domingo, 28 de dezembro de 2025

INSTANTÂNEOS - XXXII

    Desenho: Nulita Lourenço 

Já tinham batido as doze nas igrejas todas da Galiza há mais de dois quilómetros quando chegámos ao pequeno Pueblo com pouco mais de uma dúzia de edifícios, dois deles a exibir a placa de “restaurante” e a publicitar o industrializado “menu de peregrino”. O primeiro borbulhava de gente com ar de peregrinos, aparentemente deliciados na degustação do filete de ternera e das batatas fritas, com a mesma vontade de todos os dias que levavam de Caminho. O segundo, estava vazio, completamente vazio, passe o pleonasmo vicioso.

Este seria um sinal imediatamente descodificado por qualquer camionista.

O segundo sinal foi dado pela galega moça que, perante a oportunidade de rentabilizar o seu negócio de restauração com 14 refeições, manifestou alguma hesitação e atrapalhação.

Eis que fomos encaminhados escadas abaixo para uma sala na cave, onde havia uma mesa comprida e várias mais pequenas, mas nenhuma preparada para a restauração, como seria expectável num … restaurante. E vão três sinais.

A sala empestava ao azedo característico da bosta de vaca, o mesmo cheiro acre que se vinha sentindo desde que entráramos em terras galegas em o Cebreiro, indicador de uma região cuja economia muito assenta na bovinicultura.

Imbuídos do melhor espírito, os lusos peregrinos ainda se puseram a ajudar a atrapalhada galega empresária da restauração, espalhando toalhas de papel, pratos com vestígios de pouco uso, talheres desiguais e copos manchados, por onde, à cautela, passavam um guardanapo.

Tantos sinais! Faltava um. Aquele que serve de melhor indicador sobre a qualidade de um restaurante: o estado de limpeza das instalações sanitárias.

Quando a água começou a transbordar das sanitas entupidas, tanto das damas como dos valetes, e se encaminhou para a sala, e a atrapalhada galega empresária da restauração correu a buscar uma esfregona, os peregrinos tugas decidiram que seria sensato ir degustar o menu de peregrino ao outro restaurante.

 


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

INSTANTÂNEOS - XXXI

 


As ruas do pequeno Pueblo estavam pejadas de bosta de vaca obrigando os peregrinos a cuidar onde pisavam e a inspirar um ar carregado de notas ácidas e amoniacais, características do esterco fresco.

A velhinha galega, pequena estatura, seca de carnes, face rugosa, pele ressecada, tudo indícios de uma vida de trabalho duro, postou-se à porta do barracão onde uma dúzia de vacas ruminavam a silagem, exibindo dois pequenos chouriços pendurados nos dedos médios.

- Sois españoles?

A nosso lado, estava Nathan, um bonacheirão americano, denunciado pelo típico boné que escarrapachava FLORIDA (confessaria ser anti MAGA), polícia reformado que ao longo da última meia hora nos vinha a contar a história dramática do furacão que destruiu noventa por cento da pequena ilha do golfo do México onde vivia, incluindo a sua casa.

Se calhar por isso, a resposta saiu em “americano”:

- No!

Logo a seguir, a pergunta foi formulada em galaico-português:

- Quanto custam los chórizos?

Provavelmente, a velhinha galega só deve ter fixado os elementos que lhe inspiraram a ideia de que estava perante americanos. É a única explicação para ela ter pedido:

- cinco euros cada uno.

Armado em engraçadinho, o lusitano atira:

- Hóstia! Muito caros. São de vaca autóctone?

A galega sénior não entendeu. Ainda que apreciador de produtos tradicionais locais, o preço inflacionado e o aroma ambiental acabaram a influenciar a decisão do peregrino lusitano que declinou simpaticamente.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

INSTANTÂNEOS - XXX

 

    Desenho: F Micaelo

 

Triacastela, albergue, perto da hora em que o dia muda de data, na camarata ouviam-se respirações compassadas, alguns suaves assobios, um ou outro ronco mais decibélico.

A entrada tardia da peregrina fez-se notar. No bater descuidado da porta, nos tropeções nas mochilas, nos encontrões nos beliches e, claro, nas imprecações e nos impropérios – presume-se – que ia soltando na sua difícil língua.

A peregrina alemã – viríamos a saber posteriormente – parece que quis antecipar a Oktoberfest logo ali em Triacastela. Nada a opor. Mas, Fraulein Helga ter-se-á entusiasmado e não terá avaliado adequadamente a capacidade do seu organismo para a quantidade de água misturada com malte de cevada, lúpulo e levedura que ele suporta. Quando a mais, não tem ele outro remédio senão expulsar.

Assim que conseguiu espojar-se na liteira, Fraulein Helga começou a desconfiar que o seu organismo iniciara manobras e procedimentos de ativação de alguns mecanismos de defesa. Começou por sentir a respiração irregular, um aumento da salivação e da frequência cardíaca, e, por uma espécie de magia, ela até conseguia sentir o movimento de rotação da Terra. Apoderou-se dela uma desagradável indisposição, uma desconfortável náusea.

Foi mesmo à justa, mas conseguiu virar-se de lado em tempo oportuno e, sem controlo, cedeu à ordem de expulsão que vinha das suas entranhas.

Foi bem audível o som do jacto emético do conteúdo gástrico a espalhar-se no soalho encerado.

Aliviada da carga excedentária, Fraulein Helga voltou a colocar-se na horizontal e assim se manteve durante breves minutos, suscitando alguma estupefação nos peregrinos de sono mais solto que foram testemunhando a incomum cena.  Não fora uma chamada de atenção de um deles e, provavelmente, entregar-se-ia a pai Hypnos e a filho Morpheus o resto da noite. A custo, porventura contrariada, cambaleante e desajeitadamente, tratou de remover o material gregoriado.

A mistura de cheiros habituais numa camarata num albergue ficou enriquecida por um novo elemento, entre o ácido e o sulfuroso.

A vida de peregrino também é feita destes pequenos nadas.

 


sábado, 6 de dezembro de 2025

Caminho Francês - Epílogo

 

    


Início: St Jean Pied de Port, 03 de setembro de 2023

Término: Santiago de Compostela, 03 de outubro de 2025

Etapas: 33

Distância total: ~780 km

Aníbal Azevedo, Anselmo Cunha, Conceição Pires, Elsa Maia, Fernando Micaelo, Gena Cabaço, Jaime Matos, Joaquim Branco, Manuela Gomes, Nulita Lourenço, Paula Marques, Raul Maia, Rita Crisóstomo, Teresa Silva.

 

De St Jean Pied de Port a Compostela

 são muitas centenas de horas de distância

 a vaguear

 devagar

 com vagar.

 Um bilião de passos

 de ofegações

 de suores

 de arrepios

 de risos

 de charadas 

 de partilhas 

 de acumulação de sensações.

 Até ao falso epílogo de entrar no Obradoiro

 abraçar a vieira no centro com as botas sujas

 emudecer tudo à volta

 para ouvir apenas a melodia de uma gaita de foles arrastada

 acompanhada por um violino tímido

 em cima de uma harpa cadenciada

 olhar de frente a catedral 

 sentir uma dolorosa nostalgia

 e

 uma misteriosa vontade de recomeçar.