sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

INSTANTÂNEOS - XXXI

 


As ruas do pequeno Pueblo estavam pejadas de bosta de vaca obrigando os peregrinos a cuidar onde pisavam e a inspirar um ar carregado de notas ácidas e amoniacais, características do esterco fresco.

A velhinha galega, pequena estatura, seca de carnes, face rugosa, pele ressecada, tudo indícios de uma vida de trabalho duro, postou-se à porta do barracão onde uma dúzia de vacas ruminavam a silagem, exibindo dois pequenos chouriços pendurados nos dedos médios.

- Sois españoles?

A nosso lado, estava Nathan, um bonacheirão americano, denunciado pelo típico boné que escarrapachava FLORIDA (confessaria ser anti MAGA), polícia reformado que ao longo da última meia hora nos vinha a contar a história dramática do furacão que destruiu noventa por cento da pequena ilha do golfo do México onde vivia, incluindo a sua casa.

Se calhar por isso, a resposta saiu em “americano”:

- No!

Logo a seguir, a pergunta foi formulada em galaico-português:

- Quanto custam los chórizos?

Provavelmente, a velhinha galega só deve ter fixado os elementos que lhe inspiraram a ideia de que estava perante americanos. É a única explicação para ela ter pedido:

- cinco euros cada uno.

Armado em engraçadinho, o lusitano atira:

- Hóstia! Muito caros. São de vaca autóctone?

A galega sénior não entendeu. Ainda que apreciador de produtos tradicionais locais, o preço inflacionado e o aroma ambiental acabaram a influenciar a decisão do peregrino lusitano que declinou simpaticamente.


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