terça-feira, 8 de abril de 2014

INSTANTÂNEOS - X

Como é habitual, o peregrino Carlos Matos acumula essa condição com repórter fotográfico e urban sketcher sempre que a circunstância o inspira, o que sucede amiúde. Enquanto uns tratavam do local de reforço alimentar correspondente ao período de almoço, e outros contavam os arcos da ponte sobre o Lima, ele sacou do seu caderno gráfico, do seu lápis de carvão e da sua caneta especial que pinta com qualquer coisa até com vinho tinto verde, e sentou-se a esboçar o quadro patrimonial junto à velha ponte, mesmo por baixo de uma bonita e florida camélia que por estas bandas é designada por japoneira.

Como é igualmente habitual, os seus companheiros peregrinos, brincalhões, insistem sempre em ajudar a compor o cenário depositando algumas moedas (às vezes até notas) no chão, para dar aquele ar moderno de artista de rua.

Dona Conceição, minhota convicta, cordão de ouro à volta do pescoço como pertence (parece que a Sharon Stone se andou recentemente a exibir em LA com uma réplica), 70 e alguns anos, viúva há mais de 20, paciente de artroses várias, prótese na perna direita, aproximou-se com a ajuda de uma muleta e veio postar-se ao lado do Matos, entre a necessidade de descanso e a curiosidade.

Ainda antes de deitar o olho aos rabiscos artísticos do Matos, reparou nas moedas aos seus pés e deixou escapar, espontânea (leia-se com entoação e sotaque minhoto carregado):
- oh! qui caralho, nasce dinheiro debaixo da japoneira!



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