhéu das Rolas.

A missão estava a ser fantástica mas há semanas que me sentia doente, extremamente cansado, com febre esporádica. Nesse tempo a malária era muito agressiva em São Tomé e uma preocupação persistente! O Luciano tinha ficado doente com ela duas vezes. Mas os testes eram negativos e não tinha acesso a exames que ajudassem.

O sobressalto/emoção era agravado pelas imagens de Timor, de Portugal e do Mundo em união pela causa Maubere.

A 25 de Setembro chego a Lisboa, terminada a missão. Vou à sede da AMI, em Marvila onde sou recebido pela Dr.ª Leonor Nobre. Diz-me que o Dr. Fernando Nobre, seu irmão Eduardo e alguns colegas que conheço bem da missão da Guiné do ano anterior, já se encontram na Austrália ou a caminho de lá.

Minutos para passar o relatório da missão de São Tomé, que ficou bem entregue pois o Enf. Luciano continuou em missão.

Queres ir para Timor? Foi a pergunta seguinte!

Claro que quero! Há muito tempo!!!

Lisboa-Póvoa de Varzim. Um beijo e um grande abraço aos meus pais. Sempre muito emocional as chegadas. As partidas eram de mansinho ou de madrugada!

E de imediato a minha mãe afirma: vais sair de novo, vais para Timor!

Pois vou mãe! Tenho que ir!!!

Aproveitei os dias par tentar descansar e mais uma vez passo pelo Hospital de Santo António. Primeiro pelo Serviço de Anestesia, a pedir autorização à Dr.ª Fernanda Nunes (que mais tarde viria ela a ser um uma apaixonada pela Guiné e seu povo).

Depois pelo Serviço de Pessoal para entregar mais um pedido de licença sem vencimento, assim não tinham como recusar! Tal como nas missões anteriores.

Dia 9 de Outubro de 1999 parti de Lisboa para a Austrália. Darwin.

Eu e mais alguns colegas voluntários, um médico, duas enfermeiras e dois logísticos. Darwin era o centro da ajuda a Timor, coordenado pela Interfet, força de intervenção em Timor. Primeiro militar e depois também civil até a transição para a ONU.

Uma máquina militar, logística, administrativa e toda a espécie de pessoas e instituições estavam nesta cidade do Norte da Austrália.  Dava início à missão mais importante da ONU nos últimos 50 anos. Coordenar e montar a administração dum “novo” país!!! Timor Leste. Que seria verdadeiramente independente, mais tarde em 2002 depois das eleições livres.

E foi a missão de Portugal, como país e como povo!

Ainda é, em especial na Educação da Língua Portuguesa.

E foi a mais espetacular Missão da AMI. Magnífica Missão como se veio a comprovar ao longo dos anos!

Díli, Timor-Leste, 12 de outubro de 1999.

Good morning Timor Leste. Como um filme de guerra ao vivo e a cores de cinza!!!

O que me impressionou?

A destruição!

E o olhar de receio e desconfiança dos adultos em contraste com o sorriso magnífico das crianças!

E por elas a missão valeu tudo!

Recebidos pelo Dr. Fernando Nobre, Dr.ª Fátima, Eduardo, Enf.º Aranha, enf.ª Nazaré, Enf.ª Duarte, a alma, o coração e o músculo efetivo da AMI.

Conhecemos o resto da equipa, médicos e enfermeiros australianos, logísticos, motoristas, uma grande equipa, uma grande família.

A AMI ficou responsável pelos cuidados de saúde num bairro de Díli e do distrito de Manatuto.

Alguns dias depois a minha equipa foi para Manatuto. Tínhamos a responsabilidade da organização e prestação dos cuidados de saúde de todo o distrito. Uma tarefa hercúlea!

Se Díli tinha impressionado pela destruição, Manatuto foi o esplendor da raiva das milícias pro indonésias.

Só a Igreja e o monumento a Santo António, no alto da montanha estavam incólumes. Sobraram 3-4 edifícios destruídos mas utilizáveis. O hospital era um retalho de cinzas!!!

Transformámos o edifício esventrado do banco em hospital em tempo recorde. Muito eficiente, multiétnico, ecológico e super-humano.

O sentido de missão, o cuidar, o viver, o sofrer, foram levados aos limites em muitas ocasiões!

Houve aspetos magníficos a recordar.

A chegada da NRP Vasco da Gama, ver os meus colegas de armas de alguns meses atrás a sair do helicóptero Linx fortemente armados, depois o apoio médico, logístico e humano da guarnição do navio foi magnífico.

A visita do Xanana Gusmão, do Ramos Horta acompanhado pelo Sérgio Vieira de Melo, do Dom Ximenes Belo, da missa do Bispo de Baucau Dom Basílio de Nascimento...

O trabalho magnífico com a missão militar das Filipinas.

Contrariando as indicações da AMI de não trabalhar com forças militares, a equipa AMI de Manatuto trabalhou com alma e coração com os militares portugueses da NRP Vasco da Gama e com os militares das Filipinas.

Armas não entravam!!!

Foi um envolvimento magnífico com a Interfet, ONU/UNTAET, Médicos Sem Fronteiras em Baucau, Cruz Vermelha Internacional em Díli e várias ONG’s estrangeiras.

Mas o melhor e mais marcante foi o trabalho efetivo com as muitas dezenas de profissionais da área da saúde que trabalharam connosco.

Manatuto, Laleia, Laclubar, Laclo, Soibada, Cribas e outras aldeias mais pequenas, tiveram apoio médico, medicamentos, formação, transportes de emergência, tudo o que estivesse ao nosso alcance e que conseguíamos! Quase tudo!...

O que me marcou na missão de Timor?

  A destruição!

 O sorriso magnífico e sempre presente das crianças em contraste com o olhar desconfiado e reservado dos adultos traduzindo muito sofrimento e espírito de sobrevivência!

 O sentir em cada momento difícil que havia um sentido que se manifestava das formas mais variadas! A sensação que nada acontecia por acaso!!!

Foi a missão da minha vida!!!

Sinto que só foi possível a missão de dar a liberdade a Timor Leste por uma corrente humana que deu a volta ao Mundo! E devidamente coordenados por várias pessoas fundamentais, destaco o Xanana Gusmão, Ramos Horta, Mari Alkatiri, Sérgio Vieira de Melo, António Guterres e Ana Gomes!

Cheguei a Portugal a 10 de Janeiro de 2000. Exausto mas sentindo-me a pessoa mais realizada do Mundo!!!

Depois da vinda de Timor soube que tinha contraído hepatite A e provavelmente febre tifóide em São Tomé e/ou em Timor!

 

Nota:

Acredito em Deus. Sou católico convicto. A minha religiosidade pratico-a no meu dia a dia. Não gosto de dogmas e muito menos de rituais padronizados.

Tenho como exemplos de vida a Madre Teresa de Calcutá, São Francisco Xavier e São Francisco de Assis. Conheci e trabalhei com pessoas maravilhosas e muitos mestres da minha caminhada como médico e missionário: a Irmã Valéria, o Frei Silvano e Dom Settimio Ferrazeta, missionários da Guiné, São Tomé e Timor. E muitos outros missionários com e sem título!

Sinto que a nossa vida só tem sentido em correntes de ação, de comunhão de princípios e atitudes para com os nossos e com os nossos semelhantes.

Todos iguais, todos necessários, todos essenciais!

 

José Alberto Martins

Médico

Janeiro de 2000,

Timor-Indonésia–Singapura-Frankfurt- Lisboa-Aveiro